Um ano se passou e aqui estamos nós novamente.

De volta a Wacken, ao pequeno vilarejo do norte da Alemanha que, uma vez por ano, deixa de ser apenas Wacken para se transformar no que os metalheads do mundo inteiro conhecem como Holy Ground, o solo sagrado do metal mundial.

Mas desta vez chegamos com outra percepção. Depois de tantas edições acompanhando o Wacken Open Air como jornalistas, uma coisa ficou cada vez mais clara para nós: Wacken não começa na quarta-feira.

Foto por: Cíntia Seidl

O festival oficial, aquele que abre as portas do Infield e coloca em funcionamento seus grandes palcos, começa ali. A experiência Wacken começa muito antes.

Em 2026, decidimos vivê-la desde o princípio.

Para nossa sorte, o clima também resolveu colaborar. Depois de anos em que chuva, barro e lama praticamente disputam protagonismo com as próprias bandas, fomos recebidos por dias predominantemente ensolarados e secos. A lama, tão característica de Wacken a ponto de fazer parte do imaginário do festival, desta vez ficou de fora dos nossos mosh pits.

Foi um Wacken muito mais shine do que rain, e isso fez uma diferença enorme. Com o terreno firme, caminhar entre os diferentes espaços ficou mais fácil, assim como parar, observar, conversar e, principalmente, sair da rota que normalmente liga um grande palco ao outro. Para a equipe da Headbangers Brasil, acabou sendo a experiência mais imersiva que já tivemos em Wacken.

Reprodução internet

Para entender como chegamos a esse ponto, vale voltar um pouco na história do próprio festival.

De uma chegada antecipada a uma semana inteira de Wacken.

Quando Holger Hübner e Thomas Jensen tiveram a ideia de criar o Wacken Open Air, em 1990, precisaram de pouco mais do que um campo, seis bandas, cerca de 800 fãs e uma dose considerável de entusiasmo.

A estrutura era improvisada. O palco foi construído pelos próprios organizadores, a energia vinha da brigada de incêndio local e a comida era comprada no supermercado.

Reprodução internet

Trinta e cinco anos depois, aquele pequeno festival havia se transformado em um dos maiores eventos de heavy metal do planeta.

O crescimento, porém, não aconteceu apenas em números. A própria maneira de chegar e viver o festival foi mudando ao longo dos anos.

Durante muito tempo, a quarta-feira foi o ponto oficial de partida. Já existia, entretanto, a possibilidade de chegar antes. Em 2013, por exemplo, a chegada oficial estava marcada para quarta-feira, mas o festival permitia o early arrival a partir da segunda-feira, mediante uma taxa adicional.

Aos poucos, chegar antes deixou de ser apenas uma comodidade.

Placa na estrada indicando o WOA
Foto por: Cíntia Seidel

 

Em 2017, o Wacken eliminou a cobrança pela chegada antecipada e passou a permitir a entrada já na segunda-feira. A ideia era distribuir melhor o fluxo de visitantes entre segunda e quarta-feira e reduzir congestionamentos e tempos de espera. Naquele mesmo ano, a organização relatou que a Full Metal Village já estava bastante movimentada na segunda-feira e havia se transformado em ponto de encontro para milhares de fãs.

A grande mudança veio alguns anos depois.

A edição de 2023 foi marcada por chuvas intensas e problemas severos de acesso. O terreno castigado pelo mau tempo dificultou a chegada de milhares de pessoas e obrigou a organização a tomar medidas excepcionais.

Wacken precisou repensar sua própria logística.

Em 2024, algumas áreas de camping passaram a ser abertas oficialmente já no domingo, com o novo sistema de Access Pass. A organização apresentou a novidade como uma maneira de permitir que os fãs chegassem, estacionassem, montassem suas barracas e começassem a aproveitar o Holy Ground com mais tranquilidade.

O domingo entrou para a experiência Wacken.

Naquele primeiro ano, o Camping Plaza já recebeu programação, houve retirada de pulseiras, Farmers Market e festa no Welcome to the Jungle. Na segunda-feira, outras atrações entraram em funcionamento, entre elas Mambo Kurt, The Ukeboys e Alien Rockin Explosion, além da programação da LGH Clubstage e das atividades no Wasteland.

O modelo foi mantido em 2025 e chegou a 2026 muito mais consolidado.

Os números deste ano mostram o tamanho dessa transformação. Na terça-feira, um dia antes da abertura oficial dos grandes palcos, aproximadamente metade dos 85 mil visitantes esperados já estava no local. Na quarta-feira, esse número havia chegado a cerca de dois terços do público.

Mais de 56 mil pessoas já estavam em Wacken quando o Infield abriu.

O que começou como uma solução logística acabou mudando a própria maneira de experimentar o festival. E foi exatamente isso que fomos descobrir.

