“Na praia e de graça”

O tempo passa muito rápido e é hora de um inédito capitulo do nosso …PRA FICAR!!!”. E se na semana passada foi uma oportunidade de passar a limpo a quinta edição do festival Hollywood Rock, dessa vamos contar como foi o M2000 Festival. Se os preços dos ingressos não assustavam tanto naquela época como nos dias mais recentes, a oportunidade de conferir artistas de ótimo calibre internacionais, e ainda por cima, na faixa, acabava sendo algo irrecusável.

Menos de um mês após mais uma edição do balado Hollywood Rock, umas das etapas do M2000 Festival – que era um projeto de shows na orla marítima e com gratuidade – apostava em direção ao rock, mesmo em tempos em que os trios elétricos ganhavam espaço aqui na região sudeste. Nada do tipo como vocês devem ter visto nos carnavais de rua – mesmo de longe ou pela TV, como eu, se muito – mas já incomodando o suficiente. Então quando foi divulgada a presença de um nome de respeito como o Mr. Big, as coisas meio que tomaram uma proporção diferente para os fãs da música pesada. Infelizmente as apostas seguintes não seguiram uma linha lógica, exceto pelos paulistas do Dr. Sin, os responsáveis por abrir a noite. A tal festa do hard rock na praia parou por ai quando os demais artistas foram divulgados: Rollins Band, Lemonheads e, inacreditavelmente, a cantora de pop Deborah Blando.

Já comentei em outras oportunidades que depois do show gratuito do Sepultura na porta do Pacaembu em 1991 – que também já foi alvo do nosso “…PRA FICAR!!!”, se você não leu, precisa – eu não tinha a menor intenção de ir em eventos gratuitos novamente. Porém, saber que o Mr. Big iria se apresentar em uma única data pela primeira vez em nosso quintal, acabou sendo motivo suficiente para eu abrir uma exceção, apesar dos restando da line up (com boa vontade, vou deixar a banda do Henry Rollins de fora dessa) ser medonha e ainda iria piorar.

A data confirmada foi 5 de fevereiro, um sábado, com horário a principio sendo a partir das 20h00. Como era um evento fora da rota dos mais bem pagos, as informações eram escassas e pouco confiáveis. Eu explico. Tratava-se de um evento sem público pagante e sem transmissão de TV e talvez por isso os jornais não prestaram o serviço de costume, divulgando matérias prévias sobre as bandas e informações relevantes. Para saber que os shows foram adiantados em 30 minutos (das 20h00 para as 19h30), só olhando nos anúncios pagos pelos promotores do festival. Inclusive muita gente descobriu no dia que outra atração tinha sido inclusa na line up, os Raimundos.

A MTV Brasil fez uma cobertura trivial, que pode ser acompanhada na semana seguinte do evento no noticiário MTV no AR. Eu tenho em VHS pequenos trechos dos shows que eles divulgaram, mas nada relevante mesmo. Infelizmente ninguém se prontificou de postar essa matéria no You Tube e como meus vídeos cassetes precisam de reparo, vou ficar devendo dessa vez a inclusão de material em vídeo, como é o costume do “…PRA FICAR!!!”. Assim que possível (quando arrumar os aparelhos de VHS) atualizarei essa matéria com esse material em especial. Não vai ser muita coisa, mas vale como documento. No dia seguinte dos shows o matutino O Estado de São Paulo publicou uma matéria sobre a noite anterior. Mesmo que bem tendenciosa, também serve como registro, é claro. O mesmo fez a revista Rock Brigade com uma cobertura muito mais embasada.

