“Inesquecível”

Na última semana contamos para você caro leitor, tudo sobre a segunda – e a melhor entre todas – visita do ‘Mr. Silver Voice’, pelo Brasil no ano de 1992 e hoje o “…PRA FICAR!!!”, vai relatar tudo a respeito da primeira passagem do Black Sabbath pelo Brasil em junho do mesmo ano. E não foi um fato qualquer, pois além de ser nosso primeiro contato com os criadores do heavy metal, a formação na época era de causar lágrimas em qualquer fã da banda. Tony Iommi, o grande responsável por manter o legado da mítica banda britânica sempre na ativa, estava acompanhado de seu escudeiro Geezer Butler, Vinny Appice e ninguém menos que o MESTRE, Ronnie James Dio. E não vamos nos esquecer do também muito importante ‘membro por de trás das cortinas’, o grande tecladista Geoff Nicholls.

A tour do Black Sabbath foi confirmada semanas antes dos shows e a principio algumas datas foram veiculadas com shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte, inclusive em um anúncio de página inteira na revista Bizz em sua edição de maio de 92. Mas naquele tempo os ingressos eram colocados a venda quase em cima da hora dos eventos na maioria das vezes e só daí mesmo para se ter alguma certeza sobre a confirmação das datas ou não. No final das contas as datas realmente confirmadas excluíram as capitais de Minas Gerais e Paraná (inclusive essa data caiu já quando a banda estava aqui no Brasil) ficando da seguinte forma: três apresentações aqui em Sampa nos dias 23, 24 e 27 de junho; Rio de Janeiro nos dias 29 e 30 e dia primeiro de julho seria a vez de Porto Alegre. Com o cancelamento da data de Curitiba que estava prevista para o dia 26, a Mercury, a responsável pelo giro, incluiu mais um data para a cidade da garoa, dia 25 no Olympia. Por sinal a imponente casa de shows paulistana também seria a anfitriã nos dias 23 e 24; e o estádio do Ibirapuera (não confundir com o ginásio que se localiza no mesmo complexo esportivo) abrigaria o evento do dia 27. Sobre os dias 24 (Olympia) e dia 27 (Ibirapuera), vamos, como de costume, falar mais adiante, pois foram nessas datas que eu tive o privilégio e a honra de assistir a esses mitos ao vivo.

Graças á quantidade expressiva de nomes internacionais frequentando nossos palcos desde 1989, quando se divulgou que o monstro Black Sabbath finalmente viria, os headbangers brazucas só tinham motivos para comemorar. Se a frustrada não vinda no final de 89 não chegou a causar uma comoção geral, dessa vez a coisa era bem diferente e muito mais chamativa. Em primeiro lugar a banda viria com uma das suas line-ups mais festejadas e queridas por boa parte dos ‘sabbamaníacos’, a que gravou o mágico disco de 1981, “Mob Rules”. Mas ainda tinha mais. O Black Sabbath tinha debaixo dos braços um novo disco gravado por essa mesma formação, o sensacional “Dehumanizer”, que estava programado para sair do forno um dia antes da banda pisar no palco do Olympia pela primeira vez e iniciar a tour tupiniquim. Se você é um bom entendedor já se ligou que o Brasil teve a honra de ser o primeiro país do planeta a ver de perto a reunião do Iommão e Dio, desde a separação e os bate bocas por causa dos supostos problemas durante a mixagem do duplo ao vivo “Live Evil” de 1982. Mas esse assunto, a saída do Dio do Sabbath em 82, vamos deixar para outro dia, pois o foco aqui é a volta de Dio a banda e a passagem pelo Brasil.

Mesmo com o novo trabalho só estar disponível muito próximo ás apresentações, algumas músicas vazaram e foram divulgadas em programas de rádios especializados – não tinha internet para fazer o trabalho naquele tempo –  além do single/clipe para a faixa “TV Crimes”. A impressão era das melhores com o som mágico e brutal da fase mais pesada que o Sabbath viveu estar de volta a ativa. Outra grande noticia era a confirmação do lançamento de “Dehumanizer” simultaneamente nos Estados Unidos, Europa e Brasil.

A revista Rock Brigade em sua edição número 71, que foi publicada em junho de 92, alguns dias antes da banda chegar ao Brasil, trazia o mestre Dio em sua capa e uma entrevista com o cantor, além de um review sobre o novo álbum. Os jornais também começaram a divulgar as datas e a solicitar entrevistas. Entre as várias que a banda concedeu antes de sua chegada, uma publicada no dia 9 de junho pelo jornal O Estado de São Paulo em seu Caderno 2 (um espaço do matutino dedicado a cultura e lazer), chamou atenção negativamente pelo total desconhecimento do autor da matéria sobre a banda, que usou uma foto ilustrativa com Ozzy Osbourne e Bill Ward, em vez de uma com a formação que chegaria ao Brasil em poucos dias.. O titulo era ‘Sabbath chega mais morto do que vivo’ e reflete perfeitamente a falta de empatia, para não dizer má vontade mesmo, pois desde que se divulgou a volta de Dio, era uma posição unânime da crítica especializada mundial, que o Black Sabbath estava mais vivo do que nunca.

