MetallicA pela primeira vez no Brasil.

E chegamos ao capítulo final do nosso especial que conta a saga dos shows internacionais por nossas paradas no fundamental ano de 1989. Se até aqui procuramos narrar fatos sobre shows importantíssimos que consolidaram o Brasil como um local viável para eventos envolvendo bandas de todos os estilos dentro do universo da música pesada, a cereja do bolo ainda estava por vir. E acredite, era preciso.

Quando o LP “..And Justice for All” foi lançado em 7 de setembro de 1988, o Metallica quase que imediatamente se colocou na estrada para realizar uma tour gigantesca chamada de ‘Damaged Justice Tour 88/89’, que totalizou 219 shows em 22 países, sendo que o Brasil foi o local escolhido para as última três apresentações, o que dava um belo de um ‘cala a boca’ nos vários críticos que insistiam em afirmar, que as bandas ligadas ao rock pesado que recentemente tinham realizados seus shows aqui, eram todas decadentes ou sem algum prestígio significativo.

Quando o nome do maior nome do thrash metal mundial teve as datas e locais divulgados, 4 de outubro no Maracanãzinho no Rio, 6 e 7 de outubro no ginásio do Ibirapuera aqui em São Paulo, o discurso desses mau humorados mudou totalmente, pois haviam acabado todos os seus argumentos. O impacto foi tão grande e a banda já tinha tanta representatividade que no domingo anterior aos shows o programa Fantástico da Rede Globo deu uma chamada com ênfase para a chegada da banda, com uma crew de 18 pessoas, que acontecera no mesmo dia, mas sem deixar de dar aquela ‘mancada’ com uma das apresentadoras chamando o Metallica de ‘AMetallica, mas faz parte, na época eu meio que relevei, apesar de que era um cara muito mais radical e chato.

Em 1989 o Metallica aqui já era extremamente conhecido e respeitado – na verdade essa já era uma realidade desde 1984 – e com seus primeiros trabalhos, mesmo que com um bom atraso, sendo lançados em edições nacionais desde 1987. Assim muitos admiradores conseguiram ter em mãos os clássicos que por um bom tempo só possuíam em cópias de fitas K7. Diversos posters e revistas especiais sobre a banda estavam de tempos em tempos nas bancas e o número de seguidores não parava de aumentar. A procura era tão grande por parte dos fãs, que a demora fora de propósito para que o álbum “…And Justice for All” fosse lançado aqui, fez com que muitos bangers, como eu, comprassem a versão argentina do disco, que saiu logo em seguida em relação a americana.

A produtora responsável pela produção dos shows foi a WTR com divulgação da radio 89FM e apoio da Woodstock discos. Semanas antes dos shows era muito comum nos bate papos em alguns pontos heavy tradicionais surgir o assunto sobre qual ou quais bandas brazucas teriam a honra de abrir os shows desse importante nome. A resposta da produtora foi enfática. Nenhuma, pois o Metallica assim o quer. O problema é que na coletiva carioca, os músicos foram indagados a respeito do ‘veto as bandas nacionais’ e se mostraram surpresos e responderam que não sabiam absolutamente nada a respeito disso, que era coisa da organização e não deles. O tal do ‘veto’ veio da outra parte envolvida provando que mentira sempre tem pernas curtas.

Parte do equipamento e do set de palco completo, que era imenso, se tornaram inviáveis de se trazer para apenas três apresentações por motivos de logística e preço principalmente. A bateria de Lars não veio e seria, pelo menos nos shows paulistas, utilizada a do brother Tibério, aquela que foi comentada anteriormente em capítulos passados do nosso especial. A imponente e gigante estátua da justiça, talvez o principal adereço do set, também não veio.

O show carioca segundo os relatos da época recebeu o público de cerca de 5 mil pessoas e era esperado lotação completa para os de Sampa, fato que só ocorreu no show do dia 7, onde todos os 12 mil ingressos foram vendidos. Na sexta, também segundo as publicações da época, estiveram presentes por volta de 8 mil pagantes. Os músicos ficaram hospedados no Hilton Hotel onde alguns conhecidos meus fizeram vigília para conseguir algum autografo. E por falar em autografo existe um fato para lá de conhecido, mas não vou deixar de relatar, que foi a tentativa do James de dar um pulo na Woodstock Discos, mas a conversa vazou e centenas de bangers se aglomeraram na porta da loja a espera do ídolo para conseguir algum rabisco nos seus discos. O que aconteceu é que ele nem conseguiu descer do carro, mas dá uma procurada na web que você vai encontrar fotos do carro, um pedaço da cabeça do James lá dentro e relatos engraçados sobre isso tudo.

