“O Super Metal Festival”

E chegou o dia de um novo capitulo do nosso “…PRA FICAR!!!”. Na semana passada foi uma contar como foi a marcante segunda passagem da banda do Scorpions pelo Brasil e dessa vamos contar como foi que rolou o Super Metal Festival, que teve como atração principal o grande Kreator. Depois da confusão de 1989, o panzer alemão veio nos visitar em 1992 e deixou na época a promessa de retornar em breve, fato que se concretizou em 1994.

Sob a responsabilidade do Dynamo em parceria com a Cacá Prates Produções, o Super Metal Festival foi um evento que reuniu grandes nomes do metal nacional em uma única noite tendo como hedliner os alemães. As produtoras contaram com o apoio da Devil Discos, que se localizava na Galeria do Rock, além da Meteoro, PA instrumentos musicais, Ginza Fletes e Churrascaria Mate Amargo. Vocês que estão acompanhando semanalmente aqui o nosso espaço, já sabem que o início de 1994 trouxe diversas opções de shows internacionais ao Brasil e o grande diferencial desse evento era justamente a oportunidade dada ás bandas brazucas de serem destaque também. Foram escalados o mineiro The Mist, o então novato Krisiun, o P.U.S., as garotas do Volkana e o já veterano Korzus. Os ingressos poderiam ser adquiridos antecipadamente – em diversas lojas da Galeria do Rock e na Woodstock Discos – no valor de CR$ 8.000,00 ou na porta no dia dos shows um pouco mais caro, sendo CR$ 10.000,00. O local escolhido para abrigar o evento foi o ginásio da Portuguesa de Desportos, localizado ao lado do estádio do Canindé, que posteriormente mostrou que possuía uma das piores acústicas já presenciadas em um evento de música pesada.

O Kreator trazia nas mãos o álbum “Renewal”, o sexto de sua carreira, que havia sido lançado em 26 de outubro de 1992. Eles estavam já no final de uma cansativa e extensa tour, mas mostraram muita disposição ao chegar ao Brasil. Participaram de eventos nos tradicionais pontos heavy paulistanos e se  mostraram  muito mais a vontade do que na sua primeira visita ao país em 1992. Definitivamente o reboliço causado pela não vinda dos alemães em 1989 estava totalmente esquecido por parte da imprensa e principalmente pelos fãs. Não sabe do que eu estou falando? Então entre no sistema de busca aqui do nosso site e procure o “…PRA FICAR!!!”, que conta tudo sobre a visita cancelada do Kreator ao Brasil em 89. Tá tudo bem explicado lá.

Obviamente, o Kreator como atração principal, já traria público, mas era muito animadora a line up nacional também. O The Mist, banda do ex-guitarrista do Sepultura, Jairo, estava com um bom disco em mãos – “Ashes to Ashes, Dust to Dust” – e mesmo desfalcado do baixista Marcello Diaz, fazia a diferença e mandava o recado para quem pensava em chegar mais tarde repensar em sua decisão. Os então novatos moleques do Krisiun tinham acabado de mudar de mala e cuia aqui  para Sampa, e já eram muito promissores. Hoje quem vê o potencial e o lugar conquistado pelos gaúchos no universo da música pesada nem imagina o duro que esses caras deram e o quanto merecem seu sucesso. O P.U.S. para quem não conhece, ou não se lembra, vale dizer que eles contavam com um bom prestigio naquela época. Quem acompanha o “…PRA FICAR!!!” toda semana sabe que a banda tinha recentemente aberto para o Anthrax e o Fight de Rob Halford. O cojunto de Brasília também estava com disco novo em punho – “Sin is the Only Salvation” – e com a guitarrista Simone (ou Syang) cada vez sendo mais o destaque do grupo. O Volkana trazia novidades bem interessantes com sua nova formação e disco saindo do forno em breve. A banda tinha sido precisa nas mudanças ao acrescentar uma segunda guitarrista, Selminha, que garantiria os solos nas canções – um problema antigo do Volkana. E uma vocalista muito melhor com uma voz mais ríspida, Claudia França, no lugar de Mariele. O novo álbum que estava a caminho se chamaria “Mindtrips” e parecia ser muito promissor – fato que ganharia corpo principalmente após a ótima impressão que elas deixaram nesse evento. Já o Korzus por si só já é uma atração das mais aguardadas em todos os locais em que vai, e naquele tempo não era diferente.

Agendado para o dia 16 de abril, um sábado, o acumulo de shows fez com que muitos dos meus amigos e conhecidos não se interessassem em encarar a maratona na quadra da Lusa. Bom, eu não os culpo, pois marcado para iniciar ás 21 horas (com abertura dos portões por volta das 19 horas) a principal certeza era que o evento iria entrar pela madrugada e devido á quantidade de atrações. E mesmo programados para serem apresentações curtas, variando entre 20 e 35 minutos, os inevitáveis e tradicionais atrasos tinham tudo para serem ainda mais longos. Dessa forma eu encarei a empreitada indo sozinho mesmo, mas como de costume, várias amizades nasceram nas filas de eventos e dessa vez não foi diferente. Imagino que muitos de vocês já tiveram esse tipo de experiência, que é conhecer um pessoal na porta do evento e pouco tempo depois parecer que existe um longo tempo de amizade. Equipes da MTV Brasil passavam o tempo todo filmando a fila e já dava para ver que eles pretendiam fazer uma cobertura completa do evento. E foi assim mesmo, pois dias depois um especial com entrevistas, duas músicas completas de cada uma das bandas nacionais e grande parte do show do Kreator foram apresentados na programação do canal no programa especializado Fúria Metal, em uma edição especial. Esse especial, assim como o show dos alemães, eu gravei na época em VHS, mas vocês estão com sorte. Tudo está disponível no You Tube e o obviamente como sempre os links estão á disposição no final dessa matéria. Não perca.

