“Problemas outra vez”

Outra semana se passou e é hora de continuarmos contando sobre os grandes eventos do passado aqui na “Terra Brasilis”. Como vocês bem se recordam semana passada relatamos no nosso espaço tudo sobre a segunda visita do Marillion, e hoje o “…PRA FICAR!!!”, vai contar tudo a respeito da segunda passagem de Lemmão e companhia pelo Brasil em outubro do mesmo ano. Após a enrolada tour da banda por aqui em 1989, que você ficou sabendo exatamente como foi aqui no “…PRA FICAR!!!” publicado em 8 de julho passado, o que se esperava é que dessa vez, tudo corresse bem.

Mais uma vez a produtora responsável foi a competente Mercury, que contou com a rádio 89FM na promoção e com a loja Woodstock Discos para realizar a venda dos ingressos.

As datas foram confirmadas para os dias 21 e 22 de outubro em São Paulo, com os shows programados dessa vez para o imponente Olympia e uma data no Rio de Janeiro, dia 23, em local a ser confirmado pela produção apenas na semana da apresentação. Se a escolha para abrir as apresentações do Marillion, no caso a banda  O Terço, não causou polêmica alguma, não podemos dizer o mesmo dessa vez. Ninguém – acho que nem a própria organização – achava uma justificativa plausível para o conjunto Não Religião ser o escolhido para abrir as duas noites paulistas. Era uma tragédia anunciada.

O Motörhead chegaria ao Brasil dessa vez em um momento peculiar de sua carreira, pois o álbum lançado em 1991, intitulado “1916” tinha conseguido uma ótima recepção por parte da crítica e principalmente dos fãs. Seu sucessor, o disco “March or Die” acabava de ser lançado em agosto de 92 e seria uma tour calcada principalmente nesses dois discos que a banda traria ao Brasil. Isso poderia ser tornar um problemão, pois “March or Die” não foi lançado a tempo de ser conhecido pelos fãs antes das apresentações, mas sobre isso vamos comentar um pouco mais adiante. Outro fator muito relevante é que Phil Taylor já não estava mais na banda, tanto que a maioria das faixas de “March or Die” foram gravadas por Tommy Aldridge como convidado especial e o novo responsável pelas baquetas do Motörhead seria o ex-King Diamond, Mikkey Dee.

A produtora manteve os mesmos valores cobrados para a aquisição dos ingressos de pista dos shows do Marillion para os shows do Motörhead, Cr$ 70 mil, mas enfiou a faca no preço do camarote, que custou Cr$ 120.000,00 contra os Cr$ 90.000,00 do evento anterior. Os ingressos começaram a ser comercializados exatamente uma semana antes das datas dos eventos na Woodstock Discos e sem explicação alguma o dia do evento reservado para os cariocas foi simplesmente cancelado.

Após se apresentarem em Buenos Aires, o Motörhead desembarcou em São Paulo no dia 20 de outubro, uma terça-feira. Mesmo sendo a segunda passagem dos ingleses o festival de bobagens proporcionados pelos jornais continuava a toda, como a pérola publicada pelo Caderno 2, que informou a então line-up da banda como sendo Lemmy, o novato batera Mikkey Dee e os guitarristas Würzel e… “Zoom” (N.R.: Quem é Zoom??? De onde o cara tirou isso??). Na mesma matéria o setorista lembrou que muita gente que foi ao último show da banda aqui na cidade tinha parar no hospital. Realmente uma matéria muito útil. Obviamente após uma enxurrada de questionamentos sem sentido, Lemmy respondeu que não queria neonazistas estragando seu show.

Eu comprei meu ingresso para o segundo dia de apresentação, dia 22, uma quinta-feira, sem fila algum na Woodstock Discos, mas voltei para casa sem uma cópia de “March or Die”, mesmo que importado, pois já haviam se esgotado – a versão nacional só estaria disponível perto do final do ano. Com muitos shows um perto do outro e todo mundo quase sem grana, eu já estava me programando para ir ao Olympia sozinho mesmo. E foi o que eu fiz.

Trabalhei normalmente no dia 22 e graças a uma carona providencial de um dos transportes mantidos pelo escritório que eu trabalhava, cheguei bem cedo ao Olympia, ainda com a luz do dia. A fila não estava muito grande, mas era muito maior que a que eu enfrentei para ver o Marillion no início do mês. Mas se pegar uma grade parecia difícil, uma boa posição estava mais do que garantida. Esperar em uma fila de show sempre era uma oportunidade para fazer novas amizades – ou pelo menos era, pois hoje as coisas e as pessoas parecem menos cordiais, pelo menos no meu ponto de vista – e jogar papo fora ajudava em muito o tempo passar. Durante a boa espera deu para eu comprar uma camiseta de manga longa e comer um lanche. Ah, se a camiseta era oficial? Meu caro, em tempos de hiperinflação só ricos compravam produtos oficiais, que por sinal eram bem mais escassos do nos dias de hoje. Mas a camiseta era tão boa que a tenho até hoje.