 

 

Entrada da Imprensa para o WOA
Foto por: Cíntia Seidel

 

Terça-feira, o outro Wacken

Nossa primeira parada foi, como manda a tradição, no ponto de retirada das credenciais. Ou, como costumamos brincar, no “curral” de Wacken.

Com as pulseiras de imprensa devidamente retiradas, era impossível passar por ali sem dar um alô para nossas velhas conhecidas, as vaquinhas que fazem parte da paisagem local e que parecem assistir, ano após ano, à transformação daquele pequeno vilarejo em uma cidade temporária de metal.

Vaquinha do WOA
Foto por: Cíntia Seidel

A própria cidade já estava diferente.

As ruas começavam a ser tomadas pelas tradicionais camisetas pretas. Grupos de amigos caminhavam carregando mochilas, bebidas e equipamentos de camping. Restaurantes e estabelecimentos locais já entravam no clima. A movimentação deixava claro que, embora os grandes palcos ainda estivessem fechados, Wacken já tinha começado.

Público no Vilarejo do WOA
Foto por: Cíntia Seidel 

Seguimos para o camping reservado à imprensa e aos visitantes do Wacken United e tivemos uma primeira impressão curiosa. O espaço parecia consideravelmente menos cheio do que em anos anteriores.

Não dá para apontar uma única razão para isso. A distribuição do público pelos diferentes setores certamente contribuiu, assim como as mudanças estruturais implementadas depois dos problemas provocados pela lama em edições anteriores. O fato é que tudo parecia mais espaçado, e o chão firme ajudava bastante.

Público transitando pela área do camping do WOA
Foto por: Cíntia Seidel

A organização havia anunciado antes do festival uma série de mudanças estruturais justamente como resposta às dificuldades enfrentadas em 2025. Entre elas estava a ampliação dos caminhos reforçados.

Dos 13,5 quilômetros de rotas entre o Wacken Plaza e as áreas de camping, 6,7 quilômetros receberam reforço temporário em 2026, 3,7 quilômetros a mais do que em 2025. A organização também anunciou mais placas de proteção do solo, áreas cobertas e lugares para sentar.

Havia ainda uma mudança perceptível para quem simplesmente caminhava pelo festival. As principais rotas passaram a ser identificadas por sistemas de iluminação e cores diferentes, presentes também nos mapas e no aplicativo oficial. A intenção era facilitar a orientação, estimular o uso dos caminhos reforçados e diminuir a pressão sobre as áreas não pavimentadas.

Público transitando pelo camping do WOA – 2
Foto por: Cíntia Seidel

Na prática, a diferença era clara. Wacken parecia mais conectado, e era mais fácil se localizar entre uma área e outra.

Também houve uma novidade de grande porte diante das duas principais estruturas do festival. Pela primeira vez, uma área de 10 mil metros quadrados diante do Faster e Harder Stages recebeu um sistema de placas rígidas para proteger o solo e garantir melhores condições independentemente do clima.

Havia ainda uma nova rota reforçada para emergências, com aproximadamente 850 metros, construída em parceria com autoridades locais e proprietários de terrenos. Depois do festival, a estrutura foi anunciada como permanente.

Tudo isso fazia parte de uma mudança maior. Wacken estava aprendendo com a própria história recente.

Mas, para nós, a parte mais interessante não estava nas grandes obras. Estava justamente naquilo que acontecia enquanto os grandes palcos permaneciam fechados.

 

Um festival dentro do festival

Na terça-feira, o Holy Ground ainda não tinha sido tomado pelas multidões que conhecemos das imagens tradicionais de Wacken. As grandes estruturas aguardavam a quarta-feira, mas bastava caminhar alguns minutos para perceber que ninguém estava esperando o festival começar.

Welcome to the Jungle Stage
Foto por: Cíntia Seidl

O Welcome to the Jungle já tinha sua própria programação e havia pequenas apresentações espalhadas pelo complexo. Atrações como Mambo Kurt e The Ukeboys ocupavam espaços que, nos dias seguintes, acabariam dividindo atenção com uma quantidade enorme de bandas. A programação do Wasteland e do Wackinger Village também oferecia uma grande variedade de entretenimento paralelo.

Wasteland
Foto por: Cíntia Seidel

E havia música surgindo de lugares inesperados.

Na terça-feira, o Feuerwehrtruck “Entrance Bullhead”, um dos palcos móveis do festival, recebeu o Mandowar.

Caminhar por Wacken sem estar preso ao running order permitia enxergar coisas que, nos dias seguintes, provavelmente passariam despercebidas. Uma apresentação começava e você parava. Um grupo conversava ao lado. Uma música chamava atenção. Um camping fazia barulho. Alguém convidava você para entrar.

