Há 25 anos o ex-Iron Maiden visitava a capital paulista em voo solo pela primeira vez.

A situação hoje em dia está assustadora, mas vamos ser otimistas, e crer que ela vai melhorar e nossas vidas voltarão aos eixos da rotina comum. E com as coisas voltando ao normal, seu calendário de shows também volta. Deixe bem anotado a data do evento ‘An Evening with Bruce Dickinson’ que vai se realizar no Tom Brasil, em São Paulo, no próximo dia 26 de agosto e será, sem dúvidas, um dos eventos mais concorridos desse ano.

 

Já que colocamos nossos pensamentos positivos para o momento atual, nada melhor que recordar a primeira passagem do Sr. “Air-raid Siren”  pela capital paulistana há pouco mais de 25 anos. Foram três apresentações nos dias 14, 15 e 16 de março de 1995, no saudoso Olympia, a melhor casa de espetáculos que a Cidade de São Paulo já teve. Eu tive o privilégio de estar presente na primeira noite e vou relatar o que minhas lembranças ainda guardam. Felizmente tenho uma excelente memória.

Recordo de passar na Woodstock Discos do grande Walcir para comprar meu ingresso. Como eu estive na loja no primeiro dia de vendas, consegui minha entrada, que esta com o nome do Bruce escrito de forma errada, com uma numeração bem baixa, o número 32. Achou esse número curioso? Tenho outros ingressos que também chamam a atenção pelo mesmo motivo, como por exemplo, o de número 39 de um dos shows do Black Sabbath com o mestre Dio em 1992 e o número 15, da apresentação única do Def Leppard em 97, ambos também no Olympia. E não pense que comprei essas entradas meses antes dos espetáculos, nada disso.

É preciso ressaltar que naquele tempo as coisas eram bem diferentes do que o público atual esta acostumado a lidar, e muitas das ideias ‘modernas’, ainda nem passavam pelos sonhos dos promotores. Exemplos? No Olympia,  você comprava seu ingresso para camarotes ou pista. Não existia a tal ‘pista vip’, que admito, diminui a concorrência para você conseguir ver seus ídolos mais de perto – mas também te faz às vezes desejar ter uns rins a mais para negociar. Conquistava o prêmio de ficar na ‘grade’, de cara para sua banda favorita, quem chegava mais cedo, ou usava de alguma manha, sorte ou tática. Era muito raro se comprar o ingresso de maneira antecipada, e salvo algumas exceções, era possível o individuo resolver ir para o show no dia do evento, chegar nas bilheterias e encarar uma fila, as vezes grande, as vezes não, e comprar a sua entrada pelo mesmo valor da compra antecipada, pois não haviam as viradas de ‘lote’. E olha os preços eram bem mais justos. Também não existia a meia-entrada – não sou contra, mas devido as falsificações, prefiro debater desse assunto em uma outra oportunidade. E a melhor parte, não existia a desagradável e abusiva taxa de (in)conveniência que temos que nos submeter atualmente. O ‘Meet & Greet’ com os artistas só mesmo com muita sorte e paciência nas portas dos hotéis onde as bandas se hospedavam, porém, quando dava tudo certo era gratuito.

A divulgação dos shows foi a padrão da época utilizando chamadas bem curtas durante a programação da MTV Brasil e cobertura no informativo MTV no Ar!, onde chegou a passar um trecho da música “Cyclops” em uma edição do programa (eu tenho isso gravado em um VHS). Além da MTV, propagandas foram publicadas pela imprensa impressa, inclusive com o jornal O Estado de São Paulo publicando no dia 10 de março, na seção Caderno 2, uma matéria com Bruce Dickinson. Ali o então ex-Iron Maiden, elogiou muito seus jovens companheiros de banda e disse que estava satisfeito com seus recentes discos ‘Balls to Picasso’ e o duplo ao vivo “Alive in Studio A”. Também deixou bem claro que não ia trazer para o repertório dos shows absolutamente nada dos seus tempos de Maiden.

Para ver o Bruce desembolsei R$ 20,00, que hoje parece muito barato, mas lembre-se que U$ 1 dolar estava por volta de R$ 1 real naqueles dias. Na noite em que estive presente, uma terça feira, o Olympia recebeu ótimo público apesar de não ter lotado. Era comum os shows de música pesada acontecerem em dias de meio de semana nos anos 90, principalmente na casa de shows citada. Um dos motivos era que o preço do aluguel em questão seria mais acessível para o bolso dos produtores nesses dias em especial. Para citar outro exemplo, eu assisti ao Anthrax ali mesmo em 1993 em uma plena segunda feira.  Importante ressaltar que conversando com amigos que estiveram nos dois dias seguintes, à opção por três apresentações foi superestimada. Esperava-se públicos mais expressivos nas demais datas, o que não se confirmou. Tanto que para o último  dia, o show recebeu entre os pagantes, vários ‘amigos do amigo’, que deram a sorte de conferir o show na faixa.

