“A melhor entre todas as vezes”

Semana passada contamos para você caro leitor, como foi o giro do Kreator pela nossa terrinha em 1992, e hoje o “…PRA FICAR!!!”, vai falar a respeito da segunda passagem da voz do Deep Purple, ‘Mr. Silver Voice’, pelo Brasil em maio do mesmo ano. Na verdade foi uma tour pelo continente sulamericano bem extensa, que não se limitou apenas ao nosso país. Gillan esteve no Uruguai, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Argentina (com direito a várias participações nos programas de TVs locais) e nosso Brasil, onde realizou cinco apresentações: duas aqui em Sampa nos dias 6 e 7 de maio; Curitiba no dia 8; Porto Alegre no dia 9 e dia 11 foi a vez do Rio de Janeiro.

Gillan trabalhou um bocado no ano de 1992 com a tour do álbum “Toolbox” contando com mais de 70 shows em diversos países. E por falar no disco de trabalho, a segunda visita de Gillan poupou uma grana considerável para os fãs do cantor, pois assim que as datas foram confirmadas, a representante do músico no Brasil, a Warner, disponibilizou o LP em versão nacional. O preço médio variava em torno dos CR$21.000,00 que era praticamente equivalente ao preço do ingresso de pista, para uma das apresentações da banda no Olympia aqui em Sampa. Apesar de muito mais barato que a versão importada, é claro que houve headbangers que tiveram que escolher entre comprar o disco ou ingresso – situação essa que soa muito familiar, pois foi o meu caso. “Toolbox” trazia Gillan de volta para o hard rock básico e contou com a produção do mago Chris Tsangarides, e essa era a força que o cantor traria para suas apresentações em 1992.

Apesar de não ser mais novidade, afinal o cantor tinha se apresentado aqui em 1990, conforme o “…PRA FICAR!!!” já contou com detalhes anteriormente, Gillan despertou interesse dos veículos de comunicação e concedeu entrevistas – além da tradicional coletiva de imprensa – para jornais, rádios e para a MTV Brasil no programa especializado da emissora, o Fúria Metal. Isso merece um adendo. Particularmente jamais gostei do modo que o programa em questão era apresentado, mas em um tempo de VHS’s caros e clipes de música pesada raros na TV comum, não deixava de ser uma das poucas opções. Mas aturar o ‘apresentador tampão’ no dia do programa, apesar do titular ter deixado a entrevista gravada, foi dose para mamute.  Mas, paciência. Bom, tire suas próprias conclusões, pois a entrevista está a disposição no final da matéria, como já é de costume. Continuando, a divulgação coube á radio 89 FM, mas não me recordo de nenhum tipo de promoção ou algo do gênero. Gillan também concedeu uma entrevista á revista Rock Brigade, que foi publicada na edição de junho de 1992.

Durante a coletiva de imprensa, realizada no hotel Maksoud Plaza, o cantor respondeu sobre o sucesso das bandas de thrash como o Sepultura com bom humor e dizendo que eles tocavam muito alto. Também disse que estava satisfeito com o disco anterior, “Naked Thunder”, mas que ao entrar no estúdio para gravar o novo álbum, acabou por descobrir que quatro era um número suficiente. Gillan se referia a banda mais enxuta, com apenas ele acompanhado de uma guitarra, baixo e bateria, sem necessitar de teclados e muito menos contar um cantor de apoio como foi na tour de 1990. Ele também não fugiu das perguntas sobre o Deep Purple, mas foi bem humorado nas respostas, apesar de confessar que estava cansado do assunto, mas que sabia ser inevitável.

Os dois shows em Sampa abriam a parte brazuca do giro como eu já disse, nos dias 6 e 7 de maio, respectivamente, quarta e quinta-feira. Os shows de música pesada acabariam se habituando a frequentar o suntuoso Olympia durante os dias de meio de semana, que se localizava na zona oeste da capital paulista, por um motivo que eu já disse anteriormente em outras oportunidades aqui nosso espaço, mas não custa repetir. Era bem mais barato locar a casa em dias de semana, o que proporcionalmente ajudava na operação como um todo e refletia diretamente nos preços dos ingressos. E por falar em ingressos, os shows de Gillan foram baratos. Lembra-se que eu disse acima que o preço da entrada de pista estava equivalente ao valor do novo LP do cantor? Então, comprei meu ingresso tranquilamente na porta do local por CR$ 20.000,00 e vamos dar uma parada no assunto principal para fazer uma conta bem rápida. O valor do dólar no dia seis de maio de 1992, no câmbio turismo, estava em CR$ 2.459,25 e eu te convido a fazer uma simples ‘Regra de Três’ e descobrir o valor do ingresso em moeda ianque. Você vai constatar que estava muito barato e eu só reclamei que tive que escolher entre comprar o disco “Toolbox” ou meu ingresso, por que eu ganhava pouco, assim como muita gente na época.

