“Finalmente”

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Ano novo e já é tempo de colocar o “…PRA FICAR!!!” em dia. Na semana passada revivemos um dos maiores eventos da primeira metade dos anos 90 aqui no Brasil, que foi a segunda visita do Metallica e hoje o thrash metal será o foco com a primeira passagem do Anthrax pelo nosso país, também no ano de 1993. A grande popularidade da banda com os headbangers brazucas ficou mesmo no final da década de 80, mas após alguns anúncios frustrados no passado, finalmente a trupe de Scott Ian chegaria ao continente do Mercosul  e com muitas novidades. Mesmo sem causar o impacto de um Metallica, os fãs existiam e estariam presentes.

A divulgação das datas a principio foi equivocada e só realmente confirmada corretamente poucos dias antes da chegada dos músicos. Mas no final das contas São Paulo ficou com os dias 14 e 15 de junho, com os shows marcados para o imponente Olympia, na zona oeste de Sampa, dia 16 no Rio de Janeiro na casa de shows Imperator e o giro sul americano se encerrou em Buenos Aires no dia 19. A apresentação portenha se realizou no estádio Obras e a abertura ficou por conta da banda local chamada Lethal. Já nos três shows brazucas, o Anthrax teve como banda de apoio o P.U.S., que estava em sua melhor fase da carreira.

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Um dos maiores ícones do thrash metal vivia uma fase de transição nessa época com a entrada do novo vocalista, o ex-Armored Saint, John Bush. Eles também traziam debaixo do braço um trabalho novo em folha, o álbum “Sound of White Noise”, que havia sido lançando em 25 de maio. Esse disco recebeu um grande aporte por parte da gravadora Elektra, com anúncios sendo amplamente publicados em todas as principais revistas especializadas e o primeiro single, para a faixa “Only” sendo muito executado nas MTVs de todo o mundo, inclusive na nossa. “Sound of White Noise” foi quase que simultaneamente lançado aqui no Brasil pela gravadora WEA em relação aos países do primeiro mundo em versões em K7, LP ao preço de CR$ 350.000,00 e CD custando um pouco mais, CR$ 700 mil.

Por falar em dinheiro a inflação continuava a todo vapor e o valor de um ingresso de pista para uma das duas apresentações aqui na capital paulista não saiu por menos de CR$ 600.000,00. Para se ter uma ideia, uma revista Rock Brigade, vamos pegar a edição número 83 de junho de 1993 como exemplo, que tinha na capa o guitarrista do Anthrax, Scott Ian, custava CR$ 100.000,00. E vamos lembrar que esse valor da entrada só era possível, pois as apresentações seriam em uma segunda e terça, dias de semana e quando o aluguel do Olympia era mais em conta.

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Os ingressos nessa oportunidade se limitaram a dois pontos de vendas: as bilheterias do Olympia e a Woodstock Discos. A famosa loja além de disponibilizar as entradas e o novo álbum em todos os formatos, estava divulgando uma novidade muito aguardada pelos fãs. Na tarde do dia 15 de junho, todos os integrantes do Anthrax estariam presentes na loja para distribuir alguns rabiscos. Sobre a apresentação da noite do dia 14 e essa tarde de autógrafos, já já conto tudo mais detalhadamente, pois estive presente em ambos.

O Anthrax estava com tudo programado para desembarcar as oito da manhã do dia 13 de junho, um domingo, no aeroporto de Cumbica, segundo os jornais tinham divulgado, no voo RG-843, mas essa informação foi propositalmente divulgada de maneira errônea, pois a banda não queria ser perturbada durante a chegada. Eles desembarcaram apenas no final da tarde a fim de preservar as horas de descanso e foram direto para o hotel. Por falar em jornais, eles já vinham divulgando á semanas o evento e o Caderno 2, um suplemento cultural do matutino O Estado de São Paulo, publicou uma entrevista com o guitarrista Dan Spitz. Já a Folha de São Paulo dias depois imprimiu em suas páginas uma crítica sobre o novo disco, assim como o Diário do Grande ABC.

A coletiva de imprensa estava agendada para a segunda, no mesmo dia da primeira apresentação do giro. A banda estava com pressa, pois queria passar o som e também se livrar de perguntas bobas, principalmente as feitas na maioria das vezes por fãs disfarçados de jornalistas. Para piorar a intérprete não era muito do ramo o que só ajudou a bagunçar ainda mais a situação. Com isso e poucas novidades na pauta os jornais se valeram muito de noticiar a entrada do novo vocalista e o novo disco, além de publicar o serviço tradicional de pré-show, com as informações corriqueiras (preço, local, horário, etc).

