“Em alta”

Outra semana se passou e já é tempo de colocar o “…PRA FICAR!!!” em dia. Para os que não estão acompanhando com assiduidade, eu conto que no último capítulo entramos no ano de 1993 ao relatar tudo de mais importante que aconteceu na quarta edição do festival Hollywood Rock, e agora é vez de reviver um dos maiores eventos da primeira metade dos anos 90 aqui no Brasil, a segunda visita do Metallica. Muito diferente da passagem em 1989, quando com sucesso a banda fez três apresentações memoráveis para os headbangers brazucas, que em sua boa parte acompanhava o conjunto desde seus primeiros álbuns, dessa vez o público seria bem maior e muito mais eclético.

O principal diferencial entre o Metallica de 1989 e o que se apresentaria em 1993 pode ser definido por apenas duas palavras: “Black Album”. O disco intitulado de “Metallica” (ou “Black Album”, como ficou mais conhecido) foi lançado em 12 de agosto de 1991 e transformou a carreira do Metallica. A então banda com origens na Bay Area e uma das precursoras do thrash metal, mudou seu estilo, o tornando mais simples, direto e menos veloz, porém sem abrir do peso. Essa nova diretriz abriu portas e expandiu as fronteiras para o quarteto, que começou a conquistar espaços nas paradas, nas rádios e nas MTV’s – tanto que foi durante o MTV Video Music Awards de 1991, que a banda apresentou pela primeira vez a então inédita “Enter Sandman” pouco antes de lançar o álbum. O novo ‘público’ do Metallica, além dos bangers, contava com muitos adolescentes e amantes do rock menos radicais. A maior prova desse novo perfil foi o aumento significativo das vendas de “Black Album” em relação aos trabalhos anteriores (o disco em maio de 1993 já tinha superado a casa dos seis milhões de álbuns vendidos) e a bem sucedida tour ao lado do Guns n’Roses (apesar dos chiliques do Axl), que possuía uma linha de fãs bem distante dos mais radicais. Resumindo podemos dizer que o Metallica de 89 ainda tinha, mesmo em um grau menor, aquela aura de banda que não está nem ai para o mainstream no melhor estilo ‘Metal Up Your As’ dos seus primórdios, e o Metallica de 93 já estava a um ou dois passos, mesmo que pese a seu favor ter mantido boa parte das suas convicções, de se tornar um conjunto pop, ou melhor, superpop. Você pode mensurar a pop como uma forma de grande popularidade a partir do momento que você procurando uma rádio na frequência AM, para poder acompanhar o jogo do seu clube de coração, e se depara com uma balada de uma das suas bandas favoritas rolando na programação de uma das estações. E era possível se escutar “Nothing Else Matters” em emissoras AM em 1993. Se isso não é uma definição de pop, será difícil encontrar outra para te convencer do contrário.

Com essas diferenças era óbvio que o ginásio do Ibirapuera estava fora de questão e a produtora DC-Set optou pelo estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras, que receberia outro gigante do heavy metal, a exemplo do que fez em 1992 com o show do Iron Maiden. O Metallica em sua segunda passagem pela América do Sul agendou apresentações também no Chile, show único no estádio Nacional de Santiago para o dia 4 de maio de 1993; duas datas no estádio do Vélez Sarsfield, em Buenos Aires, Argentina em 7 e 8 de maio e a principio, uma única data no estádio Palestra Itália do Palmeiras, no feriado de primeiro de maio, um sábado. Mas com a aproximação do dia do evento e a forte procura por ingressos, uma segunda apresentação foi confirmada para dia 2, no mesmo local. A concentração das duas datas brasileiras na capital paulista acarretou na presença de diversos fãs de outras localidades, que recorreram ás famosas excursões para não ficar de fora de pelo menos uma data da então batizada pela banda “Wherever We May Roam Tour”.

