“Para nunca esquecer”

Na última semana relatamos no nosso espaço para você caro leitor, tudo sobre a primeira visita do grande Black Sabbath aqui na nossa amada terrinha em 1992, e hoje o “…PRA FICAR!!!”, vai contar tudo a respeito da segunda passagem do Iron Maiden pelo Brasil em agosto do mesmo ano. A maior banda de heavy metal de todos os tempos só tinha feito até então apenas uma apresentação para o público verde e amarelo, e já era mais do que hora de um retorno.

A tour pela America do Sul já estava sendo planejada desde o início do ano, tanto que o cantor Bruce Dickinson esteve no continente em março, com o intuito de promover o novo álbum que seria lançado em maio. Especulava-se que o Brasil e a Argentina teriam três shows cada e que o Chile apenas um. Mas como já comentei anteriormente em outras oportunidades as coisas naquele tempo não funcionavam como hoje e antecipar uma data antes dos ingressos estarem a venda era puro chute. Tanto que durante a breve passagem de Dickinson pelo Rio de Janeiro, o assunto principal foi o novo disco da banda e não se falou em apresentações ao vivo do Maiden no Brasil a principio. O cantor, em uma disputada coletiva disse, entre outros assuntos, que “Fear of the Dark” seria o primeiro álbum em que o guitarrista Janick Gears colaboraria como autor entre as músicas do trabalho – fato que não havia ocorrido em “No Prayer for the Dying”, o disco de estreia de Gers no Maiden.

Certeza mesmo da vinda da Donzela de Ferro, só tivemos durante a primeira semana de julho, quando as datas das apresentações foram anunciadas, a princípio a partir do dia 25 de junho. A revista Rock Brigade em sua edição número 72 (julho/92) informava que mudanças poderiam ocorrer, mas que as datas até então confirmadas eram essas: Buenos Aires, Argentina em 25 de junho; Santiago, Chile no dia 28 e depois seria a vez das datas brasileiras com dia 31 no Maracanâzinho no Rio, na sequencia os paulistas receberiam o Iron Maiden no dia primeiro de agosto no estádio Palestra Itália e fechando teríamos o show em terras gaúchas no Gigantinho dia 4. Mesmo com tanto zelo por conta dos órgãos de imprensa responsáveis pela divulgação, o que sempre se mostrou uma atitude prudente, essas datas brazucas acabaram por se confirmar conforme a primeira previsão. A banda de abertura convidada também era um nome estrangeiro, os também britânicos do Thunder.

E finalmente após mais de sete anos da inesquecível apresentação dos ingleses na primeira edição do festival Rock in Rio, o Brasil receberia os gigantes do heavy metal com sua nova formação e um excelente disco. “Fear of the Dark” foi lançado aqui praticamente simultaneamente com o restante do mundo e se tornou um sucesso logo de cara. A edição em vinil dupla já contava com uma concorrência forte nas vendas com o formato em CD, que se em 1990 era considerado artigo de luxo e extremamente caro (tantos os discos quanto os aparelhos para reproduzi-los), em 92 a situação já tinha mudado e era possível se encontrar diversos títulos com preços muito convidativos. Inclusive a versão em CD nacional era vendida por um preço mais em conta do que o LP duplo em vinil, que custava por volta de CR$43.000,00.

Com a aproximação das datas dos shows os valores dos ingressos também foram divulgados com os seguintes preços: dia 31 de julho no ginásio do Maracanâzinho, dia primeiro de agosto no estádio do Palmeiras ou no Gigantinho em POA, o fã do Maiden teria que desembolsar Cr$35 mil para comprar a entrada para assistir a apresentação do setor de arquibancada, Cr$40 mil na pista e Cr$50 mil na cadeira especial. Todas as datas tiveram lotação esgotada como já era de se esperar.

O Iron Maiden desembarcou no Rio no dia 29 de julho e no mesmo dia concedeu a famosa entrevista coletiva no hotel Rio Palace, que foi muito concorrida e contou com os absurdos de sempre. Entre os malas, quer dizer, ‘profissionais’ presentes, um cidadão de um órgão de imprensa não especializado (só podia) insistia em querer saber dos membros da banda, porque o Iron Maiden incentivava a violência e o ódio. Para complicar a interprete era péssima e ajudou a confundir todas as perguntas e respostas, que pacientemente Bruce, principalmente, tentava rebater, até mesmo as mais ridículas. A banda Thunder também esteve á disposição para uma coletiva meia hora antes da do Iron Maiden. Por total desinformação dos presentes em relação ao Thunder, o encontro com a imprensa (sempre bem preparada e superinformada, ‘uhum’) não durou nem dez minutos por falta de perguntas, em uma situação para lá de embaraçosa. No dia seguinte o evento mais sagrado – pelo menos pro Steve Harris – que era o rachão entre Iron Maiden x catado da gravadora EMI. Stevão, torcedor fanático do West Ham, como todos sabem tem a manha com a bola nos pés e garantiu a vitória dos britânicos. Ainda no dia 30 os membros do Maiden concederam breves entrevistas para alguns jornais como a Folha de São Paulo, que queria antecipar fatos relevantes antes da chegada da banda a cidade da garoa e também para MTV Brasil, que foi ao ar durante o programa Semana Rock, que era transmitido pelo canal de TV especializado em música.