Eu não tive que me preocupar com o ingresso dessa vez, pois minha irmã me deu de presente uma entrada de setor arquibancada para o show do dia 7. A semana parecia eterna devido a ansiedade que eu sentia para chegar logo a hora e ver o Metallica no palco. De longe superou todos os demais eventos em que eu já tinha estado presente até aquele momento. Mas o dia chegou.

Pouco depois da hora do almoço eu já estava na fila na porta do ginásio do Ibirapuera e só restava esperar os portões abrirem bem mais tarde. Entre os obrigatórios e tradicionais bate papos para fazer o tempo passar, lembro-me de coversar com um cara que também estava na fila, que disse que era professor, e eu por pura bobagem de quem é jovem, achei uma coisa do outro mundo um cara usando camiseta preta de banda dizer que era um professor. Tanto achei estranho que pensei: ‘como assim, um professor?’ há ha.  Mas o motivo para não esquecer isso é que poucos anos depois eu também me tornei professor e continuei indo aos shows e tendo muitas oportunidades, em outros bate papos, de dizer que eu era educador. Vai saber quantas pessoas pensaram como eu naquele dia na porta do Ibirapuera e também se perguntaram: ‘como assim, um professor?’.

Já era noite quando a gente entrou no Ibirapuera e não tem como descrever de outra forma, o sentimento era pura emoção ao subir as escadas e deparar com o palco lá embaixo. A pista estava tão entupida de gente, como se fosse uma massa única, que parecia viva, se mexendo de um lado para o outro bem devagar. Vendo aquela situação fiquei contente de ter arrumado um bom lugar na bancada, com ótima visão e sem estar naquele aperto. Ah, uma coisa só me aborreceu legal. Na hora de passar pela catraca o funcionário que estava conferindo os ingressos em vez de ficar com a MENOR parte do ingresso, ficou com MAIOR (que tinha o nome da banda e tal) e só devolveu um pedaço bem pequeno, que tinha o número, data e preço – que foi de NC$ 35,00. Pra quem não liga para isso tudo bem, mas para quem guarda e coleciona, fez uma diferença tremenda.

Antes de prosseguir eu quero dizer uma coisa. Eu sou um felizardo, pois tive ao longo dos anos oportunidade de assistir a uma grande parte das bandas que eu tanto aprecio, mas em apenas três oportunidades realmente fiquei emocionado: agosto de 1992, Palestra Itália, Iron Maiden; janeiro de 1991, Maracanã, Judas Priest e nesse dia 7 de outubro de 1989. Bom, vamos falar do show.

Não tem como explicar em palavras a sensação que eu e a maioria dos presentes naquele dia no Ibirapuera sentiram quando as luzes se apagaram e a trilha de “Ecstasy of Gold”, a composição criada por Ennio Morricone para filme “Três Homens em Conflito”, começou a tocar. O barulho ensurdecedor que o público fazia só sucumbiu quando os primeiros rifes de “Blackened” tomaram conta do local. O que dizer de um setlist com “For Whom the Bell Tolls”, “The Four Horsemen”, “Master of Puppets”, “Fade to Black” e “Seek & Destroy”? Hoje após as inúmeras visitas da banda até parece trivialidade, mas naquela época, cada refrão, cada nota era como se fosse única e muito especial.

As cerejas do bolo ficaram para o final, principalmente a partir do primeiro bis com a introdução explosiva da então, recente “One”, seguida por “Creeping Death”, com todos cantando o refrão muito alto e o tijolo “Battery”, que colocou à prova a resistência da estrutura do Ibirapuera, que estava suportando bem até então, mas o melhor ainda estava reservado. Com muita descontração os músicos brincavam com a plateia e entre eles mesmos, o que refletiu no segundo bis onde podemos destacar a banda executando o clássico do Iron Maiden, “Prowler” e após uma nova brincadeira James assume a bateria e Lars, dando uma de Bruce Dickinson, vai para os vocais, e o Metallica então toca a melhor e mais bacana versão de “Am I Evil?” que eu vi na vida. Vale dizer que só viu isso tudo quem esteve na segunda noite. Ainda houve tempo para “Damage, Inc.”., “Blitzkrieg” e “Breadfan” e, após quase duas hora e meia de show, a missão estava cumprida por parte da banda e dos fãs presentes também.

