Há festivais que parecem existir em um universo paralelo durante alguns dias. Você chega, atravessa os portões e, de repente, está cercado por quilômetros de estruturas, áreas de camping, enormes estacionamentos, filas, food trucks e milhares de pessoas que vieram de diferentes partes do mundo para viver alguns dias exclusivamente dedicados à música.
O Barcelona Rock Fest é diferente.
Em nossa primeira cobertura do festival pela Headbangers Brasil, uma das primeiras coisas que nos chamou a atenção foi justamente o fato de que o Rock Fest não está isolado de Barcelona — ele está inserido nela. Realizado no Parc de Can Zam, em Santa Coloma de Gramenet, o festival tem uma estação de metrô praticamente diante de sua entrada e conta ainda com linhas regulares de ônibus. É difícil imaginar uma estrutura de festival europeu de grande porte mais conveniente para quem chega utilizando transporte público. A própria localização transforma completamente a experiência de quem vai ao evento: não existe a sensação de estar viajando para um território temporariamente ocupado por um festival. Você está, literalmente, dentro da cidade.
E isso diz muito sobre a identidade do Barcelona Rock Fest.

Ao contrário de muitos dos grandes festivais europeus, que acabam criando uma espécie de cidade temporária para seus visitantes, o Rock Fest parece manter uma ligação muito mais direta com a comunidade que o recebe. Talvez seja justamente por isso que, desde os primeiros momentos, tivemos a impressão de estar diante de um festival com uma personalidade mais local, mais integrada à região e menos dependente daquela atmosfera internacional que costuma dominar as grandes celebrações de rock e metal do continente.

É uma percepção nossa, obviamente, mas foi uma das características que mais nos marcou durante os três dias.
A acessibilidade, entretanto, tem seu contraponto. O Barcelona Rock Fest não oferece camping, e isso significa que quem vem de fora precisa necessariamente organizar sua hospedagem na cidade ou nos arredores — algo que pode aumentar consideravelmente o custo total da viagem. O ingresso pode ser apenas uma parte da conta quando se considera hotel, alimentação e deslocamento durante vários dias. Por outro lado, estar em Barcelona também significa ter à disposição uma das cidades mais interessantes e bonitas da Europa, com uma rede de transporte público capaz de levar o visitante praticamente a qualquer lugar.

E aqui encontramos outra característica que, para quem vem de fora, acaba sendo um enorme diferencial.
Os horários do festival permitem que seja perfeitamente possível conciliar Rock Fest e turismo. Em vez de precisar passar os três dias inteiros dentro do recinto, é possível conhecer Barcelona durante o dia e chegar ao festival mais tarde sem necessariamente sacrificar os principais nomes da programação. Para quem visita a cidade pela primeira vez, isso significa poder conhecer lugares como a Sagrada Família, as obras de Gaudí e tantos outros pontos turísticos antes de seguir para Can Zam e mergulhar no universo do rock e do metal.
É quase como se o próprio festival tivesse entendido que parte significativa de seu público também quer conhecer Barcelona.

Mas talvez a característica mais surpreendente do Rock Fest esteja justamente naquilo que acontece antes mesmo de entrarmos no recinto.
Logo na chegada, uma movimentação específica chamou nossa atenção: havia uma fila em um guichê destinado aos moradores da cidade. Por meio de uma inscrição prévia, realizada diariamente, moradores podiam ter acesso a ingressos gratuitos mediante um sistema de doação de alimentos não perecíveis. As doações eram recolhidas previamente, e não no momento da entrada no festival, e o processo precisava ser repetido para cada dia em que a pessoa desejasse utilizar o benefício.

A iniciativa já seria interessante por si só. Mas o que realmente nos chamou a atenção foi perceber que o festival não parava aí.
Para quem não havia participado desse processo — ou simplesmente não tinha condições de pagar por um ingresso — havia uma área do lado de fora do festival especialmente estruturada para o público acompanhar os shows.