Finalmente chegado o dia 31 a Donzela de Ferro retornaria a um palco carioca, mas antes foi a vez do Thunder. Para quem não conhece, o Thunder era uma banda relativamente nova, tanto que o disco “Backstreet Symphony” de 1990, era seu debut. Eles estavam com seu segundo LP agendado para ser lançado (para ser preciso, em 24 de agosto de 1992) em meio a tour de apoio ao Maiden e com seu primeiro trabalho tinham conseguido uma ótima repercussão nas rádios e na MTV americana. Mas aqui, tirando o pessoal que acompanhava o que rolava lá fora através das revistas importadas, eram meros desconhecidos e isso refletiu diretamente na apresentação de 40 minutos no Maranãzinho, onde foram completamente ignorados pelo público. Tal frieza só terminou quando os primeiros acordes de “Be Quick or Be Dead” do então novo álbum do Maiden incendiou o lugar. No dia seguinte a mágica aconteceria na capital paulista, e é desse dia que vamos tratar com mais propriedade a partir de agora.

Os ingressos para o show no estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras deveriam começar a ser vendidos conforme as informações da organizadora DC Set, na sexta, dia 24 de julho de 1992, na tradicional Woodstock Discos. Desde as primeiras horas do dia uma fila se formou na porta da loja e como eu sabia (na verdade, todo mundo sabia) que isso ia acontecer, já tinha me garantido com o amigos de lá, uma forma de poder ir trabalhar e  só depois ir buscar o meu ingresso. Umas das vantagens de ser mais que um cliente de vários anos. E foi o que eu fiz, saindo do escritório as 16h30 e indo direto para lá. A fila estava chegando até em frente ao Terminal Bandeira, mas eu com a desculpa ensaiada que ia buscar uma encomenda qualquer, adentrei na loja sem perder tempo. Com ingresso na mão o sonho de finalmente ver o Maiden ao vivo estava próximo. Durante a semana o meu CD de “Fear of the Dark” não saiu do aparelho de som e o processo de contagem regressiva para o dia do show estava ligado.

E chegou o dia primeiro de agosto, um sábado frio com toda a cara de inverno e com promessa de chuva para o horário do show. Podia chover mármore, mas eu estaria lá e como meus amigos estavam fazendo planos para ir mais pelo final da tarde, dessa vez eu não esperei por ninguém e antes mesmo da hora do almoço eu já estava rumando para a estação Água Branca. Comi um lanche bem em frente do antigo Shopping Center Matarazzo, que se localizava ao lado do estádio do Palmeiras, no local onde hoje está construído o moderno Bourbon Shopping. Tinha muita, mais muita gente e obviamente as camisas do Maiden eram maioria esmagadora. Também tinha muitos roqueiros enchendo a cara cedo demais e fatalmente esses não viram show algum. A vantagem de ir sozinho era que caso encontrasse algum conhecido em algum lugar na longa fila, era um só a mais para entrar na frente, o que não causava tanta indignação dos demais. E eu dei essa sorte e encontrei um casal de amigos, e por tabela, um bom lugar. Assistir da grade estava fora de cogitação, pois teve gente que tinha passado a noite ali para conseguir ter esse privilégio. Mas após centenas de assuntos discutidos, algumas idas ao banheiro do buteco no quarteirão de baixo e passar frio, por volta das 3 da tarde os portões abriram para receber as 30 mil pessoas que estiveram presentes para matar sua sede de Maiden. A espera não foi nada fácil, pois os shows só começariam no horário noturno e o frio estava apertando no finalzinho da tarde com um vento bem inconveniente. A única coisa que iria lembrar um pouco as imponentes produções de palco tão costumeiramente usadas pelos ingleses era um pano de fundo preto, onde seriam projetadas as capas dos álbuns e nada mais – além da presença de Eddie, é claro.  Pois o vento era tão forte (e gelado) que não permitiu de forma alguma, que a produção conseguisse esticar o tal pano no fundo da estrutura do palco. Teríamos que nos contentar apenas com as músicas (quem tava ligando pra um pedaço de pano? Toca “Aces High” e tá valendo… haha) e com a banda de abertura. Pobre Thunder, nem tinha pisado no palco e já estava sendo zoado por um pessoal próximo, que se perguntava se o nome Thunder significava o diminutivo de Thundercats e se o Mumm-Ra era o vocalista. Pouco me recordo da apresentação dos caras, pois estava mais preocupado em manter minha posição em frente ao PA esquerdo da estrutura, de onde tinha uma boa visão do palco e de um dos telões também.

