O Beyond The Black já pode ser considerado um nome consolidado do rock e metal alemão. Com 12 anos de estrada, a banda liderada por Jennifer Haben chega ao seu sexto álbum de estúdio com “Break The Silence”, sucessor do disco autointitulado lançado em 2023. E desta vez, o grupo aposta em algo maior: um trabalho conceitual que une narrativa, emoção e evolução sonora.
Um breve contexto
Formada em 2014 na Alemanha, Beyond The Black rapidamente se destacou no cenário do symphonic metal graças à poderosa voz de Jennifer Haben e ao equilíbrio entre melodias épicas e riffs pesados. Desde o lançamento do seu álbum de estreia “Songs of Love and Death“ (2015), a banda conquistou fãs por toda a Europa, participando de grandes festivais e turnês internacionais. Com uma trajetória marcada por crescimento constante e mudanças na formação, Jennifer permanece como a alma do grupo, guiando a banda em direção a uma sonoridade cada vez mais madura e experimental, sem perder a essência que os tornou conhecidos.
A cozinha hoje é composta por: Jennifer Haben (vocal principal, piano e guitarra acústica), Chris Hermsdörfer (guitarra principal e backing vocals), Tobias “Tobi” Lodes (guitarra rítmica e backing vocals), Kai Tschierschky (bateria) eLinus Klausenitzer (baixo).
Conceito
“Break The Silence“ é um álbum que gira em torno do silêncio e, principalmente, da importância da comunicação. As letras abordam temas como isolamento, desconexão social e a busca por pertencimento em um mundo cada vez mais dividido. É um conceito pertinente, atual e bem amarrado ao longo do disco, criando uma jornada emocional do início ao fim.
Musicalmente, o Beyond The Black continua explorando seu conhecido pop metal sinfônico, com melodias grandiosas, refrões épicos e produção polida. Há momentos que flertam com o hard rock e outros que mergulham no pop rock emocional, sem perder a identidade metal.
No centro de tudo está, claro, a voz poderosa de Jennifer Haben, uma vocalista bastante expressiva, técnica e emocionalmente. Os hooks são certeiros, os arranjos orquestrais bem construídos e a produção soa moderna e cinematográfica. Ainda assim, “Break The Silence” vai além do que a banda já apresentou antes.
Aqui, o grupo soa mais maduro, ousado e aberto a experimentações. O álbum tem um caráter narrativo mais forte do que os trabalhos anteriores e ganha ainda mais atmosfera com a adição de influências étnicas.
Destaques
A abertura com “Rising High” traz tudo o que os fãs esperam do Beyond The Black: riffs pulsantes, bateria acelerada, refrão hino e elementos sinfônicos. É eficiente, bem executada, mas emocionalmente não é a faixa mais marcante do álbum.
Já a faixa-título, “Break The Silence”, mostra mais personalidade. Construída claramente para ser um hit, a música aposta em vocais expressivos, coros potentes e uma base orquestral grandiosa. A combinação de melodias calculadas com influências de world music e timbres exóticos cria uma atmosfera densa e envolvente — aqui a banda mostra sua faceta mais aberta e experimental.
Entre as baladas, “Ravens” segue a fórmula clássica do Beyond The Black: melodia fácil, clima hino e vocais carregados de emoção. Funciona bem, mas não surpreende. Já “Weltschmerz” encerra o álbum de forma impressionante. A faixa é épica, melancólica e sensível. Jennifer canta em alemão e inglês, criando uma despedida emocional e atmosférica.
Colaborações certeiras
Um dos grandes trunfos do álbum está nas participações especiais. Em “The Art Of Being Alone”, Chris Harms (do Lord of the Lost) divide os vocais com Jennifer. O contraste entre a voz grave dele e a potência dela funciona perfeitamente, criando uma faixa sombria, melancólica e intensa e, facilmente, um dos pontos altos do disco. É importante falar que essa é a segunda parceria da dupla. No recém-lançado “Opvs Noir“, do Lord of the Lost, BTB também contribuiu com uma parceria para “The art of being alone“.
Outro destaque é “Let There Be Rain”, em parceria com o coral búlgaro The Mystery of the Bulgarian Voices. A música traz uma atmosfera quase sacra, misturando elementos étnicos, arranjos orquestrais, coros hipnotizantes e guitarras pesadas. Um belo exemplo de como a banda consegue expandir seus limites sem perder a identidade.
A terceira colaboração acontece em “Can You Hear Me”, com Asami, da banda japonesa Lovebites. A faixa mistura riffs pesados com elementos pop e eletrônicos. É bastante válida, provando que o metal consegue se incluir em diversos outros contextos.
“Break The Silence“ é, sem dúvida, o trabalho mais maduro do Beyond The Black até agora. O álbum traz faixas emocionalmente profundas, colaborações bem escolhidas e uma narrativa forte. Em alguns momentos, a banda ainda joga no seguro, entregando músicas mais comerciais e previsíveis, mas sem comprometer o conjunto. O disco consolida o Beyond The Black como um dos grandes nomes do symphonic metal moderno e mostra uma banda em constante evolução.
Nada mais gostoso que você começar o ano com descobertas e novos ares. Pois em uma dessas minhas caças a novos sons, acabei descobrindo uma banda que me fez querer usar flores nos cabelos, saias longas e correr descalça pela grama. Estou falando dos suecos do Siena Root; uma banda que vive a psicodelia do mundo analógico, mostrando que está muito bem com isso.
A banda nasceu em 1997, pelas mãos do baixista Sam Riffer e do baterista Love Forsberg, que permanecem até hoje. Siena Root já passou por tantas “encarnações”, que, chegaram a decidir por não fixar formações, trazendo músicos convidados a cada tour, garantindo sempre um ar de frescor e renovação. Mas então eles encontraram o guitarrista Johan Borgström, e perceberam que seu som era o que faltava para a personalidade perfeita. Com esse trio poderoso, Sam cantava sem problemas, até que Zubaida Solid cruzou seu caminho. Uma cantora de blues que emociona com a sua voz potente e energia contagiante, essa força da natureza ainda possui dois projetos musicais na Suécia: o Solid Zue e o Ladies Got The Blues, ambos valem muito a pena serem seguidos!
