Depois de um dia inteiro de Wacken ainda sem os grandes palcos funcionando oficialmente, a quarta-feira tem uma sensação diferente. O festival finalmente abre suas portas em toda a sua dimensão, o Infield começa a receber milhares de pessoas e os grandes palcos entram em funcionamento. Mais de 56 mil visitantes já estavam em Wacken quando o Infield abriu, e isso muda completamente a dinâmica do lugar.

Para quem chegou na terça-feira, existe também uma pequena vantagem: já conhecemos os caminhos, sabemos onde ficam os diferentes espaços e não precisamos começar o dia correndo de um lado para o outro tentando descobrir como chegar. Dá para observar melhor o que acontece ao redor e entender como aquele enorme espaço se transforma quando o festival está oficialmente em andamento.
E a primeira constatação é simples: não existe um único Wacken.
Um festival que não cabe em um único palco
Enquanto milhares de pessoas se concentram diante dos grandes palcos, uma quantidade enorme de coisas acontece simultaneamente em outros pontos do Holy Ground. Faster, W:E.T., Headbangers, Wackinger Village, Wasteland, Welcome to the Jungle e LGH Clubstage têm suas próprias programações, muitas vezes completamente diferentes entre si.
O Metal Battle é um dos melhores exemplos dessa dinâmica. A competição, criada pelo Wacken Open Air em 2004, hoje conecta cenas de dezenas de países e leva representantes de diferentes territórios ao festival para disputar a final internacional. Em 2026, cerca de 30 países estavam representados na programação do Headbangers e do W:E.T., colocando bandas de diferentes partes do mundo diante de um público internacional, além de jornalistas, profissionais da indústria e fãs atentos ao surgimento de novos nomes.

Essa dimensão internacional não começa em Wacken. Em abril, a comunidade do Metal Battle esteve diretamente ligada ao One World, One Stage, projeto que reuniu 35 Warm-up Shows em 35 países em um único dia. A proposta era conectar cenas locais, artistas e organizadores espalhados pelo mundo e levar a ideia do Wacken para muito além do festival alemão. O Metal Battle funciona justamente como uma dessas pontes entre diferentes comunidades do metal.
Chegar a Wacken alguns meses depois e encontrar essa rede reunida ali é uma experiência interessante. Cada banda que chega à competição traz consigo muito mais do que uma apresentação. Existe uma cena local, uma comunidade e todo um caminho percorrido até aquele palco.

E, enquanto essas bandas disputam espaço e atenção, alguns metros adiante estão artistas com décadas de carreira tocando para milhares de pessoas. É essa convivência que torna impossível acompanhar tudo. Na quarta-feira, era preciso escolher o tempo todo entre um palco e outro, sabendo que alguma coisa interessante ficaria acontecendo atrás de você.
As primeiras grandes apresentações
O Louder abriu nossa programação de shows ao meio-dia com Broken By The Scream, do Japão. A banda combina metal extremo com elementos de pop e uma presença de palco bastante particular, principalmente pela dinâmica entre suas duas vocalistas, que trabalham estilos completamente diferentes. Foi uma abertura que já deixou claro que o Wacken não pretende seguir uma única fórmula.

Às 13h30, foi a vez do Visions of Atlantis. O metal sinfônico da banda austríaco-francesa encontrou um cenário perfeito no festival, com toda a estética marítima que acompanha a atual fase do grupo. “Legion of the Seas”, “Pirates Will Return” e “Master the Hurricane” foram alguns dos momentos que mais chamaram atenção.

Mais tarde, às 19h, ainda tivemos a oportunidade de encontrar o Visions of Atlantis em uma situação completamente diferente, na Wacken Church. O show acústico mudou totalmente a atmosfera, com músicas como “Clocks”, “Heroes of the Dawn” e “Armada” ganhando outra dimensão em um espaço muito mais intimista.
Às 15h15, o Louder recebeu Thundermother. O hard rock sueco da banda tem uma relação quase natural com o ambiente de festival, com guitarras, energia e aquele tipo de refrão que funciona muito bem diante de uma multidão.

