“De volta”

Dia de um novo capitulo do nosso “…PRA FICAR!!!”. E se na semana passada foi uma contar como foi a marcante passagem da banda de Rob Halford com o seu o Fight pelo Brasil, dessa vamos contar como foi a segunda passagem do Scorpions por nossa terrinha. Após o grande sucesso na primeira edição do festival Rock in Rio em 1985, os alemães sempre se mantiveram populares em nosso país. Sua discografia foi praticamente toda lançada, suas músicas eram tocadas com constância nas rádios rock (convencionais também) e fizeram parte até de temas de novelas.

A produtora responsável por trazer a banda novamente ao Brasil foi a Water Brother com promoção da MTV Brasil, da rádio 89FM e da empresa Gabisom. Os ingressos seriam vendidos na mais do que tradicional Woodstock Discos e no local escolhido para as apresentações, o já esperado Olympia na capital paulista. As datas acertadas foram 29 e 30 de março e não houve banda de abertura dessa vez. Com o país prestas a experimentar pela primeira vez em décadas uma estabilidade financeira – o Plano Real estava sendo preparado – os preços dos ingressos foram idênticos aos praticados nos shows do Fight. Uma entrada de pista custou CR$ 10.000,00 cerca de doze dólares na época.

O Scorpions trazia uma novidade em sua estável formação nessa sua passagem, um novo baixista, Ralph Rieckermann, que substituía ao veterano Francis Buchholz. Buchholz apesar de ser um dos membros mais antigos, foi convidado a se retirar da banda após alguns problemas de ordem financeira surgirem durante a tour do mega platinado “Crazy World”, mas esse assunto chato fica para uma próxima oportunidade. Rieckermann já estava no grupo durante as gravações de “Face the Heat” e parecia se encaixar perfeitamente com os demais membros. Lançado em 21 de setembro de 1993, “Face the Heat”, que é um disco ótimo e muito pesado, não repetiu o sucesso de “Crazy World”, até por que competir com um trabalho que continha o superhit mundial “Wind of Change” não era uma tarefa das mais agradáveis. Mas se tratava de um bom álbum e já estava disponível em LP e CD em versão nacional desde o final de 1993, o que ajudou aos fãs e interessados conhecer as novas músicas.

A divulgação para as duas apresentações foi baseada em chamadas nas rádios e anúncios nos jornais. E entre esses ‘anúncios’ um mico homérico foi cometido durante vários dias. Na foto da chamada foi utilizada uma imagem muito antiga do Scorpions, para ser mais preciso uma de 1975 da época do álbum “In Trance”, com os ex-membros Francis Buchholz, Uli Roth e Rudy Lenners. Demorou alguns dias, mas finalmente alguém com bom senso e mais bem informada trocou a foto pelo logo da banda.

Chegando ao Brasil o Scorpions não se fez de rogado e, principalmente, por ser sua primeira visita ao estado de São Paulo, topou todos os convites para entrevistas e participações em programas. Na parte escrita o fã pode ler as declarações dos músicos em praticamente todos os grandes matutinos e na revista Rock Brigade, que fez uma ótima cobertura. Se tratando de televisão as opções foram ainda mais generosas. O Scorpions se apresentou ao vivo no SBT durante o Programa Livre – fato que se repetiria em 1997 – e acredite, no programa da Tv globo, o Domingão do Faustão. Como algumas músicas da banda já tinham feito parte de trilhas sonoras de novelas do canal é fácil imaginar qual foi o assunto principal da conversa durante a breve participação do conjunto, que felizmente pode tocar alguma coisa. Apresentaram a nova balada “Under The Same Sun” e a clássica “Still Loving You“. Como participava da divulgação a MTV Brasil não ficou de fora com os alemães gravando sua participação no programa especializado do canal o Fúria Metal. Mas não se limitou a isso, pois o clipe de “Under The Same Sun” entrou na parada diária Disk MTV e banda gravou algumas breves participações que foram apresentadas no MTV no Ar. Uma delas é hilária. A produção do canal gravou uma conversa descontraia com Rudolf Schenker e Klaus Meine enquanto eles jogavam uma partida de bilhar. Durante o papo a MTV resolve apresentar para os dois músicos uma gravação de uma banda nacional, o Yahoo. Para quem não sabe o Yahoo foi uma invenção criada em 1988 pelo guitarrista Robertinho de Recife, que contava com os músicos Zé Henrique (baixo e vocal), Marcelo Azevedo (teclado, guitarra e vocal) e Marcelão (bateria e vocal). A banda ficou conhecida por fazer ‘versões’ de canções de hard rock muito famosas com letras em português, alcançando enorme sucesso nas décadas de 1980 e 1990. Entre os estragos feitos pelo Yahoo temos “Anjo” (versão de “Angel” do Aerosmith, que foi até tema de novela), “Mordida de Amor” (versão de “Love Bites“, do Def Leppard, outro tema de novela) e “Pára-Raio” (versão de “Hide You Heart“, do Kiss), além é claro, “Como o Vento” (versão de “Wind of Change“, do Scorpions). A cara de espanto dos músicos ao ouvir a canção deles sendo cantada em português só não foi maior, pois eles realmente ficaram abismados ao saber que a tal ‘versão’ (com o instrumental idêntico ao deles, é claro) tinha sido gravada em um disco de outra banda. Direitos autorais a parte ambos riram meio sem graça e a matéria terminou sem maiores problemas, pelos menos o pedaço que foi ao ar.

