O Kreator no Brasil.

Como ainda estamos vivendo tempos de abstinência obrigatória no que se refere a eventos presenciais por motivos que todos nós conhecemos bem, vamos iniciar uma serie de especiais sobre shows que marcaram uma época, em que o Brasil ainda não fazia parte dos itinerários das bandas internacionais com a frequência de hoje em dia. O ano de 1989 é considerado como um marco, pois nomes conhecidos da música pesada começaram a dar as caras por aqui, sem a necessidade de um grande festival e o melhor, com uma periodicidade a qual não estávamos acostumados.

Para se ter uma ideia, vamos relacionar os shows internacionais de nomes ligados ao universo da música pesada entre 1974 e 1988, excluindo o ponto fora da curva que foi a primeira edição do festival Rock in Rio em 1985, nos visitaram: Alice Cooper (74); Queen (81); Van Halen e Kiss (83); Quiet Riot (85); Venom e Exciter (86); Exumer, Nasty Savage e Jethro Tull (88). Dez atrações, e vamos ser honestos, nem todas as bandas citadas podem ser consideradas ‘grandes’ nomes.

Em compensação ao final de 1989, sete nomes de respeito, de estilos diferentes, conseguiram nos convencer realmente que as coisas estavam tomando um rumo diferente e são sobre essas atrações, que vamos falar uma de cada vez, nesse especial, procurando contar pela experiência vivenciada na época, curiosidades, lembranças e fatos marcantes. Entre erros e acertos, tudo foi importante, para que hoje em dia o headbanger brasileiro tenha uma vasta e variada agenda de shows para ir – assim que a nossa vida voltar ao normal, é claro.

E nessa primeira parte vamos falar do evento, em que a banda principal não veio. Em janeiro de 1988 na sua edição número 33, a revista Rock Brigade estampou em suas confiáveis páginas a data e o local do show – o Projeto Leste I na capital paulista – os preços e onde comprar os ingressos, simplesmente de uma das bandas mais queridas pelos fãs de thrash metal, o Kreator. Era difícil até de se acreditar, mas eram vários parceiros conhecidos envolvidos apenas na divulgação, que confiando na ‘Heavy Metal Maniac’, o responsável por trazer a banda teutônica para nosso país, dava uma boa credibilidade no sucesso do projeto, que recebeu o nome de ‘World’s Thrash’. A própria Rock Brigade sorteou 50 ingressos em um concurso via carta entre seus leitores.

Além do Kreator foi escalada a banda chilena Necrosis, a qual a ‘Heavy Metal Maniac’ também estava lançando o álbum “The Search”, e o MX do Grande ABC paulista. Dias depois um flyer oficial era distribuído em todos os pontos heavy conhecidos para divulgação do evento e nele já constava o nome de mais uma atração de peso, o Korzus.

Estava tudo indo bem com as vendas, apesar de mais uma mudança na nomenclatura do nosso pobre dinheiro. Em 16 de janeiro de 1989, mil cruzados passaram a valer 1 cruzado novo (Cz$ 1 000 = NCz$ 1) –  se você não está entendendo bem esse tipo de problema, é porque não pegou os tempos do “monstro” chamado inflação e nem queira, pois até quem viveu aquela época prefere esquecer. Mas quando se aproximou a data do evento, algumas fofocas na base do ‘boca a boca’, comentavam a possibilidade do Kreator não dar às caras. E foi o que acabou acontecendo. Na sexta, dia 17,  foi confirmado que os alemães não vinham, mas a promotora manteve os shows assim mesmo, acrescentando o Ratos de Porão na line up.

Ficou desse jeito. O ingresso que a princípio era antecipadamente vendido a Cz$7000,00 – e como já explicamos passou para NCz$ 7,00 – no dia do evento passou a ser NCz$ 4,00, que dava direito a assistir as quatro bandas, Necrosis, RXDXP, Korzus e MX. As pessoas que entraram para ver os shows recebiam o canhoto de volta para poder resgatar a diferença do valor com a produtora.

Eu me lembro de ir para a zona leste desanimado naquele dia 18 de fevereiro, mas era melhor que ficar lamentando. Ao chegar ao Projeto Leste I e ver tantas pessoas que tinham vindo de muito mais longe do que eu, para não ter o Kreator no palco, parei até de reclamar. Não era um local muito legal para eventos e como a fila não andou com muita rapidez, acabei perdendo um bom pedaço do show do Korzus, que abriu a noite.  Outra lembrança bem viva na minha memória sobre aquela noite, é que estava um calor insuportável, o que me convenceu a assistir ao MX (o álbum “Simoniacal” tem grandes músicas e ao vivo eram matadoras) e ao RXDXP lá do fundo, longe dos ‘entreveros’ que vez ou outra aconteciam na pista. O som foi muito ruim do começo ao fim, não teve uma banda que se salvou das microfonias e falhas de equipamentos. Até pareceu no começou do set que os chilenos do Necrosis iam ter um som um pouco melhor, mas que nada, sofreram tanto quanto os outros. Por lembranças como essas é que tenho paciência redobrada quando algo não dá certo nos shows atuais. O evento não acabou muito tarde e era nítida a cara de frustração no rosto da maioria e não tinha como ser diferente.

Uma nota de esclarecimento foi divulgada pela produtora dias depois – nota essa que foi divulgada também na edição número 35 da Rock Brigade, em março de 1989. No comunicado detalhes dos problemas encontrados foram oferecidos e assumindo inteiramente a responsabilidade. Segundo a contratante, as passagens foram pagas e a banda não veio por decisão própria, portanto sendo maus profissionais. O Kreator definitivamente só apagaria essa má impressão ao vir ao Brasil para shows em 1992 e 1994.  A ‘Heavy Metal Maniac’ também procurou soluções para os transtornos que os headbangers sofreram. Para os que não foram ao evento, disseram que um show do Sodom estava praticamente certo para abril e que os ingressos inteiros valeriam para essa nova data. E para os que entraram no dia 18, meu caso, a metade do canhoto mais NCz$ 4,00 daria o acesso.

Bom, o Sodom não veio e a minha metade do ingresso eu acabei trocando por um disco importado do Raven tempos depois em um rolo. Mesmo não solicitando reembolso como outros amigos fizeram, não posso dizer que fiquei no prejuízo de forma alguma.

Pois é, o primeiro grande nome prometido para 1989 não veio. Mas o ano estava apenas começando, e em meio a todos os problemas referentes ao show do Kreator, outros nomes estavam sendo comentados, e o meu ingresso para o dia 11 de março estava devidamente comprado. Mas sobre isso nós só vamos falar na segunda parte desse especial, pois em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil.. PRA FICAR!!!

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)