“Sentindo-se em casa”

Semana passada colocamos você, caro leitor, a par de tudo o que o genial e ranzinza Man in Black aprontou durante a inesquecível – em muitos aspectos – visita da lendária banda inglesa, o Deep Purple,  por nosso humilde país. E hoje vamos falar da também importante e longa (na verdade bem longa mesmo) tour que o Faith No More realizou durante o mês de setembro de 91 aqui no Brasil. A banda que estouraria mundialmente com o álbum “The Real Thing” decolou de vez aqui na terrinha, principalmente após sua apresentação no Rock in Rio 2 no início de 1991. Opa, falando em Rock in Rio 2 … .  Devido á audiência rotativa (ou descontinuada no caso desse especial em particular) mais uma vez vou reforçar e explicar a razão pela qual o “…PRA FICAR!!!” deixou de fora de sua já tradicional ordem cronológica, o significativo Rock in Rio 2. Esse evento comemora 30 anos em janeiro próximo, e nós do HB resolvemos contar tudo sobre esse marcante acontecimento na semana de seu aniversário, no início do ano que vem. Eu reforço o convite mais uma vez, pois será um “…PRA FICAR!!!” muito especial recheado de informações, curiosidades e lembranças.

Voltando ao Faith No More, como eu disse a apresentação de janeiro trouxe muita popularidade á banda em terras brasileiras, mas antes mesmo disso o conjunto contou com uma série de fatores para conquistar tal prestígio. Desde 1990 o programa Comando Metal, que era apresentado pelo grande Walcir, o conhecido dono da super conhecida loja Woodstock Discos, vinha divulgando o Faith No More em suas edições dominicais na rádio 89FM. Walcir era fã declarado da banda e colocava mesmo o material dos americanos para rolar. Outro fator preponderante está aliado á estreia nas nossas telinhas em UHF da MTV Brasil. O tão aguardado canal musical, desde o dia 20 de outubro de 1990 entrava na casa dos fãs de vídeos via canal 32 UHF com sede na capital paulista, mas com um pequeno probleminha, poucos clipes disponíveis em seu acervo inicial. Para compensar esse pequeno detalhe, alguns clipes eram repetidos quase que de hora em hora, sem exagero, sendo dois inclusive os campeões: “Groove Is In The Heart” da banda pop Dee-Lite e “Epic” do Faith No More. A chance de você na época ficar ligado no canal por mais de uma hora, e não assistir a um desses dois clipes era praticamente nula, como em um verdadeiro lopping temporal no melhor estilo do seriado ‘Além da Imaginação’. Tinha vezes que eu acreditava que o peixe no final do clipe do FNM não ia morrer. Tanta exposição no jovem canal garantiu muita popularidade para ambos os grupos, que por tabela foram contratados para fazer parte da segunda edição do Rock In Rio.

E o Faith No More, e sua gravadora tupiniquim, souberam muito bem tirar ainda mais proveito do momento de alta e uma nova visita da banda foi agendada para o mesmo ano. Mas não foi um simples ‘olá’, foi um extenso giro nacional com DOZE apresentações, olha a lista: em 7 de setembro em Manaus, dia 12 em Recife, dia 15 em Brasília, dias 20 e 21 no Rio de Janeiro, dia 26 em Curitiba e fechando, dia 27 em Porto Alegre. São Paulo merece um capítulo a parte, pois aqui o Faith No More realizou quatro shows no suntuoso Olympia (dias 18, 19, 24 e 25) e um na cidade de Santo André-SP, no já conhecido de quem acompanha o nosso “…PRA FICAR!!!”, o clube Aramaçan, que foi minha escolha para ir assistir a Mike Patton e companhia no dia 22 de setembro.

Com “The Real Thing” esgotado (o álbum, para quem não sabe recebeu disco de ouro no Brasil, com mais de 120 mil cópias vendidas até então) e uma nova prensagem sendo providenciada, a Polygram lança mais do que depressa o recente ao vivo da banda, “Live At The Brixton Academy” em LP, K7 e CD. A divulgação dos dois discos é esmagadora, com anúncios de página inteira sendo publicados em revistas especializadas. A banda se torna capa das revistas Rock Brigade e Bizz e dessa forma se tornando muito representativa para públicos muito distintos um do outro. A MTV Brasil como se fosse – acho até que era – uma parceira, faz sua parte expondo o nome da banda de todas as maneiras possíveis. No ‘Drops MTV’, o noticiário exibido de hora em hora no canal, notícias sobre o giro e trechos de entrevistas com os membros; clipes do Faith No More invadiram o ‘DiskMTV’, a parada diária do canal e um programa especial chamado  ‘A Entrevista’ recebeu o vocalista Mike Patton. Em uma das chamadas para o programa, Patton com todo seu bom humor se apresenta dizendo que era Rosane Collor, a ex-primeira dama do país, esposa de Fernando Collor de Melo. A MTV Brasil também filmou as apresentações no Olympia e um especial chamado ‘MTV Faith No More Brasil’ foi exibido dias depois – esse se você não viu na época vai poder ver agora, pois o link está lá no final da matéria.