Como as palavras ‘praia’ e ‘grátis’ costumam operar milagres, no dia 5 de fevereiro eu, alguns amigos roqueiros e também da faculdade nos dirigimos para a baixa santista em nada mais, nada menos que nove carros. Pois é, dava para ter alugado um ônibus. Se bem que querendo ver mesmo o Mr. Big, era eu e mais uns três ou quatro nessa trupe toda. Mas dois dias de praia e hospedados gratuitamente no apartamento (dos bons) de uma amiga muito gente boa, tem um poder de convencimento muito grande. Por isso muitos interessados e muitas interessadas, surgiram na semana antes do dia do evento… todos eles grandes fãs do Mr. Big, claro, claro… . Geralmente essas coisas tem tudo para dar errado, pois reunir pessoas que não se conhecem muito bem é complicado, mas dessa vez em questão, tudo deu certo. O pessoal colaborou com limpeza, despesas, comida e por incrível que pareça, até na educação. Como o principal elo de ligação entre a dona do apartamento e as duas correntes de convidados era eu, foi um alívio  tudo ter dado certo, pois me sentia responsável.

Mesmo sendo verão o tempo não colaborou muito naquele final de semana. No sábado o sol só deu as caras pela manhã, o que foi bom para mulherada que acordou cedo e foi para a areia. A tarde choveu o que não atrapalhou o nosso futebol. Com todo mundo feliz, já estava anoitecendo quando saímos da Praia Grande (estávamos no Boqueirão) rumo ao Gonzaga em Santos, o local onde aconteceriam os shows. Chegando lá marcamos onde nos encontrar, pois pela grande quantidade de pessoas, todos sabiam que não era uma tarefa fácil manter todos juntos. Eu acompanhado de minha amiga, a dona do apê e mais duas colegas dela, estávamos interessados em ver o Dr. Sin (que abriria a noite) e resolvemos montar a estratégia de ficar em uma das laterais, e nos manter por lá até o final da noite, pois o Mr. Big seria o último a entrar no palco.

E foi de longe, mas nem tanto que acompanhamos o Dr. Sin, que num desses milagres, iniciou sua apresentação pontualmente ás 20 horas (havia uma previsão de antecipar o começo para as 19h30, mas vocês sabem como funcionam as coisas…). Para quem esperava um atraso do tamanho do oceano foi ótimo. O som parecia estar bom ou poderia estar muito ruim. Eu digo parecia por que não conseguimos ouvir praticamente nada. Enquanto o hard rolava no placo, um trio elétrico itinerante passou pela orla tocando forró, ou coisa parecida, e numa altura que você nem imaginam. Era impossível distinguir o som que via dos PAs do palco com o que saia das caixas de som daquele maldito caminhão. E foi isso durante grande parte da curta apresentação da banda. Lembro-me de mais ou menos ouvir o cover do Badlands, que eles costumavam tocar com frequência. Uma pena.

Depois do hard paulista veio ‘forrócore’ dos infernos. Quem viveu 1994/1995 e afins, sabe que de uma hora para outra os Raimundos estouram nas FMs roqueiras, na MTV Brasil e tal. Bom, gosto é gosto e eu nunca me interessei pelo som que essas caras faziam, muito pelo contrario. Posso dizer que tive o desprazer vê-los em diversas oportunidades, mas sempre por obrigação, pois estavam incluídos em festivais – como nessa em questão obviamente. Aproveitamos o tempo do show deles para ir comer uns lanches, e com o trio elétrico itinerante se afastando cada vez mais, deu para perceber como estava ruim o som que a estrutura do festival proporcionava.

Depois dos astros do momento terminar sua apresentação era a hora da artista mais deslocada da noite, a cantora Deborah Blando. Ela tinha boa visibilidade na MTV Brasil naquela época, mas nada haver com aquela noite. Sabe-se lá por que foi escalada. E para encarar uma possível plateia mal encarada a moça rebolou menos e chacoalhou mais o cabelo. Vestida toda de roqueira usando preto mandou ver um cover do The Kinks, “You Really Got Me” (bem conhecida também pela versão gravada pelo Van Halen). Mas ela, infelizmente, não convenceu e ainda teve que aturar uma ala bem mal educada, no pior sentido da palavra, mandando adjetivos nada cordiais e alguns indecentes – se em show pago a coisa é complicada, imagine de graça o que não apareceu por lá naquela noite.

