A Mãe Serpente é um trio de stoner metal do Vale do Aço, leste de Minas Gerais, formado por Fernando Dias (guitarra e vocais), Mário Rodrigues (contrabaixo) e Victor Espeschit (bateria).



A Mãe Serpente iniciou suas atividades em 2015, já com o objetivo claro de desenvolver um trabalho autoral e consistente. Influenciada por diferentes vertentes do rock e do metal, a banda construiu uma identidade própria ao unir peso, groove e melodia a uma abordagem lírica direta e acessível.

Em 2019, lançou seu álbum de estreia intitulado “Mãe Serpente”, marco importante na consolidação do projeto e na ampliação de sua presença na cena independente.

Agora, em 2026, a banda conclui as gravações de seu próximo álbum, com lançamento previsto para este ano, consolidando um novo momento em sua trajetória artística. Abrindo este novo ciclo, o single “Fúria Sem Olhos” foi lançado no dia 24 de abril, acompanhado de vídeo clipe oficial, dirigido por Felipe Cavalieri, marcando o início da estratégia de divulgação do próximo álbum. E nós, da Headbangers Brasil tivemos o prazer de fazer uma entrevista com os caras. Confira abaixo!

Headbangers Brasil (HBr): Como surgiu a Mãe Serpente? Em que momento vocês decidiram transformar a ideia em uma banda concreta?

Fernando Dias: A Mãe Serpente é um projeto que surgiu há mais de 10 anos e sempre teve a ideia de fazer um som autoral. Desde o começo, isso já foi sendo levado como banda, não ficou só no plano da ideia. Ao longo do tempo, a gente foi se lapidando, amadurecendo a sonoridade e a forma de trabalhar, mas a proposta sempre se manteve: criar um meio termo entre o rock e o metal, com muita influência de Black Sabbath e do hard rock dos anos 70, que é o que dá essa liga pro nosso som.



HBr: O nome “Mãe Serpente” é bastante simbólico. Qual é a origem e o significado por trás dele? Tem alguma influência de Raul Seixas?

Fernando: Sim, o nome Mãe Serpente é carregado de bastante simbolismo, mas ele não tem uma única origem. Surgiu a partir de alguns estudos de ocultismo no geral, mais especificamente de Cabala e hermetismo, que o nosso vocalista, Fernando Dias, vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, a influência de Raul Seixas é inegável tanto no nome quanto na parte lírica de forma geral.

HBr: Desde o início, vocês já tinham uma direção sonora definida ou isso foi se moldando com o tempo?

Fernando: A banda nunca teve a intenção de seguir um estilo específico, mas sempre com influências muito fortes de Black Sabbath, do hard rock e do heavy metal no geral. Isso foi se moldando com o tempo. O stoner metal é um estilo do qual a gente se aproxima e gosta bastante, talvez pelos riffs mais “assombrados” que aparecem constantemente no nosso som.



HBr: Como foi o começo da banda dentro da cena underground mineira? Quando surgiu a oportunidade para a primeira apresentação? Tiveram dificuldades?

Fernando: O começo foi muito a partir do relacionamento pessoal que a gente já tinha com organizadores de eventos dentro da cena. Nesse sentido, é importante destacar o apoio do Impuros MC, que foi quem primeiro nos ofereceu uma oportunidade de tocar. A partir disso, a gente conseguiu ganhar mais visibilidade e dar outros passos dentro da cena. As dificuldades vieram principalmente da falta de recursos e também da falta de conhecimento sobre o que fazer e como fazer dentro do que a gente vinha construindo ao longo da nossa caminhada.



HBr: O som de vocês, geralmente é definido como Doom/Stoner Metal. O que atrai vocês nesses estilos?

Fernando: Definitivamente a atmosfera densa e os riffs “assombrados”. A gente acredita que isso potencializa muito o impacto das nossas composições, principalmente pela forma como a tensão vai sendo construída e sustentada ao longo da música. São elementos que criam um ambiente mais imersivo e carregado, que é algo que a gente busca bastante dentro do nosso som.

HBr: Quais são às influências de vocês? Tanto dentro quanto fora do metal?

Fernando: As influências giram em torno de Black Sabbath, do rock dos anos 70 e do heavy metal no geral. Com a entrada do baterista Victor Espeschit, também vieram referências mais modernas e ligadas ao metal extremo. Na parte lírica, surge muita influência de Raul Seixas e de outros compositores brasileiros, como Zé Ramalho e Lula Côrtes, o que contribui para uma fluidez maior nas composições em português.

HBr: Existe alguma banda ou artista que foi decisivo para a identidade sonora de vocês?