Mas chega de enrolar e vamos falar do dia da primeira apresentação de Mr. Gillan e sua banda e que eu felizmente pude estar presente. Como o sistema de transporte público paulista era muito mais confiável e se podia pegar um ônibus no Parque Dom Pedro para o Grande ABC até a 1h30 da manhã, eu não tinha a menor preocupação de ir para o bairro da Lapa, pois sabia que iria assistir ao show e voltaria para casa a tempo de dormir um pouco, para encarar o escritório no dia seguinte. E foi o que fizemos, eu e um amigo purplemaniaco, encarando o trem, descendo na estação Água Branca (bem perto do Palestra) e dando uma caminhada até a Rua Clélia 1517. Foi tranquilo para comprar as entradas e daí foi só se instalar na pista do Olympia. A banda de abertura era o Dr. Sin, que vai ser citado ainda muitas vezes nos futuros “…PRA FICAR!!!”, pois eu literalmente perdi a conta de quantas vezes essa banda abriu shows internacionais naquele tempo.

O Olympia não estava lotado, mas recebeu um bom público e uma coisa me chamou a atenção logo de cara. Diferente da vez em que estive lá para ver o Uriah Heep (já contamos sobre esse evento aqui no espaço também), o pessoal mais próximo do palco, estava próximo mesmo, pois não havia grade para separar os espaços. Foi a única vez entre as diversas em que assisti a um show ali, que isso aconteceu. O público incrivelmente comportado colaborou e respeitou não subindo no palco, o que facilitou tudo. Quem iria dar moshe no show do Gillan afinal de contas? O Dr. Sin fez um show competente pelo  que me recordo, até porque as condições que a casa sempre ofereceu foram as melhores. No Olympia nunca teve som ruim ou embolado, nunca. Meu amigo pegou uma das várias baquetas que o baterista Ivan Busic jogou no final da apresentação do Dr. Sin, depois de disputa-la com um moleque que tinha metade do tamanho dele. Era corajoso o pivete há ha.

Gillan, que em 1990, tinha realizado um bom show, dessa vez estava muito mais solto e confiante. No auge dos seus 46 anos o fantasma do Purple não parecia incomoda-lo nem um pouco. Ele veio mostrar seu novo disco, e foi isso que fez na companhia do jovem guitarrista Dean Howard, que não comprometeu nem um pouco; o baixista Brett Bloomfield (ex-Jeferson Starship), um cara grandão e que fez caretas durante o show inteiro e o ótimo (e saudoso, pois ele já faleceu) baterista, Leonard Haze, que eu admirava muito por causa de sua passagem pela banda Y&T. No set de 16 músicas, nove foram do então atual trabalho e diferente da chiadeira de alguns em 1990 por mais clássicos do Purple, não me recordo de nada do gênero. E como não se tratava de uma estreia, nada mais natural que o cantor apresentar o show que levou para diversos outros países. Particularmente eu não conhecia uma música sequer do “Toolbox”, eu só comprei o disco um tempão depois e posso cravar que foi uma das melhores apresentações, entras as várias que acompanhei do cantor, inclusive com o Deep Purple, em minha vida. Os sorrisos distribuídos por ele para a plateia durante o show que o diga. Obviamente as principais lembranças envolvem as clássicas “Black Night”, com um big coro de “OÔÔ’s” ecoando por todo o local e “Smoke on the Water”, que encerrou a noite e quase derrubou o Olympia. E também impossível esquecer quando Gillan colocou o microfone na boca de um dos fãs que estavam colados no palco e pediu para ele completar a frase, “When a Blind … “e o cara prontamente disse, “..Man Cries” e uma das mais belas composições da lendária banda inglesa foi executada com maestria. Nunca eu tinha imaginado na vida, presenciar o ‘Silver Voice’ interpretar essa canção, uma das minhas favoritas do velho  Purple. Terminado o show era hora de pegar o rumo de casa, mas não antes de dar uma passada pelo quiosque com merchans importados e babar com as camisetas fora do alcance do bolso naquele tempo.

O ano de 1992 estava começando a se tornar inesquecível, pois as notícias boas não paravam de pipocar. Discos fantásticos estavam sendo lançados, entre tantos, “Revenge” do Kiss, “Fear of the Dark” do Iron Maiden e “Dehumanizer” do grande Black Sabbath, que trazia o retorno do mestre Ronnie James DIO a banda. E em um momento de rara felicidade, os headbangers, além do maravilhoso álbum, recebiam notícias que a banda do Iommão, dessa vez viria mesmo para um giro em nossa terrinha no mês de junho. E esse é nosso assunto para a semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Ian Gillan brazilian tour (1992):

Porto Alegre, 9 de maio;

Rio de Janeiro: 11 de maio;

Curitiba: 8 de maio;

São Paulo: 6 e 7 de maio.

Setlist básico das apresentações:

  1. Dancing Nylon Shirt
  2. Candy Horizon
  3. Dirty Dog
  4. Black Night
  5. Toolbox
  6. Don’t Hold Me Back
  7. Everything I Need
  8. Ain’t No More Cane on the Brazos
  9. Bed of Nails
  10. Maybe I’m a Leo
  11. New Orleans
  12. Hang Me Out to Dry
  13. When a Blind Man Cries
  14. Dancing Nylon Shirt
  15. Blue Steel

Bis:

  1. Smoke on the Water