A semana musical em Lima se transformou em uma verdadeira odisseia pessoal — uma jornada sonora que percorreu a sutileza do metal progressivo, a ousadia do post-punk e, por fim, o impacto inconfundível do thrash metal. Depois da complexidade quase sinfônica do Dream Theater e de uma genialidade que ignora tendências de John Lydon, o som veio cru, ultrarrápido, sujo e carregado de espírito oitentista — exatamente como deve ser — desencadeando mosh pits intensos e uma descarga contínua de energia, com o show do Megadeth em Lima, capital do Peru.

Dave Mustaine não deu trégua. “Peace Sells” explodiu sem concessões, e naquele momento fui inevitavelmente transportado à adolescência: os discos importados de Miami, as revistas especializadas, a descoberta de uma banda que, diferente de tantas outras, jamais abriu mão de sua identidade. O cenário era caótico no melhor sentido — contei ao menos oito sinalizadores acesos simultaneamente, talvez mais, como se via também na zona B e nos inúmeros vídeos compartilhados pelos fãs, registrados no próprio epicentro daquilo tudo.

Havia algo de ritualístico no ar: selvagem, coletivo, quase tribal. A visão das bengalas, envoltas em fumaça densa, remetia a uma Roma em chamas sob Nero, enquanto a multidão gritava até perder a voz: “Peace Sells… but Who’s Buying?”. Um verso que, décadas depois, ainda arrepia pela sua lucidez.

A entrega do público seguiu em um transe coletivo, entoando em uníssono o já clássico “Megadeth, Megadeth, Peru es Megadeth”. E quando veio “Symphony of Destruction”, o nível de intensidade atingiu outro pico — puro thrash metal em sua forma mais visceral.

Mas a noite ainda reservava um momento especial: “In My Darkest Hour”. Após uma breve deliberação no palco, visível a todos, a banda decidiu incluí-la no setlist — não estava prevista, mas foi conquistada pela resposta avassaladora do público limeño. Um gesto que soou como reconhecimento a uma base de fãs que começou a se consolidar ali, desde 2008, no primeiro show da banda no Peru. Lima, definitivamente, SABE DE METAL.

E então veio o encerramento com “Holy Wars” — um hino absoluto. Lá estava Mustaine: com suas limitações, seu temperamento firme, mas plenamente fiel a si mesmo — direto, sincero, por vezes distante, mas genuinamente grato. Porque, apesar da postura austera, é evidente: o palco é onde ele pertence.

Essa noite foi mais do que um concerto. Foi o fechamento de um ciclo pessoal iniciado aos 13 anos, ao som de Ozzy Osbourne em um antigo aparelho Pioneer do meu pai. Foi um reencontro com a essência que o Megadeth sempre representou: autenticidade inegociável.

Será realmente a última vez? Difícil acreditar. Parece mais um hiato do que um fim definitivo. Porque alguém como Mustaine — inquieto, intenso, movido pela própria arte — simplesmente não consegue parar de criar.

Ao sair do Costa 21, com os ouvidos ainda zumbindo e o coração acelerado, ficou a certeza: vivi algo histórico. Uma semana perfeita — PROGRESSIVO, PUNK E THRASH — condensada em Lima. E o Megadeth, com seu legado intacto, provou mais uma vez que o metal não morre. Ele apenas se transforma.

TEXTO POR DANIEL ROHSIG, ESPECIALMENTE PARA O HEADBANGERS BRASIL
FOTOS POR MASTERLIVEPERU
MEGADETH EM LIMA – SETLIST

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