Fernando: Essa pergunta é difícil de responder, porque nunca houve a intenção de seguir a linha específica de um único artista, embora existam influências muito claras. O público costuma perceber bastante a influência de Black Sabbath, que já foi citada anteriormente e é uma grande referência. Ainda assim, a busca sempre foi por manter uma identidade própria e fazer com que a música da Mãe Serpente seja reconhecível por si só.

HBr: As temáticas da banda parecem caminhar por mitologia, metafísica e questões existenciais. Como nasceram esses conceitos?

Fernando: Sim, esses temas realmente estão presentes nas composições e nem sempre surgem de um desejo específico de falar sobre um ponto determinado. As letras nascem muito mais de inquietações e de uma certa comoção diante de alguns assuntos. São abordados temas ligados ao ocultismo, questões críticas do cotidiano, entidades da umbanda e também angústias existenciais, sempre atravessados por nossas vivências e inquietações.

HBr: Vocês enxergam a Mãe Serpente mais como uma expressão artística ou também como um posicionamento?

Fernando: A Mãe Serpente não é uma banda panfletária, mas também não é neutra. Nossas convicções atravessam o que a gente cria, mesmo que isso não venha de forma explícita. Assim como o nome da banda, a gente prefere sugerir do que gritar — e deixar que as críticas apareçam de forma mais sutil.

HBr: Como funciona o processo de composição dentro da banda?

Fernando: O processo de composição neste álbum ficou mais centralizado, principalmente por conta das instabilidades na formação, enquanto se buscava músicos e uma maior estabilidade nos bastidores. Com as composições já estruturadas, elas eram levadas para os ensaios, onde cada músico acrescentava novas ideias e sua própria forma de compor. Em muitos momentos, isso levava a mudanças em partes das músicas e, às vezes, até na intenção original da composição,algo que faz parte do trabalho e acaba enriquecendo todo o processo.

HBr: Existe um membro que conduz mais esse processo ou ele é totalmente coletivo?

Fernando: Sim, o vocalista e guitarrista Fernando Dias é quem conduz esse processo, trazendo a ideia inicial e as letras de todas as músicas do segundo álbum. Também é importante ressaltar a contribuição do baixista Mário Rodrigues no desenvolvimento do trabalho de cordas da banda, enriquecendo as harmonias e os arranjos de forma geral. Existe uma fluidez nesse diálogo, já que há influências muito próximas entre ele e o guitarrista, ainda que cada um traga uma percepção diferente sobre o mesmo tema.



HBr: Como vocês trabalham os arranjos para alcançar esse peso e densidade sonora?

Fernando: O principal indicador de que uma música está satisfatória ou não é o quanto ela consegue soar forte e com pegada. Esse é sempre um critério que pode levar à adoção ou à exclusão de algum arranjo, ou até da forma como ele é abordado dentro da composição.

HBr: Como foi o processo de gravação do full lenght intitulado “Mãe Serpente”?

Fernando: O álbum foi gravado no Estúdio Roots, em Coronel Fabriciano. Todas as músicas já tinham sido testadas ao vivo, então a gente já sabia que funcionavam bem no palco. A gravação aconteceu com uma outra formação, da qual permaneceu apenas o guitarrista e vocalista Fernando Dias. Os instrumentos foram registrados separadamente, com a bateria gravada ao vivo e sem o uso de metrônomo, o que inclusive pode ser percebido no resultado final.

HBr: Vocês lançaram um novo single chamado “Fúria Sem Olhos”, e já chegaram com um clip para este novo single. Ficou muito bom o trabalho de vocês. Como foi o processo de composição e gravação para esse single? Existe material novo em produção atualmente?

Fernando: Muito obrigado, ficamos satisfeitos em saber que você gostou do resultado do nosso trabalho. Esse single foi composto e gravado junto com as outras músicas do nosso segundo álbum. A gravação instrumental aconteceu no Estúdio Audio One, em Belo Horizonte, e os vocais foram registrados no 415 Home Studio, em Ipatinga. Sim, ainda temos mais material para mostrar. Lançaremos mais um single e, posteriormente, todo o volume 2, que se chamará “Fúria Sem Olhos”.

 

HBr: Qual foi a apresentação mais marcante da banda até hoje? Já tocaram fora do estado?

Fernando: Sempre buscamos tocar com a maior intensidade possível, mas podemos citar dois eventos em específico. Um deles foi a nossa estreia em Belo Horizonte, no evento Cerco Grotesco, no Viaduto das Artes. Tocar no Barreiro foi uma excelente estreia na capital e tivemos uma receptividade muito positiva do público. Também podemos destacar a apresentação no Culto ao Abismo, organizado pelo Invasão Metal que marcou a estreia do baterista Victor Espeschit. Foi um show em que conseguimos canalizar um momento de grande intensidade, e isso acabou sendo perceptível para o público.

