Quatorze anos após o lançamento de …In Unholy Mourning…, o Headhunter D.C. volta  com Rise of the Damned…. , com lançamento previsto no dia 06/06/2026. Nós da Headbangers Brasil tivemos o privilégio de ouvir e resenhar esse play antes do lançamento e trazer para vocês nossas considerações sobre o mesmo.

Para uma banda que atravessou quase quatro décadas de atividade ininterrupta, mudanças de formação, perdas pessoais e os altos e baixos inevitáveis do underground, o novo trabalho representa mais do que um simples lançamento: é a confirmação de que o Culto da Morte segue ativo e disposto a honrar seu legado sem concessões.

Quem espera por modernizações forçadas ou tentativas de se adequar às tendências atuais do metal extremo pode procurar em outro lugar. O Headhunter D.C. permanece fiel à sonoridade que ajudou a consolidar seu nome entre os pioneiros do Death Metal brasileiro. Os riffs carregados, os andamentos pesados, os vocais rasgados de Sérgio “Nekrobaloff666” Borges e a atmosfera obscura que sempre acompanhou a banda estão presentes durante toda a audição.

A longa espera entre os discos não resultou em um trabalho acomodado. Pelo contrário. O álbum transmite a sensação de uma banda que ainda tem algo a dizer. Há um cuidado perceptível na construção das músicas, que alternam momentos de agressão direta com passagens mais densas e carregadas de tensão. Sem abrir mão da brutalidade, o grupo apresenta composições que soam coesas e bem desenvolvidas, evitando a repetição excessiva de fórmulas.

A produção segue um caminho acertado ao preservar o caráter orgânico do Death Metal tradicional. Em vez de apostar em uma sonoridade excessivamente polida, o álbum mantém a sujeira necessária para valorizar os riffs e a atmosfera sombria das composições. As guitarras assumem papel central, despejando uma sequência de linhas pesadas e ameaçadoras, enquanto a cozinha formada por Héracles “Demigod” Cardoso e Juan “Death Ax” Machado sustenta o peso do álbum com firmeza.

O contexto por trás de Rise of the Damned… também ajuda a compreender a intensidade do material. Durante o período que separa este disco de seu antecessor, a banda enfrentou acontecimentos que poderiam facilmente encerrar sua trajetória. A morte da irmã de Sérgio Borges em 2016, a saída do fundador Paulo Lisboa no ano seguinte e as constantes mudanças na formação colocaram obstáculos consideráveis diante do grupo. Em vez de enfraquecer o Headhunter D.C., esses acontecimentos parecem ter alimentado ainda mais o sentimento de resistência que atravessa o álbum.

As letras seguem alinhadas aos temas que sempre fizeram parte da identidade da banda. Morte, decadência, inconformismo e crítica à hipocrisia humana aparecem sem rodeios, reforçando a visão de mundo construída pelo grupo ao longo de sua extensa carreira. Não há preocupação em suavizar a mensagem ou torná-la mais acessível; trata-se de Death Metal feito para fãs de Death Metal.

Outro detalhe que merece destaque é a participação especial de Paulo Lisboa. Sua presença possui um peso simbólico importante para os seguidores mais antigos e reforça a ligação entre diferentes fases da história da banda. É um elemento que acrescenta significado ao trabalho sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.

Musicalmente, Rise of the Damned… reúne características de diferentes momentos da discografia do Headhunter D.C. A agressividade crua dos primeiros anos aparece lado a lado com composições mais elaboradas e uma atmosfera particularmente sombria, resultando em um disco que soa familiar para os veteranos sem deixar de demonstrar evolução.

Faixa a faixa

1. 40 Years Death March (Intro)

O título não deixa dúvidas sobre a intenção da abertura. Próximo de completar quatro décadas de atividade, o Headhunter D.C. utiliza a introdução como uma homenagem à própria trajetória. A faixa estabelece o clima sombrio do álbum e prepara o terreno para a sequência de músicas que compõem aquele que é o primeiro disco de inéditas da banda em quatorze anos.