Mas como, em todo o meu garimpo de sons que eu não conheço, eu cheguei em Siena Root? Uma das coisas que eu mais aposto é nas indicações do Instagram. Sempre descobri coisas muito legais por lá (procurem Hamish Anderson, é um mix de AC/DC com Rolling Stones), e, por causa das minhas pesquisas sobre o Hammerhead Blues, o algoritmo achou bacana me indicar estes suequinhos marotos. Fui para o Spotify e me apaixonei por Revelation, último álbum de inéditas, de 2023. Fighting Gravity, Dusty Roads e Leaving the City são as minhas favoritas, mas Winter Solstice também merece sua atenção.
Siena Root – foto por: Petter Hilber
Sabe aquele som que te faz entrar em transe? É exatamente isso que acontece contigo, aliás, foi o que aconteceu comigo! E o mais maravilhoso do mundo dos garimpos é que coincidentemente eles vieram ao Brasil no começo do mês passado, para três shows: um no Rio de Janeiro e dois em São Paulo, sendo o primeiro como suporte da banda Boris e o segundo, o que eu assisti, no Iglesia; eles também participaram de um meet & greet na loja London Calling, na Galeria do Rock, onde conversaram com fãs, autografaram discos, tiraram fotos, o pacote completo!
Siena Root desembarcou no Brasil para divulgar seu mais novo álbum ao vivo, Made in KuBa, onde eles reúnem seus maiores sucessos de uma forma repaginada e muito mais atrativa, aliás, a banda cresce muito ao vivo.
Capa do último lançamento Made in KuBa
E o que foi essa apresentação, bangers? Uma EPIFANIA! Sabe quando os planetas se alinham? Foi isso! Fui fazer a cobertura do evento, com a abertura dos meus queridos do Hammerhead Blues, que, pra variar, tocou a minha playlist de viagem na íntegra. Me senti homenageada. O set foi curto, mas cada minuto valeu a pena; foi como comer aquele doce favorito aos pouquinhos, pra curtir cada sabor que ele cria na sua boca.
Mudança de palco e o Siena Root entra em cena. Sabe quando você vê uma banda usando roupas extravagantes, mas sabe que aquilo é roupa de palco? O Siena não é assim, eles realmente vivem aquilo, eles vivem a psicodelia, o flower power, a liberdade da era de aquarius, e isso reflete na música, com riffs ácidos e solos hipnotizantes. Em vários momentos eu me senti no meio do Scandinavian Nights do Deep Purple, de novembro de 1970, e não porque a banda soava como Purple, mas porque soava como o zeitgeist da época. E de repente, toda aquela plateia maluca de Estocolmo, que dançava como quem se contorce de prazer em 1970, estava representada no looping do transe que eu entrei. Era como se o corpo se movimentasse sem que eu o controlasse.
A noite estava quente e Zubaida não parava de pular pelo palco e interagir com Johan; a química entre os dois é incrível. Não pareciam apenas bem ensaiados, mas que eles faziam aquilo desde que nasceram. Riffer tem um backing forte, mas nada sério, sisudo, sua voz é alegre, como quem canta sorrindo. E o que dizer da bateria de Love Forsberg? Forte, contagiante, pulsante, excitante… não vejo outra pessoa em seu lugar, fazendo o mesmo com tanta maestria.
A verdade é que para uma banda que tem o hábito de trocar muito sua formação, a atual skin do Siena Root é perfeita e parece estar unida desde sua formação.
Siena Root – foto por: Petter Hilber
Caro banger, eu não costumo me impressionar com qualquer coisa, tão pouco indicar algo por indicar, sendo assim, preste atenção nesses caras, porque se você gosta de uma sonoridade Mutantes, com muita guitarra ácida e órgão presente, o Siena Root vai fazer seu coração vintage bater ainda mais forte.
Setlist Siena Root:
01) We (Over the Mountain)
02) Tales of Independence
03) Organic Intelligence
04) There and Back Again
05) Dusty Roads
06) Into the Woods
07) Keeper of the Flame
08) Above the Trees
09) Wishing for More
10) Time Will Tell
11) Coming Home
12) Imaginary Borders
13) Root Rock Pioneers (com apresentação da banda e um solo reprisando o início do show)
“O encerramento épico da The God Machine Tour 2025 em casa, diante dos fãs”
Na noite de 19 de dezembro de 2025, o Blind Guardian transformou a Kulturfabrik, em Krefeld, no palco de um encerramento histórico. Além de marcar o fim oficial da The God Machine Tour 2025, o show também simbolizou o início de uma pausa planejada da banda, que entrará em um período de aproximadamente dois anos dedicado a descanso e ao processo de composição e gravação de um novo álbum.
Desde o anúncio, já estava claro que se tratava de uma data especial. Para reforçar ainda mais esse caráter, a banda confirmou um after party oficial, no qual os músicos permaneceriam no local após o show para convivência com o público, fotos e conversas informais — transformando a noite em uma verdadeira celebração entre banda e fãs.
Com as luzes apagadas e a introdução de “War of Wrath” ecoando pela casa, a sensação era de que todos ali sabiam que presenciariam algo único. A entrada com “Into the Storm” e “Blood of the Elves” estabeleceu imediatamente o tom épico da apresentação. Ao longo do show, o Blind Guardian fez uma escolha que elevou o peso histórico da noite: a execução do álbum Somewhere Far Beyond na íntegra.
A decisão foi recebida com entusiasmo absoluto. Faixas como “Time What Is Time”, “Journey Through the Dark” e “The Quest for Tanelorn” soaram ainda mais intensas ao vivo, reforçando a importância do álbum tanto para a carreira da banda quanto para a história do power metal. A execução completa trouxe coesão ao repertório e aprofundou a imersão do público em uma atmosfera épica e nostálgica.
Mesmo dentro desse contexto especial, “The Bard’s Song – In the Forest” teve seu momento de destaque. Mais do que um clássico do Blind Guardian, a música é reconhecida por muitos fãs como o verdadeiro hino do Wacken, transformando a Kulturfabrik em um gigantesco coro em uníssono e reforçando a conexão única entre banda e plateia.
Falar de um show do Blind Guardian é, inevitavelmente, falar de clássicos atemporais. Independentemente da fase ou do conceito, o grupo carrega um repertório que atravessa décadas com naturalidade. Canções como “Valhalla”, “Lost in the Twilight Hall” e “Majesty” resgataram a energia dos primeiros anos, enquanto “Mirror Mirror”conduziu o público ao período mais emblemático da banda, eternizado em Nightfall in Middle-Earth.
