O bacana de se escutar qualquer disco dos Stones é ter a certeza de que os “maus velhinhos” nunca perdem o jeito. Apesar de não trazer muita inovação, isso nem de longe é um demérito, visto que a banda liderada pelo bocudo Mick Jagger se recusa a jogar a toalha, mesmo que seu membro mais novo, o baterista Steve Jordan, esteja beirando a casa dos 70 anos. Obviamente Charlie Watts faz falta, especialmente para aqueles que como eu tiveram seu caráter musical moldado pelas batidas precisas do saudoso baterista.

O novo disco presta um belo tributo ao rock n’ roll, com a abertura tipicamente blues rock de Rough And Twisted. In The Stars vem em seguida, trazendo um piano emotivo pra em seguida descambar num rock safado que lembra muito a época de Voodoo Lounge e até mesmo algumas músicas do estranhíssimo Bridges To Babylon. Entre tantas coisas a se elogiar nesse álbum estão os vocais de Mick. O falsete de Jealous Lover, por exemplo, não faria feio num disco do Prince, mostrando a boa forma de Mick Jagger tanto para cantar quanto em suas letras. Mr Charm, composta em “homenagem” a Elon Musk, mostra que Mick continua ácido e debochado, e que o tempo não o domesticou nem um pouco.

O lirismo country sempre esteve presente na sonoridade dos Stones e aqui ele dá as caras com a emocionante Ringing Hollow, uma das canções mais sublimes já compostas pela dupla Jagger/Richards, que fala sobre o ideal do sonho americano e o contraste com a realidade atual na terra do Tio Sam. A letra reflete a desilusão da dupla ao ver que os E.U.A. hoje não se revela tão parecido com as imagens que ambos viam em filmes nos anos 50. Como visto em praticamente todos os álbuns dos Stones após Some Girls, de 1978, a disco music também coloca suas unhas de fora num flerte frenético de ritmos e experiências sensoriais, chamada Never Wanna Lose You, com seu ritmo sacolejante. A canção conta ainda com as participações de Bruno Mars tocando cowbell e Robert Smith nos sintetizadores e vocais de apoio. O vocalista do The Cure ainda participa tocando guitarra em Divine Intervention, outra excelente canção do trabalho.

O momento mais emocionante do disco chega com a agitadíssima Hit Me In The Head, gravada com o amado Charlie Watts na bateria, arrancando lágrimas de alegria dos fãs, que assim como eu, se sentem órfãos desde a partida do membro mais simpático do grupo. Uma grata surpresa é a sensacional releitura de You Know I’m No Good, de Amy Winehouse, que parece ter sido composta para Mick Jagger, ou pelo menos pensando na banda e sua história. Mick imprime tamanha personalidade, agressividade e intensidade em sua interpretação que a música nem parece se tratar de um cover.

Como em cada disco da banda Keith Richards se aventura no vocal em uma das faixas, aqui não seria diferente. Em Some Of Us, Keith usa sua voz cansada com um timbre parecidíssimo com Mark Knopfler, o que lhe confere um charme a mais.

As participações seguem ao longo do disco, com Paul Mcartney (ou Billy Shears, vai saber) na charmosa Covered In You, mostrando que a rivalidade entre Beatles e Stones era puramente criativa e musical. Chad Smith (Red Hot Chilli Pappers) toca bateria em Beautiful Delilah, clássico de Chuck Berry que fecha mais um capítulo vencedor na carreira da banda. Além disso o grandioso Steve Winwood é responsável pelos teclados em todas as faixas.

Ouvir um disco dos Stones não é escutar um disco de rock n’ roll, é presenciar a própria história do rock acontecendo diante de nossos olhos (e ouvidos). Os Stones não são parte integrante da história, eles são a própria história.  Esse disco não soa como despedida, e ao que tudo indica não será mesmo, pois esse álbum, composto de sobras do disco anterior (e soando ainda mais convincente que o mesmo), é a prova verdadeira de que idade é só um número. Mick Jagger e seus asseclas nos entregam um disco direto e sem firulas, puramente rock n’ roll, sem espaço algum para experimentalismos nem a pretensão de reinventar a roda. É apenas rock n’ roll, e a gente gosta e muito. Que discaço!

NOTA: 5 / 5

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