“Dessa vez eles vieram”

Na última semana colocamos você, caro leitor, a par de tudo que rolou na terceira edição do festival Hollywood Rock, e hoje é dia de contar como foi o giro do Kreator pela nossa terrinha em 1992. Como vocês se recordam no primeiro capítulo da nossa série especial “…PRA FICAR!!!”, relatamos tim tim por tim o que aconteceu – e o que não aconteceu também – naquela abortada vinda dos alemães ao Brasil em 1989. Muito se falou e o assunto rendeu, mas pouco mais de três anos depois Mille e companhia finalmente desembarcaram na America do Sul, e dessa vez para uma tour envolvendo, a principio, Argentina, Chile e sete cidades brasileiras durante o mês de abril. 

A empreitada ficou por conta da Dynamo em parceria com a EMH e as datas divulgadas foram as seguintes: 10 de abril em Buenos Aires na Argentina; 11 de abril em Santiago no Chile; Porto Alegre abriria a parte brazuca em 12 de abril; dia 14 seria a vez do Rio de Janeiro; dia 16 em Belo Horizonte; dia 17 em Manaus; Recife no dia 18; Brasília dia 19 e fechando, duas datas na capital paulista, 20 e 21. Apesar de tantas datas só uma caiu – a de Manaus – e o giro apesar dos inúmeros percalços aconteceu quase em sua totalidade sem problemas mais graves.

Não precisa ter vivenciado aqueles dias ou ser bidu para imaginar como a desconfiança a respeito dessa tour era geral. A má impressão deixada pelo furo de 1989 ainda respingava na moral do Kreator com os headbangers brasileiros, fosse por culpa deles ou da produtora daquela época, isso pouco importava. Eu mesmo comentei com amigos, que só iria ao show depois de ver os caras chegarem no aeroporto. E eles realmente chegaram, na primeira semana de abril e com um ótimo álbum debaixo do braço, o “Coma of Souls”, que já estava disponível em versão nacional. Simpáticos e nitidamente querendo colocar as coisas sobre 1989 em pratos limpos, a banda concedeu entrevistas, comparecendo a um coquetel no Aeroanta. Mille visitou a MTV Brasil (com direito a entrevista no Furia Metal) e participaram do programa de TV do SBT chamado de ‘Programa Livre’, que era apresentado por Serginho Groisman. Nesse programa tocaram três músicas – “Terror Zone”, “People of the Lie” e “Under the Guillotine” – e responderam algumas perguntas. Entre elas, uma que eles responderiam em TODAS as vezes que se dispusessem a abrir a boca enquanto estivessem por aqui: ‘Por que vocês não vieram em 89?’. Mille pacientemente reforçou que a culpa foi do promotor e que eles tinham pedido para adiar o show em apenas duas semanas, mas não foram atendidos e daí o rolo que tudo virou nós já conhecemos bem.

Após a média feita com os brasileiros, o panzer alemão faz seu ótimo papel no país hermano para 2 mil fãs e rumam para o Chile onde tem seu maior público em todo giro, aproximadamente 4 mil bangers, sendo que esses números foram divulgados por publicações da época. Depois de um ótimo inicio nos países vizinhos, onde a banda contou com produção e equipamento (som, luz) de primeira, era hora do Kreator começar a encarar a epopeia brasileira e pagar alguns dos seus pecados.

O pontapé inicial foi dado em Porto Alegre e o local escolhido era um auditório ao ar livre. Até ai tudo bem, desde que não chovesse né? Pois adivinhe o que aconteceu? Com mais de duas horas de atraso (Fonte: revista Bizz, que estava presente para cobertura) o Leviaethan realiza o open–act, esquentando o publico para o Kreator. De lá a trupe se dirige para o Rio, para realizar sua apresentação do dia 14, uma terça-feira, na quadra da escola de samba Estácio de Sá. Dorsal Atlantica e Korzus foram bandas de abertura em meio ás alegorias e adereços de carnaval e tudo mais. Quem esteve lá não tem do que reclamar, pois foram ótimos shows, mas o Venthor teve e muito. O baterista foi roubado dentro do hotel onde estava hospedada a banda.

Vida seguiu e a próxima parada foi em BH com direito a sold out. As bandas de abertura foram o Overdose e o Whitchammer e Mille posteriormente confessaria que esse foi um dos melhores shows da tour. Rumo ao nordeste e já sabendo que o show na amazônia tinha ido para o vinagre, a banda faz outra grande apresentação na cidade do Recife e aproveitam para relaxar um pouco á base de praia e peixes. A banda Nephastus foi a responsável pela abertura nessa oportunidade. Como alegria é uma coisa que só dura até a próxima tristeza, o caldo entornou logo na chegada ao Distrito Federal, onde os músicos reclamaram muito da acústica do local do show. Mas mostrando que não eram de fugir do pau, o Kreator enfrentou as dificuldades e fez outro grande show, que contou com a abertura das bandas P.U.S. e Attomica. Dois parênteses precisam ser relatados sobre esse evento de Brasília. Em primeiro lugar o heroísmo dos integrantes do Attomica, que após o show no DF, se enfiaram em um ônibus e encararam os mais de mil quilômetros entre as duas cidades –  por volta de 14 horas de viagem – para no dia seguinte novamente abrir para os alemães no primeiro dos shows marcados para o Aeroanta. E em segundo lugar, Mille em entrevistas posteriores ao giro sulamericano, disse que a banda e ele pessoalmente, aprenderam muito na viagem em questão. Que tinham aprendido a fazer shows em condições precárias, encarar a situação que fosse e mesmo assim fazer um show digno.