Se para assistir de pista as atrações em qualquer dos dias no festival Hollywood Rock, o fã de música pesada tinha desembolsado em janeiro a quantia de CR$ 200.000,00; para ver ao Metallica, graças a cortesia da nossa incontrolável inflação, ele teria que gastar o dobro (ou mais) pelo mesmo setor. Um ingresso de arquibancada custava CR$ 300.000,00; a cadeira numerada CR$ 550.000,00; e a pista CR$ 400.000,00 e que posteriormente teve seu preço reajustado nos últimos dias para CR$ 450.000,00. Os locais de venda foram ás lojas Explosão, que em sua maioria se concentravam em shoopings como o Morumbi, Paulista, West Plaza, Center Norte e centros comerciais como o calçadão em Santo André-SP. Para os fãs mais tradicionais, que ainda estavam digerindo aquelas diferenças em 1989 e 1993, que eu citei a pouco, era possível também comprar o seu ticket na velha e sempre presente Woodstock Discos. Os locais de vendas e os preços vigoraram para a aquisição dos ingressos para a data extra e obviamente com o valor da pista mantendo a correção.

Achou um absurdo os preços, né? Principalmente para você não acompanha os nossos especiais aqui, vou corelacionar esses valores para fica rum pouco mais claro, mas dessa vez citar ‘lincar’ com a cotação do dólar da época. Lembre-se que vivíamos um período maluco no que se referia a tal da inflação. A pista custava pista CR$ 400.000,00… OK, e a edição número 83 da revista Rock Brigade de maio de 1993 chegou nas bancas com o preço de  pista CR$ 75.000,00. Esse excesso de zeros não combina com a nossa atual realidade, eu sei. Mesmo eu que vivi aquela época ás vezes fico pasmo com esses valores absurdos. Para citar outro exemplo, no mês de maio de 1993, eu desembolsei CR$ 3.617.000,00 para quitar a mensalidade da faculdade que eu cursava (tenho os comprovantes aqui). Ainda está meio confuso? Tá bom, então deixa eu simplificar informando que o salário mínimo vigente em maio de 1993 era de Cr$ 3.303.300,00.

Se valendo para as vendas de uma parceria com a cadeia de lojas Explosão e a Woodstock Discos, a DC-Set se apoiou na 89FM para a promoção e divulgação, além de veicular um anúncio de curta duração na TV (nos dias próximos ao evento, era certeza de se poder assistir a chamada, no primeiro intervalo do programa Globo Esporte). A Nestlé foi a principal patrocinadora, apostando no público jovem que se interessaria pelo evento e colocou seu produto com o título mais propício, o chocolate de nome ‘Rocky’, que para quem não recorda, ele se parecia muito com o ‘Bis’ da concorrente Lacta.

Claro que os anúncios nos jornais também fizeram parte da divulgação, assim como matérias e entrevistas com a banda mesmo antes dela desembarcar em São Paulo. Em 21 de abril o suplemento Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo dedicou uma página inteira, para publicar parte de uma entrevista que James Hetfield tinha concedido para a revista Rolling Stone. Além disso, disponibilizou todo o serviço referente aos dois dias do evento (nessa altura do campeonato, a data extra, dia 2 de maio, estava confirmada) com locais das vendas, preços, etc e muito mais, como dia, número do voo (151 da Amarican Airlines) e horário da chegada da banda ao Brasil. A matéria também informava que a gravadora responsável pelo Metallica no Brasil estava colocando nos próximos dias as fitas em VHS chamadas “A Year and a Half in Life of Metallica”, que antes só podiam ser encontradas importadas – ou em versão pirata, é claro. O mesmo jornal voltou a dedicar uma nova página inteira ao conjunto no dia 29 de abril, reiterando o serviço do evento (locais de vendas dos ingressos, preços, horário do show, etc…) e batendo na tecla sobre a morte de Cliff Burton em 1986.

O Metallica manteve o cronograma noticiado pelos jornais e desembarcou em São Paulo na noite do dia 30 de abril. Sem muito tempo a perder, a banda foi direto para o hotel Maksoud Plaza para descansar, mas não antes de conceder uma entrevista coletiva, apesar do horário bem atípico, 22 horas. Seja de manhã ou a noite, em coletiva sempre tem terão as perguntas cretinas e não foi diferente dessa vez e mais uma vez a pauta Cliff Burton voltou a tona. Isso que é gostar de assunto mórbido. Com os músicos fazendo a sua parte de um lado, os técnicos já estavam trabalhando a toda do outro, para colocar toda a estrutura para os dois shows em ação com mais de 150 toneladas (quase a metade disso vindo do exterior) em equipamentos diversos. A abertura ficaria a cargo da banda Viper.

