“Consolidado”

Olá caro leitor, após te colocar a par dos principais fatos que marcaram os eventos internacionais do ano de 1993, é tempo de virar a folhinha mais uma vez e começar o ano de 1994, e relembrar a quinta edição do festival Hollywood Rock, que foi mais uma etapa de um evento que se tornou anual e extremamente popular durante a primeira metade dos anos 90, proporcionando aos fãs de diversos estilos musicais a chance de ver seus artistas favoritos de perto. Definitivamente em sua quinta edição, era um evento aguardado e consolidado. Um verdadeiro sinônimo do slogan da tabacaria patrocinadora, um sucesso. Dessa vez o universo da música pesada foi representado por dois nomes internacionais de grande relevância e principalmente, história. A voz do Led Zeppelin, Mr. Robert Plant, finalmente se apresentaria em nossos palcos e o mesmo valia para os monstros sagrados de Boston, o Aerosmith, que viviam sua fase de maior sucesso e também das mais criativas. Completando o time dos pesos pesados os americanos do Poison, que também emplacavam uma sequencia de discos de muito sucesso e o nossos pratas da casa, o Sepultura, mais internacionais do que nunca. Ah, o Ugly Kid Joe também esteve presente, n tentativa de repetir o sucesso do Faith No More. Essas bandas ‘engraçadas’ por ter força na MTV conseguiam espaços valiosos. Completando a line up o arroz de festa Titãs, Skank, Jorge Ben (que já tinha mudado de nome, mas isso pouco me importa, fica Jorge Ben mesmo) ao lado da ‘cantora’ Fernanda Abreu (sem comentários), o Live e a fora de série do pop Whitney Houston.

Já comentei em outras oportunidades que esse festival aprendeu com seus erros e sabia que sem banda de música pesada, sem lucro substancial, e duas noites foram dedicadas ao bom estilo pesado. Os locais definidos foram novamente o Estádio do Morumbi em São Paulo e a Praça da Apoteose no Rio de Janeiro. Há exemplo da edição de 1990 e 1992 foram agendadas três datas para cada cidade. São Paulo nos dias 14, 15 e 16 de janeiro e coube aos cariocas os dias 21, 22 e 23.

Os preços dos ingressos foram fixos, nada de vinculo ao dólar paralelo nessa oportunidade, e a meia-entrada foi utilizada pela primeira vez. Os valores ficaram dentro do seguinte parâmetro: arquibancada CR$ 9.000,00; cadeira superior CR$ 10.000,00 e cadeia inferior/pista CR$ 8.000,00. Se você acompanha nosso espaço semanalmente deve estar achando que estão faltando alguns zeros ai nesses preços. Na virada do ano, mais uma vez o Governo se utilizou do corte de três zeros para nortear nossa pobre moeda. Eu sei que ainda esses valores a principio assustam, mas a média não foge da casa dos oito aos onze dólares, que foi mais ou menos o preço do ingresso na edição de 1993.

A cobertura televisiva como SEMPRE ficou com exclusividade para a TV Globo, que se limitou novamente aos shows do Rio e nem todas as bandas receberam o privilégio de uma transmissão ao vivo. Sem inovar em nada como sempre, para vender seu peixe, o canal mostrava em seus telejornais as chegadas dos artistas nos aeroportos e todo tipo de reportagens inúteis e até meso repetidas em seu contexto principal. O jornal da TV Cultura, que era transmitido durante o horário do almoço, continuou a ser a melhor opção para se conseguir informações decentes como já havia sido em 1993.

Diferente da quarta edição em que os organizadores do evento resolveram se revelar tão ‘estrelas’ quanto os artistas que contratavam, ao convocar uma coletiva de imprensa, dessa vez tudo era divulgado meio de notas e publicadas nos jornais. O que foi uma ótima ideia, pois o show de horrores do ano anterior não se repetiu. Se você não sabe o que rolou precisa ler o “…PRA FICAR!!!”  a respeito do Hollywood Rock de 1993. Confere lá que você vai entender tudo. Entre o que foi divulgado no final de ano e a primeira semana do festival, algumas mudanças foram sinalizadas. A primeira noite em Sampa contando com Titãs, Poison e Aerosmith não era o problema, pois caminhava facilmente para um sold out paulista. Os rolos estava nas demais datas que sofriam com vendas absurdamente fracas. Para resolver a questão o Sepultura (que não estava na primeira relação de artista) foi chamado para integrar o evento no dia 15, sábado, ao lado do Live, Ugly Kid Joe e Robert Plant. Isso vez as vendas disparem. Já o Skank foi deslocado para o dia 16, para a noite mais fraca. Obviamente nada mudou na fraca procura pelo domingo.