Faltavam apenas as duas apresentações em território paulista e agora encarando no público muitos bangers que tinham ficado na mão em 1989. Mas a essa altura com ingresso em mãos e os relatos da banda sobre o ocorrido, aquele mal estar já era coisa do passado e mesmo para quem não tinha muito boa vontade com o assunto, estava claro que o Kreator tinha sido tão vítima, quanto os fãs que se desapontaram naquela oportunidade. As apresentações em Sampa seriam realizadas em uma segunda e terça (dias 20 e 21 de abril, feriadão prolongado) no já citado Aeroanta, localizado no bairro de Pinheiros. Para os mais novos se situarem, o Aeroanta ficava bem próximo de onde hoje temos o Carioca Club. No dia 20 o Attomica, ou o que tinha restado deles depois da longa viagem, faria abertura e no dia 21 a honra seria da banda P.U.S.. O ingresso custava para qualquer uma das noites o valor de CR$20.000,00 (vinte mil cruzeiros). O dolar estava cotado no dia 20 de abril de 1992 a CR$ 2.239.85 para compra. Faça uns cálculos rápidos ai e você vai descobrir que a entrada estava bem em conta. Minha opção foi pela apresentação da segunda, pois na quarta feira eu teria que trabalhar bem cedo e ainda mais importante que isso, dia 21 de abril era o aniversário da minha mãe. Por que você acha que essa data é feriado afinal de contas?

Era uma segunda com cara de sabadão, por causa do feriado no dia seguinte e eu já sabia que seria a noite mais concorrida entre as duas no Aeroanta. Infelizmente não tive tempo de comprar o meu ingresso antecipado e não tive outro jeito que não fosse encarar duas filas, uma para comprar a entrada e a rotineira para conseguir adentrar no local. E olha, o Aeroanta lotou naquela noite, sem dúvida uma das vezes que presenciei a casa mais cheia. O Attomica abriu o evento com força total ignorando o justificado cansaço. Tanto que em uma entrevista publicada na edição número 70 da revista Rock Brigade de maio de 92, Mille elogiou a performance dos caras, assim como o público presente naquele dia em especial. E não foi para menos, pois assim que o panzer entrou, iniciou o massacre com a trinca “Terror Zone”, “Toxic Trace” e “Betrayer”, e eu duvido que houvesse um único headbanger ainda chateado com os alemães. Eu assisti, com o passar dos anos, ao Kreator várias vezes em minha vida, mas aquela noite sempre será especial. Os clássicos foram executados com fúria, o som estava legal e o ambiente ótimo. Não me recordo de absolutamente nenhuma treta ou coisa parecida. E qualquer show que apresente “Endless Pain”, “Pleasure to Kill”, “Terrible Certainty” e “Extreme Aggression” só pode trazer boas recordações.

No dia seguinte o Kreator fez sua nova apresentação para um público menor, segundo as publicações da época e o P.U.S. se encarregou de abrir a noite. O saldo do giro foi positivo segundo a própria banda e quem sou eu para discordar. Finalmente o fantasma do furo de 1989 estava definitivamente enterrado e o assunto superado. Em 1994 o Kreator voltaria e felizmente os questionamentos nas entrevistas não abordariam mais esse assunto, que segundo Mille realmente incomodava.

O ano de 1992 estava começando a engrenar em termos de shows e uma sequencia de grandes nomes estavam prestes a retornar (e uma lenda, que faria sua estreia) ao Brasil e com produções muito mais dignas na maioria dos casos, pois a imponente casa de shows Olympia iria se habituar a receber, em maior quantidade, os grandes nomes da música pesada na cidade de São Paulo. E logo no início de maio Mr.Gillan estaria chegando para realizar sua melhor performance em nossos palcos. E vamos falar na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Kreator South America tour (1992):

Buenos Aires, Argentina: 10 de abril;

Santiago, Chile: 11 de abril;

Porto Alegre, 12 de abril;

Rio de Janeiro: 14 de abril;

Belo Horizonte: 16 de abril;

Recife: 18 de abril;

Brasília: 19 de abril;

São Paulo: 20 e 21 de abril.

Setlist básico das apresentações:

1.Terror Zone

2.Toxic Trace

3.Betrayer

4.Some Pain Will Last

5.Agents of Brutality

6.Riot of Violence

7.People of the Lie

8.Endless Pain

9.Pleasure to Kill

10.Terrible Certainty

11.Extreme Aggression

12.Coma of Souls

13.The Pestilence

14.Flag of Hate

15.Tormentor

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)