Uriah Heep pela primeira vez no Brasil.

Vamos para outro capítulo do nosso especial que conta a saga dos shows internacionais aqui no Brasil durante o fundamental ano de 1989, e dessa vez uma lenda do rock estava desembarcando, o Uriah Heep, via Metal produções, conforme anunciava em primeira mão mais uma vez a revista Rock Brigade.

Era uma banda que eu não queria perder de jeito nenhum e já tinha comprado o meu ingresso antes mesmo de ter ido ao show do Testament, conforme eu já relatei na parte IV do nosso especial “…PRA FICAR!!!”. Para situar bem para vocês, o show do Testament aconteceu no sábado, dia 1 de julho de 1989 aqui em Sampa e já na segunda-feira dia 3, os ingleses estavam desembarcando no Rio de Janeiro, para dois shows no Canecão, nos dias 4 e 5 de julho – ao todo foram seis datas, essas duas no Rio, três em São Paulo e uma em Belo Horizonte.

O Uriah Heep em 1989 não era o peso pesado dos anos 70 dos tempos do vocalista David Byron, que havia falecido quatro anos antes, mas tinha  recuperado boa parte do seu prestigio com o bom álbum “Raging Silence” de 1988, que proporcionou tours de enorme sucesso pelos países da então Cortina de Ferro, principalmente na U.R.S.S. onde foram tratados como super rockstars. Outro grande motivo para essa boa fase foi a entrada do excelente cantor Bernie Shaw, ex-Praying Mantis, que devolveu uma classe a banda que há tempos não possuía.

Paralelamente aos shows, o novo disco, o já citado “Raging Silence” e um ao vivo bem recente chamado “Live in Moscow”, deveriam ter sido lançados pela gravadora BMG em versões tupiniquins, mas sabe como é? Claro que as coisas não iam ser tão sincronizadas assim. Os dois discos foram lançados, mas apenas após a passagem do Uriah Heep, o que significou que as novas músicas, que fariam parte do setlist, ainda seriam desconhecidas da maioria dos fãs. Vamos falar disso mais adiante.

Como seriam três apresentações aqui em Sampa era preciso escolher o dia e comprar o ingresso e a minha opção foi o último dia, o domingo sete de julho. A justificativa é bem simples, eu trabalharia no sábado, o que me remete a uma lembrança muito desagradável. Como eu estava no trabalho, não pude comparecer a visita que alguns membros da banda fizeram a Woodstock Discos por volta da hora do almoço no sábado. Vários amigos, da onça, pois ninguém levou um vinilzinho para ser rabiscado para mim, estiveram presentes e me relataram que os músicos estavam de bom humor – como cada conhecido meu falava uma coisa diferente em relação a quais músicos estavam lá, certeza mesmo, eu só tenho que o baterista Lee Kerslake foi, por que vi uma foto dele na frente da loja tempos depois.

Os três shows paulistanos foram realizados na suntuosa casa de espetáculos chamada Olympia, que ficava no bairro da Lapa. O Olympia, sem dúvida alguma, foi o melhor local para shows que a Cidade de São Paulo já teve. Ótima visualização do palco de todos os setores, pois a pista possuía laterais mais altas, para a alegria dos bangers mais baixos que pagavam o valor do ingresso em determinados shows só para ouvir o som e assistir cabelos na sua frente. O som lá era um exemplo de qualidade, e com o passar dos anos, a casa se especializou em abrigar diversos nomes de relevância da música pesada, só para citar alguns, Black Sabbath com DIO, Scorpions, Megadeth, Rainbow, Pantera, Yes, etc.

Eu nunca tinha ido ao Olympia e como a casa abria as portas por volta das 17hrs, eu resolvi ir cedo. E ainda bem que fiz isso, pois a caminhada da estação de trem da Lapa até a Rua Clélia, 1617 era boa. Ao chegar lá fui logo bater aquele famoso ‘papo de fila’, e descobri com alguns milionários, que estiveram presentes também nos shows da sexta e sábado, que o público estivera bem aquém do esperado. Realmente eles não mentiram, pois pouco mais de 1200 pessoas na média compareceram durante os três dias, segundo informaram publicações posteriores.