Os jornais como de costume dedicaram em seus cadernos de cultura muito espaço ao festival e lotaram os seus leitores com informações irrelevantes e até mesmo absurdas, principalmente é claro, as representantes da música pesada, seus alvos prediletos. Mas nem tudo era baboseira, como por exemplo, a promoção patrocinada pelo matutino O Estado de São Paulo que contemplaria o vencedor com um par de ingressos e uma guitarra autografada por todos os integrantes do Aerosmith. Também divulgaram que Pearl Jam e Stone Temple Pilots recusaram participar do evento, pois era patrocinado por uma tabacaria. Outras duas recusas partiram do Rush e do Def Leppard.

A exemplo dos “…PRA FICAR!!!” sobre os festivais Hollywwod Rock de 1990 e 1992, vamos dar um rápido panorama geral sobre o evento e depois nos fixar com mais detalhes nos dias 14 e 15, as datas que eu estive presente, ok? Vamos lá, começando com o final de semana paulista:

Estádio do Morumbi, 14 de janeiro – Sexta feira de calor, que começou com 40 mil pessoas presentes, segundo as publicações da época. O Titãs cumpriu sua parte e contou com a boa vontade do público menos radical presente. O Poison tinha seu fã clube presente e fez um bom show. Já o Aerosmith, eu vou detalhar logo logo.

Estádio do Morumbi, 15 de janeiro – Por incrível que pareça o público a sexta foi um pouco maior e como eu já disse antes, o estrago nas vendas só foi consertado pela presença do Sepultura. O Live era uma banda de MTV e tocou para seu público de MTV. O mesmo quase vale para o Ugly Kid Joe e Robert Plant se mostrou um pouco sério demais para a plateia paulista. O problema mesmo desse sábado foi a solução de última hora. O Sepultura roubou o dia de diversas formas diferentes. Do show em si eu vou comentar já já, mas antes vamos falar o tala assunto da bandeira. Explicando para quem não sabe de nada. O fã clube oficial da banda, que tinha sua sede na Galeria do Rock aqui em Sampa, criou uma bandeira do Brasil estilizada com o “S” do logo Sepultura em seu centro. Já vi alegorias de carnaval se utilizar da nossa bandeira de forma muito mais desrespeitosa, mas com a música pesada a tolerância foi outra. Um suposto e “anônimo” procurador da justiça, que fez queixa crime contra o vocalista Max, com a acusação de adulterar e desrespeitar um símbolo nacional. Max deu tanto azar nesse rolo que ao deixar o palco carregando em seus braços seu filho Zyon e a tal bandeira, acabou se enroscando e sem querer pisando na dita cuja. Mais um motivo para os donos da verdade e moral propor quase um linchamento. No fim Max foi conduzido por uma tropa de policiais e jornalistas em busca de sangue até o 34 DP, prestar depoimento e depois ser liberado. Coisas de Brasil.

Estádio do Morumbi, 16 de janeiro – O domingo como já esperado teve o menor público da perna paulista, mas proporcionou diversos elogios da imprensa comum. Não vale a pena perder muito tempo falando sobre uma noite tão inexpressiva, apesar da presença da estrela pop Whitney Houston.

O lado carioca:

O público médio durante os shows na Praça da Apoteose foram bem equilibrados, todas as noites na casa das 30 mil pessoas e boa parte dos shows teve a transmissão ao vivo ou em encaixes em playback durante as noites de apresentação global. A ordem das apresentações das bandas foram idênticas as das noites paulistas e um se não bem importante foi a grande diferença entre as apresentações de Plant em São Paulo e no Rio. Se aqui o ex-Led Zeppelin quase fez a plateia dormir durante uma parte do show, no Rio ele se mostrou muito mais solto e até sorriu… e muito. Parecia outra pessoa. Sorte de quem esteve na apresentação carioca.

