“Em meio a crise o hard rock domina”

Na última semana colocamos você, caro leitor, a par dos principais fatos que marcaram o extenso giro que o Faith No More realizou pelo nosso país. E hoje vamos entrar direto no ano de 1992 e relembrar a terceira edição do festival Hollywood Rock, que foi mais uma etapa de um evento que se tornou anual e extremamente popular durante a primeira metade dos anos 90, proporcionando aos fãs de diversos estilos musicais a chance de ver seus artistas favoritos de perto. Dessa vez três bandas integrantes do farto universo da música pesada seriam nossos representantes: Living Colour, Extreme e Skid Row. Para completar a programação foram convidados Neil Young, Seal, Jesus Jones e EMF, além dos caseiros, Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso e Lulu Santos (sempre os mesmos). Os organizadores declaravam na época que o público alvo estaria entre os 21 e 25 anos e que o investimento superaria a casa dos 15 milhões de dólares.

Já comentei em outras oportunidades que esse festival aprendeu com seus erros e sabia que sem banda de música pesada, sem lucro substancial. E a aposta foi em três novatos, mas que figuravam nas paradas e nas listas de discos mais vendidos, para lotar dessa vez o Estádio do Pacaembú em São Paulo e a Praça da Apoteose no Rio de Janeiro. Há exemplo da edição de 1990 foram agendadas três datas para cada cidade. São Paulo nos dias 17, 18 e 19 de janeiro e coube aos cariocas os dias 24, 25 e 26.

Os preços dos ingressos estavam vinculados ao dólar paralelo. Vou explicar melhor para o caro leitor que não viveu aqueles dias economicamente confusos, o que significava isso. Em virtude da inflação descontrolada, todo bem, prestação de serviço, imposto, taxa e até salários e benefícios (através de um dispositivo legal, que foi popularizado com o nome de ‘gatilho’), sofriam correções quase que constantes em seus valores. Os aumentos de preços dificultavam o planejamento de diversos setores, entre eles o mundo do entretenimento, que para trazer as atrações internacionais, calculava todas as despesas em dólar – conforme vimos acima com o valor de investimento divulgado pela produtora responsável. Naquela época tínhamos três correlações atuantes entre o cruzeiro, nossa moeda e o dolar americano: o câmbio normal, o câmbio turismo e o câmbio paralelo. Os três regulavam a relação entre as duas moedas através de cotações diárias, sendo o paralelo o de maior valor (mesmo que bem pequeno). Para essa edição do festival os preços dos ingressos foram atrelados diretamente ao câmbio paralelo, e estaria a disposição do público para compra a partir do dia 15 de dezembro de 1991. Meu ingresso de pista custou U$10,00, o que mais ou menos equivaleu em cruzeiro algo em torno dos dez mil.

Mais uma vez a cobertura televisiva ficou com exclusividade para a TV Globo, que se limitou novamente aos shows do Rio e nem todas as bandas receberam o privilégio de uma transmissão ao vivo. Obviamente para vender seu peixe, o canal mostrava em seus telejornais as chegadas dos artistas nos aeroportos e todo tipo de tietagem. E é preciso dizer que nem sempre as reportagens eram precisas nas traduções das declarações dos músicos, fossem durante os desembarques, coletivas ou mesmo em um ou dois minutos de exclusividade. O jornal da TV Cultura, que era transmitido durante o horário do almoço era muito mais preciso e informativo.

A exemplo do “…PRA FICAR!!!” sobre o Hollywwod Rock de 1990, vamos dar um panorama geral sobre o evento e depois nos fixar em 17 de janeiro de 1992, o dia que eu estive presente, ok? Vamos lá, começando com o final de semana paulista:

Estádio do Pacaembu, 18 de janeiro – Foi o dia com mais atrações dividindo o palco e diferentemente da noite anterior, não houve sold out. Os jornais da época divulgaram que apenas a metade dos ingressos foram vendidos – por volta dos 20 mil, segundo as publicações. De dezembro, quando o cast foi anunciado, até os dias mais próximos do início do evento, alterações já tinham sido divulgadas e quem abriu a tarde foi o grupo Cidade Negra, e na sequencia o Jesus Jones. O inglês Seal foi o próximo e você já deve estar se perguntando: ”Ué, bandas gringas tocando antes das nacionais?” Então, o Neil Young, que seria a principal atração daquela noite acabou cancelando sua vinda semanas antes e a organização resolveu fazer uma tremenda média com as malas das bandas brasileiras. Elas que sempre ficavam chorando o tempo todo, que eram as mais prejudicadas, que tinham menos tempo de show nos festivais, menos isso, menos aquilo, etc… e escalou as duas nacionais para fechar a noite. Resultado? Fracasso de público, seguimos… .  

 Estádio do Pacaembu, 19 de janeiro – Para um público de aproximadamente 10 mil pessoas Lulu Santos abre a noite, seguido da banda EMF, que teve um hit na MTV e depois sumiu e o grande Living Colour, que infelizmente foi escalado em um dia com o pior público de todo do evento. A crise estava em uma das suas piores fases e nem São Paulo com seu conhecido poder econômico estava imune. Obviamente o reflexo estava em todos os setores e o festival sentiu isso no bolso.