E foi com um frio lascado que a Donzela de Ferro colocou o campo do Palmeiras em chamas ao abrir sua apresentação, e não foi com a “Aces High”, e sim com “Be Quick or Be Dead”. Nós estávamos engatinhando nesse negócio de estar no caminho das grandes bandas internacionais e a partir do momento que você está inserido na rota, é óbvio que o artista vai apresentar o mesmo produto para todos. Mas como eu disse, nós éramos inocentes e não custava nada pedir a “Aces High” de vez em quando. O som foi alto e bem equalizado, e todos os presentes puderam curtir as vinte músicas apresentadas. Até as mais novas do álbum “Fear of the Dark” foram cantadas a plenos pulmões por quase todos, fato esse que chegou a impressionar Bruce, que dias depois citaria o show de São Paulo como o melhor do giro e o público paulistano como a mais vibrante plateia. Em meio a tantos clássicos, uma das partes mais vivas em minha memória é o momento em que o Maiden tocou “The Evil That Men Do”. Lembro-me que desgrudei os olhos do palco (mas só dessa vez) e passei durante a música toda a bangear e cantar, essa que é uma das minhas favoritas entre tantas do Maiden. Também me recordo de ouvir um cara falar durante a balada “Wasting Love”, que aquele seria o clipe apresentado no Fantástico no dia seguinte. Profecia que não se concretizou, pois o tal programa nem citou a passagem dos britânicos, quanto mais divulgou um vídeo. Por falar em vídeo, dias depois do evento uma versão bucaneira estava á disposição e eu não perdi tempo em comprar minha cópia em VHS. Para a sorte de vocês, esse documento está disponível no You Tube e já sabe né? Como sempre o link está a disposição no final dessa matéria. Ainda sobre o show, foi uma experiência fantástica, inesquecível e gelada. Os mais de 30 mil fãs presentes não se arrependeram de nada, tenho certeza. Ao final da apresentação ainda tentei encontrar algum dos meus amigos e descolar uma carona para casa, mas acabei voltando de trem mesmo, e por muito pouco escapando da chuva forte que felizmente se atrasou não comprometendo o show.

Porto Alegre encerrou o giro sul americano, onde a banda apresentou o mesmo setlist antes de continuar a tour para promover “Fear of the Dark”. Eles nem imaginavam o que o futuro próximo reservava para o Iron Maiden com a saída de Bruce e tudo mais. Mas esse assunto é papo para outro dia.

O ano de 1992 já era um dos mais marcantes, mas os shows importantes ainda reservariam capítulos muito especiais nos meses restantes. O Sepultura, cada vez mais internacional, estava encerrando na semana seguinte do show do Iron Maiden a tour do muito bem sucedido “Arise”, com shows no Olympia e no Ibirapuera. Esses eu perdi por falta de grana mesmo. No mês de setembro a coisa estava boa para quem curtia as bandas Die Toten Hosen e Ramones, que nunca estiveram entre as mais interessantes e dessa forma, shows passáveis. Mas outubro tinha dois retornos bem legais agendados. O primeiro deles era o Marillion, que se apresentaria no suntuoso Olympia e seria a chance de ver a banda de progressivo britânica em um local muito mais apropriado para seu tipo de som. E semana que vem vamos contar tudo o que rolou nessa segunda passagem dos ingleses pelo nosso país, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Iron Maiden brazilian tour (1992):

São Paulo: primeiro de agosto.

Rio de Janeiro: 31 de julho;

Porto Alegre, 4 de agosto.

Setlist básico das apresentações:

1.Be Quick or Be Dead

2.The Number of the Beast

3.Wrathchild

4.Can I Play With Madness

5.From Here to Eternity

6.Wasting Love

7.Tailgunner

8.The Evil That Men Do

9.Afraid to Shoot Strangers

10.Fear of the Dark

11.Bring Your Daughter… to the Slaughter

12.The Clairvoyant

13.Heaven Can Wait

14.Run to the Hills

15.2 Minutes to Midnight

16.Iron Maiden

Bis:

17.Hallowed Be Thy Name

18.The Trooper

19.Sanctuary

20.Running Free

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)