“De volta e ainda melhor…”

Semana passada relatamos no nosso espaço para você caro leitor, tudo sobre a sensacional passagem da Donzela de Ferro aqui na nossa querida terrinha em 1992, e hoje o “…PRA FICAR!!!”, vai contar tudo a respeito da segunda visita dos também britânicos do Marillion pelo Brasil em outubro do mesmo ano. Após o sucesso que o conjunto conquistou ao participar da segunda edição do festival Hollywood Rock em janeiro de 1990, era a vez da banda inglesa proporcionar aos seus fãs locais shows completos.

A empreitada coube á produtora Mercury, que buscou parcerias para viabilizar as apresentações, e contou com o apoio da Chevrolet, da gravadora EMI, do hotel Della Volpe, das empresas musicais Tagina e Meteoro e promoção da rádio 89FM. Os ingressos poderiam ser adquiridos na Record Runner e é claro, na Woodstock Discos, que a exemplo das vezes com Black Sabbath e Iron Maiden, estampou em sua fachada um enorme letreiro promocional.

As datas foram confirmadas para os dias 5 e 6 de outubro em São Paulo, com os shows programados para o suntuoso Olympia e uma data no Rio de Janeiro, dia 7, no Canecão. Para servir como open-act a banda O Terço, que já havia feito o mesmo trabalho durante a passagem do Deep Purple, foi o convidado confirmado para aquecer a platéia.

Se em sua visita em 1990 o Marillion trouxe o estreante Steve Hogarth, dessa vez o carismático cantor já estava mais a vontade do que nunca em seu papel. A banda já havia lançado seu segundo álbum em 1991 com o novo frontman, chamado “Holydays in Eden” e chegava ao Brasil com outro trabalho em mãos, a coletânea “A Singles Colletion 1982-1992”, que se tratava de um disco comemorativo englobando todas as fases do grupo. A tour que passaria por outros países sul americanos era calcada exatamente nessa coletânea e conforme confirmou ao Jornal da Tarde, o tecladista Mark Kelly em um entrevista por telefone desde a Venezuela, os fãs poderiam esperar 50% da fase Fish e outros 50% da fase Hogarth no setlist.

Mesmo com o apoio da EMIA Singles Colletion 1982-1992” só chegou ás lojas mais perto do final do ano e só no formato em vinil a princípio. A versão em CD seria lançada sim em uma edição nacional, mas só no ano de 1994. Na verdade isso não representou problema algum para o evento, pois a única canção inédita do disco era a faixa “Sympathy”, que teve seu clipe promocional apresentado pela MTV Brasil em sua programação normal muitas vezes. Ou seja, os fãs da banda não poderiam se queixar por falta de conhecimento do material que o Marillion poderia apresenta durantes os shows. No final das contas a inédita música nem entrou no setlist apresentado.

Com a inflação indo de vento em popa os preços dos ingressos do Marillion quase que representariam o dobro em relação a apresentação da Donzela de Ferro apenas dois meses antes, em agosto. Se para ver Bruce e companhia o fã de música pesada teve que tirar do seu pobre bolso Cr$ 40.000,00 por um ingresso de pista, para entrar no Olympia o estrago seria de Cr$ 70.000,00 (também de pista), mas não se assuste, pois essa diferença de preços dentro do contexto amargo de tempos inflacionários representou bem menos do que parece. Mas estamos aqui para explicar e basicamente o ingresso do Iron Maiden custou nove dólares e o Marillion, dez dólares. Portanto a diferença que choca a principio por seus valores nominais, não era tão grande assim. A opção por um camarote já custaria Cr$ 90.000,00. Ficar de pé sempre é bom e mais barato.

Com a aproximação das datas dos shows a banda concedeu entrevistas aos jornais locais e se mostrava muito entusiasmada com a chance de fazer shows completos dessa vez. A 89FM promoveu vários sorteios de ingressos (com direito a camisetas) em sua programação para as duas noites paulistas – eu gastei o dedo discando (os telefones nem sempre foram de teclas), mas não ganhei nada dessa vez. Os shows marcados para uma segunda e uma terça-feira também assustavam um pouco o público comum, mas já expliquei em outras oportunidades nesse espaço o motivo, que resumidamente podemos dizer que o aluguel do Olympia era muito mais em conta durante os dias úteis em relação aos de final de semana. Mas quem gostava da banda ou artista, pouco ligava se era de segunda ou sábado. Ia, assistia e pronto.

E foi por causa de um grande amigo, que inclusive fez o Tiro de Guerra comigo, que resolvi assistir ao Marillion pela segunda vez. Como ele não tinha ido ao Hollywood Rock em 90, o cara, muito fã dos ingleses, não queria perder de jeito nenhum e precisava de um brother que soubesse ir ao Olympia. A principio eu só estava planejando ir para aqueles lados mais para o final do mês e assistir a outra banda – esse será nosso assunto na semana que vem – mas amizade é amizade e lá fomos nós de trem rumo a estação Água Branca, para conferir a segunda apresentação do Marillion, dia 6 de outubro de 1992.