Com tanta exposição e investimento a passagem do Faith No More em setembro de 91 foi marcada por sold outs e se tivessem mais espaço na agenda e outras apresentações fossem marcadas, certamente aconteceriam com casas cheias, pois público para eles não era problema algum. Logo na primeira apresentação da excursão pelo Brasil, nada menos que quatro mil moradores da zona franca de Manaus presenciam um ótimo show do Faith No More, segundo as publicações da época, e o primeiro desastre da banda convidada para realizar as aberturas, o Maggie’s Dream, a banda do ex-Menudo, Robby Rosa. É difícil afirmar se o fracasso do ‘ex-não se reprima’ e sua banda foi devido ao seu passado e a óbvia exposição que a boy band porto riquenha viveu aqui no Brasil na metade dos anos 80 ou se o som deles não agradava mesmo. O fato é que eles foram vaiados do começo ao final da tour, provando que a escolha não foi uma decisão das melhores.

O show de Recife também foi um sucesso de público, pois imagine a alegria do público local ao ser incluído na rota de uma banda relevante como Faith No More. Para estados como Pernambuco ou Amazonas, fazer parte do itinerário de um conjunto internacional de ponta, não era algo muito comum na época. A Capital Federal também foi visitada e contou com o bônus de um Mike Patton se mostrando um craque no que se refere pronunciar palavrões em português. A princípio o Rio receberia apenas um show, mas a procura intensa garantiu uma noite extra no mesmo Maracanãzinho e claro com lotação esgotada também. A cidade carioca além da habitual abertura do Maggie’s Dream, contou com a participação da banda local X-Rated nas duas noites, e não foi por acaso, pois os cariocas estavam com um recente disco lançado pela Polygram.

A parte mais puxada seria mesmo aqui em Sampa, com as quatro apresentações no Olympia, que serviriam de referencia, pois dali o especial para a MTV Brasil seria gravado, além do evento no ABC paulista, que eu vou deixar para contar daqui a pouco, pois como eu já disse, foi em Santo André que eu assisti a banda ao vivo. O Olympia entupiu em todas as apresentações e em todas o Robby Rosa sofreu com a falta de paciência do público presente. A coisa ficou tão feia nessa relação, que na noite do dia 25, o Maggie’s Dream esqueceu-se completamente do profissionalismo e tocou seu set de costas para a plateia. Por pior que fosse a situação, não foi uma atitude muito elegante. Mas cada um sabe o que faz. Em uma entrevista concedida a revista Rock Brigade publicada após o giro, o baterista Mike Bordin declarou que se sentiu mal por causa dos ocorridos na tumultuada relação da banda de abertura e a plateia, e que acreditava que o passado do cantor era o principal fator para tantos entreveros. Ele também afirmou que até aquele momento, a entrevista foi concedida durante a estadia em São Paulo, que o melhor show até então teria sido o de Santo André. Sorte minha.

Dia 22 de setembro caiu em um domingo e para ir até o local do show eu e mais um amigo, repetimos o mesmo itinerário que eu tinha feito da vez que tinha ido ao Aramaçan assistir ao Nazareth e pelo que me recordo dessa vez sem chuva. Não lembro qual foi o motivo, mas nós saímos meio tarde pra ir pro show e chegamos no local já com os portões abertos e uma bagunça para entrar. Eu tinha dado um pulo durante a semana na loja Wave Wizard no Best Shoping em São Bernardo do Campo-SP para buscar os ingressos, e uma amiga minha que trabalhava lá, afirmou que as vendas estavam dentro do normal. O jornal Diário do Grande ABC noticiava durante a semana que dos 6.500 ingressos disponíveis, 1.200 haviam sido comercializados – nessa mesma edição em um adendo na matéria sobre a banda, o matutino informava que os shows no norte e nordeste haviam recebido um pequeno público, o que era totalmente contraditório em relação ao que dizia a MTV Brasil em sua cobertura, e os jornais locais das praças onde os eventos ocorreram. Fica aqui o registro.

