Testament pela primeira vez no Brasil.

Outra semana, outro capítulo do nosso especial que conta a saga dos shows internacionais por nossas paradas no fundamental ano de 1989. A essa altura aquele receio de acontecer algum furo já não era tão grande como antes e comprar um ingresso definitivamente não era mais uma aposta. E por falar em aposta, trazer um legitimo representante da Bay Area, particularmente me deixou bem animado e também me surpreendeu, pois o Testament não era exatamente muito conhecido por aqui e eu estava mesmo era curioso para saber o tamanho real do público, se iria superar o do Nuclear Assault.

Bom, mesmo antes da revista Rock Brigade em sua edição 37, de maio de 1989, chegar às bancas estampando em seu pôster central a boa nova, quem frequentava os pontos heavy já sabia sobre o evento marcado para primeiro de julho no ótimo Projeto SP. Em uma empreitada da Woodstock Discos e da Dynamo contando com o apoio de vários parceiros, e com o lançamento do, até então inédito, álbum “The New Order” pela gravadora WEA aqui no Brasil. Animava muito também a escolha do local para o show, um dos melhores de médio porte na época. Para engrossar a noite as bandas de abertura seriam o MX do ABC paulista e os mineiros da banda Overdose.

Com os shows bons se acumulando em um curto período de tempo a preocupação era não perder nenhum e não ficar pobre ao mesmo tempo. Para poder ir ao show do Testament eu comprei uma cortesia de uma das pessoas que iria trabalhar no dia do evento por um preço bem mais camarada, que me proporcionou poder comprar o LP “The New Order”, que foi lançado a tempo em relação ao dia do evento.

Era para rolar uma tarde para autógrafos na Woodstock Discos, mas acabou minguando, porém o vocalista Chuck Billy esteve na loja de forma muito descontraída sendo reconhecido por alguns e por outros não. É só dar uma procurada na web que existem registros fotográficos de alguns fãs ao lado do cantor. 

Importante reforçar que o Testament era bem conhecido apenas por uma parte dos que frequentavam os pontos heavy, afinal era uma banda relativamente nova na época. Com apenas dois discos e um EP ao vivo lançados e ainda inéditos por aqui (isso até o “The New Order” ser lançado pouco tempo antes do evento conforme eu já disse), o assunto relativo à banda que mais era comentado nos papos, era a estória relacionada ao vocalista “Zetro” Souza, que fez parte do grupo antes de ir para o Exodus, isso quando eles ainda se chamavam The Legacy. Então boa parte de quem foi ao show não conhecia todas as músicas dos trabalhos anteriores e o Testament ainda por cima, já tinha um novo LP pronto para ser lançado em agosto daquele ano, o álbum “Practice What You Preach”. Bom, eu dei todas essas voltas para dizer que o público no dia não foi para lotar a casa, mas foi um bom público, se você pensar que a popularidade deles não era como a de hoje.

Vamos ao dia do show. Era muito legal ir ao Projeto SP, bem localizado no bairro da Barra Funda aqui em Sampa, bom sistema de som e ótima visibilidade para o palco. Não tenho lembrança alguma em relação ao redor do local naquele dia ou sobre filas. Mas do show do MX eu tenho, pois foi o melhor que acompanhei dos meus vizinhos de ABC. E diferente de outras oportunidades, dessa vez o público mais curtiu do que reclamou de ter uma banda nacional na abertura, o que foi muito legal A bateria utilizada por eles – e que acabou sendo a mesma para todas as bandas, inclusive o Testament – era famosa, pois pertencia ao brother Tibério e o instrumento foi figurinha carimbada em diversos shows naquele tempo. Eu já comentei isso no ‘PRA FICAR!!!’ sobre o Kreator, mas vale a pena repetir, o álbum da banda MX, “Simoniacal”, é excelente. Se não conhece, deveria.

Depois daquela demora corriqueira de sempre eis que entra no palco o Overdose. Eu não era muito fã da banda, conhecia bem pouco de seus trabalhos e até por isso lembro-me pouco do show. Mas tem no You Tube para você que quiser dar uma conferida, e eu inclusive vou fazer o mesmo, quem sabe não reconheço meu cabelo no meio do pessoal do lado direito da grade, que é onde eu mais ou menos estava.

Chegava a hora da principal atração da noite. O som embolou um pouco, embora foi fácil reconhecer a magnífica “Into the Pit” que abriu o set. Diferente do show do Nuclear Assault, nada de moshes ou rodas, só muitas cabeças agitando e tentando acompanhar o ritmo do Testament. Os caras também eram moleques no bom sentido e por isso não paravam de agitar por um momento sequer. Concentraram o set em igualdade entre “The New Order” e seu primeiro LP, chamado de “The Legacy” e que eu não conhecia nada naquele dia, mas que já queria possuir a qualquer custo. Três músicas do futuro álbum foram apresentadas, mas sendo bem honesto só muito tempo depois descobri quais foram, mas a música “Practice What You Preach” ficou bem grudada na minha cabeça e no dia que comprei o álbum me lembrei dela na mesma hora. Um pena que durante o bis, o pessoal que estava na grade começou a querer subir no palco para alguns moshes, e uma parte do alambrado cedeu. Daí os seguranças, que invariavelmente gostavam de aproveitar situações como essas para bater até quem não merecia, foram para cima e o pau comeu algumas vezes. Tudo errado, todo mundo abusava do seu direito, de parte a parte, e no final todos estavam errados.

Na saída do show troquei algumas palavras com um casal de bangers que assistiram ao show próximo de mim. Eram cariocas e também tinham assistindo ao show do Testament no Circo Voador no Rio, dois dias antes. Eles me confidenciaram que a banda tinha sido muito ‘estrela’ com todos por lá. Eu achei estranho e por muito tempo comentei isso com conhecidos, inclusive com alguns que tiveram contato com os membros do Testament, que me disseram exatamente o contrário, salvo o baterista Louie Clemente, que desagradou a todo mundo, conforme descobri tempos depois.

Mas não tinha tempo para ficar pensando muito nesse assunto na volta para casa. Em poucos dias outro grande nome estaria desembarcando para mais shows aqui em Sampa e eu já estava com o meu ingresso comprado, afinal de contas, era uma lenda dos anos 70 que eu teria a honra de ver de perto dessa vez. E como já está mais do que claro, você já sabe, que em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!

Testament Brazilian Tour ’89:

Rio de Janeiro, 29 de junho;

São Paulo, primeiro de julho.

Setlist São Paulo

  1. Into the Pit
  2. The Preacher
  3. The Haunting
  4. Practice What You Preach
  5. Alone in the Dark
  6. The New Order
  7. Burnt Offerings
  8. Sins of Omission
  9. Trial by Fire
  10. Disciples of the Watch
  11. Greenhouse Effect
  12. Over the Wall
  13. Raging Waters

Ficou curioso para ver como foi? Pois no You Tube você pode conferir vídeos dos shows do MX, Overdose e do grande Testament em versões bucaneiras, é claro.