Pela primeira vez, o Headbangers Brasil está presente no Hellfest Open Air, um dos maiores e mais importantes festivais de Metal do mundo. Realizado em Clisson, na França, o evento transforma completamente a pequena cidade durante seus dias de programação — e a experiência começa muito antes de se atravessar os portões da área principal.
Em 2026, o festival também prestou uma homenagem especial a Ozzy Osbourne, com uma impressionante estátua de seis metros de altura instalada na entrada principal. A obra foi criada pelo artista Philippe Pasqua e já deixa claro, logo na chegada, que o Hellfest não é apenas uma sequência de shows: é uma experiência que ocupa toda a cidade.
DIA ZERO — A chegada a Clisson
Para quem chega de fora da França, Nantes é a principal porta de entrada para o Hellfest. E basta desembarcar no aeroporto para perceber que, durante os dias do festival, tudo parece girar em torno dos Hellbangers.
A publicidade do evento já aparece na área de bagagem, enquanto um enorme totem do Hellfest recepciona os visitantes na saída do aeroporto.
Uma das opções mais utilizadas para chegar a Clisson é o shuttle oficial, com ônibus direto para o festival pelo valor de €18,50. O serviço precisava ser reservado com pelo menos 24 horas de antecedência. Por sugestão do próprio site do evento, optamos por uma alternativa diferente: um BlaBlaCar que, por uma dessas coincidências que só uma viagem pode proporcionar, era conduzido por um voluntário do próprio Hellfest.
A viagem acabou se transformando em uma pequena aula sobre Clisson. O voluntário contou detalhes da cidade e destacou, entre outras curiosidades, sua tradição na produção de uvas Moscatel. E, para quem gosta de descobrir sabores locais, havia ainda uma promessa: dentro do Hellfest existia um bar dedicado ao vinho produzido exclusivamente pelos produtores da região. Mas isso fica para os próximos capítulos.
Ao chegar à cidade, a impressão é de que o festival tomou conta de tudo. Restaurantes e bares improvisados surgem por todos os lados, vendendo cervejas, lanches e outros produtos para atender à multidão de camisas pretas que circula pelas ruas.
O Leclerc, supermercado mais próximo do festival, localizado a cerca de 15 minutos de caminhada, também entra completamente no clima do evento. Além de oferecer um menu especial de café da manhã e uma variedade de snacks, o local monta uma verdadeira estrutura paralela, com palco, lojas de roupas, tenda de tatuagem e outros espaços voltados aos frequentadores do festival.
Até o estacionamento é dividido de acordo com a operação do evento, com uma área reservada aos artistas e outra destinada à imprensa.
Credenciamento e camping
O credenciamento foi rápido e sem filas. Com a pulseira no braço, já era possível começar a perceber a dimensão da estrutura do Hellfest, que inclui bares, vilas temáticas, uma verdadeira cidade cenográfica e diversos ambientes espalhados pelo complexo.
A área principal de shows, entretanto, só seria aberta no dia seguinte, quando o Hellfest começaria oficialmente.
O caminho até o camping foi uma experiência à parte. A caminhada é longa e, como boa parte do trajeto passa por grama, serragem e trechos de madeira, carregar uma mala com rodinhas se torna uma tarefa consideravelmente mais difícil.
Como a chegada aconteceu no final do dia, o camping já estava praticamente lotado, restando espaço apenas nas áreas mais distantes. E mesmo depois de encontrar um lugar para montar a barraca, ainda havia uma caminhada de aproximadamente dez minutos até o primeiro ambiente do festival.
Barraca montada, alojamento organizado e hora de explorar.
Primeiras impressões
Uma das primeiras coisas que chamam a atenção dentro do Hellfest é o sistema cashless. As compras são realizadas diretamente por meio da pulseira do festival, que recebe créditos carregados através do aplicativo oficial. Sem créditos, não há compras — portanto, essa é uma das primeiras providências que o Hellbanger precisa tomar.
Com os primeiros ambientes já funcionando, começamos a explorar o complexo. Entre os espaços disponíveis estavam o Hell Stage, localizado no centro da praça principal; a Purple House, que possui um ringue no meio do ambiente, onde músicos apresentam riffs pesados e cheios de energia; e a Metal Corner, que naquele momento era tomada pela música eletrônica.
Por todos os lados, uma multidão circulava, esbarrando-se em meio aos diferentes ambientes. As filas para alimentação já eram bastante extensas.
