O sábado foi um dia de sol belo e tempo firme no Rio de Janeiro, bem diferente das semanas de dias nublados e cinzas, ontem o céu Carioca se abriu e recebeu da melhor forma possível três nomes do cenário Paraíba com toda a maestria e, no Circo Voador, vimos, mais uma vez, a história passeando por aquele sagrado palco.
Tivemos a chance de presenciar, os shows do Zepellin e o Sopro do Cão, Ave Sangria e Papangu, juntos em uma noite que ficará por muito tempo na memória de muitos como a noite aonde, mais uma vez, lembramos que nem os grilhões e a censura imposta pela Ditadura Militar podem calar a arte, pois ela é muito maior do que qualquer regra ou regimento imposto por aqueles que visam cercear, calar e inviabilizar a sua força.
Antes de tudo, essa foi uma noite no qual não acreditaria que veria o que foi visto, um Circo Voador lotado e de gente nova, de pessoas no qual, dentro da minha pequena compreensão, estaria no Circo ontem para o Papangu. Que ledo engano, mas antes disso, precisamos falar sobre a banda de abertura, o Zepellin e o Sopro do Cão foi uma grata surpresa, pois eles apresentam um show lotado de energia, com músicas com claro flerte ao Punk/Hardcore, mas ainda assim eles tem aquele “tempero” que somente o Nordeste entrega, alguma coisa aqui e ali da regionalidade forte está presente no show e nas composições da banda, uma banda de abertura que foi uma surpresa maravilhosa!
Após essa ótima abertura de noite, o Circo começa a encher de forma gratificante, pessoas de todas as idades estavam entrando para testemunhar o show da lenda Ave Sangria no palco do Circo Voador. Na entrada da banda já se via um grande furor pela apresentação, que quando começou, foi maravilhosamente inebriante, uma viagem a uma sonoridade que tanto foi atacada no nefasto período Militar em nosso país. Psicodelia, uma mistura maravilhosa de Rock Progressivo com as raízes da música Paraibana, o percursionista que volta e meia tocava uma zabumba maravilhosa e pesada, empolgou a todos, que ontem, durante o evento, foi uma aula, mas essa conversa teremos depois. O show do Ave Sangria entregou composições do seu primeiro disco, lançado a 50 anos atrás e de seu mais recente disco, de 2015, Vendavais. Toda a apresentação do Ave Sangria foi linda de se vivenciar, com pessoas, de todas as idades cantando toda as músicas da veterana banda, que respondia cada vez mais ao seu público. Um show lendário e histórico, lindo.
Depois dessa apresentação magnífica, muitos achavam que “teria ficado pequeno”, mas estamos falando de um dos nomes mais falados no cenário Progressivo Mundial e o Papangu não deixou por menos e fez uma apresentação, como sempre, memorável. A mistura de progressivo, regionalismo e metal extremo foi simplesmente perfeito, como sempre. O som da banda estava impecável, conseguíamos ouvir tudo, mas os pontos altos pra bateria de George, os bumbos pareciam patadas em nosso corpo, lindo. Atualmente formada por Marco Mayer (voz e baixo), Hector Ruslan (voz e guitarra), Raí Accioly (voz e guitarra), Pedro Francisco (guitarra, teclado, voz, flauta e percussão), Rodolfo Salgueiro (voz e teclados) e George Alexandria (bateria e percussão), a Papangu apresentou seu novo disco, Celestial com as maravilhosas Mau Olhado, Calado (de olho) e Celeste e sem delongas, revisita a sua carreira em Lampião Rei e Holoceno, tocando diversas faixas deles e brincando com a nossa percepção e misturando passagens e riffs, mas sem perder o “fio da meada”, eles brincam com Rito de Coroação, Boi Tatá, Oferenda de Alguidar, entre outras executadas na noite. Um show acima da média, sensacional, ímpar.
Antes de encerrar essa cobertura, queria destacar algo muito belo que eu vi ontem. A nova geração abraçando os artistas mais antigos e aprendendo a curtir show sem um telefone. Durante as apresentações do Ave Sangria e Papangu estava difícil de ver um telefone em riste, fazendo os famigerados vídeos (que ninguém nunca revê), ontem o público estava entregue ao evento, curtindo e cantando, todas as músicas, principalmente do Ave Sangria, o que foi muito satisfatório em ver.
O Circo Voador estava repleto de gente muito nova, que com toda a certeza conhece a Ave Sangria por conta das histórias que foram passadas, ou mesmo por ouvirem o Papangu e chegaram na Ave Sangria e ouviram, independente do streaming por onde tal fenômeno ocorreu, é gratificante ver a nova geração abraçando esses artistas antigos, cantando as músicas e o mais importante, vivendo, de verdade aquele momento, não preocupado em mostrar que está ali, mas vivendo e estando, dentro de três ótimas apresentações, entendo que o meu maior destaque seja esse, o público, depois de tanto tempo inebriados pro um “black mirror”, está realmente redescobrindo as cores da vida real.
A Grande Roubada e Submersa, além do nosso muito obrigado por nos permitir ver esse evento belíssimo e trazer esse texto, parabéns pela organização do evento, aonde tudo aconteceu dentro do esperando e no horário, lindo demais!! Abaixo um presente, uma playlist com diversas músicas dos artistas que tocaram ontem, deleitem-se.
TEXTO POR AUGUSTO HUNTER
FOTOS POR DIDI DE ALMEIDA




