Mas vamos falar daquele dia 14. Não me recordo de nada excepcional para adentrar na casa. Não tive a possibilidade, como em outras oportunidades, de passar o dia na porta do Olympia, apreciando o transito da Rua Clélia e claro, guardando meu espaço na fila para pegar um bom lugar bem na frente do palco. Na grade de preferência. O legal daquela casa é que na pista você tinha uma ótima visão de qualquer ponto, principalmente por que as laterais que eram mais altas, o que garantia que todos os presentes poderiam assistir ao show de maneira justa.

Fiquei mais para o lado direito em umas das laterais e com o baixista Chris Dale sendo o músico mais próximo do local onde acompanhei o show. O som estava muito bem equalizado e por volta das 22 horas, Bruce e sua banda invadem o palco com “Gods of War’. A recepção foi grandiosa com os fãs gritando e participando, mas a música mal termina e os berros de “Aces High” começam a ecoam forte na casa de shows, como se fosse uma ordem, uma exigência da plateia sedenta por músicas dos tempos da donzela de ferro. Mas o frontman ignora completamente os apelos dos presentes, correndo de um lado para o outro, agitando, vendendo suas canções com a mesma convicção dos tempos na sua antiga banda.

Claro que “Tears of the Dragon” foi um dos pontos altos do show, onde os fãs por um tempo se esqueceram dos lamentos por músicas do Iron Maiden, e proporcionaram um coro em alto e bom tom na hora do refrão. Bruce, ainda de cabelão, finalmente mostrava um sorriso no rosto. E eu hoje me pergunto, será que não era melhor ter incluído no setlist algo da época do Samson como a ótima “Riding with the angels”? Ou “Bring your daughter to the slaughter”, que poderia sim acalmar os mais chatos sem ter que dar um passo atrás? Bom, agora é passado.

A banda como não tinha tempo para se preocupar com os pedidos ia fazendo sua parte. A cozinha formada por Chris Dale e o batera Alessandro Elena deram conta do recado, mas o jovem guitarrista Alex Dickson deixava alguns vazios em relação ao trabalho em estúdio, o que é normal quando só se tem um guitarrista, mas nada que tenha comprometido a apresentação. Afinal a jovem banda do cantor podia se apoiar facilmente na luz emanada por Bruce, que obviamente era o centro de todas as atenções.

Apenas no finalzinho do show um aceno do passado para quebrar o óbvio. A banda apresentou uma empolgante versão de “Tattooed Millionaire”, do primeiro disco solo de Dickinson , e para encerrar a noite, uma cover do grande Black Sabbath, a clássica “ Sabbath, Blood Sabbath”, que quase derruba o Olympia.

Apesar dos pesares, foi um bom show. Bruce é um artista fantástico e poder ter visto esse mito bem mais de perto do que no show do Maiden em 1992 no estádio do Palmeiras já valeu o ingresso. Naquele dia em especial, nem passava pela minha cabeça, mas eu ainda teria a chance de rever o “Air-raid Siren” em sua carreira solo mais três vezes, sem falar das oportunidades desde a sua volta para a donzela de ferro. Mas esse show em especial, ficará sempre guardado com carinho na minha memória pelas suas peculiaridades e lembranças.

Agora é aguardar, torcer para que as coisas voltem aos eixos e contar os dias para a próxima visita de Bruce Dickinson. A data está marcada. Que os próximos dias tragam boas novas, entre elas a voltas dos eventos com segurança e saúde para todos.

 

Setlist:

1.Gods of War

2.Cyclops

3.Shoot All the Clowns

4.Son of a Gun

5.Tears of the Dragon

6.Change of Heart

7.Inside the Machine

8.Fire

9.1000 Points of Light

10.Hell No

11.Laughing in the Hiding Bush

12.Sacred Cowboys

13.Tattooed Millionaire

  1. Sabbath Bloody Sabbath (Black Sabbath cover)

Banda:

Bruce Dickinson  – Vocais

Chris Dale – Baixo

Alessandro Elena – Batera

Alex Dickson – guitarra