Eu fico muito feliz que esse show tenha sido gravado em vídeo – do tipo bucaneiro, é lógico – pois é um registro de um dos dias mais felizes que vivi em um show. O Metallica era desde 1984, uma das minhas bandas favoritas e eu perdi a conta de quantas vezes assisti ao VHS e pude reviver vários momentos e lembranças daquela noite. Para a sorte de quem não tem uma cópia e também não estava lá no dia do evento, é possível encontra-la no You Tube e é claro que o link estará a disposição no final dessa matéria.

Uma última e importante lembrança que me vem à cabeça é que o transporte público paulista era muito mais eficaz e presente naqueles tempos, pois eu e o pessoal saímos do Ibirapuera bem depois da meia noite e nem por isso passei a madrugada na rua, pois houve tempo de voltar para casa tranquilamente.

Na terça-feira seguinte o Metallica já tinha embarcado para sua casa, mas eu ainda estava no clima do show e para comemorar – na verdade para completar a coleção – comprei o EP da faixa “One”, que havia sido lançado em edição nacional em virtude da passagem da banda pelo país, mas sobre esse EP em particular nós vamos falar mais detalhadamente em outra oportunidade no nosso ‘Sugestão do Dia’.

E agora? Os shows em 1989 acabaram? Os internacionais sim, mas nós tínhamos ficado muito mal acostumados e queríamos mais e mais. Alimentando essa esperança a Rock Brigade em sua edição de outubro falava da possibilidade de um final de ano dos sonhos, com DxRxI, Badlands e Megadeth para o mês de dezembro. Mas infelizmente ficou tudo no campo da especulação mesmo. No final das contas o DxRxI veio, só que em 1990 e o Megadeth em 1991 na segunda edição do Rock in Rio. Uma pena foi a superbanda de Jake E. Lee e Ray Gillen nunca ter dado uma passada por aqui.

Tudo bem que esses nomes, pelo menos para 1989, ficaram só nas especulações mesmo, mas 1990 iria começar em alto estilo com um nova edição do festival Hollywood Rock, que em sua primeira empreitada no ano de 1988, ignorou totalmente a música pesada e suas vertentes mais importantes. O preço pago foi um evento morno e com público aquém do esperado. Para corrigir esse erro, a aposta caiu sobre dois nomes: os ingleses do Marillion e o Bon Jovi, que na época era uma grande banda de Hard Rock (nada a ver com esse arremedo de banda pop que excursiona por ai desde o final dos anos 90). Trazer o Bon Jovi em 1990 equivaleu ao que foram as visitas do Guns‘n Roses em 91 ou Metallica em 93, tamanha a expectativa de público.

Esse e outros eventos pertinentes ao ano de 1990 nós vamos abordar a fundo, não se preocupe, pois o “…PRA FICAR!!!”, que contou tudo sobre os shows do importantíssimo ano de 1989 vai continuar relatando e, principalmente relembrando agora, os principais shows internacionais da década de 90. E na próxima semana é dia de falar do Festival Hollywood Rock 2 , pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!”.  

Damaged Justice Tour 88/89 (Brazil Leg):

Rio de Janeiro, 4 de outubro;

São Paulo, 6 e 7 de outubro.

Setlist do show do dia 7 de outubro de 1989:

  1. Blackened
  2. For Whom the Bell Tolls
  3. Welcome Home (Sanitarium)
  4. Harvester of Sorrow
  5. The Four Horsemen
  6. Master of Puppets
  7. Fade to Black
  8. Seek & Destroy
  9. …And Justice for All

Bis 1:

  1. One
  2. Creeping Death
  3. Battery

Bis 2:

  1. Prowler
  2. Am I Evil?
  3. Damage, Inc.

Bis 3:

  1. Blitzkrieg
  2. Breadfan

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)