Como o Brasil era o primeiro passo da tour de “Dehumanizer”, os integrantes da banda se encontraram aqui em São Paulo chegando em duas etapas. Por volta da uma da manhã do domingo, dia 21 de junho de 1992, Vinny Appice e Dio desembarcam no aeroporto de Cumbica, recepcionados por representantes da imprensa especializada e alguns felizardos fãs, que conquistaram seus troféus na forma de fotos e autógrafos. Horas depois foi a vez do staff completo chegar ao lado de Tony Iommi, Geezer Butler e Geoff Nicholls. A coletiva de imprensa estava agendada para segunda-feira, dia 22, ao meio dia no Maksoud Hotel Plaza, localizado no centro da capital paulista, e ali teve de tudo um pouco, desde jornalistas estrangeiros, jornalistas brasileiros, jornalistas não especializados, fãs e bicões. O Caderno 2 esteve presente e mostrando consistência no seu ponto de vista em relação ao Black Sabbath, publicou como título em sua matéria sobre a coletiva a seguinte frase: ‘Sabbath não veio possuir crianças’. Dio, sempre muito bem articulado e educado, contornou as perguntas mais absurdas e o restante da banda se portou da mesma forma. Logo mais a noite, era hora de conhecer o local da primeira apresentação e se preparar para a longa tour que estava apenar por começar.

Durante três noites (23, 24 e 25) a icônica banda se apresenta no suntuoso Olympia para um público médio de três mil fãs em cada noite. O programa Metrópoles, que era exibido ás noites na TV Cultura-SP gravou algumas palavras com o vocalista Dio e passou dois breves trechos ao vivo do show da terça feira. O dia 26 não tinha show marcado, mas era hora de trabalhar em outras frentes e dessa forma a banda completa fez uma visita aos estúdios da MTV Brasil, onde concedeu uma entrevista exclusiva, que foi apresentada dias depois no programa especializado da emissora, o Fúria Metal. No dia seguinte era vez de realizar a apresentação para o maior público do giro brasileiro no estádio do Ibirapuera. Com a abertura da banda Viper, que se apresentou por pouco mais de meia hora, o Black Sabbath fez mais de trinta mil fãs vibrarem com mais uma ótima performance. Depois era hora de seguir para o Rio de Janeiro, onde o Sabbath fez dois shows no conhecido Canecão e encerrar seus compromissos em nosso país com o show no Gigantinho em Porto Alegre. Sobre os shows no Rio é preciso fazer um adendo. As apresentações foram gravadas na integra pela então TV Manchete, que já havia feito o mesmo durante as passagens do Uriah Heep e Motorhead pelo Brasil em1989. Só que devido a um descumprimento do acordo com o canal, o vídeo do show não foi ao ar e acabou sendo ‘engavetado’. Felizmente um funcionário, por alguma razão que não vem ao caso, conseguiu fazer uma cópia da apresentação e pouco tempo depois, uma cópia dessa cópia podia ser adquirida em uma determinada loja localizada na Galeria do Rock. Eu consegui a minha com certa dificuldade, mas hoje em tempos de You Tube, tudo é muito fácil e é lógico que um link com essa maravilha está a sua espera no final dessa matéria, como de costume.

Bom, vamos agora detalhar melhor a apresentação do dia 24, que foi a minha escolha por duas razões fundamentais: eu nesse dia iria de carona e para deixar tudo ainda mais perfeito, dois amigos iriam passar o dia na porta do Olympia, garantindo a boa possibilidade de se conquistar uma grade na hora do show. Minha parte no acordo era simples, ir atrás dos ingressos para os dois dias, já que a ideia era ver o Black Sabbath bem de perto no Olympia e apenas aproveitar o show do sábado no Ibirapuera. Os preços foram: Cr$ 40.000,00 a pista para o show no Olympia (o dobro do valor que eu tinha pago para ver o Gillan um mês antes no mesmo local) e CR$ 25.000,00 a arquibancada no estádio do Ibirapuera. Graças aos bons contatos com o pessoal da Woodstock Discos, nunca peguei uma fila ou fiquei sem ingresso, quando eles eram os responsáveis pelas vendas. E não foi diferente dessa vez, tanto que meu ingresso de pista para o dia 24, é o número 39 e fui busca-lo, junto aos demais pertencentes aos meus amigos, só no dia 23 e de quebra trouxe minha cópia em CD do “Dehumanizer”, que só não furou de tanto tocar naqueles dias por que não era feito de vinil.