Eu comprei meu ingresso na semana do dia do show, para ser mais preciso no dia 26 de abril, uma segunda feira, na Woodstock Discos como de praxe. É uma tarde da qual me recordo, pois também comprei nesse dia o CD do Iron MaidenA Real Live One” e fiquei um tempo discutindo com o também palestrino Walcir, o dono da loja, se o então recém chegado Vanderlei Luxemburgo, daria certo no Palmeiras (N.R.:Vanderlei tinha feito sua estreia no comando do Verdão um dia antes, com uma vitória sobre o Ituano por 2×0, no mesmo estádio onde o Metallica se apresentaria no final de semana seguinte). Mesmo com a entrada garantida tentei por todas as maneiras possíveis – concursos de rádios, jornais e revistas – cavar uma vaga no desejado snake pit, mas não tive sorte e ninguém para me ‘apadrinhar’ um lugarzinho. 

Chegado ao grande dia, comprei o jornal logo cedo e O Estado trazia a notícia que o Metallica tocaria para 35 mil fãs, o que me causou estranheza, pois o dia 1 estava sold out e as informações eram que estavam disponíveis 40 mil ingressos. Essa contradição se deu em diversas publicações da época, com algumas cravando que foram 35 mil presentes, já outras confirmando 40 mil. Pois é, o que eu posso afirmar é que o Palestra estava lotado, mas eu não consegui contar um por um todos os presentes, he he. As informações eram que os portões seriam abertos as 17hrs e as 21h30 em ponto, o Metallica estaria pisando no palco. A segurança seria reforçada também, com segurança particular contratada (a nem sempre educada Foncesa’s Gang) e um contingente de PMs maior do que esteve presente no show do Iron Maiden no mesmo estádio em agosto de 1992.

Como não dava para confiar 100% nas informações divulgadas e fui cedo para o Palestra, repetindo a rotina bem sucedida em agosto de 1992 para o show do Iron Maiden no mesmo local. No horário do almoço eu já estava no trem me dirigindo a estação Água Branca e chegando lá, já percebi muitas diferenças em relação a 1989. Se na primeira vista do Metallica as camisetas pretas era maioria total e absoluta, dessa vez algumas camisas de flanela xadrez (o modismo grunge se fazia presente), principalmente com os mais jovens. Por falar em jovens, o público pós-MTV e adolescentes também era bem representativo e claro, não se dava muito bem com ala mais radical, que não tinha aberto mão do Metallica. Não tinha, ainda, pois o empurrão que falava para o fato se consumar viria com o medonho “Load”, mas esse assunto para outra hora. Essa fauna mais variada, aliada com a aglomeração descontrolada na Av. Conde Francisco Matarazzo, muita gente enchendo a cara demais e a PM nervosa, resultou em diversos bate bocas, brigas e empura empura, principalmente quando na tentativa de organizar uma fila única, a PM desceu a borracha sem dó em quem estava frente. Que deu sorte, se é que posso chamar assim, em vez de correr para o outro lado da avenida ficou prensado na grade do clube e se deu bem no posicionamento na fila. Eu me aguentei espremido ali junto com o povo por um bom tempo, até que para alivio geral os portões foram abertos. Daí foi catraca á dentro e correr, correr para arrumar um lugar decente.

A estrutura impressionava mesmo quem, como eu, já tinha estado presente em festivais recentes e seus palcos tubulares gigantescos. Me posicionei do lado esquerdo da imensa infraestrutura e me apoiei no reservado para um grua, que indicava o que show seria filmado. No dia esse fato chamou atenção, mas o que eu não sabia era que era praxe do Metallica captar imagens das suas apresentações para uso próprio já naquele tempo. Não houve transmissão ao vivo ou mesmo algo do tipo ‘melhores momentos’ posteriormente, mas a MTV Brasil fez várias entradas do local durante a tarde e do nada, sem ninguém esperar, transmitiu com autorização do Metallica, é claro, um trecho de “Enter Sandman”, além de “Creeping Death” e “Harvester of Sorrow”, que foram as três primeiras do setlist. Minha irmã que estava em casa gravando a meu pedido, qualquer coisa que a MTV Brasil mostrasse a respeito capturou esse momento, que foi apresentado pela vj Cuca – como alguém fez o favor de postar no You Tube, vocês também vão ter a chance de ver como foi, pois o link está lá no final como sempre.