A parte que interessa:

Após um ano de 1993 com ótimos shows, era animador começar 1994 com duas datas tão convidativas nesse festival. Eu comprei meus ingressos no mês de dezembro na Galeria do Rock, mesmo sem contar com o Sepultura no sábado paulista. Eu era bem mais jovem e, portanto não tinha preocupação alguma em ir dois dias seguidos ao Morumbi. Tinha certeza eu minhas pernas iriam aguentar a maratona ha ha. Dia 14 foi sozinho pegando o caminho das pedras bem conhecido. De trem até a Luz e de lá um dos ônibus disponibilizados pela CMTC (a então Companhia Municipal de Transportes Coletivos) até o local do show. Eu já contei anteriormente como funcionava esse esquema. A companhia fornecia ônibus suficientes tanto para ir ao evento, quanto para a hora da volta também.  Ao chegar o estádio tive muita sorte, mas bota sorte nisso e visualizar três amigas bem no começo da fila para entrar no recinto. Como estava só não foi muito complicado pular o baixo alambrado e me juntar a elas, obviamente com alguns protestos do pessoal mais atrás, mas nada que gerasse confusão. Essa ação me proporcionou a chance de colar na grade, mais para o lado direito, entre o palco e um dos telões laterais. Com uma posição privilegiada foi só colocar os papos em dias com minhas amigas para passar o tempo e esperar os shows.

O Titãs eu já tinha assistido em outras oportunidades. Quem gosta, gosta e quem não ligava, não virou um fã. Particularmente eu preferia uma banda do nicho metálico representada ali. Já o Poison me surpreendeu positivamente com um show muito enérgico e com uma ótima recepção por parte do público, que estava em massa para ver o Aerosmith. Contando com o ótimo guitarrista Blues Saraceno o instrumental do Poison havia ganhado muito em qualidade. Brett Michaels dominou as ações e no final das contas quem foi para ver o Aerosmith, ganhou um ótimo show do Poison de brinde. “Unskinny Bop” e “Nothin’ but a Good Time” literalmente incendiaram a platéia e a banda obteve um ótimo retorno. Quanto a Tyler e companhia eu só posso dizer que, esse show de 1994, foi um dos melhores que assisti na vida em lugares abertos. Que apresentação fantástica. Citar destaques em meio a tantos clássicos é bem difícil. Eles estavam em grande forma e com uma sequencia de ótimos discos nas mãos. Uma das minhas favoritas entre as mais recentes naquele tempo, “Janie’s Got a Gun“, está bem viva na minha memória.  Os músicos, principalmente Tyler e Perry, se utilizavam das laterais da imensa estrutura tubular que abrigava o palco, para se aproximar da plateia. A vantagem de estar lá na frente foi poder VER os caras bem de perto. Em sua primeira visita ao Brasil, como eu já citei, eles rechearam seu setlist de clássicos, todos executados com maestria. ‘Dream On” ao vivo é outro papo e os efeitos luminosos deram um ar épico para a famosa balada. Terminado o evento era hora de voltar pra casa, dormir e já pensar em voltar.

Eu estava cansado, mas não via a hora de voltar para os shows do dia 15. Felizmente no sábado eu tinha carona para ir e voltar, o que ajudou pacas. Era perceptível ao adentrar no estádio que o público era menos do que no dia anterior, mas mesmo assim tinha muita gente e as camisas pretas dessa vez predominavam amplamente. O Live sentiu na pele a diferença e eu te garanto que eles devem ter desejado ter se apresentado na noite anterior. Eu ouvi mais vaias do que aplausos da lateral do gramado. È, dessa vez não teve grade, até por que chegamos já com os portões abertos. Mas mesmo ali, a visão era boa e o telão fazia o restante do serviço. Após o Live sumir o palco a coisa foi mais agitada. Era um tal de pessoas mais ‘normais’ de afastando da frente da estrutura principal e as camisas pretas tomando o espaço. O grande Sepultura, sem dúvidas, a atração mais aguardada do dia estava prestes a entrar. Os caras foram um rolo compressor e o Morumbi presenciou uma das maiores rodas já formadas em um estádio. A sequencia destruidora “Refuse/Resist”, “Territory”, “Troops of Doom”, “Slave New World”, “Desperate Cry”, “Inner Self” e “Arisesó pode ser descrita como caótica. Se você nunca viu AO VIVO e de PERTO o Sepultura com duas guitarras, lamento. Você não sabe o que foi o Sepultura. O incidente com a bandeira, que eu já relatei, passou batido para quem estava lá no local. Terminada a apresentação uma grande parte dos presentes virou as costas e se retirou do evento. E quando eu digo uma grande parte, eu não estou brincando. Sobrava espaço nas laterais quando o Ugly Kid Joe entrou em cena. E rapaz, cadê pique para ver Ugly Kid Joe depois do ataque sonoro do Sepultura? O show dos caras foi correto, mas eu preferi ver sentado no tablado que cobria o gramado. Eu tinha uma boa expectativa em relação ao Robert Plant. Na época eu achava que era o mesmo próximo de um show do Led Zeppelin que eu poderia chegar. Porém com um setlist compatível com sua condição na época e uma certa arrogância (não sei se essa é palavra…), o show não emplacou, apesar do final com os clássicos “Whole Lotta Love” e “Rock and Roll” salvarem a noite. Eu achava que o cansaço do dia anterior estava cobrando um pedágio, mas não era isso. Conversando com o pessoal próximo a decepção era geral. Felizmente o bis deixou uma boa impressão e sorrisos mesmo, só veríamos pela TV no final de semana seguinte.