No palco, a performance foi irrepreensível. Hansi Kürsch mostrou carisma e potência vocal do início ao fim, enquanto Marcus Siepen e André Olbrich conduziram riffs precisos, equilibrando peso e melodia com absoluta segurança. Os corais e backing vocals, marca registrada do Blind Guardian, ampliaram a grandiosidade do espetáculo e transformaram diversas músicas em verdadeiros hinos coletivos.
Já nos momentos finais, o clima se tornou ainda mais leve e familiar. Entre passagens emocionantes e dramáticas, houve espaço para descontração. Atendendo ao pedido de alguns fãs na grade, a banda executou “Barbara Ann”, cantada por todos em uníssono, com a mesma entrega dedicada aos grandes clássicos do repertório — um fechamento espontâneo e divertido para uma noite histórica.
Após o show, a celebração continuou no after party. A presença de Thomen Stauch, ex-baterista e membro fundador da banda, adicionou ainda mais peso emocional ao encontro, reforçando a ligação viva com as origens do Blind Guardian.
Para mim, essa noite teve um significado especial. Além de tudo o que aconteceu no palco, tive a oportunidade de encontrar todos os integrantes da banda e conversar com eles — especialmente com Thomen, um grande amigo. Não foi apenas um grande show: foi um momento histórico, humano e inesquecível.
Depois de ter sido sucesso de público no Rio de Janeiro, sendo visitada por mais de 60 mil pessoas, a exposição “Cazuza Exagerado” chegou a São Paulo, em 22 de dezembro, prometendo grandes emoções, além de uma atração inédita. O palco “Cantos e Contos” trará convidados num bate-papo lúdico sobre sua história com Cazuza. Esse “talk show” será capitaneado por Pedro Bial (amigo de infância do cantor), Zeca Camargo (jornalista a quem Cazuza confessou pela primeira vez que tinha AIDS) e Astrid Fontenelle. “Cazuza nos inspira a enxergar a vida com mais coragem, irreverência e arte”, afirma Fernando Ligório, CEO do Grupo 4ZERO4. “Depois de tantos pedidos para levar a exposição a São Paulo, é muito especial atender esse desejo do público. Estamos chegando com uma versão ampliada e com a mesma qualidade que emocionou tantas pessoas no Rio.”
Apresentação à Imprensa – foto por: Amanda Basso
Quem monta essa obra de arte é a Hit Makers (empresa do grupo 4ZERO4) em parceria com a Caselúdico e Viva Cazuza, apoiada pelo Ministério da Cultura e o Bradesco.
Linha do tempo – foto por Amanda Basso
Sob a orientação do biógrafo Ramon Nunes Mello, responsável pelos livros “Meu Lance é Poesia” e “Protegi Teu Nome Por Amor”, a mostra conta com 11 salas que destrincham a vida do cantor/compositor/poeta… desde a infância como Agenor Caju, passando pelo auge com o Barão Vermelho e com sua carreira solo, até sua partida, sendo alçado ao status de lenda.
Inspirada pelo aniversário de 40 anos do álbum “Exagerado”, a exposição é altamente tecnológica, permitindo a verdadeira imersão na história do cantor, com a possibilidade de assistir documentos audiovisuais, escutar sua música preferida de forma particular, para que você tenha sua experiência singular, mas também conta com mais de 700 itens físicos (entre fotos, documentos, instrumentos, peça de vestuário, móveis…) do acervo de Lucinha Araújo e Sociedade Viva Cazuza!.
Horacio Brandão, responsável pela assessoria e divulgação da expo, através da Midiorama, desde o Rio, quando questionado do motivo pelo qual Cazuza foi escolhido dentre tantos artistas incríveis que temos no Brasil, para esta homenagem, ele respondeu “o Cazuza conversa com uma geração que tem 60 [anos], 40 e influencia quem tem 20, então ele é um dos nossos artistas da música que não está nem tão lá atrás e nem é tão recente […] Então a escolha se deu por uma questão de justiça pra esse cara que teve uma carreira tão breve e ter deixado um legado tão atual […] o Cazuza conversa com várias tribos: conversa com a tribo da MPB, conversa com a tribo de quem gosta de poesia, de quem gosta de rock […] ela tem a intenção de fazer justiça à obra de um cara que deveria ser melhor percebido e perpetuado para as novas gerações”.
Foto por Midiorama
Até aqui, eu deixei os dados e os responsáveis pela imersão convencê-los a participar deste momento, agora eu vou contar o que eu senti. Eu amei ter sido convidada para este evento, tendo em mente a ligação que eu tenho com Cazuza e o Barão Vermelho. Essa foi uma banda que eu conheci por causa da minha mãe, que sempre foi apaixonada por esse poeta, então ele esteve presente em muitos momentos de nossas vidas – desde brincadeiras e trocadilhos que ela fazia (como quando entrou ratos em casa, e ela começava a cantar “a tua ‘cozinha’ está cheia de fatos”, ao invés de piscina, como em “O Tempo Não Pára”), até quando ela não sabia o que escrever para mim ou para o meu irmão, numa carta de aniversário, ou, nesse caso específico, no primeiro ano novo em que nos separamos, por conta do divórcio dela com o meu pai. Ela sempre encorajou sermos nós mesmos e não tentar entrar em caixa nenhuma.
“Queria um dia no mundo
Poder te mostrar o meu
Talento pra loucura
Procurar longe do peito
Eu sempre fui perfeito
Pra fazer discursos longos
Discursos longos
Sobre o que não fazer
Que é que eu vou fazer”
Esse é um trecho de “Boas Novas”, onde ela emendou com uma confissão linda, de como sentiria a nossa falta durante o momento da virada. Foi a primeira vez que ficamos longe…
Agenor bebê – Acervo Lucinha Araujo
Horácio estava certo quando disse que Cazuzadialoga com várias gerações, e eu ainda emendo que ele é capaz de despertar sensações variadas e te levar da euforia à melancolia em questão de segundos. Quando eu entrei na primeira sala, me deparei com Agenor Araújo, a criança que era amada e que não era genial na escola, pasmem! Agitado, teatral, quase circense – uma alegoria à fugacidade. “Vida louca, vida, vida imensa”… Agenor tinha todo o tempo pela frente, eram aliados. Essa primeira sala guarda um baú de lembranças, desses que a gente guarda na parte mais alta do armário, e que abre em ocasiões singulares, como quando seu filho traz uma namorada pra casa, ou quando você precisa entender onde foi que deu errado, ou ainda, quando você sente saudades de pessoas e histórias que, hoje, só estão ali. No final deste ambiente, um vídeo de Caetano Veloso atestando a genialidade da poesia de Cazuza.
