“Mr. Halford no comando”

Dia de um inédito capitulo do nosso “…PRA FICAR!!!”. E se na semana passada foi uma oportunidade de passar a limpo a quinta edição do festival M2000 Festival, dessa vamos contar como foi a marcante passagem da banda de Rob Halford, o Fight, pelo Brasil. A voz do lendário Judas Priest já tinha escolhido seguir um caminho diferente de seus ex-companheiros, mas não o fez em vão. Trouxe sim um a luz um conjunto simplesmente devastador e que felizmente pudemos ver de perto naquela época.

Quando da sua passagem com o Judas Priest durante o Rock in Rio de 1991, Halford chegou comenta em uma das suas muitas entrevistas que voltaria muito em breve para novas apresentações. O que ninguém imaginaria é que nos dois anos seguintes tanta coisa iria mudar. O disco “Painkiller” de 1990 foi um verdadeiro sucesso, assim como sua tour. O Judas Priest estava em grande fase e era inimaginável uma mudança tão radical em sua formação. Talvez alguns fatos como o processo que a banda passou e Halford assumir abertamente que era gay tenta influído nesse processo de separação. Sobre o processo em 1989, a banda foi levada a julgamento pelos pais de dois rapazes, Ray Belknap e James Vance, acusados de levá-los à tentativa de suicídio em virtude de uma mensagem ao contrário na faixa “Better by you, better than me“, do disco “Stained Class”. Ray morreu, e James sobreviveu por três anos, até sucumbir ao efeito do tiro. O caso aconteceu em 1985, após os jovens terem consumido boa quantidade de drogas e muito álcool. Halford chegou a dizer na ocasião que, se houvesse mensagens subliminares em suas músicas, certamente seriam para levar o público a comprar mais discos, não incitá-los a tentativa de suicídio ou qualquer ato violento. Foi levado em consideração no julgamento que a canção era na verdade um cover da banda Spooky Tooth, lançada originalmente em 1969. O caso encerrou com a absolvição da banda e todo esse desgaste acabou até atrasando o lançamento de “Painkiller”. No final das contas Halford sai fortalecido ao criar o Fight, contando com a destacada ajuda do batera do Judas Priest, o usina se força chamada Scott Travis.

A revista Rock Brigade número 89 lançada em dezembro de 1993 trazia Halford na capa, o que dava uma ideia da significância da nova aposta do cantor e a edição do mês seguinte divulgava as datas já confirmadas para o mês de março de 1994. Com a produção de um grupo liderado pela MTV Brasil em parceria com a rádio 89FM na divulgação, Woodstock Discos na venda de ingressos, e patrocínio da Unidas, uma locadora de automóveis, foram confirmadas três datas: dia 15 de março no Rio de Janeiro na casa Imperator; e dias 16 e 17 de março em São Paulo no imponente Olympia. Em todas as apresentações a abertura ficaria a cargo da banda P.U.S..

O Fight chegaria ao Brasil em alta com o seu debut “War of Worlds” sendo muito festejado pela crítica e pelos fãs. Depois de se apresentarem pelos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália, Halford e companhia conquistaram a Argentina antes de desembarcar no Rio. Em uma concorrida coletiva o cantor deixa muito claro que o Judas Priest era passado e que estava totalmente focado no Fight dali em diante. Também esclareceu que estavam com um integrante novo na banda – o guitarrista Robby Lochner, que substituiu Russ Parish – e que estava ansioso para reencontrar o público brasileiro.

O matutino O Estado de São Paulo publicou no dia 15 de março de 1994 uma matéria em que divulgava as datas paulista, além de contar sobre os passos do cantor ainda na cidade carioca. O jornal explanou sobre a juventude dos demais integrantes do Fight e sobre o estilo musical da banda, que comparou ao do Pantera. Obviamente não deixou citar que Halford tinha prestado uma homenagem, digamos perigosa, ao Sepultura. O cantor posou para fotos ao lado de integrantes dos fãs clube da banda brasileira e seu logo polêmico, com a letra “S” estilizada em meio a bandeira nacional. Quem leu o “…PRA FICAR!!!” de duas semanas atrás sobre a edição do festival Holywood Rock de 1994 sabe bem do que eu estou falando.

