“A banda brasileira mais internacional de todos os tempos”

Como vocês se recordam semana passada falamos do giro do Morbid Angel pelo Brasil e nessa altura do ano a segunda edição do festival Rock in Rio já tinha ficado para trás. E por falar nisso não custa reforçar, que o “…PRA FICAR!!!” vem desde sua primeira publicação seguindo uma sequencia cronológica e que dessa vez por um motivo especial foi interrompida. O Rock in Rio 2 comemora 30 anos em janeiro próximo e nós do HB resolvemos contar tudo sobre esse icônico evento na semana de seu aniversário no início do ano que vem. Eu reforço o convite, pois será um “…PRA FICAR!!!” super especial recheado de informações, curiosidades e lembranças.

Mas não tem como começar o nosso capítulo sem citar o mega evento carioca, pois vamos falar hoje sobre o famoso show que o grande Sepultura realizou na entrada do Estádio do Pacaembu no ano de 1991. Alguém ai já deve estar pensando: ‘Mas esse tal de “…PRA FICAR!!!” não fala só das bandas gringas que vieram aqui???’. Correto, esse é o nosso padrão, mas naquela altura o Sepultura já tinha rompido as barreiras fronteiriças dentro do universo da música pesada e tinha se tornado a banda brasileira mais internacional de todos os tempos. E dessa forma, nossos amigos merecem sim estar nesse espaço e a estreia já começa em grande estilo.

A participação do Sepultura no Rock in Rio 2 chamou muito a atenção da mídia comum, com a banda antes de sua apresentação em 23 de janeiro, concedendo enxurradas de entrevistas para os mais variados programas de TV, rádios e jornais. Os profissionais da mídia não especializada queriam por que queriam entender como essa banda mineira estava tão popular no estrangeiro, sem passar pelos tramites considerados ‘normais’ por esses veículos. Nós, headbangers, sabemos essas respostas, mas para a repórter do Fantástico que entrevistou a banda não existia explicação que a convencesse. Paciência, hehe.

O momento era realmente especial para o Sepultura, que havia se mudado do Brasil para Phoenix, Arizona nos Estados Unidos em 1990 e, maio de 91, estava com um super disco recém-lançado em mãos, o clássico “Arise”, que tornou o Sepultura uma das bandas de thrash metal mais elogiadas pela crítica especializada mundial. Para se ter uma ideia, “Arise” vendeu mais de 160 mil cópias nas oito primeiras semanas de seu lançamento. Ao final da turnê de divulgação, ele já tinha superado a marca de Um milhão de cópias vendidas ao redor do mundo e colocou o nome do Sepultura na posição 119 no disputado chart americano US Billboard 200.

O novo álbum, que não ficaria pronto até a data da apresentação do conjunto no Rio, teve uma versão lançada mesmo sem a masterização final realizada, o chamado “Rough Mixes” e com apenas um pequeno destaque da ilustração definitiva servindo de capa. Na época o LP tinha o preço de um disco comum, mas hoje em muito bom estado ele tá valendo uma boa grana.

O show do dia 11 de maio de 1991 era uma forma de agradecer ao público paulista, que sempre apoiou a banda desde o princípio e retribuir com uma apresentação gratuita parecia ser a forma ideal. O local escolhido foi a Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu. Tudo parecia ser perfeito com o evento marcado para o final da tarde e começo da noite paulistana. O único outro show de destaque no mesmo dia seria o New Model Army, que se apresentaria no Dama Xoc logo mais a noite, mas é óbvio, que com todo o respeito que o NMA merece, ele na verdade não oferecia concorrência alguma.

O principal problema, entre vários outros, foi basicamente que a organização e a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), subestimaram a quantidade de pessoas que se motivariam a ver o Sepultura ao vivo no melhor estilo 0800. É complicado se afirmar o número de presentes em qualquer evento sem a cobrança de ingressos, mas o cálculo mais divulgado girou em torno das 40 mil pessoas. O contingente de policiais destacados para o concerto era suficiente para apenas 10 mil pessoas, fazendo do controle da multidão uma tarefa praticamente impossível. Segundo as publicações da época seis pessoas ficaram feridas, 18 foram presas e uma foi morta a tiros, mas esses números variaram em determinados jornais. Seja o que for, foi muito e deu um enorme pano para manga nas semanas seguintes. Os shows do Korzus e Volkana, marcados para a semana seguinte (dias 18 e 19 de maio) no Dama Xoc quase foram cancelados, pois teve vereador bancando o paladino da justiça, que se aproveitando do embalo da situação estava querendo simplesmente proibir todos os shows de heavy metal na capital paulista. E esse foi só um fato em meio a tantos outros problemas que seguiram.