A segunda sala mostra a estrela que brilha: Barão Vermelho no Rock in Rio de 1985, o sucesso do Circo Voador, a banda de forma midiática e como ela era representada, a famosa entrevista de Cazuza à Globo, falando sobre como seria possível “com ou sem Tancredo, o dia nascer feliz”, já que a democracia começaria, de fato, no dia 21 de janeiro. Fatos marcantes, a esperança no futuro, o tal do “museu de grandes novidades”.
É possível conhecer Cazuzade forma artística, como quando ele vai ao Chacrinha, o Cazuzahumano, através dos depoimentos de amigos, da Lucinha, sua incansável parceira de vida, vulgo, mãe e o Cazuza em sua forma paradoxal: frágil e mítica, simultaneamente, quando ele mostra à sua imensidão de fãs o que a AIDS é capaz de fazer. E o mais incrível dessa história é o peso de sua dignidade e afronta ao universo: “eu não me arrependo!” “eu vi a cara da morte e ela estava viva, viva”, “vamos pedir piedade, senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde”… Ele não se arrependeu de viver pouco, mas intensamente: “vida louca, vida, vida breve, já que não posso te levar, quero que você me leve”.
Todas as salas são totalmente imersivas e você consegue interagir com o meio à sua maneira: ouvindo as músicas disponíveis nos players, ficar o tempo que precisar para digerir e sentir Cazuza tocando a sua vida e sua mente.
Foto por Amanda Basso
Eu, como jornalista, escritora e vocalista, tive arrepios ao ver: a escrivaninha original da casa dele, onde, sentado à máquina ele escreveu hinos e confissões “eu protegi seu nome por amor, em um codinome beija-flor”, poemas e cartas para amigos e familiares; o violão de suas composições; seu microfone – o parceiro de vários recados e levantes!
A vida do poeta em várias frentes e facetas totalmente interligadas.
Uma das salas, “Caravana do Delírio“, conta como Cazuza, já acometido pela “maldita”, como ele, carinhosamente, chamava a AIDS, lotava sua veraneio com amigos e iam ver as ruas do Rio, a praia… em um de seus últimos passeios, seu motorista o pegou no colo e o levou para tomar banho de mar. Cazuzamorreu semanas depois. Nesta sala, a veraneio foi montada ao centro, com uma projeção de movimento no chão. Eu, sinceramente, não pude ficar prestando atenção nessa projeção, por receio de cair, como quase aconteceu. Mas isso porque eu tropeço no meu próprio pé, então, não sou exemplo para nada! Amigos e parceiros de música de Cazuza também estão presentes nesta sala, mas um, em especial, me chamou atenção: Renato Russo.
Foto por Amanda Basso
Ambos poetas, ambos líderes de sua legião, ambos gostavam de meninos e meninas, ambos com o mesmo destino. A história une os heróis, mesmo que eles “morram de overdose” (de qualquer dose).
Foto por Amanda Basso
Então, ao sair desta sala, passamos por um corredor escuro, parece um backstage, ou a coxia de um teatro. Surgimos dentro de um camarim: aquele, o derradeiro. Seu blazer branco pendurado num cabide com seu nome gravado.
Foto por Amanda Basso
Uma meia luz, que sugere calma para concentração. Uma foto da vovó Maria José, sim, aquela da música “Poema”, que Ney Matogrosso interpreta de forma inigualável. Mais um corredor escuro, mas agora com fãs gritando “Cazuza, Cazuza!”. Próxima sala: uma projeção de Cazuza no palco, cantando “O Tempo Não Pára”. E se em outros lugares eu consegui segurar a emoção, aqui eu desabei. Eu só pensava “caramba, como eu queria que a minha mãe estivesse vendo isso!” A última sala, não é essa, mas uma em que vídeos de amigos do cantor falam sobre a vida com ele, episódios engraçados e marcantes… todos distribuídos em mesas de lanchonete. É como um papo de bar. É a sala de “despressurização”, para desopilar mesmo! Quando você volta à entrada, você está tão extasiado que não percebe que está lá.
Um ponto muito positivo é: mesmo com as salas repletas de outras pessoas totalmente diferentes de você, sua experiência não é comprometida, justamente porque Cazuza é compartilhar.
No meu momento de vida atual, revisitar a minha história, a minha memória, com Cazuza fazendo a trilha, não foi só incrível, como foi uma honra.
SERVIÇO CAZUZA EXAGERADO – SÃO PAULO:
Onde: Shopping Eldorado
Endereço: Alameda Jardins – 2º SS – Pinheiros, São Paulo – SP – 05402-600
Quando: a partir de 22 de dezembro de 2025
Classificação Etária: menores de 14 anos devem estar acompanhados por um responsável
Horário:
Segunda a sábado: 10h às 21h15 (última sessão), fechamento às 22h
Domingo: 14h às 19h15 (última sessão), fechamento às 20h
Horário especial de fim de ano:
22/12 e 23/12 — 10h às 22h15 (última sessão), fechamento às 23h
24/12 — 10h às 16h15 (última sessão), fechamento às 17h
31/12 — 10h às 15h15 (última sessão), fechamento às 16h
Clientes dos cartões de crédito Bradesco, Bradescard, next e Digio têm 20% de desconto na compra durante todo o período de pré-venda e venda geral realizada online ou na bilheteria física no Shopping Eldorado, limitado a 4 ingressos por CPF.
Brasil, São Paulo, SP, 13/03/1986. Retrato do cantor e compositor Cazuza em ensaio fotográfico nas ruas da cidade de São Paulo durante entrevista.FOTO: Nem de Tal/ESTADÃO CONTEÚDO – Crédito:NEM DE TAL/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:19863
Tive a oportunidade de ouvir e resenhar The Blood Red Horizon, álbum de estreia da Stormsorrow, banda idealizada pelo vocalista e guitarrista Kahlil Souto, cuja concepção remonta a 2005.
