A banda tcheca de black metal Sekeromlat está realizando sua primeira turnê pelo Brasil, com nove datas confirmadas em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. A turnê é organizada pela Associação Cultural Sinfonia de Cães, responsável por viabilizar a vinda do grupo ao país.
No dia primeiro de fevereiro, o Sekeromlat se apresentou no Bar Palco e Balcão, em Divinópolis (MG). A noite contou com um público essencialmente underground. Apesar de a casa não estar completamente cheia, o clima foi intenso e bastante caloroso, refletindo o interesse e a receptividade dos presentes.
A abertura do evento ficou a cargo da banda Sofrimento Humano, de Nova Lima (MG), que entregou um grindcore/punk agressivo e direto. Com um repertório rápido e músicas curtas, o grupo aqueceu o público de forma eficiente. Durante a passagem de som do Sekeromlat, destinada ao ajuste de volumes, o público que aguardava do lado de fora da casa entrou para acompanhar e prestigiar o início da apresentação.
O Sekeromlat realizou um show de aproximadamente 40 minutos, apresentando seu black metal primitivo, fortemente influenciado pela estética e sonoridade da segunda onda do gênero. A performance reforçou a proposta crua e extrema da banda, mantendo uma atmosfera densa e ritualística ao longo de toda a apresentação.
Após o show, houve a oportunidade de realizar uma breve entrevista com os integrantes da banda. O conteúdo da conversa pode ser conferido a seguir

Hector Cruz — Gostaria de saber quando e como a banda começou.
J — A banda surgiu em 2016, a partir de Arny Ptak, nosso baterista e membro fundador. Inicialmente, o projeto contou com outros integrantes até chegar à formação atual. Em breve completaremos dez anos de existência.
Hector Cruz — Por que escolheram o Brasil como destino dessa turnê?
J — A escolha do Brasil está profundamente ligada às nossas amizades. A Sinfonia de Cães teve papel fundamental nesse processo. O Nader, do Dischavizer, é um amigo de longa data e atualmente atua como nosso motorista. Eu também tenho uma banda de hardcore/punk, com a qual lançamos um split com o Dischavizer em 2018. Além disso, organizamos alguns shows para eles em Praga, na República Tcheca, em 2017. Desde então, mantivemos contato próximo com o pessoal da Sinfonia de Cães. Em 2024, lançamos um split álbum com o Vazio, em CD e fita K7. Após esse lançamento, realizamos uma festa de celebração em Praga durante a turnê europeia do Vazio (Necrocosmos Over Europe). Depois desse show, eles nos convidaram para vir ao Brasil — e aqui estamos.
Hector Cruz — E como vocês estão avaliando a turnê pelo Brasil?
J — Está sendo uma experiência excelente. Todos os shows têm um caráter totalmente underground. Tocamos em apresentações menores e também em eventos maiores, com públicos diversos — pessoas mais jovens e mais velhas — o que é incrível. Tivemos shows memoráveis em cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que foram realmente especiais.
Hector Cruz — Quais temas vocês abordam nas letras?
J — Nossas letras são profundamente críticas. Questionamos as religiões institucionalizadas, como o cristianismo e o islamismo, além de toda essa estrutura religiosa opressora. Também criticamos a política e os políticos. Falamos sobre a natureza, sobre a maldade presente na humanidade, sobre ambientes obscuros e sobre o passado sombrio da República Tcheca. A história e seus aspectos mais sombrios são uma grande fonte de inspiração para nossas composições. Nosso posicionamento é claramente antirreligioso.
Hector Cruz — O punk é uma influência evidente na trajetória de vocês. Como foi a transição para o black metal?
J — Acredito que essa transição é bastante semelhante à do Vazio. Somos todos punks antigos. Desde jovens escutamos punk, metal, thrash metal, death metal — tudo isso. Todos nós tocamos em bandas punk em algum momento. Toda essa raiva, toda essa energia negativa que carregamos, nós transformamos em black metal.
N — É apenas uma outra forma de expressão.
Hector Cruz — A cena tcheca de black metal é conhecida por bandas como Maniac Butcher, Cult of Fire, Masters Hammer e Root. Como vocês enxergam a questão política dentro dessa cena? Existe muito fascismo?
J — Essa é uma pergunta muito importante. Em alguns momentos, a cena pode ser problemática. Existem, sim, algumas bandas fascistas — e nós as repudiamos completamente. Odiamos o fascismo, o comunismo e qualquer tipo de ideologia autoritária. Nada disso é bom para as pessoas.
Arny — Nós nunca dividimos o palco com bandas fascistas. Nunca.
J — Não tocamos com nazistas, comunistas ou fascistas. Isso é um princípio inegociável para nós.
Hector Cruz — Sendo uma banda de black metal, vocês conseguem se inserir também na cena punk na República Tcheca, Eslováquia ou em países vizinhos?
J — Sim, com certeza. Temos muitos amigos tanto na cena punk quanto na cena metal. Frequentemente misturamos gêneros em shows e festivais, e essa é a melhor situação para nós. Claro que existem eventos exclusivamente voltados ao metal, mas preferimos ambientes onde diferentes estilos se encontram — metal, hardcore, punk, crust, grindcore, folk, country e outros.
Hector Cruz — A turnê já chegou à metade e dá para perceber que vocês estão gostando bastante. Existe a possibilidade de retorno ao Brasil nos próximos anos?
M — Eu quero voltar no ano que vem (risos). O Brasil é maravilhoso. A turnê está incrível.
J — Concordamos, a turnê está excelente. Mas ainda precisamos concluí-la antes de planejar os próximos passos.
Hector Cruz — Para encerrar, gostaria de saber se vocês têm alguma mensagem para o público brasileiro.
J — Desejamos toda a positividade possível ao povo brasileiro e a todos os metalpunx. Vocês são incríveis. Stay underground! Muito obrigado pela entrevista e por todo o suporte.