Essa a edição foi mais bem organizada entre os festivais Hollywood Rock que eu tinha presenciado até então. Sem problemas com os cartões magnéticos, seguranças, vendedores, etc. O som de alto nível como sempre e só restava esperar para saber como seria a próxima em 95.

O ano de 1994 estava apenas começando, e muitos shows estavam sendo especulados para os próximos meses. E já em fevereiro um evento gratuito estava confirmado. Era o M2000 Festival na cidade Santos e ainda em clima de férias era hora de voltar para baixada ver conferir uma banda inédita por aqui, o Mr.Big, entre outras surpresas. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Festival Hollywood Rock 5 (1995):

14 de janeiro: Estádio do Morumbi em São Paulo:

Titãs, Poison, e Aerosmith.

15 de janeiro: Estádio do Morumbi em São Paulo:

Live, Sepultura, Ugly Kid Joe e Robert Plant.

18 de janeiro: Estádio do Pacaembu em São Paulo:

Skank, Fernanda Abreu/Jorge Ben e Whitney Houston.

21 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Titãs, Poison, e Aerosmith.

22 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Live, Sepultura, Ugly Kid Joe e Robert Plant.

23 de janeiro: Praça da Apoteose no Rio:

Skank, Fernanda Abreu/Jorge Ben e Whitney Houston.

 

Poison: Setlist do show do dia 14 de janeiro de 1994.

1,The Scream

2,Look What the Cat Dragged In

3,Squeeze Box

4,Ride the Wind

5,I Won’t Forget You

6,Fallen Angel

7,Your Mama Don’t Dance

8,Something to Believe In

9,Every Rose Has Its Thorn

10,Stand

11,Unskinny Bop

Encore:

12,Talk Dirty to Me

13,Nothin’ but a Good Time 

 

Sepultura: Setlist do show do dia 15 de janeiro de 1994.

1.Refuse/Resist

2.Territory

3.Troops of Doom

4.Slave New World

5.Desperate Cry

6.Inner Self

7.Arise

8.We Who Are Not as Others

9.Propaganda

10.Biotech Is Godzilla

11.Dead Embryonic Cells

Encore:

12.Crucificados pelo sistema (Ratos de Porão cover) (c/ João Gordo)

13.Orgasmatron (Motörhead cover)

 

Robert Plant: Setlist do show do dia 15 de janeiro de 1994.

1.Babe, I’m Gonna Leave You (Joan Baez cover)

2.29 Palms

3.Ramble On (Led Zeppelin song)

4.Tall Cool One

5.Thank You (Led Zeppelin song)

6.If I Were a Carpenter (Tim Hardin cover)

7.Going to California (Led Zeppelin song)

8.Black Country Woman (Led Zeppelin song)

9.In the Mood

10.Calling to You

11.Hurting Kind (I’ve Got My Eyes on You)

Encore:

12.Whole Lotta Love (Led Zeppelin song)

13.Rock and Roll (Led Zeppelin song)

 

Aerosmith: Setlist do show do dia 14 de janeiro de 1994.

1.Eat the Rich

2.Toys in the Attic

3.Rag Doll

4.Angel

5.Monkey on My Back

6.Amazing

7.The Other Side

8.Cryin’

9.Boogie Man

10.Shut Up and Dance

11.Walk On Down

12.Draw the Line

13.Janie’s Got a Gun

14.Love in an Elevator

15.Dude (Looks Like a Lady)

16.Sweet Emotion

Encore:

17.Dream On

18.Livin’ on the Edge

19.Walk This Way

 (Créditos das fotos: Paulo Márcio)