Entre a menina que tentava compreender “Sunday Bloody Sunday”, uma noite inesquecível no Morumbi e a perda do pai, Cintia Seidel revisita a história de uma banda que ajudou a formar seu olhar sobre a música e o mundo.
O jornalismo costuma pedir distanciamento. Contamos histórias na terceira pessoa, buscando a impessoalidade necessária para que os fatos falem por si. Hoje, porém, vou me permitir uma exceção. Algumas histórias também fazem parte de quem as conta, e falar sobre o U2 é falar sobre a minha própria história. Sobre a música que aprendi a ouvir com meu pai, sobre as lembranças que carrego e sobre tudo o que essa banda ajudou a moldar em mim.
Eu era menina quando me sentei no meio da sala, fechei os olhos e fiquei ouvindo “Sunday Bloody Sunday”. Meu pai, que era um grande fã do U2, tentava me explicar o que havia por trás daquela música. Falava sobre a história, sobre as pessoas envolvidas, sobre a importância de uma banda conseguir levar uma mensagem para além das fronteiras e dos idiomas.
Eu ainda não entendia tudo. Mas escutava!
Naquela época, eu não tinha como imaginar o quanto aquela canção me acompanharia pela vida. Nem que, tantos anos depois, escrever sobre o U2 seria também uma maneira de voltar àquela sala, àquela menina e ao pai que estava tentando me mostrar que “uma música pode ser muito mais do que uma música”.
Uma canção que não era só uma canção
Lançada em 1983 no álbum War, “Sunday Bloody Sunday” nasceu de uma ferida aberta na história da Irlanda do Norte. Em 30 de janeiro de 1972, soldados britânicos tiraram a vida de manifestantes durante uma marcha pelos direitos civis em Derry. Treze pessoas perderam a vida naquele dia, e outra vítima faleceu meses depois, em consequência dos ferimentos.

O U2 não transformou esse episódio em uma canção para oferecer respostas simples. A força de “Sunday Bloody Sunday” está também na maneira como ela expõe o absurdo da violência e o desgaste de uma sociedade marcada por conflitos. A bateria que abre a música soa quase como uma marcha, mas o que vem depois está longe de qualquer celebração de guerra.
Eu fui entendendo essas camadas com o tempo. Junto com elas, descobri uma das coisas que mais me atraem na música: a possibilidade de contar histórias, provocar perguntas e nos fazer olhar para realidades que parecem distantes da nossa vida cotidiana.

O U2 teve um papel importante nisso. Não foi a única influência, mas foi uma das primeiras. A banda me ensinou a prestar atenção nas letras, a procurar o que existe por trás das palavras e a entender que a arte não precisa ficar separada do mundo em que é criada.
A trilha sonora dos domingos
Em casa, o U2 não estava presente apenas quando eu queria ouvir uma música específica. Fazia parte da vida familiar.

Nos almoços de domingo, meu pai costumava colocar vídeos de shows da banda, muitos deles registrados nos anos 1980. A família se reunia à mesa, a música tocava e aquelas imagens faziam parte do cenário. Eram momentos comuns, sem nada de extraordinário acontecendo. Hoje, são algumas das lembranças mais vivas que guardo daquela época.
Anos depois, em 2011, fui com meus pais e minhas irmãs a um show do U2 em São Paulo. A cidade estava tomada pelo trânsito, chovia torrencialmente e chegar ao estádio foi uma aventura por si só. Estávamos cansados, molhados e, provavelmente, bem menos confortáveis do que gostaríamos de admitir.
Mas ficamos no Pit, perto do palco!
Quando o show começou, tudo aquilo perdeu importância. Meus pais cantavam juntos, de mãos dadas. Eu conhecia aquelas músicas desde criança, dos vídeos que meu pai colocava nos domingos e das vezes em que me sentava para escutar com atenção. Agora, elas estavam ali, ao vivo, diante de nós.
Lembro de olhar para os dois enquanto cantavam. Não era apenas um show de uma banda de que gostávamos. Era a música ocupando um espaço que já existia entre nós havia muito tempo.
Naquele momento, eu não tinha como saber o quanto essa lembrança significaria para mim anos depois. Estava ali com a minha família, cantando canções que faziam parte da minha vida desde menina. E isso bastava.

