“Na moda”

Olá caro leitor, após te colocar a par dos principais fatos que marcaram os eventos internacionais do ano de 1992, é tempo de virar a folhinha e começar o ano de 1993 e relembrar a quarta edição do festival Hollywood Rock, que foi mais uma etapa de um evento que se tornou anual e extremamente popular durante a primeira metade dos anos 90, proporcionando aos fãs de diversos estilos musicais a chance de ver seus artistas favoritos de perto. Dessa vez o universo da música pesada foi representado me peso pelo grunge, que era a bola da vez do modismo. A direção do festival apostou todas suas fichas no: Nirvava, Alice in Chains, L7 e Red Hot Chilli Peppers – que não fazia parte do então chamadosom de Seattle’, mas estava em evidencia nas rádios e nas MTV’s da mesma forma. Para completar a programação foram convidados Maxi Priest e o já veterano do festival, Simple Red, além dos caseiros, De Falla, Biquini Cavadão, Engenheiros do Hawaii (de novo) e para não chamar o Barão Vermelho outra vez, foi inventado o Midnight Blues Band. O único fora desse nicho repetitivo foi o Dr. Sin.

Já comentei em outras oportunidades que esse festival aprendeu com seus erros e sabia que sem banda de música pesada, sem lucro substancial, e dessa vez ele olharam direto para as paradas das rádios e para quem encabeçava o Disk MTV (o top 10 diário da emissora). Os locais definidos foram dessa vez o Estádio do Morumbi em São Paulo e novamente a Praça da Apoteose no Rio de Janeiro. Há exemplo da edição de 1990 e 1992 foram agendadas três datas para cada cidade. São Paulo nos dias 15, 16 e 17 de janeiro e coube aos cariocas os dias 22, 23 e 24.

Os preços dos ingressos foram fixos, nada de vinculo ao dólar paralelo nessa oportunidade, e a meia-entrada foi utilizada pela primeira vez. Os valores ficaram dentro do seguinte parâmetro: arquibancada CR$ 140.000,00; cadeira superior CR$ 220.000,00 e cadeia inferior/pista CR$ 200.000,00. Eu sei que esses preços a principio assustam, mas a média não foge da casa dos oito aos onze dólares, que foi mais ou menos o preço do ingresso na edição de 1992.

A cobertura televisiva ficou com exclusividade para a TV Globo (como sempre), que se limitou novamente aos shows do Rio e nem todas as bandas receberam o privilégio de uma transmissão ao vivo. Sem inovar em nada, para vender seu peixe, o canal mostrava em seus telejornais as chegadas dos artistas nos aeroportos e todo tipo de reportagens inúteis. O jornal da TV Cultura, que era transmitido durante o horário do almoço, voltou a ser a melhor opção para se conseguir informações decentes como já havia sido em 1992.

Uma grande diferença nessa quarta edição foi que os organizadores do evento resolveram se revelar tão ‘estrelas’ quanto os artistas que contratavam, só que sem ter a menor graça. Diferente das oportunidades passadas, dessa vez foi agendada uma coletiva de imprensa, em dezembro de 92, em vez de um comunicado com as informações para o festival. Com as presenças de Luis Oscar Niemeyer como representante da produtora Mills e Niemeyer, e Andrew Colchin, representante da Souza Cruz, o que se viu show um show de bizarrices e respostas mal criadas. Os ‘astros’ se limitaram apenas na divulgação de alguns nomes e rebater mal educadamente as perguntas sobre possíveis surpresas, que poderiam ser ainda incluídas nos cast final. Como exemplo podemos citar uma dúvida recorrente, que era o porquê de nomes dados como certos anteriormente (Genesis, Poison e Beastie Boys) terem sido descartados e os jornalistas presentes fizeram essa indagação. O ‘simpático’ Niemeyer respondeu a questão dessa forma: ‘Azar de vocês que divulgam coisas que não confirmamos’. Para não ficar tudo no campo das ferraduras, Guilherme Zattar, gerente de promoções do grupo Souza Cruz, se mostrou mais solícito com as perguntas e disse que o Beastie Boys havia cancelado dias antes sua participação e que as negociações com Pearl Jam e Soundgarden não prosperaram. O sucesso do festival já tinha subido a cabeça dos organizadores, que em vez de se portar como o centro das atenções, deveriam se preocupar em fazer tudo correr bem e por preços justos.