Eu acreditava que não ia lotar e foi uma surpresa ver aquela bagunça na porta do clube. Demorou um bocado, mas acabamos entrando e encontrando o Aramaçãn muito cheio, praticamente lotado (vai confiar no Diario, vai… ), mas felizmente com espaço nos mezaninos superiores e foi de lá que acompanhamos o show. O atraso e o tempo perdido para conseguir entrar no clube acabou nos custando um preço alto. Perdemos o show da banda de abertura… que chato… hehe.  Lamento caro leitor, mas não posso informar nada sobre o que Robby Rosa e sua trupe sofreram, ou melhor, apresentaram naquela noite.

Vamos ao que interessa e falar do ‘Fênêmê’. O palco era espaçoso e dias depois através das publicações da época, descobri que tinha sido uma exigência da banda. Tinha espaço de sobra para o doido do Mike Patton escalar as torres de iluminação laterais e se pendurar nelas. Assim como nos demais shows, ele entrou vestido de atendente do Bob’s Burger, inclusive com o avental. Abriram com “From Out of Nowhere”, perfeita para por fogo no local e tudo funcionou muito bem. Som ótimo, iluminação idem e uma banda se sentindo literalmente em casa. Mike arriscava frases inteiras em português e mandava muito bem nos palavrões, principalmente. No público tinha de tudo um pouco e lá do alto do mezanino do clube eu pude visualizar muito bem, que as camisas pretas não eram maioria nessa noite. O que eu mais gostei foi o ponto forte da banda para o meu gosto, que eram o rifes do guitarrista Jim Martin e ele era o cara que garantia o peso no som. Tinha hora que as brincadeiras de Patton também cansavam, como por exemplo,  em ‘Epic”, uma das mais aguardadas, em que ele ficou fazendo vocalizações estranhas e praticamente estragou a música. Encerraram a apresentação tocando o cover do Black Sabbath, “War Pigs” e todos os presentes se esgoelaram nos coros de ‘ÔÔÔs’’s. Não foi o melhor show do mundo, mas missão cumprida e outra banda para a lista do ‘Já vi’. Realmente foi uma tour que chamou a atenção e por um bom tempo ainda a MTV Brasil continuou dando ênfase para a banda em sua programação.

Ainda tinha mais um nome internacional importante para o ano de 1991 e quero citá-lo aqui nesse espaço brevemente. O The Cult veio ao Brasil pela primeira vez com três datas a principio agendadas, mas a bagunça da organização foi tanta que um show único foi realizado no Ginásio do Ibirapuera em 4 de dezembro. Com a mudança do local – era para ser no Projeto SP – eu acabei desistindo de ir e foi a minha sorte. Esse evento foi um dos mais desorganizados de todos os tempos. Houve invasão por um portão e aconteceu uma superlotação na pista. Quem esteve lá conta que foi um caos e acredite, teve gente com ingresso comprado, que acabou ficando do lado de fora. A banda se apresentou por serem profissionais ao extremo, pois as condições eram precárias de som e iluminação, sem falar da segurança, como a muito tempo não via. Esse é um triste adendo, mas aconteceu e felizmente o The Cult voltaria em 1995 para um show sensacional no Olympia, que em breve contarei como foi, pois nesse eu estava presente.

O ano de 1991 já estava ficando para trás e uma nova edição do festival Hollywood Rock já estava sendo anunciada para janeiro de 1992. Na verdade esse festival em virtude de sua segunda edição em 1990, já foi devidamente destrinchado desde os seus primórdios e teve toda sua estória contada aqui no HB. A série Hollywood Rock reinou absoluta sem concorrência dentro do mês de janeiro por mais quatro anos, até a edição de 1996. A lição aprendida em 90, que era preciso bandas do universo da música pesada para garantir o sucesso do evento não foi esquecida, e acabou por escalar três novatos para a edição de número três: Living Colour, Extreme o a principal aposta, o Skid Row. Mas só vamos continuar com esse assunto na próxima semana, pois as lembranças dos shows mais importantes da década de 90 estão no HB “…PRA FICAR!!!

Faith No More Brazilian Tour ’91:

São Paulo: 18, 19, 24 e 25 de setembro.

Santo André-SP: 22 de setembro.

Curitiba: 26 de setembro.

Porto Alegre: 27 de setembro.

Rio de Janeiro: 20 e 21 de setembro.

Manaus: 7 de setembro.

Recife: 12 de setembro.

Brasília: 15 de setembro.

Setlist básico das apresentações:

1.From Out of Nowhere

2.Death March

3.Introduce Yourself

4.The Real Thing

5.Underwater Love

6.The Crab Song

7.We Care a Lot

8.Falling to Pieces

9.Chinese Arithmetic

10.Surprise! You’re Dead!

11.As the Worm Turns

12.Epic

13.Woodpecker From Mars

14.Edge of the World

15.Zombie Eaters

16.War Pigs (Black Sabbath cover)

 

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)