“O Man in black aprontando das suas”

Em nosso último encontro passado falamos do icônico show do grande Sepultura em frente ao Estádio do Pacaembu e todas as suas repercussões. Vou mais uma vez reforçar a razão pela qual o “…PRA FICAR!!!” deixou de fora de sua já tradicional ordem cronológica, o significativo Rock in Rio 2. Esse evento comemora 30 anos em janeiro próximo, e nós do HB resolvemos contar tudo sobre esse marcante acontecimento na semana de seu aniversário, no início do ano que vem. Eu reforço o convite, pois será um “…PRA FICAR!!!” super especial recheado de informações, curiosidades e lembranças.

Após todo aquele rolo por causa dos problemas ocorridos na porta do Pacaembu, mesmo com a perseguição da imprensa marrom e de alguns aproveitadores – conforme explicamos em nosso último encontro aqui nesse espaço – felizmente as datas para a primeira visita do Deep Purple ao Brasil foram confirmadas pela produtora Metal Produções. Ao todo seriam sete apresentações e a princípio nos seguintes dias: 10 de agosto no Maracanãzinho no Rio de Janeiro; 12 e 13 no Olympia e 16 e 17 no ginásio do Ibirapuera em São Paulo; dia 18 no pavilhão Atuba em Curitiba e 20 de agosto no Gigantinho em Porto Alegre. Essas datas foram divulgadas por jornais como O Estado de São Paulo em 25 de maio de 1991.

Paralelamente a BMG, que havia lançado o álbum “Slaves and Masters” em versão nacional, e que lançou também um LP comemorativo com gravações ao vivo de álbuns já editados pelo grupo, ajudou na divulgação com promoções em rádios e revistas especializadas. A promessa era de uma superprodução, com equipamentos estrangeiros tanto para a parte de som como para iluminação – esse tópico em especial estava sendo anunciado como o mais moderno para a época com um sistema de laser de última geração. Os ingressos para os shows paulistas começaram a ser vendidos no início do mês de agosto na Woodstock Discos, que fazia planos para uma tarde de autógrafos em suas dependências, e a essa altura do campeonato as datas das apresentações já haviam sido alteradas, o que causou preocupação aos fãs, que temiam pelo cancelamento do giro brasileiro.

Com um atraso de uma semana em relação ao previsto no final de maio, o Deep Purple desembarcou em São Paulo no dia 15 de agosto no aeroporto de Cumbica, e no mesmo dia uma coletiva de imprensa com Roger Glover e Joe Lynn Turner ocorreu no hotel Della Volpi. Antes do show de estreia no Ibirapuera no dia 16, alguns integrantes da banda concederam uma entrevista na 97FM de Santo André-SP e jogaram a primeira ‘pelada’ – todos sabem o quanto os membros e equipe do Deep Purple a exemplo do Iron Maiden, adoram bater uma bola – tudo com uma boa cobertura da MTV Brasil em seu noticiário Drops MTV.

A apresentação da sexta, dia 16, estava tirando o sossego da produtora, pois o enorme equipamento necessário para o show só foi liberado pela alfândega no dia do evento. Só o delicado sistema de Lasers necessitava de ajustes precisos que levariam horas para ser realizado, isso sem falar da parte responsável pelo som. Toda a parafernália só foi descarregada no Ibirapuera no final da tarde o que já era uma garantia que tudo iria atrasar e muito. O show programado para as 21h30 só teve seu início por volta das 23h30 e sem o aguardado sistema de laser funcionar, para um público estimado na casa das 6 mil pessoas, segundo os jornais da época. Realmente o começo do giro não foi dos melhores. Sobre o show do dia seguinte nós vamos falar logo logo, pois como estive presente vou relatar os fatos e lembranças com maiores detalhes.