Mas vamos falar do dia do show propriamente dito. Um colega meu de cursinho que estava começando a curtir heavy metal, muito por causa dos sintomas da superexposição do evento no Rio em janeiro, se animou a também ir para a frente do Pacaembu naquele dia 11 de maio. Fomos de trem e já na nossa chegada a estação Barra Funda, o número de policiais chamava atenção. Depois de uma boa caminhada, encontramos a estrutura de um palco montado em frente ao estádio e tudo muito tranquilo. Alguns colados lá na frente, outros sentados em torno da praça e muita polícia circulando. Duas lembranças continuam muito claras na minha memória, sendo a primeira que ainda com a luz do dia vivenciei a maior batalha de latinhas de cerveja da minha vida. Do nada a guerra começou com um lado atacando o outro atirando varias latas ao mesmo tempo, algumas amassadas no melhor estilo frisbee, já outras cheias de conteúdos bem duvidosos. Literalmente o céu escureceu com a quantidade de latas voando de um lado para o outro. A outra lembrança foi o final da alegria de quem estava grudado na beira do palco, quando uma segunda leva de policiais chegou com a cavalaria e colocou, educadamente na base do cacetete, todo mundo para correr de lá, para que o pessoal da produção colocasse as grades de proteção em volta da estrutura.

Já era quase noite quando o Sepultura entrou no palco ao som – que estava muito ruim, diga-se – de “Arise” e o lugar virou um completo caos. Imagine uma roda do tamanho de meio campo de futebol em uma praça muito mal iluminada. Uma grua que sustentava umas das câmeras da MTV Brasil, que gravou partes do show, quase virou, pois o pessoal queria se pendurar nela para poder ver o palco melhor. A banda toca “Inner Self” e o tumulto só piora, agora com alguns quebra pau rolando pelas laterais. Nessa altura eu e meu colega, que a princípio nos localizávamos perto da estrutura principal mais para o lado direito do palco, já estávamos em um dos barrancos que ficam dos lados da praça, vendo tudo bem de longe. Antes de “Mass Hypnosis”, Igor sai de trás de seu kit e vem para a frente do palco de onde dá um esculacho em todos os presentes, pedindo calma e afirmando que a banda era contra qualquer tipo de violência. Era surreal ele lá falando aquilo tudo e bem próximo de onde a gente se abrigou tinha uns caras levando umas borrachadas dos PMs, mas na boa, para separar as brigas que rolavam por lá só assim mesmo. Os ânimos continuaram exaltados durantes as poucas últimas músicas.

Realmente foi uma experiência válida, principalmente por que sai ileso daquilo tudo e com a convicção que eventos grátis são muito perigosos. Dias depois a MTV Brasil em seu programa especializado, Fúria Metal, passou alguns pedaços do show, na verdade três músicas e entre elas o cover do Motorhead, “Orgasmatron”, que recebeu uma edição mais caprichada e virou clipe oficial. A rabada que o Igor deu nos inúmeros brigões também foi destacada, para ver como a coisa chamou atenção.

Sabe aquela frase, “o barato sai caro”? Então, esse evento grátis infelizmente tem esse sabor, pois todos aqueles problemas continuaram repercutindo por muito tempo. Aqueles programas de comportamento muito comuns nas tardes das TVs, cheios de “especialistas” em tudo, começaram a envolver o rock (e suas subdivisões) em um sentido amplo, como sendo o estilo, um sinônimo de encrencas e brigas em uma proporção similar ao que eram atribuídas as torcidas organizadas do futebol. Foram dias complicados e que fazem parte da história da música pesada brasileira. Demorou um bocado para programas como o ‘Aqui Agora’ do SBT esquecer a música pesada e parar de noticiar que roqueiro era um povo do mal e encrenqueiro.

Mas independente de tudo isso, o ano de 1991 tinha começado muito bem para a música pesada brazuca graças ao Rock in Rio 2 e seu fantástico dia metálico; a visita do Morbid Angel, que colocou o Brasil na rota do death metal pela primeira vez e o Sepultura decolando rumo ao topo do cenário metálico mundial.  É preciso salientar que a banda foi a menos culpada dos problemas daquele dia 11 de maio, ou melhor, não teve culpa alguma e o ano seguiu seu curso.

Falando em seguir em frente, um nome gigante do meio metálico teve finalmente suas datas confirmadas no final do mês de maio e com data prevista para os ingressos estarem á venda. Era chegada a hora do grande Deep Purple estrear nos palcos tupiniquins e vamos contar tudo sobre o que o ‘Man in Black’ aprontou por aqui – e não foi pouca coisa não. Mas só vamos continuar com esse assunto na próxima semana, pois as lembranças dos shows mais importantes da década de 90 estão no HB “…PRA FICAR!!!

Sepultura no Estado do Pacaembu, São Paulo, 11 de maio de 1991.

Setlist:

  1. Arise
  2. Inner Self
  3. Mass Hypnosis
  4. Under Siege (Regnum Irae)
  5. Orgasmatron
  6. Troops of Doom

(Créditos das fotos: Paulo Márcio)