A exemplo dos “…PRA FICAR!!!” sobre os festivais Hollywood Rock de 1990 e 1992, vamos dar um panorama geral sobre o evento e depois nos fixar no dia 15, a data que eu estive presente, ok? Vamos lá, começando com o final de semana paulista:

Estádio do Morumbi, 16 de janeiro – Mesmo sendo um sábado o público foi menor em relação ao dia anterior – por volta das 50 mil pessoas (a organização espera 80 mil). O Dr. Sin com jeito de estranho no ninho faz um bom show e se levarmos em conta que em 93 o conjunto era bem novo, até que a recepção do público foi legal. Para garantir Andria (que em uma breve entrevista para a rede globo no final de semana carioca, foi apresentado como ’André’) e a trupe incluíram nas duas apresentações covers de AC/DC e Led Zeppelin, já que seguro, preces e chá de camomila não fazem mal a ninguém. O trio hard rock sai do palco e entra o Engenheiros do Hawaii … DE NOVO. A melhor coisa desta banda ter se apresentado no sábado é que eu estive presente no evento na sexta e dessa vez, escapei da tortura, diferentemente de 1990. Depois foi a vez das garotas do L7, que segundo as publicações da época fizeram um show energético e de acordo para deixar o público para a atração principal o Nirvana. A crítica caiu de pau em cima dos astros de Seatlle, pois as músicas ao vivo simplesmente não foram executadas corretamente (estou apenas repetindo o que publicações da época relataram). Particularmente nunca gostei de nenhuma dessas duas bandas, mas acompanhei os shows transmitidos pela TV no final de semana carioca. A conclusão é que eu não perdi nada, muito pelo contrario. Mas teve quem gostou e acredito que se divertiram. Bom para eles.

 Estádio do Morumbi, 17 de janeiro – Para o domingo a organização espera um público mais seleto e intelectual para apreciar as atrações internacionais Maxi Priest e os manjados Simple Red (repetindo quase o mesmo show de 1988) e a invenção da vez, o Midnight Blues Band, que se tratava de um combinado com membros do Barão Vermelho(sempre presente), Kid Abelha e outros músicos brazucas. Como choveu os ouvintes da boa música resolveram ficar em casa ouvindo CDs de opera e o pior público do festival foi computado com apenas 35 mil presentes.

O lado carioca:

O público médio durante os shows na Praça da Apoteose foram bem equilibrados, todas as noites na casa das 45 mil pessoas e boa parte dos shows teve a transmissão ao vivo ou em encaixes em playback durante as noites de apresentação. A ordem das apresentações das bandas foram idênticas as das noites paulistas.

A parte que interessa:

Após um ano de 1992, inesquecível, com as presenças de Iron Maiden e Black Sabbath (com DIO), estava meio que difícil se empolgar com a quarta edição desse festival. O lado legal da coisa era que apesar da crise sem fim que o pais constantemente enfrentava, bem ou mal, era outro mês de janeiro com um grande festival confirmado. O preço o ingresso de pista também não estava fora dos padrões e o dia para ir era muito óbvio, o do Alice in Chains. Eu não compactuei com a moda grunge que por um tempo entre 93 e 94, fez alguns apreciadores de música pesada trocar as camisetas pretas por camisas de flanela xadrez, mas gostava do primeiro LP do Alice in Chains e quanto a atração principal da noite, o Red Hot Chilli Peppers, eu não conhecia (fora os hits apresentados constantemente na MTV) o suficiente para tirar alguma conclusão. Dessa forma entre ficar em casa e talvez me arrepender depois, me dirigi á loja Jeaneration do shopping Ibirapuera e comprei um ingresso de pista para o dia 15.

Como eu já relatei da vez que falei sobre a edição de 1990 no mesmo estádio do Morumbi, o transporte não era problema, pois a CMTC (a então Companhia Municipal de Transportes Coletivos) fornecia ônibus suficientes tanto para ir ao evento, quanto para a hora da volta também. Mesmo sendo uma sexta, estávamos em pelo mês de janeiro, em época de férias e esse dia foi o de maior público dessa quarta edição com mais de 70 mil presentes. E deu para sentir na pele que tinha muita gente mesmo. Longas filas, todas muito mal organizadas, com um festival de furões se aglomerando em frente aos portões para tentar entrar antes. Estava uma bagunça e para ajudar dessa vez a PM não estava muito a fim de organizar a coisa. E nos momentos que resolveu intervir tratou quem estivesse na frente como bandido e a borracha comeu solta. A cavalaria deixou seus presentes aos montes na portaria e o cheiro se tornou insuportável. No momento em que foram abertos os portões muitas pessoas criaram ‘novas filas’ e daí na tentativa de organizar a zona, tudo virou um caos. No meio daquele rolo todo eu preferi assistir meio que longe e esperar a civilidade imperar mais uma vez. E demorou um bocado para acontecer. Como os shows de abertura seriam do De Falla e do Biquine Cavadão, para que pressa?

Depois de conseguir entrar sem ser amassado procurei um lugar em umas das laterais da já tradicional imensa estrutura tubular que abrigava o palco e os telões. Não vou ser hipócrita e dizer que sofri durante os dois shows de abertura, pois não seria verdade. Como eu ignorei a ambos não houve sofrimento algum, a não ser esperar pelas bandas que realmente interessavam. Felizmente existam muitas outras pessoas, que não estavam nem ai para o que estava acontecendo no palco e não faltavam assuntos para ajudar a passar o tempo. E as horas passaram e a vez do Alice in Chains chegou.