Natural de Pernambuco e com passagem por diferentes cenas do metal extremo no Piauí e, posteriormente, em Goiânia, Kahlil desenvolveu ao longo de quase duas décadas um trabalho totalmente autoral, influenciado inicialmente pelo thrash metal clássico, mas que evoluiu para uma sonoridade mais ampla, incorporando elementos de death metal melódico e thrash moderno.
Inspirada por nomes como Sepultura, Slayer, Kreator, Iced Earth, In Flames e Arch Enemy, Stormsorrow se consolidou como banda com a entrada de Vicente Luiz (guitarra solo e produção), Arthur Albuquerque (bateria) e Yuri Passos (baixo), dando forma definitiva a um projeto que nasce ambicioso e conceitual, inaugurando uma trilogia narrativa com este debut.
Assim como é a prática do site, as notas serão dadas entre 0 e 5.
Após ouvir The Blood Red Horizon repetidas vezes, minha percepção sobre a Stormsorrow se consolidou de forma bastante clara.
Trata-se de uma banda extremamente consciente das próprias influências e tecnicamente muito bem preparada, mas que opta por caminhar dentro de um território estilístico seguro, sem grandes desvios ou riscos criativos.
Instrumentalmente, a presença da escola do Iced Earth é evidente — especialmente na construção dos riffs, na condução rítmica das guitarras e no caráter épico que permeia boa parte do álbum. Essa influência funciona como um alicerce sólido: as músicas são bem estruturadas, os solos são técnicos e bem executados, e a base rítmica impressiona pela precisão.
O pedal duplo é constante, limpo e muito bem controlado, sustentando as composições com segurança do início ao fim.
Os vocais seguem uma abordagem clássica do death metal melódico, com dobras bem trabalhadas entre screams mais rasgados e guturais extremamente graves.
É um registro competente, agressivo e coerente com a proposta do disco, ainda que bastante convencional dentro do estilo.
Não há experimentações vocais ousadas, mas há consistência e bom gosto.
As participações especiais de nomes relevantes do underground nacional agregam peso e variedade ao álbum, funcionando como reforço artístico e não apenas como atrativo promocional.
As colaborações são bem encaixadas e ajudam a dar identidade a faixas específicas, sem descaracterizar o conjunto.
Do ponto de vista composicional, as músicas oscilam, para mim, entre 2.5 e 2.8 em uma escala de avaliação individual.
Tecnicamente, quase todas são muito bem executadas, bem arranjadas e eficientes dentro do que se propõem.
No entanto, o álbum como um todo não me soa realmente diferencial dentro do cenário do death/thrash metal melódico.
Falta aquele elemento que provoque surpresa, ruptura ou uma identidade sonora imediatamente reconhecível além das referências.
Isso faz com que The Blood Red Horizon dialogue com um público-alvo bastante específico — ouvintes já familiarizados com o metal extremo, especialmente aqueles que transitam entre o heavy/thrash épico e o death metal melódico mais tradicional.
No saldo final, o álbum se sustenta pela competência técnica, pela clareza de proposta e pela seriedade com que foi concebido. Não é um disco fraco, tampouco descartável — mas também não é um trabalho que redefina parâmetros ou empurre limites criativos.
Nota final: 3.2
Considerando o conjunto da obra, a execução técnica elevada e o fato de o álbum não soar realmente inovador, 3.2 é uma nota justa e honesta.
Um disco bem feito, sólido, com identidade dentro do estilo — recomendado para quem já está inserido nesse universo, mas sem grandes promessas de surpresa ou revolução sonora.
Nesta lista, eu selecionei os 10 álbuns que mais se destacaram para mim ao longo do ano, passando pelo thrash, heavy tradicional, power metal e vertentes modernas.
Agora, a pergunta fica para você, leitor do Headbangers Brasil:
Você concorda com a minha seleção?
Sentiu falta de algum álbum?
Mudaria posições ou o Top 10 está justo?
Confere a lista, ouça os discos e conta pra gente nos comentários.
1) Testament – Para Bellum
Os veteranos do thrash metal californiano retornam com força total em Para Bellum. O álbum apresenta uma produção moderna, limpa e poderosa, mas sem jamais abandonar a agressividade clássica que consagrou a banda. Os riffs seguem afiados, a base rítmica soa precisa e consistente, e Chuck Billy entrega uma performance intensa do início ao fim. Mesmo após décadas de estrada, o Testament demonstra uma vitalidade impressionante, equilibrando técnica e brutalidade com naturalidade. Não há excessos nem concessões: Para Bellum é direto, honesto e pesado.
2) Grave Digger – Bone Collector
Fiel às suas raízes, o Grave Digger entrega em Bone Collector um heavy metal tradicional, direto e sem concessões. Gravado em estúdio próprio, o álbum respira aquela atmosfera clássica que os fãs esperam: riffs sólidos, refrões épicos e uma aura quase guerreira que atravessa todo o disco. Aqui não há tentativa de modernização forçada. A banda entende perfeitamente sua identidade e a explora com segurança.
3) Babymetal – Metal Forth
Gravado entre Tóquio e estúdios europeus, Metal Forth mostra um Babymetal confiante, ousado e cada vez mais confortável em sua identidade híbrida. A mistura entre metal moderno e elementos pop continua sendo o cartão de visitas do trio, agora acompanhada de uma produção mais refinada e arranjos bem amarrados. O álbum surpreende pela maturidade emocional, sem perder a energia contagiante.
4) The Hellacopters – Overdriver
Overdriver traz o The Hellacopters em uma de suas melhores fases recentes. O álbum mistura hard rock cru, riffs com forte influência setentista e uma energia quase punk, resultando em um trabalho orgânico, direto e extremamente prazeroso de ouvir do começo ao fim. Sem exageros ou produções infladas, a banda aposta na força das músicas.
5) Helloween – Giants & Monsters
Com Giants & Monsters, o Helloween segue colhendo os frutos de sua formação ampliada. O álbum é grandioso, melódico e carregado daquele espírito clássico que ajudou a moldar o power metal europeu. As composições alternam momentos rápidos e festivos com passagens mais épicas, mantendo o alto nível técnico e emocional.
6) Sabaton – Legends
Em Legends, o Sabaton reforça sua identidade sonora e temática. O álbum aposta em canções épicas, refrões marcantes e letras carregadas de narrativa histórica. Tudo soa pensado para arenas e grandes festivais, com execução precisa e impacto imediato.