O disco “War of Words” tinha sido lançado em setembro de 1993 e estava disponível em CD e em LP, estão o setlist recheado com músicas desse trabalho era bem familiar para os fãs de Halford. Muito solícito durante a rápida visita de três dias, o artista encaixou tardes de autógrafos tanto no Rio, quanto em São Paulo, onde por uma hora rabiscou diversos LP’s, principalmente do Judas Priest, na conhecida Woodstock Discos. Os ingressos também estavam a venda na loja pelo preço de Cr$ 10.000,00 a pista – algo em torno dos 9 dólares.

Minha escolha foi escolha foi prelo dia 16 de março, uma quarta feira, a primeira das duas apresentações da banda em Sampa. Conversando com algumas pessoas na porta do Olympia fiquei sabendo que o público na noite anterior no Rio não tinha sido dos melhores. A julgar pela movimentação cheguei a ficar preocupado, mas com o passar das horas a casa acabou recebendo, se não sua lotação, uma plateia digna para Mr. Halford. A vantagem foi que pude entrar sem atropelo algum e me posicionar no meu locar favorito, a grade bem na lateral esquerda do palco.

O P.U.S. estava começando a concorrer com o Dr. Sin para ver quem abria mais show para as bandas gringas. Tinha já visto eles algumas vezes e a abertura para o Anthrax no ano anterior tinha realmente me surpreendido. Infelizmente nessa noite eles não repetiram a dose. Não sei bem por que, pois houve boa receptividade dos presentes, mas tem dias que a coisa simplesmente não funciona. 

Sem uma produção de palco muito caprichada e apostando mesmo no som o Fight entra no palco do Olympia. “Into the Pit” possuía um clipe que estava rolando até na programação das tardes da MTV Brasil no programa Gás Total e era muito conhecida de todos no local. Isso ajudou a tornar o início do show muito bacana, com todos berrando o refrão. Passado o choque positivo inicial a sequencia de músicas de “War of Words” dividiu algumas opiniões. Era mais do que claro que grande parte dos que estavam ali foram para ver o Rob e não o Fight. Quem tinha comprado o disco, como no meu caso e tinha lido pelo menos uma linha das notícias sobre a banda sabia que seria assim, com 80% do show baseado em no disco próprio. Particularmente eu gostei, pois tinha achado o LP bem pesado e criativo. Mas vamos combinar, a coisa pegou fogo mesmo quando “Hell Bent For Leather” foi executada. Dali em diante o que viria a seguir pagaria o valor do ingresso com juros e muitos dividendos extras. Mas deu tempo para o povo respirar e veio a mágica “Running Wild”, um solo de bataria destruidor de Mr. Travis e na sequencia uma versão para “The Green Manalishi” memorável. Se fosse sentiu um pingo e inveja, tenho boas notícias dessa vez. O show dessa noite foi gravado – ‘bucaneiramente’, é claro – e foi vendido dias depois nas lojas já manjadas na Galeria do Rock (ainda tenho o meu VHS). O bom é que uma boa alma postou  no You Tube essa apresentação e quem quiser pode conferir depois como foi. O link está lá no final como de costume. Fechando a noite “Nailed To The Gun”, que apesar de não ser um clássico do Judas Priest, também possuía clipe e manteve o Olympia em ponto de ebulição no final do show.

Meu, que showzão. Tenho amigos que se lamentam muito de não ter investido seu tempo e grana nesse dia. Como já haviam outros shows marcados teve gente que precisou optar e fazer escolhas. Mas teve também quem marcou bobeira, felizmente esse não foi o meu caso e eu pude presenciar mais uma vez uma performace divina desse mostro chamado Rob Halford – assim como eu já tinha visto com o Judas Priest durante o Rock in Rio de1991.

O ano de 1994 já dava pinta que iria superar 1993, e muitos shows estavam sendo especulados para os próximos meses. E ainda no mês de março um outro nome gigante da música pesada retornaria ao Brasil. Meu ingresso para conferir o grande Scorpions estava comprado. E o “…PRA FICAR!!!” vai contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Fight no Brasil (1994):

– São Paulo: 16 e 17 de março de 1994;

– Rio de Janeiro: 15 de março de 1994.

Setlist do show do dia 16 em São Paulo:

  1. Into the Pit
  2. War Of Words
  3. Life In Black
  4. Kill It
  5. Immortal Sin
  6. Laid To Rest
  7. Contortion
  8. For All Eternity
  9. Vicious
  10. A Little Crazy
  11. Reality… A New Beginning
  12. Hell Bent For Leather (Judas Priests Cover)
  13. Running Wild (Judas Priests Cover)
  14. Drum Solo
  15. The Green Manalishi (Judas Priests Cover)
  16. Nailed To The Gun

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)