As noticias sobra a banda durante a semana se resumiram, quase que exclusivamente, sobre o medalha que Jerry Cantrell usava em seu pescoço e uma fã sem ter mais o que fazer puxou e sumiu com ela. E não se tratava de uma simples medalha e sim de algo muito pessoal, que o pai dele tinha usado durante a Guerra do Vietnam. Depois de diversos apelos a garota fujona devolveu o significativo suvenir. Menos mal. Quanto ao show vou expressar aqui o que eu disse no final da apresentação para duas garotas que assistiram ao meu lado: ‘Foi legal, mas seria muito mais legal se fosse num Olympia da vida’.  O som foi Ok, o setlist foi dividido democraticamente entre os dois discos que a banda tinha lançado até então e os caras fizeram sua parte com competência. Mas o enorme palco parecia um inimigo a ser combatido e os quatro ficaram sempre muito próximos, que não foi problema algum. Mas volto a dizer, ‘imagine aquele show num Olympia da vida’. Alguns adendos: eu aproveitei muito mais as músicas do “Facelift“, até por que eu as conhecia melhor; que bom que o Mike Starr ainda estava na line-up; o show soou bem pesada e o ponto lato da apresentação para 99% dois presentes foi “Man in the Box”, que quase derruba o estádio. Os outros 1% e EU preferimos “It Ain’t Like That”.

Missão cumprida com o Alice in Chains agora era esperar o Red Hot Chili Peppers. Como eu já disse anteriormente, meu conhecimento sobre a banda se limitava aos clipes da MTV, nunca tive um LP ou CD dos caras. Mas achava engraçado o hit “Give It Away” e foi exatamente essa música que abriu o show colocando fogo no lugar. Todos cantaram, todos pulavam e daí a canção acabou e… só, a graça terminou, pelo menos para mim. Eu assisti mais três ou quatro músicas, me despedi do pessoal que acabei fazendo amizade ali mesmo e fui embora. Ah meu, aquilo era chato demais pro meu gosto. Eu gosto de música pesada, tudo bem, era uma praia diferente, mas apesar de respeitar outros estilos, não dava. Sei das habilidades dos músicos, são bons no que fazem e tal. E justamente por respeitar, em vez de ficar lá reclamando de tudo, fui embora. Foi bem melhor ir para casa.

De longe foi a edição mais mal organizada entre os festivais Hollywood Rock que eu tinha presenciado até então. Felizmente um ano depois as coisas entrariam nos eixos outra vez. Mas esse assunto fica para outro dia.

O ano de 1993 estava apenas começando, mas show grande só mesmo em maio. E quando eu falo grande é grande mesmo, no que e refere a qualidade e principalmente na época, popularidade. O Metallica iria trazer a tour do disco que mudou o rumo de sua carreira, o “Black Album. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Festival Hollywood Rock 4 (1993):

15 de janeiro: Estádio do Morumbi em São Paulo:

De Falla, Biquini Cavadão, Alice in Chains e Red Hot Chili Peppers.

16 de janeiro: Estádio do Morumbi em São Paulo:

Dr. Sin, Engenheiros do Hawaii, L7 e Nirvana.

17 de janeiro: Estádio do Pacaembu em São Paulo:

Midnight Blues Band, Maxi Priest e Simple Red.

22 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

De Falla, Biquini Cavadão, Alice in Chains e Red Hot Chili Peppers.

23 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Dr. Sin, Engenheiros do Hawaii, L7 e Nirvana.

24 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Midnight Blues Band, Maxi Priest e Simple Red.

 

Alice in Chains: Setlist do show do dia 15 de janeiro de 1993.

1.Dam That River

2.We Die Young

3.Them Bones

4.Would?

5.Love, Hate, Love

6.Junkhead

7.God Smack

8.Bleed the Freak

9.Put You Down

10.It Ain’t Like That

11.Hate to Feel

12.Angry Chair

13.Man in the Box

Red Hot Chili Peppers: Setlist do show do dia 15 de janeiro de 1993.

1.Give It Away

2.Organic Anti-Beat Box Band

3.Bullet Proof (George Clinton cover)

4.My Automobile (Parliament cover)

5.Suck My Kiss

6.Nobody Weird Like Me

7.If You Have to Ask

8.My Lovely Man

9.Heard It on the X (ZZ Top cover)

10.Stone Cold Bush

11.Blood Sugar Sex Magik

12.Higher Ground (Stevie Wonder cover)

13.The Needle and the Damage Done (Neil Young cover)

14.Magic Johnson

15.Under the Bridge

16.Me & My Friends

Bis:

17.Good to Your Earhole (Funkadelic cover)

18.Crosstown Traffic (The Jimi Hendrix Experience cover)

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)