A chuva já não era tão fraca e começou a importunar quando o Henry Rollins e sua banda começaram a tocar. Já na primeira música Henry, sabe-se lá como, tacou o microfone na testa e passou o show todo sagrando levemente. Um verdadeiro deleite para os que gostam de explorar esse tipo de coisa. O som pesado, mesmo com má qualidade, acabou abrindo algumas rodas e tinha gente ali que não sabia bem como brincar disso. Resultado, várias brigas começaram quase que ao mesmo tempo. O jeito foi nos afastarmos um pouco mais e ficar espertos. A polícia teve muito trabalho.

Depois de muita confusão, felizmente para acalmar os ânimos assim que Henry deixou o palco os Lemonheads entraram e tudo mudou. Com eles em ação as brigas cessaram e fizeram com que muitas pessoas desejassem entrar no mar, bem lá no fundo com água até o pescoço e não sair mais. Sem brincadeira, que banda chata, rapaz. Bom, o jornal Estadão teceu vários elogios, então alguém deve ter gostado.

Finalmente, já era quase uma da madrugada quando o Mr. Big entra no palco. Tinha gente que já tinha ido embora, o que foi bom, pois recuperamos um local decente para acompanhar clássicos como “Green-Tinted Sixties Mind”, “Wind Me Up”, “Alive and Kickin’”, “Addicted to That Rush” e obviamente, o grande sucesso dos caras por aqui, a balada “To Be With You”, que era tema de alguma novela da TV globo na época. Mesmo com o som ruim e a chuva já um pouco mais forte, valeu a pena ver os caras se apresentarem com muita competência. Anos depois em uma tarde de autógrafos em uma loja de instrumentos lá na rua Teodoro Sampaio no bairro de Pinheiros, tive a oportunidade de dizer ao Billy Sheehan, que eu tinha estado presente naquele show. Na mesma hora que eu disse isso, Billy largou a caneta que estava usando para autografar o CD que eu tinha levado, para me cumprimentar sorridente. Ele atenciosamente me agradeceu por acompanhar sua a carreira por tanto tempo e disse que aquela noite era inesquecível para ele. O show em 1994 acabou por volta das duas e meia da manhã e como o esperado, demorou um bocado para reunir todo pessoal para voltar para a Praia Grande. E teve um susto. Um dos meus amigos de facul aparece com o olho roxo, fruto de uma das inúmeras brigas que aconteceram. Claro que todos ficaram chateados, mas menos mal que foi só isso e nada pior. Na semana seguinte houve publicação dizendo em 200 mil pessoas estiveram presentes no evento, o que obviamente era uma tremendo exagero. Já outras cravaram entre 50 e 60 mil, isso na hora mais lotada. É o que foi mais divulgado e me pareceu correto, eu acredito.

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O ano de 1994 estava apenas começando, e muitos shows estavam sendo especulados para os próximos meses. E meu ingresso para rever o grande Rob Halford estava comprado. Mesmo já não fazendo mais parte do grande Judas Priest ele traria o Fight, que era esperado com muita ansiedade pelos bangers brazucas. E o “…PRA FICAR!!!” vai contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

M2000 Festival (1994):

5 de fevereiro: Praia do Gonzaga, Santos-SP

Mr. Big, Lemonheads, Rollins Band, Deborah Blando, Raimundos e Dr. Sin.

Mr. Big Setlist:

1.Daddy, Brother, Lover, Little Boy

2.Price You Gotta Pay

3.Temperamental

4.Green-Tinted Sixties Mind

5.Take a Walk

6.Wind Me Up

7.Wild World

8.Bass Solo (Billy Sheehan)

9.A Little Too Loose

10.Alive and Kickin’

11.Guitar Solo (Paul Gilbert)

12.The Whole World’s Gonna Know

13.Drum Solo (Pat Torpey)

14.What’s It Gonna Be

15.Addicted to That Rush

16.Colorado Bulldog

17.To Be With You

18.Baba O’Riley

 

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)