Durante muito tempo, falar em Metal significava olhar principalmente para suas raízes e para os estilos que ajudaram a construir a história do gênero. Essa lógica continua sendo fundamental, mas o Metal Moderno vem ocupando um espaço cada vez maior na música pesada contemporânea, aproximando o gênero de públicos que talvez nunca tivessem encontrado identificação com suas vertentes tradicionais. Metalcore, Deathcore, Nu Metal, Djent, Metal Alternativo e uma série de combinações que atravessam o Rock, o Hardcore, o Rap e a música eletrônica passaram a disputar espaço em grandes festivais, plataformas de streaming e circuitos internacionais, criando novas portas de entrada para uma geração que consome música de maneira diferente.
A expansão desse movimento também trouxe discussões dentro da própria comunidade do Metal. Há quem veja determinadas mudanças como um afastamento da essência do gênero, enquanto outra parcela do público entende essa transformação como parte natural de sua evolução. Independentemente dessas diferenças, o Metal Moderno conquistou seu espaço e hoje representa uma das principais forças de renovação da música pesada. Não existe uma fórmula única para definir o movimento, mas existe uma característica comum entre seus diferentes representantes, a disposição para trabalhar o Metal sob uma perspectiva contemporânea, incorporando novas tecnologias, estéticas, formas de composição e referências culturais. E o Brasil está muito bem representado nesse processo, com artistas que não apenas acompanham essa transformação, mas também ajudam a projetar a identidade brasileira dentro de um movimento que ganhou alcance global.
Project46
Se existe uma banda que pode ser apontada como um dos principais pilares do Metal Moderno no Brasil, é o Project46. Formado em São Paulo em 2008, o grupo ajudou a estabelecer uma linguagem que aproximou o Metal brasileiro de uma geração acostumada a referências como Slipknot, Korn, Lamb of God e outras forças do Metal contemporâneo. Ao longo da carreira, a banda construiu uma identidade marcada por grooves pesados, vocais agressivos, elementos de Metalcore e Groove Metal e letras em português que abordam questões sociais, políticas e comportamentais. A trajetória inclui participações no Monsters of Rock, Rock in Rio, Maximus Festival, Knotfest Brasil, Summer Breeze Brasil e Bangers Open Air, além de apresentações ao lado de grandes nomes internacionais, enquanto a trajetória independente do grupo ajudou a abrir caminhos para uma geração que viria depois.
Glória
O Gloria ocupa uma posição singular nessa história porque conseguiu atravessar diferentes momentos da música pesada brasileira sem perder relevância. Formada em São Paulo em 2002, a banda ganhou enorme visibilidade durante a ascensão da cena emo e do Post-Hardcore no Brasil, alcançando um público muito além do circuito tradicional do Metal. Ao longo dos anos, porém, o grupo manteve uma relação próxima com o Metalcore e agora atravessa uma nova fase que dialoga diretamente com a estética contemporânea do Metal. Em 2026, mudanças na formação vieram acompanhadas de novas músicas e de uma sonoridade que mantém elementos reconhecíveis da banda enquanto abre espaço para caminhos mais atuais. A permanência de Mi Vieira, integrante fundador, funciona como elo entre diferentes gerações de público, enquanto a nova configuração amplia as possibilidades de um grupo que já conhece, há mais de duas décadas, os mecanismos de comunicação entre o Metal e a música popular.
AXTY
O AXTY representa uma das faces mais internacionalizadas da nova geração brasileira. Formado em 2020, o grupo desenvolveu uma combinação de Metalcore e Deathcore marcada por afinações graves, vocais extremos, melodias expansivas e uma produção audiovisual alinhada ao padrão global do gênero. A ascensão foi rápida e levou a banda para além do circuito brasileiro, com mais de sete milhões de streams no Spotify segundo a própria Napalm Records, uma turnê norte-americana ao lado do Born of Osiris e apresentações com nomes como Chelsea Grin. Em 2025, o grupo assinou contrato mundial com a Napalm Records e, em agosto de 2026, lançou o álbum The Pain Made Me Who I Am pela gravadora. A chegada a uma casa internacional desse porte mostra como uma banda brasileira pode desenvolver uma linguagem competitiva no mercado global sem abandonar sua origem.
Reckoning Hour
A Reckoning Hour representa a evolução do Metalcore brasileiro em uma escala que já ultrapassa as fronteiras nacionais. Formada no Rio de Janeiro em 2012, a banda passou por diferentes fases até chegar a uma sonoridade que combina peso, melodias, eletrônica, orquestrações e elementos progressivos, mantendo o Metalcore como ponto de partida. Sua trajetória inclui apresentações ao lado de Dream Theater, Killswitch Engage, In Flames, As I Lay Dying, Children of Bodom, Suicide Silence, The Black Dahlia Murder, Testament, Memphis May Fire e outras referências internacionais, além de nomes brasileiros como Sepultura, Angra e o próprio Project46. O crescimento da banda também pode ser observado em sua presença digital, com mais de 1,2 milhão de visualizações acumuladas nos videoclipes e uma audiência construída em plataformas de streaming. Em um cenário nacional cada vez mais competitivo, a Reckoning Hour se tornou um dos nomes que melhor traduzem a expansão do Metalcore brasileiro para uma linguagem internacional.