Lovebites e uma das mais aguardadas apresentações.
Às 16h, o Faster recebeu o Lovebites, uma das bandas japonesas que mais conquistaram espaço no público europeu nos últimos anos.
A apresentação já começou diante de uma plateia que conhecia bem o repertório, mas também havia muita gente chegando para descobrir a banda pela primeira vez. “The Hammer of Wrath”, “Judgement Day” e “When Destinies Align” mostraram por que o grupo consegue transitar tão bem entre o heavy metal mais técnico e a energia do power metal.

Ao longo do show, era possível perceber o público crescendo ao redor do palco. Para uma banda que veio do outro lado do mundo, essa resposta em Wacken diz bastante sobre o alcance que o grupo conseguiu construir fora do Japão.
The Hardkiss e The Gathering
Às 17h, o Louder recebeu novamente o The Hardkiss, da Ucrânia. A banda já havia passado pelo Wacken em 2025 e voltou em 2026 com sua mistura de rock alternativo, elementos eletrônicos e uma identidade visual muito própria. “Crush”, “Tenderness”, “Antarktyda” e “I Love You” estiveram entre os momentos mais marcantes da apresentação.

Pouco depois, às 18h45, começava no mesmo palco um dos shows especialmente aguardados pelos fãs de longa data: The Gathering, dentro da Mandylion Anniversary Tour 2026.
Para quem acompanha a história da banda, havia uma carga emocional evidente naquela apresentação. “Eléanor”, “Strange Machines”, “Leaves” e “Saturnine” fizeram parte de uma sequência que levou o público de volta a uma das fases mais importantes da carreira do grupo. Em “Strange Machines”, o canto da plateia praticamente tomou conta do Louder.

E, enquanto isso acontecia, outros palcos continuavam funcionando normalmente. Era necessário escolher.
Lacuna Coil fecha o Louder
Às 21h, o Louder já estava completamente diferente daquele palco que havíamos encontrado no início da tarde. O Lacuna Coil encerrou a programação do palco naquele dia diante de uma grande quantidade de público, com Cristina Scabbia e Andrea Ferro conduzindo uma apresentação que misturou diferentes fases da carreira da banda.
“Spellbound”, “Heaven’s a Lie XX” e “Our Truth” apareceram entre os principais momentos, além da versão de “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode, que também faz parte da história recente dos shows do grupo.

O público era bastante diverso, reunindo fãs antigos e pessoas que chegaram atraídas pela presença da banda no running order. Mais uma vez, porém, bastava olhar para os lados para lembrar que o Wacken não parava naquele palco.
Kadavar, Rose Tattoo e The Troops of Doom
Às 21h15, no Headbangers, o Kadavar levou seu rock pesado e psicodélico para um espaço bem diferente dos grandes palcos. “Black Sun”, “Doomsday Machine” e “Die Baby Die” estiveram entre os destaques, e a proximidade proporcionada pelo palco menor deixou a apresentação especialmente interessante para quem prefere ver as bandas mais de perto.

Pouco depois, às 22h45, o W:E.T. recebeu o Rose Tattoo. Em sua turnê de despedida, a banda australiana apresentou clássicos como “Rock ’n’ Roll Outlaw”, “We Can’t Be Beaten” e “Bad Boy for Love”. Era uma daquelas apresentações que carregam décadas de história e que, em um festival como Wacken, encontram uma plateia perfeitamente familiarizada com esse repertório.

E havia ainda uma apresentação brasileira acontecendo praticamente no mesmo horário.
Às 21h30, The Troops of Doom ocupava o Wasteland Stage. Para nós, acompanhar uma banda brasileira naquele ambiente tinha um significado especial, principalmente porque a apresentação acontecia longe do Infield e dos grandes palcos, em um espaço que combina perfeitamente com o lado mais underground do festival.
“Chapels of the Unholy”, “The Rise of Heresy” e “Bestial Devastation” representaram bem a identidade da banda, e ver o nome do Brasil circulando também por esse lado do Wacken reforçava uma presença que estava espalhada por diferentes pontos do festival.

