Motörhead pela primeira vez no Brasil.

Pois é, como contamos na primeira parte do nosso especial o primeiro grande nome prometido para 1989, os alemães do Kreator, não vieram. Mas em meio aos problemas que relatamos anteriormente, outros nomes estavam sendo comentados, e mesmo antes da tristeza se concretizar por causa daquele furo, eis que a banda de Lemmy confirma nada mais nada menos, que quatro datas no Brasil, duas em Sampa, mais Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Quando a revista Rock Brigade número 34 em fevereiro de 1989 chegou às bancas, ela matou os fãs da música pesada de alegria, pois em sua capa estampava os dizeres: ‘Motörhead no Brasil, ganhe 50 ingressos’. Parecia um sonho, mas o pôster central confirmava que a produtora Metal Produções Artísticas – a mesma responsável por trazer o Jethro Tull em 1988 – estava trazendo a banda britânica para quatro datas em março. 

Paralelamente a Rock Brigade lançou através de seu selo o novíssimo disco da banda, o álbum “Rock ‘n’ Roll”, garantindo de vez a felicidade dos headbangers, que poderiam finalmente ver a banda de perto e comprar o novo trabalho disponível por um preço muito mais agradável em relação às cópias importadas.

É claro que ainda havia no ar uma sensação de “pé atrás” por causa do furo do Kreator, mas mesmo assim as vendas dos ingressos corriam muito bem, apesar de que, lembro-me de comprar o meu sem fila alguma na Woodstock Discos para o dia 11. Mas sossegado mesmo eu só fiquei quando soube que a banda tinha desembarcado aqui em Sampa com sua equipe completa no dia 10, através do Jaji do fanzine ‘Metal Gods’, que participou da coletiva de imprensa.

Eu fui tranquilo para o ginásio do Ibirapuera no sábado bem cedo e por sorte no ônibus que peguei no Ipiranga, encontrei fãs da banda e entre eles, estava uma garota com um diskman e uma fita com as músicas do novo disco, que eu ainda não tinha nem escutado, pois ou eu comprava o ingresso para o show ou comprava o LP. Graças às novas amizades conquistadas ali mesmo no ônibus, foi que escutei pela primeira vez a música “Eat the Rich”.

Chegando ao local eu vi muitos bangers presentes, camisas pretas para todos os lados ao redor do ginásio e muito calor. Claro que atrasou pacas a abertura dos portões, só que o motivo eu só ia ficar sabendo dias depois. O equipamento da banda, amps, caixas e até o kit de bateria do Animal só chegaram ao Ibirapuera por volta das 7 da noite, pois vieram em um voo diferente dos membros do Motörhead. Com isso já era noite quando eu entrei e procurei um lugar na pista que estava lotada. Eu já li relatos de 15 mil, outros de 9 mil, mas o que eu sei é que tinha muita gente naquele lugar.

O Vodu abriu a noite com um som embolado, mal se entendia o que o vocalista Claudio falava entre as músicas. O povo naquele tempo não tinha a menor paciência (EDUCAÇÃO) com as bandas de abertura, então era ‘normal’ ficar jogando o que se tinha nas mãos no palco. Após um set curto do Vodu e uma demora eterna entre um show e outro, chegou a vez do Viper encarar um público muito desesperado para ver Lemmy e Cia. Como uma grande parte do pessoal já estava meio invocado com os atrasos, o Viper procurou fazer seu set para quem queria curtir o show.

Agora não tinha mais volta, o Motörhead era o próximo e bem depois da meia noite, finalmente ao som de “Doctor Rock” o Brasil descobriu por que tinham pessoas que saiam surdas de certos shows. Rapaz, o impacto do volume foi inacreditável, apesar das inúmeras microfonias e oscilações no som. Mas quem ligava? Todos ali conheciam os clássicos de cor e mesmo com tudo embolando era possível reconhecer cada um dos que foram apresentados, como “Orgasmatron” e inclusive a “Eat the Rich” que eu tinha conhecido poucas horas atrás. O senão foi o set curto, 13 músicas em mais ou menos uma hora de show – recentemente o site ‘setlist.fm’ foi corrigido, pois até um tempo atrás lá constavam apenas 12, quando na verdade era só dar uma olhada na Rock Brigade número 36, que todas as músicas apresentadas estavam bem ali.

No dia seguinte a coisa desandou. O público era menor, prova que uma noite era o suficiente, e o som pifou após poucas músicas executadas. Coube ao grande Walcir (dono da Woodstock Discos e apresentador do programa Comando Metal na 89 FM) explicar aos presentes o problema e que não havia condições para continuar o evento. Pessoas que eu conheci e que estavam presentes no dia me contaram que até teve quem quis bagunçar, mas como a grande maioria compreendeu a situação, tudo correu até que bem. No fundo esses fãs deram sorte, pois os ingressos valeram para a data extra, que foi marcada para depois dos shows em Porto Alegre e Rio, no ótimo local chamado Projeto SP em 19 de março. Pelo que eu soube de pessoas que estiveram presentes nesse dia, também ocorreram problemas com o som, mas dessa vez o set foi apresentado por completo, como na primeira noite no Ibirapuera.

Sim, o segundo grande nome veio e os shows aconteceram. E há pouco eu citei a edição número 36 da Rock Brigade, que trouxe em suas páginas uma ampla cobertura de toda tour de Lemmy e sua banda. Mas não parou por ai, pois na capa e no pôster uma grande notícia para os fãs de thrash metal comemorar, pois em maio o Nuclear Assault estaria chegando. Mas esse é um assunto para a próxima parte do nosso especial, pois em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!

Motörhead Brasil Tour ’89:

São Paulo 11, 12* e 19 de março;

Porto Alegre 15 de março;

Rio de Janeiro 18 de março.

(* Dia 12 show incompleto)

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)

Ficou curioso para ver pelo um pedaço de um desses shows? Dias depois era possível encontrar um ‘piratão’ em VHS da apresentação do dia 11. E esse vídeo pode ser conferido no You Tube, o link está ai: