“Convencendo”

O tempo anda passando voando e já é hora de um inédito capitulo do nosso “…PRA FICAR!!!”. E se na semana passada foi uma oportunidade de contar tudo sobre a segunda visita do Bon Jovi em um show único na cidade de São Paulo, hoje vamos reviver a passagem de uma das bandas mais amadas pelos headbangers nos anos 90. Vamos contar tudo sobre o ‘bate e volta’, que o grande Pantera fez pela primeira vez ao continente sul americano.

Falar a respeito do Pantera em 1993 era uma maneira fácil de puxar assunto com 90% dos fãs de música pesada. A banda, que no início tinha sua direção voltada para o glam, graças ao disco “Cowboys From Hell” de 1990, encontrou uma nova estrada conseguindo aglomerar incontáveis novos adeptos e obviamente obteve muito sucesso.  O trabalho seguinte “Vulgar Display of Power” lançado em 1992 consolidou ainda mais esses parâmetros e seria com esse êxito que a banda desembarcaria pela primeira vez aqui por nossos lados. A expectativa era considerável, tanto que a MTV Brasil entupiu sua programação com clipes da banda e idealizou uma promoção das mais diferentes possíveis. O prêmio oferecia ao vencedor a oportunidade de conhecer a banda e poder destruir o camarim ao lado deles. Realmente essa promoção tinha a cara do Pantera naquela época.

Com a produção da , as datas brasileiras ficaram agendadas para duas apresentações na capital paulista, sendo elas os dias 7 e 8 de dezembro. O local escolhido foi o já tradicional Olympia na zona oeste da cidade. Os ingressos poderiam ser adquiridos no próprio Olympia ou na também tradicional Woodstock Discos, que novamente ostentava um enorme painel em sua fachada, dessa vez com o logo da banda. As parcerias incluíam a já citada MTV Brasil, a 89FM e o hotel Hilton. A abertura nas duas noites ficou a cargo do grupo paulista Dr. Sin.

Os ingressos variaram entre os CR$ 4000,00 para a pista e os CR$ 6000,00 para o setor dos camarotes. Como já explicamos em diversas outras oportunidades aqui no “…PRA FICAR!!!” essa relação maluca desses valores com a inflação, dessa vez não vou ficar citando preço do dólar ou mesmo citar o que eram as ORTN’s (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional) em uma tentativa de explicar valores tão estranhos no ponto de vista atual, só para variar um pouco e para não enjoar de falar sobre economia aqui no nosso espaço. Eu estive presente no show do dia 7 de dezembro, o primeiro dia de apresentação, pois fui convidado por alguns amigos a fazer parte do camarote a qual eles tinham direito, pois haviam prestado serviços para a produtora do evento. Um convite desses só pode ser considerado um BAITA presente de Natal, ainda mais por ser no mês de dezembro.

Antes de chegar em São Paulo, Phil Anselmo e companhia fizeram apresentações na Argentina, e desembarcaram no aeroporto de Cumbica na tarde de 6 de dezembro de 1993. No dia seguinte além da primeira apresentação, estava agendada a já tradicional e obrigatória coletiva de imprensa. Se com bandas extremante conhecidas e com décadas de estrada o nível das perguntas sempre foi muito próximo do vergonhoso, imagina com uma banda praticamente desconhecida da grande mídia, e com uma guinada acentuada em seu direcionamento musical. Quem esteve presente conta que foi uma das coletivas mais absurdas de todos os tempos, devido a falta de conhecimento dos jornalistas presentes. Phil Anselmo se irritou diversas vezes com perguntas ridículas, apesar dos integrantes terem chegados bem humorados. Coube a mídia especializada contornar o show de horrores ao perguntar sobre o direcionamento do futuro disco do Pantera, “Far Beyond Driven”, que estava agendado para chegar as lojas em março de 1994. Todos os componentes do conjunto foram categóricos ao responder, que o novo trabalho seria ainda mais pesado e matador do que “Vulgar Display of Power”. A banda arrumou tempo para dar a devida atenção á mídia especializada, e os irmãos Dimebag Darrell e Vinnie Paul visitaram a MTV Brasil concedendo uma entrevista para o programa especializado, Fúria Metal.

Por mais que o Pantera fosse um dos queridinhos entre as bandas mais pesadas da geração MTV aqui no Brasil e tivesse o respeito de muito bangers das antigas, eu particularmente jamais fui um grande fã da banda. Lembro-me muito bem de quando os primeiros LPs importados de “Cowboys From Hell” chegaram na Kubikulum Rock, que era um das lojas mais fortes no que se referia a discos importados e serem disputados  a tapa por alguns headbangers. Eu conhecia algo dos trabalhos anteriores e os achei muito fracos. A mudança de estilo fez um bem danado para a banda, o que não é novidade para ninguém, mas eu não comprei a ideia. Coisa de gosto pessoal mesmo. Posteriormente até por uma questão de objetos para minha coleção, comprei em versão CD de “Cowboys From Hell” e o “Vulgar Display of Power” e parei por ai mesmo, sendo esses os dois únicos que fazem parte da minha coleção até hoje. Todo esse esclarecimento se fez necessário, para deixar bem claro que eu não estava muito preocupado em ir em uma das noites, mas no fundo estava curioso para conferir a banda ao vivo. Essa falta de pressa para comprar o ingresso veio bem a calhar dessa vez, pois surgiu o convite para ir na faixa e ainda por cima de camarote – um setor do Olympia que eu ainda não conhecia.

Bom, é claro que eu topei ir com o pessoal da loja naquele dia 7 de dezembro de 1993. Foi a primeira vez na minha vida que fui em um show com bom público e não peguei fila alguma para entrar. Que sossego. Chegamos já com a casa aberta e praticamente lotada. O tal do nome da lista pode ter a desvantagem de não se possuir um canhoto de ingresso para guardar como recordação, mas com a condição de não pagar e de não ter que se espremer na pista, que liga? O camarote que estava a disposição do nosso grupo ficava mais para o fundo da casa, mas permitia uma ótima visão de tudo. Como eu sabia que tal mordomia não se repetiria tão cedo, tratei de aproveitar o momento.

O Dr. Sin abriu diversos shows internacionais na metade dos 90, inclusive vários já relatados aqui no nosso “…PRA FICAR!!!”, mas dessa vez foi a que eu senti eles mais deslocados. Era bem óbvio que o hard rock do trio paulista não tinha nada haver com o chumbo grosso do Pantera, e eles sabendo disso, bem que tentaram soar até mais pesados do que o de costume. A inclusão de uma versão tijolo de “Sweet Leaf” do Black Sabbath agradou em cheio a uma parte do ansioso público, mas não foi o suficiente para um ganho de causa completo. Teve quem curtiu e também teve quem reclamou. Não tem como agradar a todos. Paciência.

A pausa entre a abertura e o show principal serviu infelizmente como desculpa para entreveros na lotada pista. Alguns afoitos queriam chegar mais perto da grade e do palco consequentemente e algumas brigas surgiram. Para piorar os seguranças naquele tempo não eram de grande ajuda, pois em vez de apartar os bate bocas e afins, os caras na maioria das vezes entravam no rolo e participavam das brigas. A visão privilegiada do camarote me permitiu ver alguns clarões surgirem na pista e cenas de pancadaria nada civilizadas. Felizmente, mesmo com um pouco de atraso o Pantera entra no palco e as atenções se voltam para o show. A abertura com as canções “A New Level” e “Walk” literalmente quase colocam o Olympia abaixo. O público que a principio era muito heterogêneo, composto por bangers tradicionais, carecas, molecada da geração MTV e até um povo ‘comum’, se uniu para gritar “WALK” a plenos pulmões. Com o passar das músicas alguns arranca rabo entre uns bangers mais exaltados e os (nada) profissionais seguranças voltou a acontecer, mas nada que eu não tivesse visto antes. A cozinha do Pantera era muito coesa, o que facilitava muito o trabalho do guitarrista Dimebag Darrell. Eu posso não ter me transformado em um grande fã da banda naquela noite, mas ampliei o respeito pelo trabalho deles. Eram profissionais, dedicados e entregavam aos fãs exatamente o que eles queriam, e nessas condições o show só pode ser considerado um grande sucesso. Também é preciso ressaltar que os caras estavam quase no final de um longo giro (foram mais de 250 apresentações ao redor do mundo nessa tour) e não aparentavam fadiga alguma. Fora as brigas que literalmente assisti de camarote, lembro-me muito bem do bis com o cover do MetallicA, “Whiplash” com Dimebag nos vocais e a clássica “Cowboys From Hell”, que tornou o lugar um completo caos, no bom sentido da palavra. Por todos os motivos já relatados, foi muito legal ter ido.

No dia seguinte o Pantera repetiria o set de pouco mais de uma hora, só que trocando o cover do MetallicA por “Cold Gin” do KISS. O programa Metrópoles da TV Cultura passou um pequeno teca do show do dia 8 e o mesmo fez o programa O Grito da Rua alguns dias depois.

E com esse grande nome do universo da música pesada o metal se despedia do ano de 1993. A expectativa para 1994 era alta, com as especulações  surgindo por todas as partes sobre alguns nomes. Certeza mesmo era que mais uma edição do Hollywood Rock estava confirmada e ia contar com nomes de peso em sua line up. O Aerosmith em sua melhor fase era aguardado com muita ansiedade e seria o principal nome do evento, que ainda contaria com Robert Plant, Poison e o nosso Sepultura. E é claro que nosso “…PRA FICAR!!!” vai te contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Pantera no Brasil (1993):

– São Paulo: 7 e 8 de dezembro de 1993.

Setlist:

  1. A New Level
  2. Walk
  3. The Art of Shredding
  4. Domination
  5. Fucking Hostile
  6. This Love
  7. By Demons Be Driven
  8. Mouth for War
  9. Primal Concrete Sledge

BIS:

  1. Whiplash (MetallicA cover)
  2. Cowboys From Hell

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)