A entrada de John Bush fez bem ao conjunto, visto que era notório o desgaste da fórmula, que deu tão certo nos anos 80, e a relação de Joey Belladonna com seus ex-companheiros. “Sound of White Noise” soava vivo, atual e renovado. A força de canções como “Only” e “Room for One More” eram perceptíveis, realmente animadoras e o Anthrax parecia ter tirado de letra a sempre complicada missão de substituir um frontman. O que na época ninguém se dava conta, na verdade nem imaginava, era o quanto o conjunto precisava do guitarrista solo Dan Spitz para manter sua essência principal. Quando Spitz deixou a banda no ano seguinte é que se viu o tamanho do buraco que o Anthrax se enfiou por um longo tempo, com sua identidade sonora sendo totalmente comprometida e nunca mais soando como em seu ápice. Mas que fique claro que isso nunca foi culpa da entrada de John Bush, como costumavam dizer alguns.

Optei pela apresentação do dia 14 justamente para não perder a tarde de autógrafos do dia 15. Meu plano era assistir ao show na segunda tranquilamente e na terça ir buscar meus rabiscos. Estive na sexta anterior (dia 11 de junho) na Woodstock Discos para comprar meu ingresso – que na impressão estava constando o nome da banda como ‘Antrax’, sem a letra H, sendo esse um erro imperdoável… que vergonha –  e minha cópia de “Sound of White Noise”. Em 93 eu já tinha migrado 90% das minhas compras de discos para o formato CD, mas nesse caso para garantir assinaturas mais visíveis optei pela compra da versão em LP. Eu nem levei o LP para casa naquele dia, apenas paguei e combinei de pegar minha cópia durante a tarde de autógrafos, apenas para facilitar a manobra. Com tudo combinado com meus amigos da loja, era só aguardar o final de semana passar e aproveitar os dois dias de Anthrax. E por falar no final de semana, esse seria mesmo inesquecível. Fez um frio terrível naqueles dias, lembrança bem viva na memória, pois dia 11 o pessoal da minha classe da faculdade organizou um ‘churras’, o primeiro da turma e no dia seguinte o Palmeiras se sagraria campeão paulista de 1993. Como bom palmeirense que sou posso afirmar que nunca fui tão feliz para um show como aquele do Anthrax, pois são muitas boas lembranças a respeito daqueles dias, he he.

Evento de segunda é estranho? Mas que nada, entretanto não sei se foi o forte frio ou o dia da semana, mas o público não foi o esperado. As publicações da época divulgaram os números por volta de mil e quinhentas na segunda e duas mil na terça. Talvez se estivéssemos em 1989 a plateia seria bem maior, quem sabe? O que eu posso dizer é que cheguei ao Olympia no meio da tarde e  foi o suficiente para garantir um lugar no meu local preferido da casa, junto a grade bem no canto esquerdo do palco. Apesar de não estar com minha cópia do novo álbum ainda em mãos – eu só ia pegar meu LP no dia seguinte – eu conhecia as novas músicas graças a uma fita K7 gravada por um grande amigo meu. A abertura como eu citei anteriormente ficou por conta da banda oriunda do Distrito Federal, o P.U.S. e olha, é preciso ressaltar que eles fizeram uma ótima apresentação. Estavam em plena divulgação do split álbum “Third World/XXX”, que tinham lançado em parceria com os mineiros do Sextrash. Destaque para a, com seu então nome na época, Simone Death e seus rifes. Os costumeiros covers do S.O.D e Slayer foram muito bem aceitos pelo público, que ficou pronto para os hits ‘made in Anthrax’.

