Fundador da Vendetta Produções e ex-vice-presidente do Conselho Municipal de Política Cultural de Cuiabá, o produtor mato-grossense disputa uma vaga no Colegiado Nacional de Música. Nesta entrevista, ele fala sobre o que aprendeu com o metal, o punk e o hardcore, os bastidores dos shows e as propostas que quer defender no conselho.

HBr: O que o metal, o punk e o hardcore têm a ver com a sua candidatura?
Vicente: Tudo. Eu sou headbanger, e foi no underground que aprendi a produzir cultura. O metal me deu um senso de pertencimento. No punk e no hardcore, encontrei a ética do faça você mesmo na prática. A galera montava banda, fazia cartaz, corria atrás de lugar para tocar e divulgava o show no boca a boca. E, quando uma banda de fora precisava de uma data, alguém se mexia para encaixar a cidade na rota. Foi convivendo com essa gente que eu entendi que organizar um show também é organizar uma comunidade.
HBr: Como a Vendetta Produções nasceu e que bandas ajudam a contar essa história?
Vicente: Fundei a Vendetta em 2008 para fazer circular a música pesada em Mato Grosso. Queria que o público daqui pudesse assistir a bandas que admirava e que as nossas bandas tivessem palco para mostrar o próprio trabalho. Com a produtora e o Vendetta Metal Fest, trouxemos artistas de várias partes do Brasil e de 12 países para o estado. Entre os nomes nacionais, passaram por aqui Torture Squad, Ratos de Porão, Krisiun, Crypta, Nervosa, Paura, NervoChaos e Noturnall. Entre os internacionais, Paul Di’Anno, Master, Mondo Generator, Ambush, Evil Invaders e Cobra Spell fazem parte dessa história. Cada uma dessas passagens tem muita gente por trás, da produção local à equipe que desmonta o palco quando o público já foi embora.

HBr: E qual foi o papel das bandas mato-grossenses e das outras produtoras nessa caminhada?
Vicente: Essa caminhada foi construída junto com as bandas e com as produtoras locais. Cada cidade tem sua cena, seu público e gente que conhece os espaços e sabe como fazer um show acontecer. Quando essas pessoas trabalham juntas, uma banda consegue tocar fora da sua cidade e, mais adiante, ajudar a abrir uma data para quem a recebeu.
Um exemplo dessa articulação foi a edição do Vendetta no Beco do Candeeiro, durante a pandemia. Reunimos Makaira, Brutal Annihilation e Dying Order, de Cuiabá, Solarisphere, de Rondonópolis, e Oráculo Delfos, de Sinop. Com recursos do auxílio emergencial da Lei Aldir Blanc, conseguimos pagar cachê às cinco bandas num momento em que a suspensão dos shows tinha tirado uma fonte de renda de quem vive de música. Pelo que acompanhei na época, foi o único projeto de metal desse tipo em Mato Grosso.
HBr: O que as viagens e o trabalho com turnês te ensinaram sobre fazer música longe dos grandes centros?
Vicente: A estrada ensina a fazer conta. Uma data pode parecer boa no papel, mas você precisa saber de onde a banda vem, quantas horas ela vai passar na estrada e se a bilheteria cobre transporte, hospedagem, som e cachê. Já organizei pequenas turnês com algumas bandas, passando por várias cidades de Mato Grosso, do norte ao sul do estado. Quem produz no Centro-Oeste conhece bem esse desafio. Tem público, tem banda e tem gente disposta a fazer acontecer. O que pesa é o custo para colocar todo mundo no mesmo lugar.

HBr: Como sua experiência no Conselho Municipal de Cultura de Cuiabá entra nessa história?
Vicente: Na vice-presidência do conselho, participei da escuta pública da Política Nacional Aldir Blanc e da mobilização pela publicação dos editais em Cuiabá. Pensando nas necessidades de quem faz cultura e de toda a cadeia produtiva, fui responsável pela elaboração de dois editais em 2026 que, juntos, destinaram mais de R$ 3 milhões aos arranjos criativos locais.
Durante esse processo, vi de perto o que acontece quando falta um cronograma claro. O artista adia uma gravação, o coletivo segura uma oficina e o produtor fica sem saber se pode fechar uma data. Essa experiência me fez querer participar mais cedo das decisões, quando ainda dá para discutir as regras, os prazos e quem consegue acessar os recursos.
HBr: Por que você quer estar no CNPC e o que sua campanha defende?
Vicente: Quero levar ao Colegiado Nacional de Música a experiência de quem produz em Mato Grosso e escutar quem enfrenta dificuldades parecidas em outros territórios. Defendo editais construídos com participação de quem trabalha na música, orçamento que chegue ao interior e às periferias e apoio à circulação, à formação e à manutenção de espaços independentes. Quero que o orçamento de um projeto comporte cachê, equipe técnica, deslocamento e acessibilidade. Também quero discutir remuneração justa no streaming. Quem cria, grava e toca precisa conseguir viver desse trabalho.
HBr: O que você quer dizer à galera do metal, do punk e do hardcore que acompanha a sua candidatura?
Vicente: Eu quero chegar lá levando comigo o que aprendi no underground. Sei o que vale um palco pequeno para uma banda autoral, o que custa manter uma casa aberta e a diferença que um cachê justo faz para quem vive de música. Minha relação com essas cenas também passa pela liberdade de expressão, pela democracia e pelo antifascismo. É com essa história que me apresento para dialogar com a diversidade da música brasileira.

Se você se inscreveu e teve sua inscrição habilitada no Colegiado de Música, pode votar de 11 a 15 de novembro, pela plataforma Vota Cultura, de qualquer estado do país.
Entrevista por Modesto Barros, especialmente para o Headbangers Brasil