Telões transmitiam as apresentações ao vivo. Havia banheiros químicos gratuitos, uma área de alimentação com preços bastante acessíveis e até um pequeno palco com bandas se apresentando para aquela audiência. Em todos os festivais que já tivemos a oportunidade de cobrir, nunca havíamos encontrado uma iniciativa exatamente assim: uma espécie de extensão gratuita do festival para quem não estava dentro dele.
É difícil não enxergar nisso uma filosofia.

O Barcelona Rock Fest não parecia interessado apenas em colocar milhares de pessoas para dentro de seus portões. Havia uma preocupação evidente em fazer com que a música chegasse também a quem, por diferentes razões, não poderia estar lá dentro.
E essa característica social continuava no interior do próprio festival.

Durante nossa passagem por Can Zam, encontramos diversos projetos e organizações sociais ocupando espaços de destaque. Entre eles, chamou nossa atenção uma associação ligada a um moto clube local que presta apoio a vítimas de violência doméstica e também uma organização voltada ao suporte e tratamento de câncer infantil, entre outras iniciativas.

Não eram elementos escondidos ou tratados como simples detalhes periféricos. Faziam parte da paisagem do festival.

Talvez por isso também tenha sido tão marcante perceber o caráter extremamente familiar do público. Havia muitas famílias, crianças pequenas e até carrinhos de bebê circulando pelo recinto. O espaço amplo do Parc de Can Zam ajudava bastante nessa experiência. Em vez de uma concentração permanente e sufocante de pessoas, havia áreas onde era possível simplesmente parar, sentar e descansar.

E isso nos leva a outro detalhe que parece pequeno, mas fez uma diferença enorme durante aqueles três dias: praticamente todo o espaço do festival era coberto por uma espécie de tapete que imitava grama sintética.

Pode parecer apenas uma escolha estética.
Não era!
Com as temperaturas altíssimas que enfrentamos durante o festival, aquele espaço verde artificial se transformava em uma verdadeira área de descanso. Era possível sentar, deitar, conversar, recuperar as energias e simplesmente observar o movimento ao redor. O próprio parque, arborizado e agradável, contribuía para essa sensação. Em alguns momentos, era tão confortável permanecer ali que quase nos esquecemos de que estávamos dentro de um festival de metal.

Até lembrar que, a poucos metros dali, estavam alguns dos maiores nomes do gênero.
E a organização parecia ter pensado também em uma das necessidades mais básicas e mais importantes, de qualquer pessoa enfrentando aquele calor: água.
Houve distribuição de garrafas de água mineral gratuitas em grande quantidade, além de pontos para reabastecimento. Para quem está acostumado a festivais nos quais hidratação pode rapidamente se transformar em uma despesa considerável, foi uma surpresa muito positiva. Somados aos preços bastante acessíveis de comidas e bebidas, esses detalhes ajudaram a tornar a permanência no recinto muito mais confortável, especialmente diante do calor quase insuportável que marcou aquela edição.

Também merece destaque a configuração musical do festival. Os dois palcos principais não tinham apresentações simultâneas, permitindo que o público acompanhasse todos os grandes nomes da programação sem precisar escolher entre duas bandas tocando ao mesmo tempo.
E nomes grandes não faltaram.
Em sua décima edição, o Barcelona Rock Fest reuniu 37 bandas e apresentou um lineup capaz de colocar lado a lado nomes como Megadeth, Helloween, Sabaton, The Offspring, Powerwolf, Bad Religion, Accept, Testament, Sex Pistols featuring Frank Carter e tantos outros. A programação foi distribuída entre os dias 3 e 5 de julho de 2026 no Parc de Can Zam.
Mas, para nós, o que tornou essa primeira experiência da Headbangers Brasil no Barcelona Rock Fest particularmente interessante não foi apenas a dimensão do lineup.
Foi descobrir um festival que, mesmo recebendo nomes de enorme peso internacional, parece não ter perdido completamente sua relação com a cidade, com seus moradores e com a comunidade.
E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior diferença.
O Barcelona Rock Fest não é apenas um lugar para assistir a grandes bandas.
É um festival que, de alguma maneira, parece querer fazer parte da cidade.

Por Cintia Seidel e Tathyana Giannotti
Headbangers Brasil