7) Primal Fear – Domination
Domination faz jus ao título. O Primal Fear entrega um álbum pesado, agressivo e extremamente seguro de sua identidade. Riffs rápidos, vocais poderosos e uma execução precisa dominam o disco do início ao fim, reafirmando o peso da banda no heavy metal europeu.
8) Sortilège
Os franceses do Sortilège que renasceram como uma fênix, no álbum Phoenix, dão sequência com o álbum Lê Poids de L’ame, a banda segue cantando em seu idioma e com composições avassaladoras. Um heavy metal que mescla todo o poder visceral dos anos 80 com muita técnica e uma produção extremamente profissional.
Faixas como : Coeurs d’acier, Le Poids de L’ame e l’alchemiste vem recheadas de bons corais, refrão inesquecível e guitarras viciantes
9) Battle Beast – Steelbound
Em Steelbound, o Battle Beast apresenta um som mais coeso e maduro. O álbum equilibra peso e melodia com eficiência, apostando em refrães fortes e uma produção moderna que valoriza o impacto das músicas.
10) Dirkschneider & The Old Gang – Babylon
Babylon encerra o Top 10 com um peso simbólico forte. O projeto entrega heavy metal clássico, carregado de identidade, riffs marcantes e aquele espírito que moldou gerações. Um fechamento digno para uma lista marcada por tradição e energia.
Melhor show do ano:
BLIND GUARDIAN KREFELD TOUR END AT HOME 19/12/2025
Após 3 anos de tour, com curtas pausas, a lenda do Power Metal e banda favorita deste que vos fala, Blind Guardian anuncia em casa uma pausa de 2 anos, para férias e gravações do próximo album, e quando digo em casa é o Kulturfabrik em Krefeld cidade natal da banda, um show entre amigos(Thomen ex-baterista e co-fundador) vizinhos e alguns quantos fãs de diversas partes do mundo, o soldout era inevitável. Após vários clássicos como “Valhalla” “Majesty” “Lord of The Rings” “Mirror Mirror” a banda executou o album somewhere far beyond na integra. Após o show eletrizante a banda esteve com o público para o after party, uma noite memorável para um fã incondicional da banda.
Dizer que Fred Durst sabe como agradar seus fãs é redundante, ainda mais depois de presenciar o que aconteceu no último sábado, 20, no Allianz Parque. E não foi apenas seu show, não apenas o Limp Bizkit, mas todas as atrações foram curtidas com sucesso.
Confesso que, inicialmente, me senti um pouco “estranho no ninho”, já que o estilo nunca foi tanto a minha praia, mas sabe que eu me diverti? E muito! Acredito que se eu tivesse que encontrar uma palavra para descrever o “festival” que Fred nos deu, com certeza seria “divertido”!
Portões abertos, pontualmente às 14h, num dia escaldante de, pelo menos, 3 sóis pra casa um e nenhuma brisa pra refrescar.
Às 16:10, Slay Squad sobe ao palco para mostrar um crossover muito bom. Tinha rap, mas tinha também metalcore e um pouco de death. Esses californianos se autoentitulam “Ghetto Metal”, vendo que eles trazem muito da cultura hip-hop, esse nome faz muito sentido. Uma pena o som não estar 100% durante a apresentação deles, porque o público aceitou bem e acredito que a banda retorne ao Brasil num evento onde tenham maior destaque. Eles não ficariam ótimos com o Black Pantera?
O rapper Riff Raff entrou e, não ficou mais de 15 minutos no palco. Não informaram se o show seria aquele, ou se houve algum problema em que impedisse sua continuação.
Já a australiana Ecca Vandal mostrou seu poder e dançou, cantou, improvisou junto com o Slay Squad, além de conquistar os brasileiros com uma lindíssima camiseta do Roots(Sepultura).
Você conhece 311? Pois esse show mostrou que você deveria conhecer. Se você curte Linkin Park, é importante saber que esta banda é a responsável por colocar um DJ, um rapper e um vocal de voz melódica no mesmo palco. Esses caras começaram em 1988, o que a gente curte tanto até hoje. Eles abriram com “Beautiful Disaster”, presente em seu quarto álbum, Transistor, de 1997; chamou o Slay Squad pro palco pra improvisar antes de “Applied Science” emendar com o solo de bateria. Essas lendas fizeram as rodas abrirem na pista, marmanjos sentarem no chão e remar, para depois levantarem e pular como nunca. E o mais legal disso tudo é: a banda mereceu cada manifestação de alegria.
E agora vocês estão prontos para chorar? Prontos para voltar 20 anos no tempo, alisar o seu cabelo e borrar a sua maquiagem? Sim, agora é o momento deles, o Bullet For My Valentine. Último show da tour comemorando os 20 anos de lançamento do álbum “The Poison”, este bonitinho foi tocado NA ÍNTEGRA!
Matthew Tuck – foto por: Amanda Basso
O que eu vi de gente chorando no primeiro “Let’s Go”, não é brincadeira. Mas eu entendo completamente, porque você chora pela emoção de reviver um período da sua história e isso sempre é muito bom. Foi aqui que eu comecei a perceber o que era, realmente, um show de nu metal, ou metalcore, seja lá como vocês classifiquem essa banda. Os sinalizadores começaram a aparecer e a pista virava um inferno todas as vezes que Jamie Mathias, baixista, pedia para o público girar. Uma roda abriu ao meu lado em “4 Words”. Tomei um susto, mas fui junto em seguida. Musica após música, Matthew Tuck dizia o quanto era importante para eles estar naquele palco, comemorando com o público brasileiro todas as suas conquistas, principalmente o aniversário desse álbum que é tão querido pelos seus fãs… não cansou de mencionar o quanto ele estava feliz com a energia que sentia da plateia.
Jamie Mathias – Foto por: Amanda Basso
Foram 13 músicas que tiraram o público do chão, deixando a temperatura ainda mais quente, num dia que já começou mais quente que o inferno. “Tears Don’t Fall” foi cantada a plenos pulmões e “All These Things I Hate” iluminou o estádio com luzes de celular, emocionante. Bullet For My Valentine substituiu o Yungblud na última hora e fez um show incrível, nostálgico, alto (muito alto mesmo), encerrou com “Waking the Demon”, fazendo o público querer mais. E, assim como Ecca estava com uma camiseta do Roots, Jamie Mathias estaba com uma do Chaos AD.