Era quase como descobrir um festival menor escondido dentro do Wacken que todos conhecemos. Um Wacken mais íntimo, menos concentrado nos grandes nomes do running order e muito mais aberto aos encontros que acontecem pelo caminho.

Público transitando pelo Metalfarmers
Foto por: Cíntia Seidel

Foi justamente nesses encontros que nossa terça-feira ganhou outro significado.

Wacken em português

À noite, fomos conhecer dois dos espaços criados por brasileiros que vivem a experiência de Wacken de uma maneira muito particular.

O primeiro foi a chamada “Embaixada Brasileira de Wacken”, um ponto de encontro formado essencialmente por brasileiros de diferentes partes do país que retornam ao festival ano após ano.

Embaixada Brasileira do WOA
Foto por: Cíntia Seidel

Naquela noite, contamos mais de trinta pessoas, e o grupo cresce a cada edição. Gente de diferentes estados, diferentes histórias e diferentes relações com o metal, reunida em Wacken por uma paixão em comum. Muitos se reencontram ali uma vez por ano. Outros chegam pela primeira vez e rapidamente são incorporados à roda.

Naquela terça-feira, o programa incluía churrasco e confraternização.

Pode parecer apenas uma festa de camping, mas é justamente aí que aparece uma das partes mais interessantes do Wacken que acontece antes do Wacken oficial. Aquele grupo não estava esperando a quarta-feira. Eles já estavam vivendo o festival.

Seguimos depois para outro camping brasileiro, organizado por David Lotufo. A proposta é um pouco diferente, embora a essência seja a mesma. O espaço recebe brasileiros, mas também mantém as portas abertas para qualquer pessoa que queira chegar e encontrar um ambiente acolhedor. ( Fotos abaixo por Ana Pauleira)

David transformou o camping em praticamente uma pequena sala de estar no meio da maior festa de metal do mundo. Havia pizza preparada por ele, mesa de sinuca e até um cinema.

Foi ali que encontramos também uma das personagens mais especiais desta edição: Ana Pauleira.

Ana Pauleira no WOA
Foto por: Cíntia Seidel

A história da Ana

Para quem acompanhou a repercussão do Wacken 2026, o nome de Ana provavelmente já é conhecido. Para nós, encontrá-la ali, no meio de um camping brasileiro, antes mesmo de os grandes palcos serem abertos, tornou aquela noite ainda mais especial.

Ana é apaixonada por Wacken e pelo heavy metal. Já havia participado de três edições do festival, em 2017, 2018 e 2019, e carregava há anos o sonho de voltar.

Mas o sonho parecia distante.

Ana Pauleira e Cíntia Seidel

Moradora da periferia de São Paulo e vivendo em uma condição financeira bastante humilde, retornar à Alemanha era uma possibilidade difícil de alcançar. O desejo existia, mas faltavam os meios para transformá-lo em realidade.

Foi então que a comunidade se mobilizou.

Uma campanha de arrecadação organizada pelo grupo oficial de fãs do Wacken na Alemanha reuniu pessoas que acreditaram que Ana deveria voltar ao Holy Ground. A iniciativa contou com a participação e o apoio de nomes ligados ao próprio festival e de artistas, entre eles Doro Pesch e Thomas Jensen.

Ana Pauleira e Thomas Jensen
Foto por: Ana Pauleira 

E o sonho deixou de ser distante.

Ana voltou a Wacken!

A história ganhou repercussão no Brasil e fora dele, chegou à imprensa internacional e chamou a atenção da própria organização do festival. O retorno de uma fã apaixonada acabou se transformando em uma das histórias humanas mais bonitas desta edição de 35 anos.

Naquela noite, porém, ela estava simplesmente ali, entre brasileiros, em um camping, conversando, sorrindo e vivendo Wacken.

E não havia cenário melhor para encontrá-la.

Porque existe o Wacken dos grandes palcos, das grandes bandas, dos 85 mil visitantes, das estruturas monumentais, das filas, dos horários e da produção gigantesca.

Mas existe também o Wacken de um churrasco com trinta brasileiros, de uma pizza feita dentro de um camping, de uma mesa de sinuca e de um cinema improvisado. Existe o Wacken de uma banda tocando em um caminhão e das vaquinhas que continuam tranquilamente em seu lugar enquanto milhares de metalheads passam por elas.

E existe o Wacken de uma fã que achava que talvez nunca mais pudesse voltar e que, graças a uma comunidade inteira, conseguiu retornar ao Holy Ground.

Ana Pauleira no gramado do WOA
Foto por: Ana Pauleira 

É esse lado do festival que raramente aparece quando olhamos apenas para o running order.

E foi esse lado que decidimos conhecer no pré festival em 2026.

 

 

 

Texto e fotos da galeria por: Cintia Seidel.

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