O Anthrax apesar de abrir a noite com duas do novo disco, as faixas “Potters Field” e “Only”, fez a casa quase vir abaixo tamanha a recepção calorosa que a banda recebeu. O refrão de “Only” foi cantado a plenos pulmões por todos os presentes, isso muito graças a exibição constante do vídeo na MTV Brasil. Mas é óbvio que os clássicos como “Caught in a Mosh”, “A.I.R.”, “In My World” e “Indians” (sem nenhum cocar no palco) foram muito mais comemorados. O instrumental foi fantástico e o John Bush se mostrou muito a vontade não só com as músicas novas. Minha principal lembrança é a execução de “Keep It in the Family”, um dos meus rifes prediletos do Anthrax, que foi por muito tempo nos anos 80, uma das minhas bandas favoritas. Assisti-los bem de perto, mesmo sem Belladonna na formação, foi algo muito especial, até por que eu também sempre fui um grande fã do Armored Saint e admirador do John Bush. Um vídeo ‘bucaneiro’ do dia 14 podia ser encontrado nas locais de sempre alguns dias depois e nele além do show completo, algumas imagens da tarde de autógrafos. Infelizmente essa versão não está no You Tube em sua totalidade, mas se você encontrar uma cópia disponível em algum lugar agarre a sua, pois vale a pena. Terminada a apresentação deu tempo de comprar uma camisa na porta como recordação e que serviria de uniforme para o dia seguinte.

O show tinha sido nota 10, mas ainda constava na minha agenda a intenção de comparecer na tarde de autógrafos no dia seguinte (dia 15) e lá fui para a Woodstock Discos em busca de uns rabiscos. Eu já tinha um LP “Sound of White Noise”, como vocês já sabem, e levei o álbum do Armored Saint, “Symbol of Salvation” para o John Bush assinar. Quando cheguei a fila estava pequena, mas com o passar do tempo ela aumentou consideravelmente e estiveram presentes muitos fãs do Anthrax. Por causa da amizade com o pessoal da loja, eu fiquei o tempo todo, antes mesmo dos músicos chegarem, dentro do recinto e bem tranquilo. Deu para tirar várias fotos e vou deixar algumas delas no final com uma parte desse material. Todos se mostraram muito solícitos, mas como não poderia ser diferente, era bem rápido o contato com os fãs. Mesmo assim deu tempo de trocar algumas palavras com John Bush que se mostrou muito contente ao notar o disco do Armored Saint em minhas mãos. Eu disse que lamentava muito pela perda do guitarrista Dave Prichard (o principal nome do Armored Saint que havia falecido em 1989) e ele agradeceu, e me perguntou se ia ao show logo mais. Respondi rapidamente que tinha ido na apresentação da noite anterior, e bota rapidamente nisso, pois devido a quantidade de fãs na fila não dava para ficar conversando. Enquanto esse papo rápido rolava Charlie Benante rabiscava (no sentido literal da palavra) meu LP do Armored Saint, mas tudo bem. As fotos com ele e com o Scott Ian foram as que ficaram melhores, pois nessa época não tinha fotos digitais ou imagens captadas por um celular. Você só descobria como as fotos ficaram, e se ficaram, após a revelação. Discos assinados, imagens captadas, missão cumprida. Dali mesmo eu já iria direto para faculdade, já tinha dado cano na segunda feira, não ia perder outro dia de aula. Coisa muito séria se tratando de um aluno do primeiro semestre.

Depois da visita a Woodstock Discos, a banda fez sua segunda apresentação no Olympia e no dia seguinte foi á vez do Rio de Janeiro, e em seguida rumaram para a Argentina. Fora do VHS pirata que eu já citei anteriormente, poucas foram as imagens divulgadas e a TV ignorou a passagem do Anthrax, exceto a MTV Brasil, que noticiou a presença da banda no Brasil e divulgou uma breve entrevista no programa Fúria Metal.

O intervalo entre os grandes shows internacionais tinha ficado menor mais uma vez e dois nomes bem distintos já estavam sendo especulados para o segundo semestre de 93. O primeiro deles seria o Bon Jovi, retornando para uma apresentação solo dessa vez e em grande estilo, já que mais uma vez se apresentariam em um estádio, o do Pacaembu. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Anthrax no Brasil (1993):

– São Paulo: 14 e 15 de junho;

– Rio de Janeiro: 16 de junho.

 Setlist do dia 14 de junho:

1.Potters Field

2.Only

3.Caught in a Mosh

4.Got the Time

5.Room for One More

6.A.I.R.

7.Efilnikufesin (N.F.L.)

8.Keep It in the Family

9.C11h17n202sna (Sodium Pentathol)

10.Hy Pro Glo

11.In My World

12.Antisocial

13.Bring the Noise

14.Indians

15.I Am the Law

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)