E aquilo ainda era apenas o começo.
HELLFEST — DIA 1 | 18 DE JUNHO
Uma noite tranquila antes do caos
Depois de um primeiro reconhecimento do festival, era hora de descobrir como funciona o camping quando a noite chega.
A temperatura cai consideravelmente e o ambiente, que durante o dia é tomado pelo movimento, transforma-se completamente. Apesar de alguns Hellbangers continuarem conversando, ouvindo música e aproveitando a noite, a maioria se recolhe para descansar.
A tranquilidade domina o enorme camping — pelo menos até o sol nascer e os primeiros grupos começarem a caminhar em direção a um dos pontos mais disputados da manhã: o H2O.
H2O: o banho dos Hellbangers
Sim, os franceses tomam banho — e as filas no H2O deixam isso bastante claro.
O espaço é o único ponto de banho de todo o festival e cobra €6 por todo o período do evento. Existem duas opções: os banhos individuais e os banhos coletivos.
Os Hellbangers mais experientes já chegam preparados, levando biquínis, maiôs ou sungas para utilizar os chuveiros coletivos, que costumam apresentar filas mais rápidas.
Do lado de fora, diversas pias ficam disponíveis para quem precisa escovar os dentes e cumprir o ritual básico de sobrevivência de qualquer grande festival.
Nos horários de maior movimento, a espera pelos banheiros individuais ultrapassa os 30 minutos.
Press Area: um oásis em meio ao calor
O primeiro dia oficial do festival trouxe temperaturas de aproximadamente 34°C, com sensação térmica chegando aos 37°C. Nesse cenário, as áreas VIP e de imprensa se transformam literalmente em oásis dentro do Hellfest.
Fonte de água, ar-condicionado, bar exclusivo para os frequentadores da área VIP, áreas cobertas, banheiros menos concorridos e diversas salas destinadas às entrevistas fazem desses espaços um verdadeiro refúgio diante do calor.
Depois de horas sob o sol, não há como negar: é um refrigério mais do que bem-vindo.
Um universo inteiro dedicado ao Metal
Com todos os espaços finalmente abertos, era hora de conhecer o Hellfest em sua plenitude.
São inúmeros ambientes e seis palcos principais, incluindo os gigantescos Mainstage 1 e Mainstage 2, equipados com telões que podem ser acompanhados de praticamente qualquer ponto da área principal.
Tudo no festival respira música — e, principalmente, a cultura dos camisas pretas.
A Roda-Gigante também já estava funcionando e fazia parte da paisagem, enquanto os diferentes ambientes eram tomados por Hellbangers de todas as idades. A criatividade do público é um espetáculo à parte: fantasias, personagens e visuais dos mais variados transformam a plateia em parte da própria cenografia do festival.
E, claro, chegou o momento de conferir a promessa feita ainda durante a chegada a Clisson: o bar dedicado ao vinho Moscatel produzido localmente.
O primeiro dia estava oficialmente em andamento — e a programação prometia uma sequência de nomes capazes de atravessar diferentes gerações do Rock e do Metal.
The Pretty Reckless
The Pretty Reckless – Foto por Nayara Sabino
Taylor Momsen e o The Pretty Reckless levaram atitude e muito Rock ‘n’ Roll ao Hellfest.
Em um set de apenas oito músicas, a banda não deixou de fora alguns de seus principais destaques, como Make Me Wanna Die, Death By Rock ‘n’ Roll e Heaven Knows, que ganhou um solo estendido.
Com presença de palco e uma sonoridade que transita entre diferentes vertentes do Rock, o The Pretty Reckless mostrou mais uma vez por que se tornou um dos nomes queridos do circuito de festivais europeus.
Deep Purple
Deep Purple Foto: Nayara Sabino
Se existe uma palavra capaz de definir a apresentação do Deep Purple, ela é: clássicos.
Com mais de cinco décadas de carreira, a banda apresentou um set de 13 músicas que começou com Highway Star e terminou, naturalmente, com Smoke on the Water.
No caminho, ainda passaram por Space Truckin’ e Black Night, reafirmando a importância histórica do grupo e sua capacidade de manter o público conectado a diferentes momentos de sua longa trajetória.
Mesmo depois de quase 60 anos de estrada, o carisma do Deep Purple permanece intacto.
Deep Purple Foto: Daniel Pinho
Alice Cooper
Alice Cooper Foto: Nayara Sabino
A teatralidade tomou conta do Hellfest com Alice Cooper.