O lado carioca:

O público médio durante os shows na Praça da Apoteose foram bem equilibrados e surpreendentes, graças ás medidas tomadas pelos organizadores após o susto em Sampa. De cara os preços dos ingressos ficaram mais em conta em relação aos aplicados aos fãs paulistanos. Mas para garantir mesmo, quem comprasse um ingresso podia entrar na Apoteose com um convidado na faixa, no melhor estilo compre um e leve dois. O estratagema com cara de desespero acabou por levar 40 mil pessoas por noite ao final de semana carioca do evento e garantir um bom visual para a transmissão televisiva.

A parte que interessa:

O dia que valia a pena mesmo era a sexta, dia 17, com a banda Extreme, que era liderada pelo virtuoso guitarrista Nuno Bettencourt, nosso patrício de Portugal, e o grande nome da edição, o Skid Row. Eu gostaria muito de ter assistido ao Living Colour naquela oportunidade. A banda tinha dois ótimos LPs lançados, “Vivid” de 1988 e “Time’s Up” de 90, mas em tempos de crise comprar um ingresso era o limite. Somente em sua segunda passagem aqui pela terrinha, que eu teria a chance de vê-los, isso no ano de 1995 em uma apresentação para um Palace (umas das melhores casas de shows que a cidade de São Paulo já teve) lotado, mas esse assunto fica para outra vez.

O Extreme era figurinha carimbada em todas as MTVs do mundo, por causa do hit ‘”More Than Words” e é claro que a nossa não ficou de fora. A música liderou a parada do canal, o DiskMTV, por muitas vezes, mas no fundo não se tratava de uma banda técnica. Além da famosa balada, eles possuíam canções divertidas e eram muito extrovertidos no palco, principalmente o vocalista Gary Cherone, que anos depois iria integrar por um curto período, nada mais nada menos que o Van Halen. Essa escolha se mostrou tão acertada, quanto a do Blaze para o lugar do Bruce no Iron Maiden.

O Skid Row era gigante naquele tempo, não menos do que isso. Seu disco de estreia autointitulado, lançado em 1989, vendeu horrores e a banda decolou excursionando para todos os lados do planeta, realizando aparições de destaque em programas de TV e no evento Moscow Peace Festival ao lado de Ozzy, Motley Crue, Scorpions e Bon Jovi. No ano de 1991 lançam seu segundo disco, “Slave to the Grind” e conseguem ainda mais sucesso e popularidade. Aqui no Brasil a principio foi o público roqueiro que teve o primeiro contato com a banda, esgotando a tiragem inicial do álbum de 89. A banda foi capa da Rock Brigade e teve inúmeras vezes seu nome citado na conceituada revista. Com a chegada da MTV Brasil em outubro de 90, o clipe de “18 and Life” também invade a parada diária do canal, que recebe em suas fileiras de fãs um reforço considerável de jovens adolescentes, que gostavam do som, mas gostavam ainda mais do vocalista Sebastian Bach. Todos os quatro clipes do então novo álbum frequentaram a parada da MTV e a programação habitual, é claro. Só para citar dois exemplos da exposição do Skid Row no canal brasileiro, uma contagem regressiva foi realizada para o lançamento do vídeo de “Monkey Business”, lançado aqui no mesmo dia da estreia na matriz americana e a participação de Bach no programa especial ‘A Entrevista MTV’. Eram tantos compromissos, que a banda tocou em Sampa e retornou aos Estados Unidos para cumprir mais três datas do giro mundial, mas claro, voltam a tempo para a apresentação carioca. A banda também foi o principal nome destacado durante a cobertura do festival pelos principais jornais, como por exemplo, O Estado de São Paulo.

Calma que eu já vou falar do dia do show, mas antes, só para reforçar esse assunto sobre a popularidade da trupe de Bach e companhia, a banda após o festival, continuou em alta e angariando mais admiradores, especialmente admiradoras. Com as baladas do conjunto disputando pau a pau com o Guns n’ Roses, as primeiras colocações nas rádios rock e na MTV Brasil, foi sintomático e até esperado, que eles retonassem em breve. Mas o breve virou um brevíssimo, com o Skid Row tendo datas marcadas aqui na terrinha para o mês de agosto do mesmo ano de 92, pouco antes de embarcar direto para a Inglaterra e participar do festival Monsters of Rock, em Donnington. Graças a uma promoção da 89FM, ganhei uma entrada para uma das duas noites que o Skid Row se apresentou no Ibirapuera. O show em si não foi muito diferente do que eu tinha acompanhado no início do ano, a não ser por dois detalhes: o som do Ibirapuera estava como de costume muito ruim, embolando tudo e o público atípico. Quem também esteve presente que me corrija se eu estiver errado, mas eu posso jurar que mais da metade da plateia, na verdade muito mais da metade, naquela noite não tinha mais do que 15 anos de idade. Eu nunca tinha visto tantas mães acompanhando molecas vestidas de roqueiras como naquele dia. Foi diferente.