2. Unblessed by the Unsacred

A primeira composição do álbum apresenta imediatamente os elementos que definem o trabalho. O Headhunter D.C. não tenta atualizar sua fórmula nem seguir tendências recentes do metal extremo. A música aposta na combinação de riffs pesados, vocais agressivos e uma atmosfera obscura que acompanha a banda desde seus primeiros lançamentos. Uma abertura forte para um disco que deixa clara sua ligação com a velha escola do Death Metal.

3. No Salvation from Above

A temática anticlerical e questionadora continua presente nesta faixa. O clima é marcado por uma sensação constante de confronto, reforçando a proposta lírica do álbum. Posicionada logo após a abertura, a música ajuda a consolidar a identidade de Rise of the Damned…, aprofundando a visão pessimista e contestadora que atravessa todo o trabalho.

4. Burn the Book of Lies

Uma das faixas mais diretas do álbum. O título por si só já resume o espírito de revolta que sempre fez parte da personalidade do Headhunter D.C. A música surge como um dos momentos mais agressivos do disco, mantendo a pressão elevada e ampliando o sentimento de hostilidade construído desde as primeiras faixas.

5. Gospel of Doom

Se a faixa anterior trabalha a agressão de forma mais imediata, “Gospel of Doom” amplia o aspecto sombrio do álbum. O contraste entre o conceito religioso presente no título e a abordagem característica da banda resulta em uma composição que reforça o lado mais obscuro do trabalho, sem abandonar o peso que sustenta toda a audição.

6. The Dysangelist

Uma das ideias mais interessantes do disco aparece justamente aqui. O próprio título, uma espécie de inversão do conceito tradicional de evangelista, encaixa-se perfeitamente dentro da proposta lírica construída ao longo do álbum. A música aprofunda os temas de contestação e decadência espiritual que aparecem em diferentes momentos de Rise of the Damned….

7. One Thousand Apocalypses

O clima apocalíptico sugerido pelo título encontra sintonia com a atmosfera geral do disco. A composição reforça a sensação de caos e destruição presente em boa parte das letras, funcionando como um dos momentos em que a temática do álbum se manifesta de forma mais explícita. É uma faixa que amplia a dimensão conceitual do trabalho.

8. Praeludium Ad Ascensionem Haereticorum

O instrumental surge em um momento estratégico do álbum. A utilização de elementos acústicos cria um contraste interessante com a violência predominante das músicas anteriores. Mais do que uma simples pausa, a faixa contribui para a construção da narrativa do disco e prepara a chegada da composição que lhe dá nome.

9. Rise of the Damned

A faixa-título ocupa naturalmente uma posição central dentro do álbum. Todos os temas desenvolvidos anteriormente convergem para este momento: resistência, sobrevivência, oposição aos dogmas e afirmação de identidade. Considerando o longo período que separa este disco de seu antecessor, a música também pode ser interpretada como uma representação da própria trajetória recente da banda.

10. Possessed, Obsessed

A reta final do álbum mantém a intensidade elevada. O título remete aos excessos, obsessões e conflitos que frequentemente aparecem no universo lírico do metal extremo. A música preserva a energia construída ao longo do disco e contribui para que a sequência final mantenha o impacto necessário antes do encerramento.

11. In Death Metal We Trust

Poucos títulos poderiam resumir tão bem a história do Headhunter D.C. Depois de quase quarenta anos dedicados ao underground, a banda encerra o álbum com uma verdadeira declaração de princípios. Mais do que uma música, trata-se de um manifesto em defesa do Death Metal tradicional e de tudo aquilo que o grupo construiu desde sua fundação em 1987.

Considerações Finais

Rise of the Damned… carrega o peso de um retorno aguardado durante mais de uma década, mas evita a armadilha da nostalgia fácil. O Headhunter D.C. prefere reafirmar sua identidade em vez de tentar reinventá-la. O resultado é um álbum que dialoga diretamente com a trajetória da banda, transformando anos de dificuldades, mudanças e resistência em combustível para mais um capítulo de sua longa história dentro do Death Metal sul-americano.

Nota 5/5

TEXTO POR RAPHAEL ARÍZIO

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