“Mais pop do que nunca”

O ano novo já nem está tão novo assim, pois outra semana se passou e é hora de um inédito capitulo do nosso “…PRA FICAR!!!”. E se na semana passada foi uma oportunidade de passar a limpo a primeira visita do Anthrax por nossa querida terrinha, hoje vamos deixar o thrash de lado e reviver um pouco uma grande fase do pop, ou melhor, vamos contar como foi o show único que o Bon Jovi realizou no Brasil em sua segunda passagem pela America do Sul.

Na oportunidade em que tratamos aqui no “…PRA FICAR!!!” a respeito da segunda edição do festival Hollywood Rock em 1990, eu procurei retratar como a banda de Jon Bon Jovi era reconhecida como um grande expoente do hard rock mundial na época e de como o público roqueiro se fez presente, principalmente no dia da apresentação aqui na capital paulista. Três anos depois as coisas estavam bem diferentes daquele panorama, pois o álbum “Keep the Faith”, lançado em 3 de novembro de 1992, colocou  a banda de Nova Jersey com um pé e meio dentro do estilo pop, apesar de que o guitarrista Richie Sambora se fazia representar garantindo bons rifes e solos. Esse começo de mudança no direcionamento musical iniciado no trabalho de 1992, logicamente acarretou proporcionalmente, que um novo perfil de fãs fosse incorporado e com o passar dos anos os apreciadores do bom e velho hard, acabariam jogando a toalha. Mas isso só aconteceu mesmo mais para frente, pois a banda ainda teria fôlego para um último álbum decente com uma boa relação com o estilo que abraçou no inicio de sua carreira e esse assunto nós vamos tratar em outra oportunidade.

Com a produção da Waterbrother a data única da tour ‘I’ll Sleep When I’m Dead’ no Brasil foi agendada para o feriado de 15 de novembro e o local escolhido o estádio do Pacaembu em Sampa. A venda dos ingressos foi uma exclusividade da rede de lojas C&A e a promoção da 89FM. Ainda como parceiros na empreitada, a produtora contou com a revista ShowBizz (que era a velha Bizz com seu nome novo), o jornal Folha de São Paulo, o 150 bingo club e a Gabisom. O Bon Jovi chegaria no dia da apresentação vindos da Argentina, concederia uma coletiva de imprensa, faria seu papel e já rumaria direto para a America do Norte para continuar sua tour. Esse é do tipo de planejamento que não permite erro algum. Mas essa correria não impediu que alguns músicos fossem gentis e por isso a revista Rock Brigade conseguiu conversar com o baterista Tico Torres. Já a apresentadora Bruna Lombardi entrevistou Jon antecipadamente nos Estados Unidos para seu programa chamado Gente de Expressão, que era transmitido pela TV Manchete, e o transmitiu na semana do show. Essa entrevista rende assunto até hoje entre as fãs do Bon Jovi, pois a Bruna teria levado uma cantada do músico. Se quiser conferir o link com a entrevista está lá no final dessa matéria, como de costume.

Há pouco eu citei que essa passagem do Bon Jovi estava aliada com pop e isso não era só por causa do novo perfil dos fãs da banda. Tudo o que se referia a venda do produto final, o show, usava e abusa dessa alcunha denominada pop. O disco “Keep the Faith” era tratado pela revista ShowBizz como um mix de rock e de pop bem sucedidos. Já a edição do suplemento intitulado Cola, do matutino O Estado de São Paulo em sua edição de 4 de novembro de 1993, estampava uma foto da banda em sua capa e na matéria correlacionava a apresentação da banda americana no mesmo patamar de sucesso e popularidade de dois nomes que tinham recentemente passado pela capital paulista, Madonna e Michael Jackson. Mas, porque tudo isso? A tática era muito simples, expandir ao máximo o espaço ocupado naturalmente pela banda dentro do cenário da música pop e procurar deixar de lado a parte ‘roqueira’. Soa estranho falar disso nos dias de hoje, e naquela época era uma coisa inimaginável, pois querer deixar as ‘camisas pretas’ de fora do evento parecia um tiro no pé. Mas para entender bem esse contexto é só preciso relembrar os problemas ocorridos na porta do mesmo Pacaembu no show do Sepultura em 1991, isso só para citar um caso. Desvincular o Bon Jovi do público roqueiro era uma tentativa de vender um show ‘familiar’ e geralmente essas coisas meio forçadas não acabam bem. Felizmente esse artifício não prosperou e a vida de todos seguiu adiante, com cada indivíduo sendo livre para escolher a qual show ir, ou não, sem esse tipo de empurrãozinho de produtoras, imprensa, seja quem for.

Eu não tinha planos de ir ao show do Bon Jovi dessa vez. Havia assistido a eles em 1990 e a possibilidade de um estádio lotado por ser show único também não me agradava. Mas como vocês bem sabem, afinal de contas estamos todos vivos, existem situações que apenas a sua vontade não quer dizer muito coisa. Após ter assistido recentemente o show do Anthrax e o mega evento do Metallica tranquilamente, a minha namorada na época, resolveu cobrar o seu direito de ir a um show em um estádio pela primeira vez em sua vida. Eu a conheci na faculdade naquele ano de 1993 e mantivemos um relacionamento bem legal por uns dois anos, graças ao respeito mútuo. Ela gostava daqueles sons eletrônicos típicos dos anos 90 e de dançar, e eu de shows de heavy music. Cada um cedia um pouco e tudo se ajeitava. E ir naquele show do Bon Jovi com ela fez parte do acordo.