O plano funcionou muito bem e graças ao esforço dos amigos que passaram o dia todo segurando um ótimo lugar na fila, pudemos estar entre os primeiros a adentrar na casa, mas não o suficiente para ficar no meio ou do lado do Iommão. Mas ficar na grade bem de frente ao Geezer foi incrível e o mestre Dio toda hora passava perto de nós e pudemos ter a honra de receber cumprimentos da lenda por mais de uma vez. No Olympia não teve show de abertura e tudo correu de forma perfeita como de costume. Apesar de ser a primeira visita da banda ao Brasil não houve um setlist especial ou algo do tipo, até por uma questão de bom senso. Eles estavam iniciando a tour e era preciso, vamos dizer assim, engraxar as engrenagens, pois um longo caminho estava pela frente. Dessa forma as músicas do excelente “Dehumanizer” previstas para serem apresentadas ao longo da tour foram executadas, felizmente. “Master of Insanity” e “I”, mesmo não sendo conhecidas por todos os presentes, foram destaques. A respeito dos clássicos eu só posso definir como momentos mágicos, pois presenciar a poucos metros, um dos maiores cantores da história do heavy metal interpretar “Children of the Sea”, “Die Young”, “Heaven and Hell” e “Neon Knights” é algo que ficará gravado em minhas lembranças para sempre. Foi uma noite memorável.

Obviamente durante o restante da semana o CD de  “Dehumanizer” não saiu do aparelho de som nem por um instante e no sábado eu já estava ainda mais acostumado, e curtindo as novas músicas. A grande vantagem de ter assistido ao Sabbath na quarta-feira, é que pela primeira vez, pelo menos eu, fui muito tranquilo para um grande show, sem aquela habitual e tradicional ansiedade. Os portões estavam programados para abrir ás 17 horas, mas como nós íamos de carro e ficar na arquibancada, foi um consenso não ir muito cedo, até porque sempre rolava algum atraso em shows de grande porte. E não deu outra, pois chegamos ao poliesportivo do Ibirapuera depois das seis e os portões ainda permaneciam fechados. Muita gente nas imediações, alguns que aparentavam ter abusado do álcool durante boa parte do dia e provavelmente esperavam curtir muito a atuação do Ozzy durante o show, hehe. Estava noite quando nos instalamos e só restava esperar o Viper fazer sua parte. Em 1992 a banda dos irmãos Passarell já não contava com o André Matos nos vocais há um bom tempo e tinha seguido em frente. O conjunto estava com um novo disco em mãos, o álbum “Evolution”, e aproveitaram o curto set para apresentar algumas músicas novas, assim como a clássica “A Cry from the Edge”, que funcionava bem melhor com seu interprete original. Após uma longa espera o Black Sabbath invade o palco repetindo exatamente o mesmo set que eu tinha assistido durante a semana no Olympia. A categoria e performance dos músicos também foram iguais, o diferencial ficou por conta do som com  qualidade inferior em relação ao que o Olympia, sempre perfeito, ofereceu. Mas ai não foi por culpa da banda, é claro. Particularmente, assistir ao show mais longe e já sabendo o que esperar me permitiu prestar atenção em detalhes que haviam me escapado anteriormente, como as inserções que o tecladista Geoff Nicholls proporcionava em algumas músicas. Quem diria, hein? Assistir ao Black Sabbath, com DIO, duas vezes na mesma semana. Eu (assim como os demais que fizeram o mesmo) posso me considerar um felizardo. Os jornais enalteceram as apresentações de Dio, Iommi, Butler e Appice em São Paulo, inclusive o Caderno 2, que publicou: ‘Black Sabbath eterniza tradição do metal’, com um foto do sorridente Dio no destaque.

O ano de 1992 ainda reservava fortes emoções para os roqueiros brasileiros, pois a banda de heavy metal mais amada pelos bangers tupiniquins, estava fazendo as malas para desembarcar no começo de agosto, pouco mais de sete anos e meio após o histórico show no primeiro Rock in Rio. A tour do então recém-lançado disco “Fear of the Dark” iria trazer o Iron Maiden ao Brasil mais uma vez e de forma inédita ao estado de São Paulo, com a apresentação confirmada para o estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras. E semana que vem vamos contar tudo o que rolou nessa inesquecível passagem da Donzela de Ferro pelo nosso país, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Black Sabbath brazilian tour (1992):

São Paulo: 23, 24, 25 e 27 de junho.

Rio de Janeiro: 29 e 30 de junho;

Porto Alegre, 1 de julho.

Setlist básico das apresentações:

Intro –  E5150

  1. The Mob Rules
  2. Computer God
  3. Children of the Sea
  4. Time Machine
  5. War Pigs                                                                                                                                                      
  6. I
  7. Die Young (with Guitar Solo)
  8. Black Sabbath
  9. TV Crimes
  10. Master of Insanity (Drum Solo)
  11. Iron Man
  12. Heaven and Hell
  13. Neon Knights
  14. Paranoid

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)