Acabei de assistir novamente a trilogia Senhor dos Anéis. E se pude constatar algo é que, em terras antigas (ou fictícias, como nesse caso), quando um rei queria expandir seu reinado, normalmente empunhava armas e convocava seus guerreiros para a guerra que estava prestes a se iniciar. Ao sagrar-se vitorioso, aquele território se tornava maior, e sua área de influência se tornava igualmente mais abrangente, ao passo que seu nome era celebrado por seus feitos notórios. Mas o que isso tem a ver com a resenha desse disco? A resposta é: tudo, já que Jenny Kelly há muito tempo é conhecida como a Rainha do Submundo, devido suas matérias falando sobre o cenário rock, ora escrevendo, ora gravando vídeos para seu canal.
A capa do disco, bem bacana por sinal, já mostra que Jenny está mesmo disposta a transformar o submundo e o underground em uma coisa só, sob seu reinado, obviamente. Acontece que a linha que separa o Underground do Submundo (se é que ela existe) é bem tênue, e Jenny parece querer conquistar (e unir) de vez as 2 frentes lançando seu primeiro álbum, intitulado Restless Memories.
O disco, se não soa totalmente original, convence pela honestidade e emoção empregadas em cada faixa. A abertura com a apocalíptica faixa título, por exemplo, é uma cacetada que soa como se o Vixen passasse um período ensaiando com o Annihilator. Ouça e tire suas próprias conclusões. A faixa seguinte, batizada de Wolf In The Night, é um hardão avassalador, com letra versando sobre como encarar a vida e como os anos influenciam em nossa tomada de decisões em nosso dia a dia. Fechando a trinca inicial outro hard, dessa vez mais pop e flertando com o aor, surge a inspirada Fowing Like a River, com cara moderna, como se o Phenomena invadisse o palco do Evanescence para uma jam.
Que todo disco de hard deve possuir ao menos uma balada, pouquíssima gente duvida e aqui a faixa atende pelo nome de Waiting For Your Sign, uma verdadeira declaração de amor falando sobre perda e deixando explícito o desejo de que a pessoa amada volte. Clichê? Talvez, mas quem faz hard rock quer sempre expressar os sentimentos dessa maneira, ainda que milhares de baladas já tenham sido escritas com esse tema.
A sequência intermediária do disco vem recheada de climas mais soturnos, como mostrado na faixa I Am As I Am, com sonoridade bluesy e vocais intensos lembrando Lita Ford. A temática é outro destaque, com versos que destacam a importância de ser você mesmo sem se importar com a opinião alheia, soando quase como um manifesto de autoafirmação.
Beyond The Moon é a sexta faixa do disco, e é uma semibalada, com início melancólico e do meio pra frente descamba para um hardão que lembra demais a música Come Again do Damn Yankees, sem contudo soar como mera cópia, sendo um tributo digno ao hard oitentista que tanto amamos.
Atenção fãs de Iron Maiden e suas intervenções acústicas: a faixa The Heir tem clima épico no estilo da belíssima Journeyman (da donzela), com vocal meio sussurrado, quase falado, e instrumental pesadíssimo e cadenciado, sendo uma das faixas mais bacanas do trabalho. Os versos são inspirados no livro A Herança Dos Chacais, escrito pela própria Jenny, sendo a última canção escrita para o disco.

In The Dead Of The Night lembra e muito aquele hard rock com influências de power metal, como faz o Place Vendome ou o Helloween em alguns momentos. Nesse caso, o som lembra um pouco o Brother Firetribe, com refrão tipicamente europeu e clima que remete a um cruzamento entre o Nightwish e o já citado Evanescence.
A nona faixa é a melancólica Carry On, que possui uma letra interessante, que mostra uma viagem no tempo, como se o seu eu de hoje pudesse dar um telefonema para seu eu do passado, oferecendo conselhos sobre a vida e como lidar com falsos amigos, usando de metáforas para expressar seus sentimentos.
Winner’s Delight é um hard/heavy cadenciado, pesado, com letra destacando a necessidade de quebrar barreiras, vencer na vida e superar obstáculos por meio do esforço pessoal sem prejudicar ninguém.
Ao fim do disco, um hard rock energético com cara de hino do rock chamado Today Is Rock Day, Babe. Ok, o título pode soar meio clichê hoje em dia, mas quem nunca se imaginou bradando algo do tipo ao ouvir uma canção ou banda que admira? (né Manowar?!) O maior mérito dessa faixa, entre tantos, é evocar aquele sentimento que tínhamos lá na adolescência ao ouvir Rock N’ Roll All Nite, Smoke On The Water, entre outras canções que definiram uma geração. Não que isso vá acontecer hoje em dia, afinal, o hard rock não está mais no mainstream e provavelmente não voltará a ditar moda como nos anos 80, mas que essa nostalgia é uma delícia ninguém pode negar. O fato da música ter sido composta no dia mundial do rock valida esse sentimento e corrobora essa afirmação.
No geral, Restless Memories é um disco bacana, que pode ser colocado na mesma prateleira de vários do mesmo estilo. Além disso, a gravação e produção do disco representa uma nova tendência, que é a utilização de IA a serviço da boa música. Aqui a IA serviu apenas para dar sentido às letras, acertando rimas e traduzindo para o inglês, o idioma oficial do hard rock, além de realizar as instrumentações e arranjos.
Todas as letras foram escritas por Jenny Kelly, o que revela um projeto ambicioso, ousado e como dito anteriormente, honesto em sua proposta. Algumas ressalvas, contudo devem ser feitas. Ao ouvir com atenção por diversas vezes senti falta daqueles refrões que grudam na mente. Jenny optou por escrever canções que flertam com o hard europeu, as vezes lembrando o power metal, com aqueles refrões de frases longas e por vezes difíceis de grudar na mente. Como admirador de hard rock e aor, senti falta de refrões mais “chiclete”, mas isso é apenas meu gosto pessoal e não descredibiliza o trabalho de maneira alguma.
Ainda fazendo uma ressalva, o álbum possui diversas baladas, todas acima de 4 minutos, o que pode soar cansativo para quem se acostumou com o Whitesnake dando seu recado de amor em pouco mais de 3 minutos. O disco é reflexo do momento criativo/emocional de Jenny, portanto, as ressalvas não refletem ausência de qualidade no material apresentado, ao contrário, as canções apresentadas aqui são superiores a quase tudo que anda sendo feito no underground carioca e até mesmo nacional, em se tratando de hard rock. Ao fim da audição, o saldo é positivo, e nos deixa na esperança de um segundo álbum. Que belo disco de hard!!
Nota: 4
Ouça aqui o novo trabalho de Jenny Kelly
Texto por: Diogo Franco
Fotos: Acervo Jennifer Kelly

