Nuclear Assault pela primeira vez no Brasil.

Vamos continuar contando sobre a saga dos shows internacionais por nossas paradas no fundamental ano de 1989. Após o sucesso da tour do Motörhead, parecia que nada mais era impossível, pois as especulações sobre futuras atrações aumentavam consideravelmente e aquele tropeço do Kreator já não tinha mais tanta importância. A confirmação de dois shows de uma das mais promissoras bandas do thrash metal mundial aqui em São Paulo, era apenas mais um fator para realçar a confiança, que o Brasil definitivamente estava na rota das bandas gringas finalmente.

O pôster central e uma nova promoção, que colocava em disputa 50 ingressos para o show na edição número 36 da revista Rock Brigade de abril, era a garantia que estava na hora de correr para os correios ou até um dos pontos de vendas e escolher entre a sexta 19 ou sábado dia 20, para ver de perto o Nuclear Assault. Pra tornar o evento ainda mais chamativo, a banda de abertura nas duas noites seria o Sepultura, que estava simplesmente começando a divulgar o LP “Beneath the Remains”, que acabava de sair do forno.

A estrutura necessária para os shows do Nuclear Assault seria bem menor do que foi para o Motörhead, mas nem por isso o ingresso foi mais barato, o que deixou muitos bangers meio invocados. Mesmo assim o Dama Xoc, uma casa com boa estrutura para a época, situada na região do bairro de Pinheiros aqui em Sampa, recebeu um bom publico nas duas noites segundo as informações publicadas em fanzines da época. Como eu só estive no show da sexta, somente posso relatar o que vi nessa noite com absoluta certeza.

Eu tive sorte, na semana do show, a 97FM, uma famosa rádio rock de Santo André-SP, sorteou ingressos durante sua programação via telefone – era conseguir ligar, deixar nome, RG e telefone e aguardar o resultado. E para minha alegria eu consegui o meu dessa forma e por isso que acabei indo na sexta, pois se fosse comprar optaria pelo sábado certamente e por um bom motivo.

Na sexta, dia 19 de maio de 1989 as coisas estavam meio bagunçadas na Cidade de São Paulo. Um mês antes acontecera uma greve brava nos transportes públicos e havia uma promessa de outra justamente para aquele dia. Felizmente a tal greve só aconteceu nas primeiras horas da manhã, pois acabou sendo adiada para a outra semana, se é que podemos dizer assim. Dessa forma eu não tive problemas para me deslocar do Grande ABC até Pinheiros.

Chegando lá logo vi uma boa aglomeração de camisas pretas, alguns conhecidos e muita empolgação na frente do Dama Xoc. O meu bom humor acabaria logo devido a canseira que levei para conseguir minha cortesia. O combinado com a 97FM era nome e RG na lista. Só que o ‘responsável’, que estava de posse da tal lista, só chegou ao Dama Xoc um bom tempo depois que a casa abriu e não teve pressa alguma para fazer a fila dos que tinham ganho ingressos andar. Bom, tudo bem, eu economizei o $$$ do ingresso… .

Lá dentro um bom público se espremia em frente ao palco, que nessa oportunidade não tinha o chamado ‘chiqueirinho’, aquele espaço entre a grade e o palco, bem útil para os fotógrafos, que dessa vez tiveram que se virar. Era o palco e público em contato direto, o que já era garantia de trabalho dobrado para os seguranças. O Sepultura abriu a noite sendo muito bem recebido. Eles estavam prestes a começar a estourar lá fora e aqui já eram muito respeitados. Mesmo tocando praticamente na integra o “Beneath the Remains”, que era um disco novo, as músicas e a banda foram muito bem recebidos, diferente de outras vezes que vi bandas nacionais praticamente sendo expulsas do palco por públicos hostis e sem paciência de esperar pelas atrações principais. O Sepultura nessa época era destruidor, não foi por acaso que conseguiriam tanto sucesso nos anos posteriores.   

O som durante o show do Sepultura deu umas emboladas, mas nada que preocupasse. E por esse motivo uma boa demora entre um show e outro ocorreu. Finalmente após o pessoal da técnica resolver alguns problemas, coube ao Max Cavalera apresentar o Nuclear Assault, que começou a toda com o batera Glen Evans espancando seus tambores, dando o ritmo para o lugar virar um caos, mas um caos legal. O Brasil pela primeira vez conhecia o thrash metal na sua essência. Anthony Bramante guitarra, Dan Lilker baixo e o maluco do guitarrista e vocalista John Conelly, não paravam por instante de pular e agitar. Muitas rodas se abriram e principalmente moshes rolavam soltos, para desespero dos seguranças, que tentavam ‘limpar’ o palco, mas Conelly a todo tempo exigia liberdade para ação dos seus fãs headbangers.

No set do Nuclear Assault as esperadas músicas de seus álbuns “Game Over”, “Survive” e “The Plague” com uma energia e intensidade indescritíveis. Um papo rolou na entrada entre o pessoal, que alguma música nova estaria no show, o que acabou não se concretizando, infelizmente, por que poucos meses depois o fantástico “Handle with Care” estaria nas lojas, sendo esse para muitos fãs, o melhor disco da banda.

No You Tube tem como assistir ao vídeo do show dessa noite editado, porém com todas as músicas, com mais ou menos 1h10 de duração. Eu comprei uma cópia em VHS do show dias depois do evento na Galeria do Rock. O legal desse vídeo é que, além de ser um registro importantíssimo, mostra fielmente como o povo abusava da liberdade de subir ao palco e dar os seus moshes à vontade. Tinha cara que não queria sair lá de cima, o que atrapalhava por vezes o show e o trabalho dos músicos, e claro, daí não tinha outro jeito, os seguranças tinham que agir.Na sexta as coisas correram até que bem, mas quem foi no sábado relatou que houve confusão antes do bis da banda e uma briga feia ocorreu durante a saída bem em frente ao Dama Xoc. Menos mal que no dia que eu fui, dentro do possível, tudo deu certo.

Saindo do Dama Xoc, às pressas para pegar o ônibus e não passar  a noite na rua, eu já me preparava psicologicamente para os próximos shows. Naquela altura já estavam confirmadas duas grandes atrações para julho e uma para agosto. A preocupação agora não era mais se lamentar pela falta de shows internacionais por aqui, mas sim como ir aos três eventos sem falir. Na próxima parte vamos falar do primeiro desses nomes, pois em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!

Nuclear Assault Brasil Tour ’89:

– São Paulo 19 e 20 de maio.

Ficou curioso para ver como foi? Pois aquele ‘piratão’ em VHS da apresentação do dia 19 que eu falei está no You Tube.