HBr: Como vocês enxergam a cena underground em Minas Gerais e no Brasil atualmente?

Fernando: A cena underground de Minas Gerais passa por diversos desafios, já que é impossível desconectá-la da realidade do Brasil como um todo. No entanto, a vontade de realizar e fazer acontecer sempre existiu, e é isso que sempre movimentou o trabalho. Existem desafios de todas as partes, e aqueles que envolvem as interações humanas fazem parte de todo o contexto da nossa cultura, especialmente nos aspectos relacionados aos relacionamentos interpessoais.

HBr: Existe união entre as bandas da cena ou ainda há muita fragmentação?

Fernando: Sim, existe união entre as bandas, principalmente na organização de shows, no intercâmbio entre cidades, na divulgação de material e na busca por ampliar o alcance e a expressão de todos os envolvidos na cena, que ainda segue muito pela diretriz do “faça você mesmo”. É impossível fazer tudo de forma independente sem contar com relacionamentos e vínculos construídos ao longo do caminho.

HBr: Vocês pretendem continuar independentes ou pensam em trabalhar com selo/gravadora?

Fernando: A banda sempre foi independente e fez tudo na raça. Até então, a possibilidade de trabalhar com uma gravadora ou selo é vista como algo que poderia potencializar o nosso trabalho, já que permitiria materializar a nossa música com menos desafios e fazer com que ela chegasse mais longe. Estamos abertos a essa possibilidade, é claro.

HBr: Como lidam com a divulgação da banda em um cenário dominado por redes sociais?

Fernando: Hoje é impossível desconsiderar o digital na divulgação de músicas. Ainda assim, é necessário sempre parceria e uma boa interação com outras pessoas envolvidas na cena para que essa divulgação aconteça de forma mais efetiva. Ao mesmo tempo, o trabalho do boca a boca, do contato pessoal e da troca de material f ísico ainda existe e segue muito forte dentro do nosso segmento. Buscamos atuar nessas duas frentes, já que não dá para ignorar a realidade de como tudo funciona hoje.

HBr: O que vocês enxergam como obstáculo hoje para crescer dentro do metal nacional?

Fernando: Sem dúvida, a logística. Ela muitas vezes é um entrave para a circulação das bandas, tanto na realização de shows quanto no envio de materiais. Outro ponto importante é a questão financeira, já que a vontade de realizar e fazer música é o que move tudo, mas na prática, para divulgar, gravar, fazer merchandising, subir músicas e impulsioná-las nas redes, tudo envolve custos. Então, resumindo, custos no geral e logística seguem como grandes desafios a serem pontuados dentro desse cenário.

HBr: Quais são os próximos passos da Mãe Serpente após o lançamento do próximo full lenght? Há alguma tour em vista?

Fernando: Queremos divulgar ao máximo a nossa música e retomar com mais intensidade o processo de novas composições. Não temos nenhuma tour propriamente dita em vista no momento, mas estamos trabalhando com produtores daqui e de outras cidades para viabilizar mais apresentações da Mãe Serpente.

HBr: Qual é a mensagem que vocês querem deixar para quem escuta a banda?

Fernando: Gostaríamos de deixar nosso sincero agradecimento, pois foi através dos ouvintes que se tornaram apoiadores que viabilizaram todo o trabalho que realizamos até hoje. Ainda não chegamos tão longe quanto gostaríamos, mas, se chegamos até aqui, temos uma dívida de gratidão com cada pessoa que ouviu a nossa música, que apresentou nosso som para alguém, que comprou nosso merch, que esteve nos shows e que, de alguma forma fez parte disso tudo, isso é um grande incentivo para continuarmos. No mais, espalhem a palavra da serpente para onde puderem.

HBr: Existe algum momento difícil na trajetória que moldou quem vocês são hoje?

Fernando: Durante a pandemia e até um pouco depois, passamos por um período de instabilidade na formação, o que tornou um grande desafio encontrar novos músicos para trabalharmos com constância. Esse período, no entanto, nos ajudou a fortalecer a convicção do que estávamos fazendo e a nos manter firmes na escolha de fazer música e manter a Mãe Serpente viva. Enfim, estamos mais convictos que devemos seguir em frente independente do desafio que surja.

HBr: Se a banda tivesse que ser definida em uma única ideia ou sentimento, qual seria?

Fernando: Desejo. É o desejo que nos faz querer seguir em frente, que faz a banda querer materializar suas ideias e transformá-las em música. É também o desejo e a vontade de estar no palco que procuramos transparecer sempre. Buscamos tocar com o máximo de intensidade possível.

A Headbangers Brasil agradece imensamente pela entrevista e deseja vida longa ao Mãe Serpente! Deixamos aqui nosso muito obrigado!

 

Entrevista conduzida por Hector Cruz

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