Mas vocês não leram até aqui para “morrer na praia”, não é? Afinal, a Loserville é deles, Limp Bizkit estava chegando e já mostrava como. Nos pa’s, raps de todas as épocas, até eu perceber um que eu conhecia: “Pump Up the Volume”, do MARRS. Essa música ficou looping alguns minutos a mais do que ela realmente tem. Mas quando as luzes se apagaram, o telão piscou SAM RIVERS e um vídeo de quase 5 minutos foi executado, emocionando cerca de 42 mil pessoas, que também ficaram órfãos do baixista,morto aos 48 anos, por complicações de cirrose hepática. Em todo decorrer do tempo, Fred menciona fazer este show por Sam, pedia que todos cantassem para que Sam ouvisse. Foi bastante emocionante.
Fundo do Palco – foto por: Amanda BassoHomenagem a Sam Rivers – foto por: Amanda Basso
O show realmente começa com a banda entrando no palco para tocar “Break Stuff“. Fred conversa com a plateia, cumprimenta, e pede para que naquela noite, o público faça Loserville ser inesquecível. Imediatamente Wes Borland começa o riff de Master of Puppets, do Metallica, emendando com “Hot Dog” e “Show Me What You Got”. Aceitando o pedido de Durst, o público começa a pipocar rodas em toda a pista, até formar uma gigante bem ao centro. Desta roda central surgiram personagens como Pikachu, Papai Noel e Jesus. Além de sinalizadores, como já era esperado, mas também (pasmem), rojões. Isso, rojões!
Fred mostra gostar da celebração e incentiva mais, afinal, a plateia está nas mãos dele e, nitidamente ele pode fazer o que quiser. O show é uma verdadeira festa, uma comemoração ao legado de uma banda que passou pouco por aqui, mas que mostrou ter uma fan base bem fiel.
A apresentação corre com “My Generation” e “Livin’ it Up”(que levantou o público ainda mais), até uma pequena mudança de “ato”, afinal, o DJ Lethal, solta Walk, clássico do Pantera, que fez todo o estádio cantar, como se a banda estivesse presente. E dentro de toda essa energia caótica que estava presente, chega mais um clássico que tocou a exaustão no rádio: “My Way”! O Allianz tremeu. Adolescentes pulavam, pessoas mais velhas pulavam, todos pulavam! Mas chegou a hora dela, da queridinha que tem dancinha, da música que foi (in) justamente premiada como a pior letra da história, só porque ela fala de pegar seus amigos, colocar no carro, e sair para ver as moças na rua, “Rollin’”. E nesse momento, a pista se dividia entre os moshpits e fãs emulando dirigir um volante durante o refrão. Terminando sua dança, DJ Lethal faz mais uma brincadeirinha e coloca Proud Mary e “rolling on the river…”.
Quando você ama ir aos shows, mas tem menos de 1,65m, que é o meu caso, qualquer brisa maior se torna um alívio. Porque o calor no meio do público é causticante, por isso, acabei indo para a lateral do palco, para conseguir assistir ao show com mais calma, e sem tanto ar quente.
Agora mais tranquila, de um lugar onde estava até ouvindo melhor, Fred conversa um pouco e começa a cantar “Re-Arranged”, e em seguida “Behind Blue Eyes”, clássico eterno do The Who. Confesso que como sou fã da original, sempre torci o nariz pra essa versão, mas sabe o que é legal de assistir aos shows? É que eles sempre têm a chance de te fazer mudar de ideia! De repente, o estádio inteiro parecia um céu estrelado… tinha uma certa beleza naquilo, um céu que faz tempo que não se vê, sabe?! Ok, sem divagações!
Passado o momento fofo, Fred começa “Eat You Alive”, “Nookie” (que tem uma letra muito peculiar envolvendo um “cookie”). E agora chegou a hora de chamar o fã no palco. E era a hora também de “Full Nelson”. Uma menina com uma plaquinha foi chamada. “Qual o seu nome?”Fred pergunta. “Bia!”, ela responde; e depois de perguntar de onde ela é e se ela sabia a letra, ele pergunta se ela tem certeza de que quer cantar “Full Nelson”. Fato é que esta música, assim como quase todas do Limp Bizkit tem duplo sentido, e ela não fala do golpe de imobilização do wrestling, ou luta livre, mas de uma posição sexual muito parecida… Bia confirmou que sabia e tinha certeza de querer cantar esta música, quando Fred pede para que ela fale algo em sua língua e Bia grita “vambora!”. “Full Nelson” começa e a fã se sente um pouco tímida, mas mostra que sabe o que faz, Fred indica o teleprompter, pois como ela estava sem retorno, seria mais fácil se guiar por ele, lendo a letra. Performance nota 10, Bia!
A noite começa a caminhar para o seu fim. Fred dedica várias risadas e alegrias ao seu parceiro Sam Rivers, lembra de que todos nós estávamos lá por ele… Get Down Tonight, do KC and the Sunshine Band começa. DJ Lethal faz alguns scratchs em cima. “Boiler” entra e a plateia se entrega! Fred apresenta um a um o Limp Bizkit, que improvisa e brinca no palco. Sim, eles se divertem. Lethal ainda emenda Red Wine, clássico do UB40 com Careless Whisper – o sofrimento supremo – de George Michael. E a audiência dança. Faith aparece para começar a quebrar o clima, quando “Ethan Hunt” aparece para a sua Missão Impossível com “Take a Look Around”. Neste momento as rodas eram incontáveis – com rojões, personagens, sinalizadores, moças, crianças erguidas… a coisa toda. Então todo o line up da “Loserville Tour Fest” sobe ao palco para festejar; Fred Durst pede para que o Allianzacenda as luzes porque ele quer ver a maior roda que a galera conseguisse fazer. As luzes acenderam, “Break Stuff” voltou e o caos reinou soberano! Todos ficaram felizes, todos ficamos felizes. E Sam Rivers, onde quer que esteja, acredito que também tenha ficado feliz. E a mensagem da banda é clara: “don’t stop believing!”. E essa foi a última música que Lethal colocou.
A banda brasileira de rock Malvada segue em plena ascensão e acaba de anunciar um dos momentos mais importantes de sua carreira: o grupo será a banda de abertura da turnê europeia “My Years With UFO”, liderada pelo lendário guitarrista Michael Schenker, ícone do rock mundial e ex-integrante do UFO e Scorpions.