Já dentro do Olympia lembro-me de ficar bobo com o luxo do lugar. Para quem estava acostumado ao Rainbow Bar lá no Jabaquara e achava o Projeto SP um lugar de primeiro mundo, o tal de Olympia então só poderia ser de outro planeta ou além. Realmente impressionava. Mas podia ser luxo ou lixo, show de banda de música pesada sem atraso ainda estava para ser inventado. O horário marcado para começar era as 19hrs, mas deu tempo para olhar para todos os detalhes da imponente casa umas duzentas vezes antes de Mick Box e companhia darem as caras no palco. Câmaras de TV com a logomarca da TV Manchete estavam posicionadas, o que era uma clara indicação de que o show completo, ou apenas trechos, seria filmado por algum motivo ainda desconhecido por todos naquele momento.

As luzes finalmente se apagaram e o Uriah Heep entrou em cena com a então nova música “Bad Bad Man”, que para minha surpresa, teve seu refrão cantado por uma boa parte do público. Eu não conhecia nenhuma das faixas do álbum “Raging Silence”, conforme expliquei a pouco e só pude pensar que, ou esse povo todo esteve nos shows da sexta-feira e sábado, ou tinham comprado o LP gringo.

A categoria da banda era evidente, backing vocals muito bem encaixados, posicionamento de palco muito bem marcado e simpatia para dar e vender, principalmente por parte do sorridente cantor Bernie Shaw e Mick Box, que tinha seu lado mais frequente no palco, como o mais concorrido pelos fãs. Os grandes clássicos estiveram presentes, é lógico, a começar por “Stealin’” cantada por todos, que obedeciam aos comandos de Shaw para bater palmas, inesquecível. A rápida “Too Scared to Run” colocou fogo no Olympia com um som limpo e bem equalizado, naquela hora eu já tinha certeza que não queria assistir a qualquer show em outro lugar que não fosse ali, no Bairro da Lapa.

Eu podia não conhecer o setlist todo, mas só de ter ouvido “The Wizard”, “Gypsy” e “July Morning” garantiu que o ingresso tenha se pago totalmente, que por sinal, me custou NCz$ 15,00 (quinze cruzados novos), mais que o dobro do preço em relação ao Kreator, coisas que só o tal do monstro da inflação podia fazer por você. O encerramento não poderia ter sido melhor ao vir com a paulada “Look at Yourself” e aquela sensação maravilhosa de poder dizer: Eu fui! … Eu vi!

Tempos depois em um sábado à tarde a TV Manchete passou um programa especial com algumas músicas capturadas nos dias dos shows, o que me poupou o dinheiro que iria gastar comprando alguma versão em VHS ‘bucaneira’ para a coleção. Esse especial pode ser encontrado infelizmente com uma má qualidade de imagens (que ajudaram a ilustrar esse nosso especial), no You Tube, mas vale o registro e por isso o link está à disposição no fim dessa matéria.

Pois é, 1989 já era de longe o melhor ano em termos de shows internacionais, mas ainda tinham coisas boas pela frente. Por intermédio da mesma produtora que havia colocado o Nuclear Assault em nossos palcos, era a vez de um grande do thrash alemão dar as caras por aqui no mês de agosto. E diferentemente dos furões do Kreator, esse veio mesmo. Pois como você que está acompanhando esse nosso especial já bem sabe, em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!

 

Uriah Heep Brazilian Tour ’89:

– Rio de Janeiro, 4 e 5 de julho;

– São Paulo, 7, 8 e 9 de julho.

– Belo Horizonte, 12 de julho.

Setlist do show do dia 9 de julho de 1989:

  1. Bad Bad Man
  2. Cry Freedom
  3. Stealin’
  4. Too Scared to Run
  5. The Other Side of Midnight
  6. More Fool You
  7. Blood Red Roses
  8. Mr. Majestic
  9. The Wizard
  10. July Morning
  11. Hold Your Head Up
  12. Rich Kid
  13. Gypsy
  14. Easy Livin’
  15. That’s the Way That It Is
  16. Lady in Black
  17. Look at Yourself

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)