A tour continuou no dia 18 domingo, com o Deep Purple se apresentando no Paraná e imediatamente retornando a capital paulista para as duas apresentações no suntuoso Olympia. E ai, meus caros, é que a maionese que já não estava com uma boa cara, desandou de vez. As apresentações na luxuosa casa do bairro da Lapa, estavam custando aos fãs entre Cr$ 9.000,00 cruzeiros a pista e Cr$20.000,00 os camarotes. Só para efetuar a comparação, eu paguei em meu ingresso de numerada para o dia 17 no Ibirapuera a quantia de Cr$ 6.000,00 cruzeiros. Mesmo assim o Olympia lotou nas duas noites programadas, mas os problemas ocorreram na primeira das duas apresentações. Após a competente abertura do Golpe de Estado, o Deep Purple entra no palco iniciando com “Burn” e começa a tragédia. Por achar que a introdução de Paice não foi precisa, o Man in Black em uma noite de mau humor extremo se recusa a tocar suas partes da canção e reclama abertamente com os outros membros da banda. Por várias vezes o guitarrista deixava o palco e retornava a seu bel prazer e sempre reclamando de alguém ou de alguma coisa, como por exemplo, a iluminação em seu rosto, supostamente. Pouco antes de “Knocking at your Back Door”, Blackmore deixa o palco mais uma vez e não retorna para realizar sua parte, que foi executada por completo sem a guitarra. Assim que a música termina, Joe Lynn Turner anuncia a próxima prevista no setlist, que era “Lazy”. Nesse momento o irritado guitarrista retorna ao palco e começa os acordes de “Smoke on the Water”, reservada para o bis, deixando os demais membros perplexos. Com essa atitude ele simplesmente limou a apresentação em praticamente 20 minutos, sem o menor respeito pelos seus companheiros de banda e principalmente pelo público que pagou, e caro, pra ver um show completo e não viu.

O ambiente ficou pesado nos bastidores, colegas que estavam presentes me confidenciaram que as discussões foram muito acaloradas. Mas o estrago já estava feito e existiam obrigações contratuais a serem cumpridas. Na noite seguinte o show acorreu de maneira perfeita e completa, em uma apresentação que foi considerada a melhor do giro, ao lado da segunda noite no Ibirapuera. Os shows dos dias 22 em Porto Alegre e dia 24 no Rio, segundo relatos da época, foram burocráticos e com muitos problemas de produção, como som ruim e atrasos exagerados.

Eu particularmente estava muito animado pelo dia do show, pois, além é claro de se tratar de uma inédita visita do Deep Purple ao Brasil, eu tinha gostado bastante do álbum com Joe Lynn Turner – Inclusive o disco “Slaves and Masters” foi detalhado em um recente “Sugestão do Dia” e vamos deixar o link no final dessa matéria. A escolha pelo sábado dia 17 se mostrou no final das contas a mais acertada, pois eu e os três amigos que me acompanharam naquele dia, escapamos dos problemas já relatados e por um preço que não foi algo descabido. Na semana do dia do show eu me dirigi a Woodstock Discos e comprei os ingressos e tentei me colocar a par do dia que a banda estaria no local para a sonhada tarde de autógrafos. Tarde essa que ocorreu realmente, mas devido a muitas informações desencontradas sobre dia e horário, eu fui só um dos muitos fãs que perdeu essa oportunidade de ganhar uns rabiscos de Roger Glover e Joe Lynn Turner, os dois únicos que estiveram presentes.

Era uma tarde de sábado fria e lá fomos nós rumo ao Ibirapuera, já sabedores dos problemas sobre a noite anterior. Como fomos de ‘Fuca bala’, não havia preocupação alguma com o horário, podia atrasar a vontade, pois estaríamos devidamente acomodados no setor das numeradas superiores do ginásio. Ao entrar, mais uma vez um funcionário na portaria do Ibirapuera fez o ‘DEServiço’ de ao destacar o ingresso devolver a parte MENOR (o canhoto) e ficar com a MAIOR (a que tinha todas as infos mais relevantes, além do logo da banda), igualzinho dois anos atrás no show do Metallica no mesmo local.

Passada a raiva, nos instalamos em nossas cadeiras, lugares marcados e sendo respeitados. Dentro do horário previsto pelos jornais eis que a banda O Terço começa o set de abertura. Eu não conhecia muita coisa do Terço, e para ser honesto continuo sem conhecer até hoje. Mas me lembro muito bem que eles tocaram “Hey Joe”, a música do The Leaves que todo mundo pensa que é do Jimi Hendrix. A acústica do Ibirapuera já é velha conhecida dos leitores que acompanham o “…PRA FICAR!!!”, mas nesse dia tirando umas microfonias ali e acolá, até que estava tudo legal.