O Viper recebeu uma calorosa recepção dos presentes e fez um bom show já com o estádio do Palmeiras praticamente entupido. O Estado de São Paulo em sua matéria a respeito do evento cita um pisoteamento durante o show dos brasileiros, mas eu sinceramente não me recordo de nada sobre isso e também não encontrei nada a respeito em outras publicações. Os telões com muito boa resolução exibiram um mix da capa de “Masters of Puppets” e o clipe de “Enter Sandman”, enquanto o tema composto por Ennio Morricone, “The Ecstasy of Gold“, rola em alto e bom som. A cabeça rapada de é a novidade (pelo menos para mim foi) e as três músicas já citadas começam a festa. Se em 1989 em estava bem emocionado, dessa vez como já não era novidade, me preocupei mesmo em prestar atenção na apresentação, que foi perfeita. Nessa altura da tour o Metallica sabia muito bem usar todo o espaço que o inovador palco proporcionava, ocupando todos os lugares em um revezamento super bem ensaiado. A preferência pelas músicas também, mostrava bem a distinção entre o público presente. As mais antigas eram acompanhadas pelos faz mais antigos e a molecada se divertiu mesmo com as oito composições do “Black Album” que foram executadas. Como o evento passou das duas horas e meia, por isso teve opções para todos os gostos. Diferente do show de  1989, não há um momento em especial que um possa compartilhar com vocês, talvez o medley com as músicas do “…And Justice for All”, que se tratou de uma surpresa, mas no geral guardo apenas lembranças de uma apresentação homogenia e muito profissional, sem a costumeira zueria tão característica da banda durante os anos 80. Em resumo foi um show Ok e particularmente naquele dia comprovei ao vivo, que o Metallica continua grande, na verdade maior do nunca, e que os dias de thrash estavam em um passado distante. A questão era simples, aceitá-los do jeito que eram e ponto.

No dia seguinte o pessoal que foi teve fortes emoções pelo caminho. A parte ruim foi que o show ficou muito próximo de ser cancelado por causa da insistente chuva, mas tudo não passou de um susto, tanto que durante as apresentações do Viper e dos donos da festa acabou nem chovendo. Para compensar esse sufoco, os privilegiados do dia 2 contaram com duas trocas bem interessantes no setlist: saíu “Through the Never” para entra a magnífica “The Four Horsemen” (eu não disse que eles se deram bem) e no lugar da “Whiplash”, entrou a “Battery”, sendo essa substituição mais equilibrada.

Se entre o festival Hollywood Rock em janeiro e o Metallica, o intervalo entre os grandes shows internacionais tinham ficado maior do que eu gostaria, mas a próxima data já estava anotada na porta da geladeira e a bola da vez era uma estreia muito aguardada. Em junho o Anthrax iria trazer seus NOT’s e seus MOSHE’s, além de disco novo com direito a estreia de John Bush nos vocais. E o “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

MetallicA in Brazil (1993):

Estádio Palestra Itália: 1 e 2 de maio de 1993.

Setlists:

The Ecstasy of Gold (Ennio Morricone song)

1.Enter Sandman

2.Creeping Death

3.Harvester of Sorrow

4.Welcome Home (Sanitarium)

5.Sad but True

6.Of Wolf and Man

7.The Unforgiven

8.Eye of the Beholder/Blackened/The Frayed Ends of Sanity/…And Justice for All

9.Through the Never (The Four Horsemen no dia 2)

10.For Whom the Bell Tolls

11.Fade to Black

12.Master of Puppets

13.Seek & Destroy

14.Whiplash (Battery no dia 2)

 BIS:

15.Nothing Else Matters

16.Wherever I May Roam

17.Last Caress (Misfits cover)

18.One

 BIS 2:

19.Stone Cold Crazy (Queen cover)

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)