Parecia que o público seria decepcionante, pois não pegamos praticamente fila alguma para comprar o ingresso na porta e também na nossa frente para entrar na casa. Foi uma tranquilidade, tanto que conseguimos pegar grade perto do PA esquerdo do palco (daquele ponto assistiríamos ao show bem em frente ao Steve Hothery pouco depois). Conforme a hora foi se adiantando a plateia foi aumentando de maneira significativa, mas a casa não lotou e segundo as publicações da época, certa de 2 mil pessoas estiveram presentes em cada dia de apresentação.

Não me recordo de praticamente nada do show do O Terço, mas provavelmente eu devia estar imaginado que eles iriam tocar “Hey Joe” a qualquer momento. Quem acompanha esse nosso espaço e leu sobre o show do Deep Purple no Ibirapuera entendeu a minha brincadeira. Chegado o momento da atração principal e a constatação óbvia se torna realidade: um show do Marillion é infinitas vezes melhor em um local menor como o Olympia do que em um grande estádio. Tudo funcionou melhor. A tranquilidade da banda combinava muito mais com um público mais próximo e por tabela, suas músicas, contando com o perfeito sistema de som da casa, tinham um efeito muito mais significativo. Hogarth e Pete Trewanas eram os que mais agitavam em um contraste total com os sempre ‘na boa’ Mark Kelly e principalmente Ian Mosley, que me lembro de comentar algumas vezes com meu amigo, que não parecia que ele estava tocando bateria, tamanha a sua calma para realizar seu trabalho. Já Steve Hothery, bem na nossa frente, sempre se mostrou muito simpático e sorridente. E é com ele que pagamos nosso mico, ou quase. Durante o show várias vezes eu e meu amigo pedimos por sinais a palheta do guitarrista, que sorria e não entendia nada. Até que em determinada hora, entre uma música e outra, insistimos no pedido enquanto ele abria a tampa de um copo plástico de água. Sabe-se lá porque, ele entendeu que estávamos pedindo água também. Educadamente ele chamou o segurança que estava mais para o canto do palco, deu um copo de água fechado para o rapaz e apontou para nós. O segurança nos entregou o copo e nós sorrimos e agradecemos. Esse foi nosso ‘troféu lembrança’ da noite ha ha. Meu amigo  guardou por um bom tempo aquele copo plástico ha ha.

Já quanto ás músicas, lembro-me muito bem que “Hooks in You” e “Incommunicado” botaram fogo no Olympia, isso durante o bis, mas especialmente me recordo da música “The Space”, em uma interpretação simplesmente fantástica de todo o grupo e desde então se tornou uma das minhas favoritas entre as da banda. Terminada a apresentação era hora de voltar pra casa, encarar o trampo no dia seguinte e já ir me preparando para retornar ao Olympia mais para o final do mês. Mas como eu já disse, esse é assunto para… ah… melhor falar logo, chega de enrolar. No final do mês Lemmão e companhia estariam chegando para dar as caras por aqui pela segunda vez.

Quanto ao Marillion, após os shows em Sampa a banda rumaria direto para o Rio e faria outro show muito coeso. Os setlists em todas as apresentações seriam o mesmo e a data carioca poderia ser encontrada em uma versão em vídeo bucaneiro, mas com uma qualidade extremamente ruim, tanto que, mesmo sendo o único registro completo da segunda passagem dos britânicos, eu não comprei uma cópia, devido a citada má qualidade.

O ano de 1992 continuava a toda em matérias de shows, e sim, o grande Motorhead já tinha passagens marcadas e datas confirmadas para se apresentar, dessa vez no imponente Olympia. E semana que vem vamos contar tudo o que rolou nessa segunda passagem dos ingleses pelo nosso país, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Marillion brazilian tour (1992):

São Paulo: 5 e 6 de outubro.

Rio de Janeiro: 7 de outubro;

Setlist básico das apresentações:

  1. Splintering Heart
  2. Holidays in Eden
  3. Script for a Jester’s Tear
  4. Easter
  5. Warm Wet Circles
  6. That Time of the Night (The Short Straw)
  7. No One Can
  8. This Town
  9. The Rakes Progress
  10. 100 Nights
  11. The Party
  12. Kayleigh
  13. Lavender
  14. Heart of Lothian
  15. Cover My Eyes (Pain and Heaven)
  16. Slàinte Mhath
  17. The Space

Bis:

  1. Waiting to Happen
  2. Hooks in You
  3. Garden Party
  4. Incommunicado

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)