Minha foi escolha foi pelo dia 30 de março, uma quarta feira, a segunda das duas apresentações da banda em Sampa. Era um dia que dava para enforcar o trampo e a faculdade sem muitos problemas, tanto para mim como para um colega meu que também iria. Nossa ideia era chegar na hora do almoço no Olympia e pegar fila para garantir a grade. No final de semana anterior fui até a Woodstock Discos e comprei os ingressos. A ansiedade para ver o Scorpions de minha parte era grande. Afinal de contas se tratava de uma banda que eu acompanhava desde que tinha herdado a coleção de discos dos meus irmãos. Definitivamente eu não encarava como um show comum.

Chegamos á porta do Olympia conforme o combinado na hora do almoço. Não havia nem vinte pessoas na nossa frente, o que deu uma animada monstro, pois o sonho de ver o Scorpions na grade iria se realizar. Muito bate papo com outras pessoas na fila nos forneceram informações bem legais sobre a noite anterior, sobre o setlist e a reação do público. O recém-inaugurado Habbibs, quase que na frente do Olympia, veio bem a calhar, pois garantiu nossa janta. Conseguimos ficar no meu lugar preferido de sempre quando se tratava daquela casa de shows – do lado direito do palco. Isso nos deu o direito de acompanhar toda a apresentação da banda bem em frente ao grande Matthias Jabs. O cara é MUITO BOM e era extremamente simpático durante toda a apresentação. Meu colega de facul, sortudo pacas, conseguiu pegar uma das palhetas que o guitarrista jogou. A banda atrasou muito para entrar no palco (certamente uma das vezes que mais presenciei esse fato no Olympia) por motivos que me são desconhecidos até hoje, mas o show iria valer cada centavo pago e cada segundo de espera.

O Olympia estava completamente entupido quando os primeiros acordes acústicos de “Coming Home” eram executados. Klaus entra sozinho e canta a parte lenta da canção em uma quase penumbra, mas rapaz, quando a parte rápida começa a casa quase vem abaixo. Som perfeito, muito alto e bem definido. Músicos fantásticos correndo para todos os lados e uma plateia boquiaberta. Eu sempre cito aqui no“…PRA FICAR!!!” quando existem vídeos disponíveis na web, o que é ótimo para vocês mais jovens. Pois já que não puderam estar lá na época, tem a oportunidade de ver agora como foi pelo menos. E dessa vez eu digo com todas as letras, como vocês tem sorte. O show disponível é o mesmo que o eu assisti no dia 30, que a própria banda posteriormente consideraria um dos melhores da sua carreira até então – e a versão no You Tube está idêntica a que eu tive a sorte de comprar em VHS dias depois para tornar aquela noite inesquecível. Obviamente como sempre o link está á disposição no final dessa matéria. Não perca.

Voltando ao show a sequencia com “Big City Nights”, “Tease Me, Please Me”, “Don’t Believe Her” e “Is There Anybody There” (certamente o único ‘reagee’ que eu ouço e adoro) mostraram uma banda coesa, técnica e muito talentosa. Um pedaço acústico com direito a vilão e banquinhos apresentou clássicos como “When The Smoke Is Going Down”, “Always Somewhere” e “Holiday”. O peso foi garantido com “Alien Nation” e “The Zoo”. Particularmente, a sequencia com a mágica “In Trance”, “He’s A Woman, She’s A Man”, “Bad Boys Running Wild”, “Hit Between The Eyes” e “Blackout” pagou o meu ingresso com juros e dividendos. Sem dúvidas, um dos melhores shows que presenciei na vida até hoje.  Que baita show.

Com nós tínhamos sido sem carro e a apresentação terminou quase duas da manhã, o melhor a fazer foi voltar para o Habbibs fazer hora, comer e esperar a hora dos ônibus circularem normalmente para o Grande ABC. Assunto não faltou, pois foi tudo espetacular. 

O ano de 1994 já estava superando 1993, e muitos outros shows estavam sendo especulados para os próximos meses. Mesmo a parte nacional estava a toda com varias bandas se apresentando. Naqueles mesmos dias a casa de Cultura do Ipiranga se colocava a disposição para bandas como o Firebox e Yo-Ho-Delic, com entrada franca. Já o Garage em Pinheiros, sempre com ótimos shows, contou com o Flammea e Skyscraper na festa dos prêmios da revista Rock Brigade. Mas nosso assunto aqui são eventos internacionais e um festival estava marcado para abril. O ginásio da Portuguesa de Desportos iria receber vários grandes nomes do metal pesado brazuca ao lado de um  headliner de peso, a atração principal Kreator, que conforme o prometido em 1992 voltou em breve mesmo. E o “…PRA FICAR!!!” vai contar tudo a respeito na semana que vem, pois as lembranças dos shows mais importantes estão no HB “…PRA FICAR!!!

Scorpions no Brasil (1994):

– São Paulo: 29 e 30 de março de 1994;

Setlist do show do dia 30 em São Paulo:

  1. Coming Home
  2. Big City Nights
  3. Tease Me, Please Me
  4. Don’t Believe Her
  5. Is There Anybody There
  6. Under The Same Sun
  7. Coast To Coast
  8. No Pain No Gain
  9. When The Smoke Is Going Down
  10. Always Somewhere
  11. Holiday
  12. Alien Nation
  13. The Zoo
  14. In Trance
  15. He’s A Woman, She’s A Man
  16. Bad Boys Running Wild
  17. Hit Between The Eyes
  18. Blackout
  19. Still Loving You
  20. Wind Of Change
  21. No One Like You
  22. Rock You Like A Hurricane

 (Créditos das fotos: Paulo Márcio)