John Wayne
A John Wayne representa uma geração que mostrou que o Metalcore brasileiro poderia desenvolver uma identidade própria sem depender de cantar em inglês. Formada em São Paulo em 2009, a banda construiu sua trajetória a partir do contraste entre vocais agressivos, melodias, riffs pesados e letras em português que abordam conflitos pessoais, existência, cotidiano e questões sociais. O grupo passou por importantes palcos e festivais brasileiros, incluindo Rock in Rio e Summer Breeze Brasil, consolidando uma presença que atravessa mais de uma década. Essa capacidade de transformar temas cotidianos em composições pesadas e acessíveis ajudou a estabelecer a John Wayne como uma das referências nacionais do Metalcore.
Carminium
A Carminium mostra como o Metal Moderno também pode ser construído a partir da estética, da atmosfera e da experimentação. Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, a banda desenvolveu uma identidade que passa pelo Metal Alternativo e incorpora referências de nomes como Deftones, Gojira, Bring Me The Horizon e Loathe, criando um espaço onde peso, elementos eletrônicos, texturas sintéticas e influências do Trap convivem naturalmente. A experiência visual também ocupa papel importante na proposta do grupo, que trabalha seus lançamentos como extensões de um universo artístico maior. O álbum Kintsugi, lançado em 2026, aprofundou essa característica ao utilizar a ideia japonesa de reconstrução a partir das imperfeições como eixo conceitual para abordar trauma, dor e resiliência. A banda representa uma vertente do Metal contemporâneo em que música, conceito e identidade visual caminham praticamente no mesmo nível.
Emphuria
A Emphuria talvez seja um dos exemplos mais claros de como as fronteiras do Metal Moderno se tornaram muito mais abertas. Formada em São Paulo em 2019, a banda mistura Nu Metal, Metalcore, Rap, Pop, Hardcore e elementos do Emocore sem tratar essas influências como compartimentos separados. A proposta ganhou força justamente pela capacidade de trabalhar diferentes linguagens dentro de uma mesma identidade, criando músicas pesadas, mas também preocupadas com melodias, comunicação direta e temas relacionados aos problemas do cotidiano. Essa postura colocou a Emphuria entre os nomes mais interessantes da nova geração brasileira e também aproximou a banda de artistas de outros segmentos, como Charles Gama, do Black Pantera, Nego Max e DJ Terrorscreen.
Kill For Nothing
Se o Nu Metal voltou a encontrar espaço entre uma nova geração, a Kill For Nothing é uma das bandas brasileiras que melhor representa esse movimento. Formada em São Paulo em 2022, a K4N recupera elementos associados a Korn, Deftones, Slipknot e outras referências fundamentais do estilo, mas trabalha essas influências com uma produção contemporânea e uma identidade própria. O grupo também demonstra que o Nu Metal continua sendo uma ferramenta eficiente para discutir questões do presente. Em M.I.R.A.G.E., a banda transforma a relação entre seres humanos e inteligência artificial em tema central, abordando dependência tecnológica, comportamento, ansiedade e a busca por aprovação. A combinação entre riffs marcantes, vocais agressivos e limpos, elementos eletrônicos e uma estética visual contemporânea coloca a Kill For Nothing como uma representante direta da nova geração do Nu Metal brasileiro.
Worgohm
O Worgohm leva o Metal Moderno para um território mais técnico, futurista e experimental. Liderado pelo guitarrista e vocalista Michel Oliveira, o projeto combina Djent, Metal Industrial e Progressive Metal em uma proposta construída ao redor de guitarras de alcance estendido, afinações graves, atmosferas eletrônicas e uma estética de ficção científica. Michel é reconhecido por seu trabalho pioneiro com instrumentos de oito cordas no Brasil e utiliza o Worgohm como uma extensão dessa pesquisa musical. O universo conceitual do projeto também incorpora horror cósmico e ficção científica, criando uma identidade que ultrapassa a música e se desenvolve em performances, elementos visuais e narrativas próprias. A participação de Michel na NAMM 2026, representando o Brasil no estande da Tagima, reforçou a dimensão internacional de um projeto que nasceu mirando diretamente o mercado global.
Jo Campos
O guitarrista Jo Campos representa uma outra dimensão da internacionalização do Metal brasileiro. Natural de Serrana, no interior de São Paulo, e atualmente radicado em Portugal, o músico construiu sua trajetória desde o início dos anos 2000 em bandas como Penitence e Overtop antes de iniciar seu projeto solo. Sua proposta combina o peso das vertentes mais extremas do Metal com melodias marcantes e uma abordagem carregada de feeling, criando uma sonoridade que não depende exclusivamente da velocidade ou da agressividade para produzir impacto. Em Concrete Eclipse, Campos também demonstra como o Metal contemporâneo continua sendo utilizado para discutir questões do mundo atual, abordando opressão, estruturas de poder, manipulação e resistência a partir de referências literárias como 1984 e A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Radicado na Europa, o músico amplia ainda mais a presença brasileira dentro de uma cena internacional que hoje é cada vez menos limitada por fronteiras geográficas.
Essa lista só arranha o que temos de Metal Moderno pelo Brasil, com certeza outros nomes não foram citados aqui, mas aqui está um belo início de estrada para quem quiser descobrir o cenário mais atualizado dentro de nosso Território, que, como sempre é bom citar, nada deve a ninguém.
TEXTO POR LUIS FERNANDO RIBEIRO

