Nove anos de silêncio separam Era of Threnody (2017) do novo manifesto de René “Ash” Wagner. Para quem se acostumou a ver o Nargaroth flutuar entre o purismo ríspido e experimentações melancólicas, o lançamento de Apocalyptic Steel trouxe o peso da expectativa.
Como alguém que dedicou a vida à música extrema às sombras, recebi a missão de dissecar essa obra e, logo na primeira audição, percebi que Ash não ressuscitou o passado e criou uma obra completamente diferente das anteriores. Um som extremamente direto e fundamentado nas raízes do Black Metal, sem “firulas” sinfônicas e composto de um peso incrível cujo instrumental da bateria me impressionou do início ao fim.
As gravações de Apocalyptic Steel foram iniciadas há 12 anos e o material ficou arquivado, pois foi dada prioridade ao Era of Threnody. Anos depois, as sessões foram retomadas. As baterias originais foram regravadas em Las Vegas em 2022, enquanto os vocais, a mixagem e a masterização foram finalizados entre fevereiro e abril de 2025 no AMP Studios, em Duisburg, Alemanha. Esse hiato entre as primeiras sessões e o resultado final moldou um álbum de transição temporal fascinante.
No estúdio, a fundação do caos foi erguida por Ash (vocais, guitarra e baixo), acompanhado por Mike Williams (guitarra e baixo) e Phil Cancilla (bateria). Para os palcos, a horda se reestruturou, contando atualmente com Ash, os guitarristas Fernando Cortez e Julio Rodas, e o implacável Pavulon assumindo as baquetas.
Visualmente, a identidade do registro é primorosa. A arte de capa foi desenhada por Felipe Mora, e o encarte do CD traz os traços de Anne-Kristin G. e Jenglot Hitam, transbordando referências diretas a capas clássicas de álbuns históricos de metal, tudo emoldurado pela fotografia fria de David Perga.
O disco é uma obra concisa, violenta, cadenciada com baterias extremamente expressivas. Após uma “Intro” mortal e desesperadora de 34 segundos, somos esbofeteados por “Steel Apocalypse” e “Twisted Steel“, faixas que operam em uma frequência que evoca muito mais o Black/Death agressivo e a crueza do Thrash e do Heavy tradicional (Judas Priest, Celtic Frost) do que o amargor reflexivo. Há um teor de subversão herética que dita o ritmo em “I Drink Alone“, uma das músicas que, na minha opinião, mais se aproximou das antigas músicas da banda.
O grande trunfo do álbum surge na sequência com “Metalheart“, um verdadeiro tributo à velha guarda com citações explícitas à fúria do thrash metal extremo mundial. O massacre segue sem piedade pelas trincheiras e sirenes da guerra em “Dresden“, pela imponente “Shelter the Faithless” com a densidade absurda de guitarras que acompanham um belo bumbo duplo, sendo a faixa mais longa do play, com seus 6 minutos e 27 segundos de pura opressão. E quase no fim, o peso esmagador de “Man of Mayhem“, uma espécie de ópera Black Metal obscura.
Contudo, o verdadeiro clímax estético se esconde no encerramento. A última faixa, “Requiem Germania“, é onde a alma se expõe sem armadura. Escrita inteiramente em alemão, ela descola do restante do registro belicoso. Enquanto o álbum celebra o aço, “Requiem Germania” mergulha na dor do exílio e do luto telúrico profundo. É um lamento pesado, arrastado, onde a herança de sangue cobra o seu preço em solidão.
Destaques do Álbum:
- “Twisted Steel”: Riffs cortantes e uma cadência belicosa, porém harmoniosa, cujos guturais beiram uma espécie de “sussurro gritante”.
- “I Drink Alone”: Seus toques de nostalgia remetem a um passado distante e melancólico, porém de absurda violência sonora.
- “Requiem Germania”: O testamento mais honesto, dramático e melancólico de Ash em anos.
Apocalyptic Steel não tenta emular Herbstleyd ou o clássico e polêmico Black Metal ist Krieg. Ele é o testamento de um sobrevivente que usa o metal como arma de agressão imediata. Para quem buscava sinfonias orquestrais ou a transcendência espiritual das esferas ocultas mais refinadas, o álbum pode soar deliberadamente rústico. No entanto, sua beleza reside exatamente nessa honestidade brutal e sem filtros.
O Nargaroth entregou um disco de trincheira forjado no aço e no fogo onde o sangue foi vertido e a heresia continua absoluta. Lançado pela Season of Mist: underground Activists.
Nota: 4,5 /5
TEXTO POR OPUS MORTIS