Com um set de 17 músicas, o veterano entregou exatamente o que o público esperava: Poison, School’s Out e No More Mr. Nice Guy estiveram entre os grandes momentos da apresentação.
E ainda houve espaço para uma surpresa no encerramento, com um cover de Smells Like Teen Spirit, do Nirvana.
A atual turnê também apresenta uma mudança importante na formação: a guitarrista Nita Strauss fez uma pausa nas atividades de estrada após o nascimento de seu primeiro filho, Maxwell, em 28 de maio de 2026. Em seu lugar, Anna Cara assumiu as guitarras e manteve o alto nível da apresentação.
Com todos os elementos que fizeram de Alice Cooper uma referência do Rock teatral — maquiagem, narrativa, personagens e uma produção grandiosa — o show foi um dos grandes momentos do primeiro dia e manteve o público em êxtase.
Alice Cooper Foto: Nayara Sabino
Homenagem a Ozzy Osbourne
Homenagem Ozzy Osbourne – foto Daniel Pinho
Após o apoteótico show de Alice Cooper, o Hellfest prestou uma linda homenagem a Ozzy Osbourne, que havia nos deixado há pouco menos de um ano.
Fogos de artifício iluminaram o céu enquanto imagens do eterno Madman tomavam conta dos telões. Um momento realmente emocionante dentro do festival, reunindo milhares de fãs em uma homenagem à altura de uma das maiores lendas da história do Rock e do Heavy Metal.
Homenagem ao Ozzy Osbourne – Daniel Pinho
Papa Roach
Fonte: Reprodução Internet
Do Rock clássico para os sons mais modernos, o Papa Roach assumiu o palco levando o público diretamente para a era de ouro do Nu Metal.
Scars, Help e Between Angels And Insects apareceram no setlist de 16 músicas, acompanhadas por guitarras pesadas e refrões que rapidamente foram assumidos pelo público francês.
Um dos momentos mais divertidos veio com a chamada “Nu Metal Time Machine Medley”, em que a banda relembrou alguns dos grandes clássicos do gênero. A sequência começou com Blind, do Korn — grupo com quem o Papa Roach excursionou em seus primeiros anos — e passou por outros nomes importantes do estilo, chegando até Chop Suey!, do System of a Down.
Para fechar, não poderia ser outra: Last Resort encerrou uma noite de celebração do Nu Metal e confirmou a excelente recepção do Papa Roach em solo francês.
Bring Me The Horizon
Bring me the Horizon – foto Daniel Pinho
A tecnologia tomou conta do palco com o Bring Me The Horizon.
Com uma introdução futurista e uma produção visual carregada de elementos de ficção científica, a banda trouxe um espetáculo que combinou música, tecnologia e imagens projetadas nos enormes telões.
O show começou com DArkSide — grafado oficialmente dessa maneira — e passou por sucessos como Follow You, Can You Feel My Heart e Doomed.
A alternância entre momentos melódicos e os tradicionais berros de Oli Sykes deu o tom da apresentação. E, como não poderia deixar de acontecer, o vocalista aproveitou a proximidade com o público para levar a interação a outro nível, chegando a cantar Throne literalmente no meio da galera.
Carisma, produção visual e uma plateia completamente entregue fizeram do Bring Me The Horizon um dos grandes espetáculos da noite.
Alestorm
Alestorm – foto Daniel Pinho
Para encerrar a programação dos Mainstages, nada melhor do que uma festa pirata.
O Alestorm fechou a noite com um show absolutamente divertido e uma das características mais marcantes de suas apresentações: o crowd surfing praticamente da primeira à última música.
Keelhauled abriu a festa, que seguiu em alta com Mexico, Banana, Alestorm e P.A.R.T.Y.
Como já é tradição nos shows da banda, os patinhos infláveis amarelos tomaram conta do ambiente, enquanto a plateia transformava a apresentação em uma enorme celebração.
Para fechar a noite, Fucked With An Anchor colocou o público para cantar — e um gigantesco “FUCK YOU” inflável no palco encerrou a apresentação de maneira perfeitamente caótica.
Alestorm – foto Daniel Pinho
Depois de uma chegada que já havia deixado claro que o Hellfest é muito mais do que um festival, o primeiro dia oficial confirmou a dimensão da experiência: grandes nomes, produção gigantesca, públicos de diferentes gerações e uma atmosfera em que o Metal está presente em absolutamente todos os cantos.