Por volta das 21 horas o The Mist invade o palco e já dava para perceber que seria difícil distinguir o som entre os chiados e microfonias. A péssima acústica do ginásio da Lusa me fez ter saudades do Ibirapuera. A produção de palco era muito básica e não apresentava logos do festival ou algo parecido. Algumas bandas como o Korzus deram uma caprichada por conta própria. Mas pode apostar que tanto eu como o restante do público se contentaria apenas com um som decente. Como foi a primeira banda a se apresentar, o The Mist pagou vários pecados servindo de cobaia para a mesa de som. O excelente público recebeu muito bem o conjunto que fez um show OK em pouco mais de 20 minutos, nem parecendo que estava desfalcada. Vale a pena citar que no dia seguinte eles mesmos abririam pro Kreator em BH. Na sequencia veio o Krisiun, que eu particularmente estava assistindo pela primeira vez. Na época a banda era um quarteto, bem menos experiente, mas não tem preço ter visto esses moleques naquele dia e poder ter acompanhado o crescimento desses músicos ao longo dos anos.

Demorou um bocado para o P.U.S., a terceira atração da noite, invadir no palco com todos os holofotes voltados para a guitarrista Simone Death. Com a iluminação dando umas piscadas estranhas a banda fez um show maduro, mas bem abaixou da vez que assisti a eles abrindo para o Anthrax no Olympia um ano antes. De qualquer forma o som estava um pouco mais equalizado e dava para distinguir melhor os instrumentos. Destaque para a música “Mosh!!”, que vocês vão poder conferir naquele especial que a MTV Brasil exibiu. O Volkana como eu já disse antes vinha com formação renovada e tocou músicas novas que fariam parte do futuro trabalho sem dó. A diferença da banda com duas guitarristas e a nova cantora era brutal. Uma pena o mercado da música pesada estar em baixa entre os anos de 1994/1995 e elas não terem colhidos frutos desse álbum com essa ótima formação. Confiram “Living Hell”, que é uma baita faixa assim como “Mindtrips”, que apesar de novas e desconhecidas do público presente foram muito bem aceitas. O único senão do show é que elas tocaram praticamente o set todo sem os principais spots de luz, quase em uma penumbra azulada mesmo. Eu disse que durante o show do P.U.S. as luzes estavam estranhas e acabaram pifando bem na hora do show delas. Mas isso na atrapalhou em nada a apresentação do Volkana, que foi uma das melhores que presenciei. Eu sabia que elas fariam um set com músicas novas, pois durante a semana antes do festival encontrei com a guitarrista Karla na festa da entrega dos prêmios da revista Rock Brigade realizada no Garage, em Pinheiros. Lembro-me de perguntar para ela sobre a expectativa sobre o evento e ela me disse que seria um show curto (30 minutos), mas que a ênfase seria quase total nas novas músicas. E assim foi mesmo. O Korzus pegou o público já meio cansado, pois estávamos invadindo a madrugada do domingo por causa de alguns atrasos e muita gente aparentemente estava se poupando para encarar o Kreator. Eu não fiz questão alguma de me aproximar da grade nesse dia, pois eram muitos shows e a visibilidade era boa em todo local. Ficar por perto das laterais proporcionava a chance até de se sentar no chão de dar uma muito bem vinda descansada.

Já perto da uma da manhã o Kreator começa a fazer o seu melhor show no Brasil em anos –  só superariam aquela noite nas apresentações recentes realizadas na década passada, isso em minha modesta opinião, é claro.  Mesmo os problemas com iluminação e som não atrapalharam o bastante. Os músicos foram brilhantes na execução de clássicos como “Extreme Aggression”, “Brainseed”, “Pleasure to Kill”, “Pleasure to Kill”, a então nova “Renewal”, além das obrigatórias “Flag of Hate” e “Tormentor”. Mille sempre foi um frontman fantástico e a formação da banda naquele tempo era uma das suas melhores. As lembranças são as melhores possíveis por diversos motivos. Terminado o evento, já no meio da madrugada, era hora de dar uma caminhada até o terminal Tiete do outro lado da marginal e esperar chegar o horário dos funcionamentos dos ônibus e voltar para casa.

O ano de 1994 continuava firme como um dos melhores em termos de shows internacionais. Muita coisa estava sendo especulada como uma possível e sonhada edição do festival Monsters of Rock aqui em Sampa – fato que se consumou como todos sabem e nós vamos contar tudo aqui no nosso espaço, e com os detalhes citados por quem esteve presente naquele histórico dia. Mas antes disso uma surpresa inesperada daria as caras por aqui. O ‘The Voice of Rock’, Mr. Glenn Hughes estava chegando para divulgar seu novo disco, dar algumas entrevistas e deixar seus fãs malucos com uma concorrida tarde de autógrafos, e principalmente, uma jam totalmente inesperada no saudoso Black Jack Bar. E o “…PRA FICAR!!!” vai contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Kreator no Brasil (1994):

– São Paulo: 16 de abril de 1994, no Super Metal Festival ao lado de Korzus, Volkana, P.U.S., Krisiun e The Mist.

Setlist:

1.Zero to None

2.Extreme Aggression

3.People of the Lie

4.Brainseed

5.Europe After the Rain

6.Terrible Certainty

7.Pleasure to Kill

8.Some Pain Will Last

9.Renewal

10.Pleasure to Kill

11.Flag of Hate

12.Tormentor