Quando as lembranças mudam de lugar
Eu perdi meu pai para a Covid durante a pandemia, em 2022. Desde então, algumas músicas passaram a carregar uma ausência que antes não existia.
Não é que elas tenham mudado. A voz continua a mesma, os arranjos também. O que muda é quem está ouvindo e tudo o que essa pessoa leva consigo.
Voltar àquelas gravações do U2 é reencontrar um pedaço da minha infância, mas também lembrar que houve um tempo em que meu pai estava ali, ao meu lado, explicando o mundo através da música ou por meio de uma conversa. Em outras, simplesmente colocando um disco ou um vídeo para tocar.
Hoje, quando ouço “Sunday Bloody Sunday”, lembro da história que existe por trás da canção, mas também da primeira vez em que alguém me ensinou a prestar atenção nela. Penso em quantas coisas que aprendi com meu pai continuam comigo, mesmo sem que ele esteja aqui para saber disso.
É difícil separar essas memórias da música. Não sinto necessidade de fazê-lo.
O mundo mudou. Algumas perguntas continuam
O U2 surgiu em Dublin, em 1976, quando quatro jovens começaram a construir uma banda que atravessaria décadas, mudanças culturais e transformações profundas na indústria musical. Ao longo dessa trajetória, o grupo passou por diferentes fases sonoras, experimentou novas linguagens e construiu uma relação particular com questões sociais e humanitárias.
O mundo em que a banda começou a tocar já não é o mesmo. A Irlanda do Norte de hoje também não é a Irlanda do Norte dos anos 1980.
O Acordo da Sexta-Feira Santa, assinado em 1998, representou uma mudança histórica, embora as questões de identidade, pertencimento e futuro político continuem presentes.
Muita coisa mudou desde então. Ainda assim, é difícil olhar para o presente e concluir que as perguntas que atravessam a obra do U2 perderam a importância.
A polarização, os conflitos armados, a desigualdade e a indiferença diante do sofrimento alheio continuam fazendo parte da vida contemporânea. As notícias chegam pelos celulares, em sequência, e às vezes parecem desaparecer tão depressa quanto surgiram. A música pode não mudar o rumo dos acontecimentos, mas consegue interromper esse fluxo por alguns minutos. Pode nos obrigar a ouvir, a lembrar e a não tratar o sofrimento dos outros como algo distante.
Em 2026, o U2 voltou a lançar músicas que dialogam diretamente com o presente. O EP Days of Ash, lançado em fevereiro, reúne canções e um poema atravessados por acontecimentos recentes e por histórias de pessoas que enfrentam situações extremas. Entre elas está “Yours Eternally”, com Ed Sheeran e o músico ucraniano Taras Topolia, cuja experiência de guerra também se relaciona com a aproximação entre os artistas.
Em abril, a banda lançou Easter Lily, um trabalho de caráter mais íntimo, voltado a temas como amizade, perda, fé e renovação. São trabalhos diferentes entre si, mas que mostram um grupo ainda interessado em explorar o que acontece dentro e fora de nós.
O próximo álbum de estúdio, Carnaval De Luz, tem lançamento previsto para 13 de novembro de 2026. Será o décimo sexto disco de estúdio da banda, e a turnê de 2027 levará o mesmo título para os palcos, acompanhada do nome The Greatest Show On Earth.

Ainda não sabemos exatamente como essas novas canções vão se encaixar no repertório dos shows brasileiros. O U2 chega a essa nova etapa depois de quase cinco décadas de carreira, com um catálogo que atravessa gerações e músicas que continuam encontrando novos sentidos na vida de quem as escuta.
Quatro noites em São Paulo
A resposta do público brasileiro foi rápida. Depois dos primeiros anúncios, novas apresentações foram acrescentadas à agenda, até que São Paulo passou a receber quatro shows da turnê, nos dias 10, 12, 14 e 16 de março de 2027, no Estádio MorumBIS. Beck será responsável pela abertura.
A última passagem do U2 pelo Brasil havia acontecido em 2017. Dez anos depois, a banda volta ao país com um novo álbum e uma trajetória que já atravessou boa parte da história recente do rock.

Quatro apresentações na mesma cidade não são pouca coisa. A procura por ingressos mostra que existe um público disposto a reencontrar essas canções, seja por ter acompanhado a banda desde o início, seja por ter descoberto sua música muito tempo depois.
Cada pessoa chega a um show levando suas próprias lembranças. Para alguns, o U2 pode estar associado a um disco comprado na adolescência, a uma viagem, a um relacionamento ou a uma fase difícil. Para outros, será a oportunidade de finalmente ver ao vivo uma banda que sempre esteve presente nos fones de ouvido.
Um álbum novo também abre espaço para outras descobertas. As músicas inéditas vão ganhar vida diante do público, enquanto os clássicos carregam décadas de histórias e significados. O repertório dos shows ainda não foi anunciado, por isso resta esperar para descobrir como essas diferentes fases da banda vão se encontrar no palco.
A menina ainda está aqui
Quando penso no retorno do U2 a São Paulo, volto àquela menina sentada no meio da sala, de olhos fechados, tentando entender o que o pai lhe dizia enquanto “Sunday Bloody Sunday” tocava.
Penso também naquela noite de chuva, no Morumbi, com meus pais cantando de mãos dadas. Na época, eu não tinha como saber que um dia essas cenas seriam lembranças às quais eu voltaria com tanta frequência. Eram momentos da minha vida, vividos sem a consciência de que um dia se tornariam parte daquilo que guardamos com mais cuidado.

Hoje, escrever sobre o U2 é reencontrar tudo isso. É falar de música, claro, de uma banda que marcou a história do rock e que continua criando. Mas é também reconhecer o lugar que essas canções ocuparam na minha formação, no meu modo de olhar para o mundo e até na maneira como aprendi a contar histórias.
Meu pai me apresentou uma música e tentou me explicar por que ela importava. Levei tempo para compreender algumas coisas, e outras ainda estou tentando entender. A vida tratou de acrescentar novos sentidos àquelas palavras.
Uma canção não fica presa ao momento em que foi escrita, nem à primeira vez que a ouvimos. Ela acompanha a vida, e o significado muda conforme nós mudamos. Há músicas que nos devolvem a uma época, a uma casa, a uma voz. Às vezes, basta ouvir os primeiros acordes para lembrar de alguém com uma nitidez que parecia impossível.
Em março de 2027, o U2 voltará a São Paulo. Entre as milhares de pessoas que vão se reunir para ouvir essas músicas, haverá histórias que ninguém mais conhece por inteiro. Histórias de encontros, despedidas, descobertas e lembranças que cada pessoa levará consigo para o show.
A minha começa numa sala, muitos anos atrás. Com uma menina de olhos fechados e um pai tentando lhe mostrar que, às vezes, ouvir com atenção é também uma maneira de aprender a olhar para o mundo.
Texto por Cindy Seidel

Raio X
U2 – The Greatest Show On Earth World Tour
São Paulo – Estádio MorumBIS
10 de março de 2027
12 de março de 2027
14 de março de 2027
16 de março de 2027
Abertura: Beck
Novo álbum: Carnaval De Luz, com lançamento previsto para 13 de novembro de 2026.