Hämatom transforma o Faster
Às 22h, enquanto Rose Tattoo e The Troops of Doom ainda tocavam em outros espaços, o Faster recebia o Hämatom.
A banda alemã tem uma relação muito particular com seu público. “Gaga”, “Kids (2 Finger an den Kopf)”, “Bleibst du heute mit mir wach?” e “Tanz auf dem Vulkan” transformaram o espaço em uma grande celebração, com uma plateia que conhecia as letras e respondia a praticamente cada movimento do grupo.

Mesmo para quem não domina o alemão, era fácil perceber a conexão. O público cantava, pulava e acompanhava as músicas como se estivesse diante de uma banda que faz parte da sua própria história.
E essa é outra característica interessante de Wacken: enquanto um show reúne milhares de pessoas diante de um palco, outros artistas podem estar fazendo apresentações igualmente importantes a poucos minutos de distância.
Wacken United, onde o festival também acontece
A quarta-feira também marcou a abertura oficial do Wacken United, espaço que reúne imprensa, profissionais da indústria, músicos, equipes e convidados e funciona como um dos principais pontos de encontro e networking do festival.

Além de ser uma área de trabalho e convivência para quem está envolvido profissionalmente com o Wacken, o United tem uma programação própria, com shows acústicos, pequenas apresentações, participações surpresa de artistas que também passam pelos grandes palcos, corais, performances e coletivas de imprensa.
Para nós, como imprensa, é também um ponto de apoio entre um show e outro, seja para acompanhar uma coletiva, fazer entrevistas, organizar material ou simplesmente encontrar colegas e profissionais de diferentes partes do mundo.

Os Meet & Greets acontecem em outro espaço do festival e seguem uma dinâmica própria, aproximando artistas e fãs em sessões organizadas ao longo do dia. É uma experiência completamente diferente da rotina profissional do United, mas igualmente importante dentro da engrenagem do festival.

Entre gigantes e descobertas
Enquanto tudo isso acontecia, o restante do Wacken continuava funcionando.
Na Wackinger Village, os Wacken Firefighters, Alien Rockin Explosion, 5th Avenue, Ricky Warwick, Vanir, Dirty Shirt e Unzucht ocupavam o palco ao longo do dia. No Wasteland, a programação seguia com bandas de uma sonoridade ainda mais pesada e underground. Welcome to the Jungle e LGH Clubstage tinham suas próprias atrações, criando pequenas comunidades dentro da comunidade maior que é o festival.

É muita coisa!
Depois de dois dias circulando pelo Holy Ground, já começávamos a andar sem aquela sensação de que precisávamos chegar a algum lugar com urgência. Às vezes era um show. Às vezes uma entrevista. Às vezes alguém que encontrávamos pelo caminho. Outras vezes, apenas uma música vindo de um palco distante que fazia a gente mudar de direção.
O Metal Battle, as bandas já estabelecidas, os artistas internacionais, os brasileiros, os shows históricos, os novos nomes, os Meet & Greets, as coletivas e toda a programação paralela convivem no mesmo espaço, muitas vezes ao mesmo tempo.
Por isso, depois de viver a terça-feira e chegar à quarta, já não fazia muito sentido dizer que o Wacken começou naquele dia. O festival já estava acontecendo havia alguns dias. A diferença é que agora os grandes palcos estavam ligados, mais de 56 mil pessoas já ocupavam o Holy Ground e aquela pequena cidade transformada em festival estava funcionando em sua capacidade máxima.
E era apenas o primeiro dia oficial.

Texto por: Cintia Seidel
Fotos: todas as bandas – WOA, página oficial ( exceto Troops of Doom – Instagram da banda). Demais fotos: Cintia Seidel.