Após entrar na casa, me posicionei do lado que eu mais gostava de ficar, o esquerdo do palco, bem no limite da grade. Estava ótimo, dali poderia ver tranquilamente ao Motörhead e a banda de abertura, o Não Religião. Eu não conhecia praticamente nada a respeito da banda do Tatola, vocalista do tal Não Religião, que hoje é famoso por apresentar um programa de rádio na 89FM. A 97FM até costumava tocar alguma coisa dessa banda em sua programação, mas eu nunca dei a mínima atenção, pois não era um som que me agradasse – e não tinha nada relacionado com o Motörhead. Mas paciência, eles iriam abrir a noite e ponto. Olha, foi difícil, pois o tempo foi passando e nada dos caras terminarem seu show e sumirem do palco. O show estava desagradando a todos, mas parecia não ter mais fim. A paciência do público foi acabando a tal ponto, que até as reclamações e as vaias diminuíram. Não posso cravar, mas eu tenho quase certeza que eles tocaram por tanto tempo, por que algum contra tempo estava ocorrendo nos bastidores. Se esse foi realmente o motivo eu não sei, mas o que eu sei que é que o Motörhead estava programado para pisar no palco as 22 horas e só o fez com uma hora de atraso. Lembro-me muito bem de estar preocupado de como voltar para casa se o atraso se prolongasse, pois o dia seguinte era dia útil.

Já passava das 11 da noite e Lemmão e sua trupe finalmente aparecerem, mas para ‘zuar’ um pouco mais a coisa, começam o show com três músicas recentes. Isso foi um problemão, pois a grande maioria dos presentes estava ali para ouvir os clássicos, que se limitaram, se muito, a um terço do setlist. E os problemas não pararam por ai. Como se não bastasse o clima pesado (no mau sentido) devido ao grande atraso, pela primeira vez na vida eu presenciei o Olympia com problemas em seu sistema som. Microfonias, som embolando e nada de uma solução surgir. A animação de alguns fãs mais exaltados e os seguranças querendo descontar em alguém seus problemas diários geraram inúmeras brigas feias na pista, e alguns desafortunados levaram bons cascudos na área do chiqueirinho em frente ao palco. Os pedidos insistentes pela música “Orgasmatron” (que era um sucesso local, mas com a versão cover do Sepultura) visivelmente incomodavam Lemmy, que ignorou por completo as insistentes solicitações. Podemos incluir na salada também que, deixar clássicos como “Iron Fist”, só pra citar um, de fora do setlist e incluir dois solos (dos guitarristas e de bateria), além duas covers (“Cat Scratch Fever” de Ted Nugent e a versão do Motorhead para “Hellraiser“, que o Ozzy compôs com Lemmy, e fazia parte do seu recente disco do Madman, “No More Tears”) não agradou nem um pouco. E para completar o estrago, após uma versão sem sal para “Killed by Death” a banda sai do palco, mas retorna rapidamente para o bis. Preste atenção, eu disse O BIS, que se limitou a “Ace of Spades”. Terminada a música a banda se despede, as luzes se acendem e já era. O show mal passou da uma hora de duração. Muita gente se entre olhava e não acreditava que tinha terminado. Não tive tempo nem de pensar muito no assunto, pois corri para o ponto de ônibus – já passava bem da meia noite – para ver se conseguia pegar a condução e voltar para casa sem passar a noite na rua.

Deu tudo certo, consegui dormir um pouco e fui trabalhar no dia seguinte tentando digerir aquele show muito curto e confuso. Valer a pena ter ido sempre vale, tanto que as lembranças estão sendo revividas nesse exato momento, mas vamos combinar que não foi umas das melhores noites. Nos dias que se seguiram encontrei conhecidos na Galeria do Rock, que também tinham ido e as reclamações eram praticamente as mesmas. Principalmente no que se referia ao show da banda de abertura, que ninguém queria mais ter que aturar outra vez abrindo um show de música pesada.

O ano de 1992 ainda reservava um grande nome internacional para o mês de dezembro, o Guns n’Roses, que tinha datas agendadas para São Paulo (no estacionamento do Anhembi) e Rio de Janeiro (autódromo Nelson Piquet). Essa passagem do Guns ficou marcada pelo excesso de estrelismo de Axl, suas brigas com a imprensa e uma super exposição da banda que chegou a enjoar. Com todos esses fatores envolvidos, principalmente o lugar escolhido para o evento paulista, e como eu já tinha assistido o mesmo show no Rock in Rio 2, em janeiro de 91, resolvi passar dessa vez e não fui. E por falar em Rock in Rio 2, não custa reforçar, que o “…PRA FICAR!!!” vem desde sua primeira publicação vem seguindo uma sequencia cronológica e por um motivo especial a vez do festival carioca foi interrompida e ficou de fora dessa linha do tempo.  Em virtude do Rock in Rio 2 comemorar em janeiro próximo 30 anos, nós do HB resolvemos contar tudo sobre esse icônico evento, na semana de seu aniversário no início do ano que vem. Vai valer a pena esperar, pois será um “…PRA FICAR!!!” super especial recheado de informações, curiosidades e lembranças.

Bom, o ano de 1992 termina aqui, mas 1993 já ia começar com mais uma edição do festival Hollywood Rock, sua quarta. E é sobre esse festival que vamos falar na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Motörhead brazilian tour (1992):

São Paulo: 21 e 22 de outubro.

Setlist básico das apresentações:

1.I’ll Be Your Sister

2.Traitor

3.I’m So Bad (Baby I Don’t Care)

4.Metropolis

5.Bad Religion

6.Stay Clean

7.Hellraiser                

8.Just ‘Cos You Got the Power

9.The One to Sing the Blues

10.You Better Run

11.Love Me Forever

12.Cat Scratch Fever       

13.Going to Brazil

14.Overkill

15.Killed by Death

Bis:

16.Ace of Spades

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)