Os ingressos eram do tipo cartão magnético e eu comprei um par em uma loja da C&A em Santo André. Foi uma das raras vezes até então, que não me vali das amizades na Woodstock Discos para adquirir uma entrada para um show. Só isso já demonstra o quanto esse evento parecia estranho. Os jornais e a MTV Brasil durante a semana do show divulgavam que o sold out estava próximo e que não teria banda de abertura. Os veículos de comunicação dessa vez a pedido da produtora evitaram divulgar horários, números de voos e nome de hotel, por razões óbvias.

O dia 15 de novembro de 1993 caiu em uma segunda-feira, provocando um final de semana prolongado. Nos arredores do Pacaembu o que menos se via eram camisas pretas, apesar de se fazerem presentes. Mas isso não foi por causa daquela narrativa besta exposta durante a divulgação para o evento. O público roqueiro se fez presente sim, pois as cabeleiras podiam ser notadas por todos os lados. O motivo das roupas mais claras na verdade foi o calor senegalesco que a capital paulistana enfrentou naquele dia. Segundo as publicações da época mais de 500 pessoas foram atendidas por uma equipe de 60 médicos e enfermeiros, isso já dentro do local do estádio. A grande maioria dos casos vítimas de insolação, desidratação e falta de alimentação. Os portões estavam programados para abrir ás 16 horas, mas foram antecipados para as 14h55, mesmo com as filas todas confusas e mal organizadas. A intenção de colocar o povo para dentro mais cedo ajudou um pouco, pois foi um festival de jatos de água desferidos pelos bombeiros, com a clara intenção de diminuir o efeito o sol de rachar na cabeça do público. Só que conforme foi passando o tempo o estádio foi enchendo e o calor ‘humano’ piorando literalmente. E quando eu digo encher, é encher mesmo. Aparentemente tinha bem mais do que as 40 mil pessoas divulgadas, tanto que o relato de uma amiga minha, também presente naquela tarde/noite foi muito esclarecedor. Dias depois do dia do evento ela me contou que ao chegar ao setor das cadeiras cobertas, descobriu que não havia uma única disponível para ela se sentar e assistir ao show. Como ela não era única naquela situação incômoda, os ‘sem cadeira’ foram realocados para o gramado, que causou o efeito domino rumo a uma lotação quase descabida. Com o claro insuportável e lotação acima do suportável até para quem, como eu, estava acostumado a ir em shows de grande porte em estádios, a melhor notícia do dia foi que o bom senso prevaleceu e o show que a principio estava marcado para as 21 horas, foi antecipado em 40 minutos.

Mas mesmo assim, quando a banda entrou no palco o caos se instalou de vez com a pista ficando impraticável para quem não tinha alguma experiência e cobrou seu preço para o meu lado também. Desde a tarde eu e minha namorada tínhamos conseguido uma boa posição do lado esquerdo da estrutura principal. Ela por não ter o hábito de frequentar shows em lugares abertos com grande público estava achando graça em tudo, e até levando numa boa o calor, a demora para o tempo passar e o cansaço de ficar de pé. Mas o empurra empurra  do início da apresentação se tornou insuportável e ela acabou desmaiando. Estávamos longe da grade o suficiente para eu ter alguma ajuda e então me restou eu me virar e dar um jeito de colocar ela nas costas – felizmente ela era pequena. Aos trancos e barrancos consegui ir para a lateral do gramado e chegar em uma das tendas de socorro. Naquela altura ela já estava meio que acordada, tomou água, respirou um pouco e foi liberada. Nesse rolo todo acabamos perdendo as primeiras músicas e assistindo ao restante daí de perto da tenta de primeiros socorros mesmo, mais pelo telão do que de outra maneira. Eu não tinha passado um sufoco daqueles antes – ser responsável por alguém em um show grande – e difícil dizer que eu aproveite alguma coisa depois do ocorrido. Do show do Bon Jovi em si, lembro-me de pouca coisa, a não ser de assistir ali da lateral. Minha principal recordação é a sensação de alívio com ela felizmente bem o suficiente para acompanhar algumas músicas cantando e dizer que era bem melhor estar ali do que no meio do povo. Eu que o diga. Menos mal que tudo acabou bem e no dia seguinte ela estava na faculdade rindo e contando para as amigas tudo que tinha acontecido. Eu em compensação tinha percebido o surgimento de alguns fios brancos na minha cabeça. E a vida seguiu.

Faltava um nome de respeito e inédito se apresentar e fechar com chave de metal o ano 1993. E essa banda era muito aguardada e a expectativa em torno do show era muito grande. E não era para menos, pois se tratava do grande Pantera e nesse show eu iria sozinho, felizmente, he he. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Bon Jovi no Brasil (1993):

– São Paulo: 15 de novembro de 1993.

Setlist:

1.I Believe

2.Wild in the Streets

3.You Give Love a Bad Name

4.Born to Be My Baby

5.Can’t Help Falling in Love (Elvis Presley cover)

6.Bed of Roses

7.Keep the Faith

8.I’d Die for You

9.Dry County

10.Lay Your Hands on Me

11.I’ll Sleep When I’m Dead

12.Bad Medicine

 BIS:

13.Little Wing (The Jimi Hendrix Experience cover)

14.Runaway

15.In These Arms

16.Livin’ on a Prayer

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)