No domingo, o ritmo do Wave-Gotik-Treffen já havia me envolvido por completo. Os quilômetros acumulados começavam a se fazer sentir nas pernas, mas o WGT nunca foi apenas sobre música. Uma das razões pelas quais retorno ano após ano é o programa cultural extraordinário que cerca os shows. Palestras, exposições, performances, igrejas, museus, desfiles de moda, leituras e instalações artísticas contribuem para tornar o festival algo muito além de um simples evento musical.
Meus planos originais refletiam exatamente isso. Cheguei a considerar visitar outras diversas atividades, mas, como todo frequentador do WGT eventualmente aprende, os horários são apenas sugestões. A realidade é ditada pela logística, pelos níveis de energia e pelas descobertas espontâneas. O dia se concentrou no estilo mais clássico do gótico como conhecemos e nos trouxe diversos shows importantes.
Clan of Xymox
O primeiro show musical do meu dia foi com o Clan of Xymox, uma banda que tem sido uma força dominante na cena gótica desde os anos 80. Seu som único, que mistura darkwave, synthpop e elementos pós-punk, criou uma atmosfera envolvente desde os primeiros acordes. A apresentação foi um mergulho profundo em um mundo de melodias sombrias e letras introspectivas, onde cada música parecia contar uma história própria.
O vocalista Ronny Moor tem uma presença de palco cativante e discreta, permitindo que a música fale por si só. Faixas como “A Day” e “Stranger” foram recebidas com entusiasmado pela multidão, que cantava cada palavra com uma paixão que só os fãs de longa data podem demonstrar. A iluminação e os visuais complementavam perfeitamente o clima introspectivo das canções, criando uma experiência imersiva e emocionalmente carregada.
O que mais impressionou foi a capacidade da banda de manter sua identidade sonora ao longo de décadas, sem soar repetitiva ou ultrapassada. O Clan of Xymox provou mais uma vez por que são considerados um dos pilares da música gótica, com um som que continua a ressoar profundamente com os fãs.

She Past Away
Em seguida, tive o prazer de assistir She Past Away, um duo turco que tem ganhado destaque na cena darkwave global. Seu estilo único, que combina post-punk, darkwave e elementos de rock gótico, cria uma sonoridade que é ao mesmo tempo melancólica e energética. A apresentação foi um espetáculo de emoção e intensidade, com cada música transportando o público para um mundo de sombras e paixão.
O vocalista Volkan Caner tem uma voz profunda e expressiva, capaz de transmitir uma ampla gama de emoções, desde a tristeza até a raiva. Faixas como “Belirdi Gece” e “Rüya” foram tocadas com uma precisão que deixou a multidão hipnotizada. A energia no local era palpável, com os fãs cantando e dançando como se cada música fosse uma experiência pessoal.
O que mais se destacou foi a conexão emocional que a banda estabeleceu com o público. O She Past Away conta histórias através de suas canções, e essa narrativa ressoou profundamente com todos os presentes.

London After Midnight
A próxima atração foi o London After Midnight, uma lenda do rock gótico que tem influenciado inúmeros artistas ao longo das décadas. Fundada por Sean Brennan nos anos 90, a banda é conhecida por seu romantismo sombrio, letras socialmente conscientes e um som inconfundível que continua a ressoar com o público.
A apresentação no AGRA foi eletrizante. A atmosfera no local era de pura adoração, com muitos dos presentes claramente vendo este show como um dos momentos mais aguardados do final de semana. Brennan e sua banda entregaram uma performance que equilibrou nostalgia e relevância de maneira perfeita, provando por que o London After Midnight continua a ser um nome tão reverenciado, décadas após sua formação.
Faixas como “Sacrifice” e “Spiritual”, foram recebidas com entusiasmo contagiante. A voz profunda e cativante de Brennan, combinada com os arranjos musicais impecáveis, criou uma experiência que foi ao mesmo tempo sombria e cativante. A iluminação e os visuais adicionaram uma camada extra de drama, transformando o show em um espetáculo visual e sonoro.

Lacrimosa
O ponto alto do dia, e sem dúvida um dos momentos mais emocionantes de todo o festival, foi o show do Lacrimosa. O show fechou a noite, mas também coroou o dia com uma emoção avassaladora. Este foi um concerto que ficará gravado na memória de todos os presentes, não apenas pela música, mas pelo significado emocional profundo que o envolveu.
A apresentação foi marcada pelo retorno da vocalista e tecladista Anne Nurmi, que, segundo declaração de Tilo Wolff, esteve “entre a vida e a morte”. Ver sua volta aos palcos foi uma emoção indescritível, um momento que trouxe lágrimas aos olhos de muitos fãs. A fragilidade e a força em sua voz, combinadas com a intensidade da música, criaram uma atmosfera carregada de sentimentos.
Além disso, a sobrinha de Tilo Wolff, Lara Wolff, que havia substituído Anne durante sua ausência, também se juntou ao palco. Ver as duas juntas foi uma sensação indescritível, um símbolo de resiliência, união e paixão pela música. A química entre elas e Tilo era palpável, e cada nota, cada olhar trocado no palco, transmitia uma profundidade emocional que poucas apresentações conseguem alcançar.
Faixas como “Schakal” e “Der Morgen Danach” foram tocadas com uma intensidade que arrepia a pele. A produção do show foi impecável, com iluminação e visuais que complementavam a grandeza das canções. O público, visivelmente emocionado, cantava cada palavra com uma paixão que só o Lacrimosa consegue inspirar.
Ao final do show, a sensação era de que todos haviam presenciado algo único e especial. Não foi apenas um concerto, mas uma celebração da vida, da música e da superação. O Lacrimosa mais uma vez provou por que são uma das bandas mais amadas e respeitadas da cena gótica mundial.
À medida que a noite chegava ao fim, eu me peguei refletindo sobre a riqueza das experiências do dia. Desde a magia das atividades culturais do dia, até a intensidade emocional do Lacrimosa, cada momento foi um lembrete do porquê o WGT é um festival tão único. O evento não é apenas uma coleção de shows, mas uma celebração de cultura, arte e comunidade, um lugar onde as pessoas podem se unir para compartilhar sua paixão pelo alternativo e pelo escuro.
Com as pernas cansadas, os ouvidos ainda zumbindo e o coração cheio de emoções, saí do local sabendo que o Dia 3 do WGT 2026 tinha sido um dos mais memoráveis. O festival, mais uma vez, provou ser exaustivo, inspirador, imprevisível e completamente inesquecível. Infelizmente, para mim, era meu último dia do festival e não consegui ficar na cidade para ver o último dia, que teria também tantas bandas memoráveis e shows que eu queria ver muito, mas o dever da rotina da trabalhadora assalariada falou mais alto e com isso só pude pensar: Até o próximo ano, querido WGT e obrigada por tudo!