Bom, vamos finalmente ao dia que interessa. Em 1992 eu já não tinha mais medo do ingresso modelo cartão magnético me deixar na mão no momento de passar na catraca, mas eu ainda não sabia se ele era a prova d’água. Pelo sim, pelo não, durante o chuvão que São Pedro mandou naquela tarde quente de janeiro, eu me escondi em um dos bares, que ainda existiam nas proximidades do estádio do Pacaembu naquela época. Isso me custou o lugar na fila, mas pelo menos entrei seco e a tempo de assistir ao burocrático e chato show do Barão Vermelho. Tantas boas bandas compatíveis com o estilo principal da noite poderiam estar lá, mas fazer parte de um cast de festival grande não é só talento, é política também. Por ter entrado um bom tempo depois dos portões serem abertos acabei ficando na parte de trás dessa vez e aproveitando os ótimos telões laterais para acompanhar os shows. Por falar nisso, como em 1990, o palco do Hollywood Rock mais uma vez impressionava com sua estrutura tubular e os paredões de caixas de som; som que por sinal era alto, limpo e perfeito. As camisetas pretas predominavam e tinham muitas meninas, não como seria no show de agosto, mas elas eram uma presença considerável.

O Extreme é muito bem recebido e faz um show que eu poderia classificar como OK. As músicas dos clipes eram mais conhecidas por razões óbvias e conseguiram trazer o público para participar. Todos os presentes, até os vendedores de sorvete que estavam trabalhando um bocado, cantaram com a banda a balada “More than Words” a pleno pulmões, sendo esse o momento que eu mais me recordo daquele show. Nuno já era um guitarrista muito bom naqueles dias, mas o som do Extreme o limitava um bocado e era melhor mesmo esperar pela atração principal.

O Skid Row invade o imponente e grande palco colocando seu hard rock mais cru logo no início para incendiar o Pacaembu. Engana-se redondamente quem acha que a banda era refém do seu vocalista, muito pelo contrario. O instrumental era muito pesado e ao vivo faixas como “Youth Gone Wild” soavam verdadeiros tijolos. Bach estava com sua voz no ápice e abusava dos gritos sem economia alguma, o que justifica o desgaste atual. A distinção entre os dois perfis do Skid Row – o do hard rock e o das baladas – eram muito perceptíveis. Quando Rachel Bolan assumiu o microfone e executaram o cover do Ramones, “Psycho Therapy”, eu percebi um começo de rodas sendo formadas alguns metros a frente. Já durante as baladas o coro feminino era o predominante. Deu para acompanhar legal, mesmo estando mais para o fundo, graças ao excelente sistema de som e os telões.

Terminado o show no Pacaembu não deu tempo de escapar ileso de uma nova chuva que resolveu dar o ar da graça, mas estar perto do portão da entrada principal do estádio se mostrou vantajoso mais uma vez, pois foi lá que eu me abriguei. A grande maioria do público presente, por volta das 40 mil pessoas segundo as publicações da época, não caberia ali naquele espaço coberto não.

O ano de 1992 estava apenas começando, com o país ainda atolado em problemas econômicos, os quais nós por não termos alternativa, acabávamos nos acostumando a conviver. Mas os shows aconteceriam e nãos seriam poucos. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito, a começar pelo pagamento de uma dívida de honra. Em 1989 a coisa não rolou, mas dessa o panzer alemão não deixou ninguém na mão. As datas para a primeira visita do Kreator ao país tropical estavam confirmadas e o meu ingresso já estava na mão. E é disso que vamos falar na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Festival Hollywood Rock 3 (1992):

17 de janeiro: Estádio do Pacaembu em São Paulo:

Barão Vermelho, Extreme e Skid Row.

18 de janeiro: Estádio do Pacaembu em São Paulo:

Cidade Negra, Seal, Jesus Jones, Paralamas do Sucesso e Titãs.

19 de janeiro: Estádio do Pacaembu em São Paulo:

Lulu Santos, EMF e Living Colour.

 24 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Lulu Santos, EMF e Living Colour.

25 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Cidade Negra, Seal, Jesus Jones, Paralamas do Sucesso e Titãs.

26 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Barão Vermelho, Extreme e Skid Row.

Extreme: Setlist do show do dia 17 de janeiro de 1990.

 1.It (‘s a Monster)

2.When I’m President

3.Play With Me

4.Pornograffitti

5.Suzi (Wants Her All Day What?)

6.Midnight Express

7.Love of My Life

(Queen cover)

8.More Than Words

9.Hole Hearted

10.Decadence Dance

11.Rest in Peace

12.Get the Funk Out

13.Song for Love 

Skid Row: Setlist do show do dia 17 de janeiro de 1992.

1.Slave to the Grind

2.Big Guns

3.Here I Am

4.18 and Life

5.Piece of Me

6.Drum Solo

7.Makin’ a Mess

8.Psycho Therapy

(Ramones cover)

9.Wasted Time

10.Psycho Love

11.Midnight / Tornado

12.Mudkicker

13.Monkey Business

14.I Remember You

15.In a Darkened Room

16.Youth Gone Wild