Acaba o curto show do O Terço e a expectativa aumentava. Segundo relatos das publicações da época, naquele sábado o Ibirapuera recebeu cerca de 10 mil pessoas, que estavam ávidas pelos clássicos de Blackmore e companhia. E eles entram com tudo com a explosiva “Burn”. Joe cantava ao estilo Rainbow e o público garantia os backings vocal. A iluminação realmente impressionava com o laser fazendo desenhos e mosaicos sobre a bateria de Ian Paice, brincando com as Letras “D” e “P” e o logo do Deep Purple. Tava tudo ótimo até que começou “Black Night” e o público respondeu com  os ‘ÔÔÔs’ tomando conta do local, só que o operador do laser em vez de continuar apontando aquela luz verde para o alto do palco, resolveu fazer um efeito diferente e muito bonito. O laser foi direcionado para o alto do ginásio e dessa forma envolvendo todo o local, dando um efeito grandioso. Só que eu e os meus amigos estávamos bem na direção que servia de referencia para a luz. Resumindo, quando o operador fazia essa manobra para dar um destaque especial a um pequeno trecho de determinadas músicas, nós recebíamos a potente luz de frente e não enxergávamos nada. Laser miserável, hahaha, essa é uma lembrança inesquecível, hahaha.

A apresentação seguiu de forma bem legal e com a plateia participando ativamente. Obviamente algumas interpretações de Joe Lynn Turner deixaram a desejar devido a necessidade de maior alcance vocal que algumas músicas – na verdade muitas – exigiam. Lembro-me de começar a rir quando a banda deu os primeiros acorde de “Child in Time” ainda no início do show já antevendo o estrago que aconteceria, mas eles tiveram bom senso e só um trecho do clássico foi executado. Todos os membros fizeram solos não muito longos e as músicas mais recentes foram bem aceitas, contando com as melhores participações do então atual cantor. Mas foi dose quando, com tantas músicas para serem colocadas no set, poxa era a primeira visita dos caras, eles me inventam de manter e tocar o cover de… “Hey Joe”, sim ela mesma, aquela música do The Leaves que todo mundo pensa que é do Jimi Hendrix. Carambola.

Mas o show teve muitos pontos altos entre laser e ‘hey joes’, com o The Man in Black destruindo uma fender aparentemente nova no final do show. Foi essa a única vez que ele fez isso em todo o giro brazuca, lembrando a rebeldia dos dias de Califórnia Jam e deixando todos no local malucos. A maestria e técnica irretocável da cada um dos membros do Deep Purple merece destaque, principalmente na execução das obras primas “Perfect Strangers“ e “Knocking at Your Back Door”, que certamente foram meus momentos favoritos daquela noite. O show desse dia acabou sendo gravado na tradicional forma ‘bucaneira’, sendo facilmente encontrado dias depois nos tradicionais locais conhecidos pelos fãs de música pesada daquela época. Mas você caro leitor, não vai passar vontade, pois esse documento está disponível no You Tube e o link, como de costume, está à disposição no final dessa matéria.

Tem quem reclame do som desse show até hoje, mas insisto, em se tratando de Ibirapuera, até que tudo ocorreu a contento – poxa, vimos o Blackmore destruir uma fender ao vivo, isso não acontece todos os dias – e as coisas estavam voltando aos eixos, pois já tinha show agendado na porta da geladeira.

Depois de um sucesso inesperado e alavancado pela participação no Rock in Rio 2, o Faith No More, com o apoio maciço da MTV Brasil, das FM’s roqueiras e de revistas especializadas em música pop como a BIZZ, voltava a terrinha para um giro bem mais extenso. Mas só vamos continuar com esse assunto na próxima semana, pois as lembranças dos shows mais importantes da década de 90 estão no HB “…PRA FICAR!!!

Deep Purple Brazilian Tour ’91:

– São Paulo: 16, 17, 20 e 21 de agosto.

– Curitiba: 18 de agosto.

– Porto Alegre: 22 de agosto.

– Rio de Janeiro: 24 de agosto.

Setlist básico das apresentações:

  1. Burn
  2. Black Night

incluindo trechos de “Long Live Rock n’Roll” and “Child In Time”

  1. Truth Hurts
  2. The Cut Runs Dee
  3. Perfect Strangers
  4. Fire in the Basement

incluindo solo de Roger Glover

  1. Hey Joe
  2. Love Conquers All
  3. Difficult to Cure

incluindo solo de Blackmore

  1. Solo de Jon Lord
  2. Knocking at Your Back Door
  3. Lazy
  4. Highway Star
  5. Smoke on the Water

incluindo trecho de “Woman From Tokyo” e solo de Ian Paice

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)

Link do Sugestão do Dia: Deep Purple, “Slaves and Masters”:

https://headbangersbr.com/sugestao-do-dia-deep-purple-slaves-and-masters/