A turnê acontece entre fevereiro e março de 2026, passando por Alemanha, Holanda e França, com apresentações em casas e teatros renomados da cena europeia. A participação da Malvada como opening act da turnê mundial marca um passo decisivo na consolidação internacional da banda.
A turnê europeia acontece em um momento extremamente positivo para a Malvada. Em junho deste ano, a banda lançou seu mais recente álbum pela Frontiers Records, tradicional gravadora italiana responsável por grandes nomes do rock e do hard rock mundial. O disco vem recebendo excelente repercussão da crítica especializada e do público, ampliando significativamente o alcance internacional do grupo.
Além disso, a Malvada já tem presença confirmada em 2026 no Bangers Open Air, o maior festival de metal da América Latina, reforçando sua posição como um dos nomes mais relevantes do rock brasileiro na atualidade.
E atenção São Paulo, no dia 24 de janeiro elas se apresentarão na Jai Club (Rua Vergueiro, 2676, São Paulo), tocando o novo álbum na íntegra. Será um show inédito e exclusivo em comemoração a esse lançamento tão especial!
Crítica Social, barulho, velocidade e vingança. Violator não decepciona e mantém sua essência no lançamento de Unholy Retribution em São Paulo
Um lindo caos tomou conta do City Lights na tarde do penúltimo sábado de 2025. Entre os cafés descolados de Pinheiros e restaurantes de “comida afetiva”, uma longa fila de gente que destoava da região se estendia para ver o Violator lançar seu mais recente trabalho, Unholy Retribution.
23 anos depois da primeira apresentação em São Paulo, Cambito, Poney, Capaça e Batera, assim como o público, que é quase um quinto membro da banda, mantinham a energia caótica esperada. Pela pista voavam uma bóia de piscina em formato de donut, balões de camisinhas, tênis e muita gente no stage dive, numa ilustração perfeita da catarse que é um show do Violator. Apesar da ironia do vocalista PoneyRet Crucifier diz: “duas coisas que não combinam com Thrash Metal: show longo e ser velho, e estamos fazendo as duas”, a banda entregou um espetáculo. Gente subindo no palco, dividindo o microfone pra cantar junto, do jeito que o diabo gosta.
A noite foi uma realização do Kool Metal Fest, iniciativa que merece reconhecimento por organizar eventos democráticos e acessíveis, tendo um papel fundamental na renovação do público do metal. A sonorização estava excelente, casa lotada, mas o plano inicial era que o festival acontecesse gratuitamente no Tendal da Lapa, como é de costume do Kool. Infelizmente não foi possível, pois os eventos estão suspensos por lá em virtude do recente assassinato de Helen Vitai em frente ao local, após um Festival Punk. O episódio, que teria começado por um desentendimento fútil, expôs feridas profundas do underground. A banda não ignorou o contexto e Poney foi direto: “Por picuinhas de cena, pessoas se mataram. O inimigo não está aqui dentro. Vamos cuidar uns dos outros.” Estava dado o tom da noite, como espaço de união, não de disputa.
Outro momento muito bonito foi a reverência à memória de Alex Bucho, figura querida da cena metal, lembrado pela banda com respeito e emoção. Bucho faleceu vítima de COVID em 2021.
Clássicos como Atomic Nightmare e Respect Existence Or Expect Resistance foram acompanhadas em coro pelo público, dividindo espaço com faixas do novo disco, como Persecution Personality, Vengeance Storm e The Evil Order. Unholy Retribution foi lançado em 2025 com apoio da Kill Again Records, mantendo a sonoridade rápida do Thrash Old-School, que já é marca da banda.
Nota: no show deu pra sentir um um cheirinho de Death Metal aqui e ali. As letras são carregadas de um discurso abertamente Antifascista, coerente com os posicionamentos da banda, além da temática da vingança.
Reduzir o show do Violator a uma boa execução técnica seria injusto. A banda fez questão de contextualizar o momento político e social, criticando enfaticamente o ex-presidente da república, o genocídio contra o povo palestino em Gaza e reafirmando o orgulho da América do Sul e da importância da região para o metal. A banda tem o Thrash como ferramenta de crítica social, não como trilha sonora alienada. Num país que insiste em silenciar vozes dissonantes, Poney segue gritando.
TEXTO POR JULIANA DE ALMEIDA
FOTOS POR GUILHERME SORBELLO
Após 32 anos sem lançar material de estúdio, o Coroner está oficialmente de volta com Dissonance Theory, seu sexto álbum de estúdio, lançado em 17 de outubro de 2025 pela Century Media Records. Longe de ser apenas um trabalho nostálgico, o disco mostra uma banda ativa, atual e artisticamente inquieta, reafirmando seu status como um dos nomes mais inteligentes e desafiadores da história do metal extremo.
Desde o final dos anos 80, o trio suíço construiu uma reputação singular ao expandir os limites do thrash metal, incorporando técnica, dissonância e estruturas progressivas quando o gênero ainda era majoritariamente direto e agressivo. Álbuns como No More Color, Mental Vortex e Grin influenciaram gerações de músicos e ajudaram a pavimentar o caminho para o metal técnico moderno.
Em Dissonance Theory, o Coroner retorna sem tentar reproduzir fórmulas do passado. O que se ouve é uma banda madura, pesada e contemporânea, que dialoga com o progressive metal, o groove metal e atmosferas mais densas, sem jamais perder sua identidade cerebral.
A produção é moderna, limpa e poderosa, valorizando cada instrumento. O baixo de Ron Broder assume papel central, as guitarras de Tommy Vetterli seguem afiadas e cheias de personalidade, enquanto a bateria de Diego Rapacchietti sustenta as constantes mudanças rítmicas com precisão impressionante.
Faixa a faixa
Oxymoron
A curta introdução instrumental não é apenas um aquecimento, mas um statement conceitual. As camadas de guitarra criam tensão sem resolução, com dissonâncias propositais e sensação de instabilidade. O título já antecipa o conceito central do disco: ideias opostas coexistindo. É uma abertura fria, calculada e desconfortável — exatamente como o Coroner sempre gostou de soar.
Consequence
Aqui o álbum realmente começa. A música se desenvolve sobre um groove pesado e controlado, com riffs que não seguem linhas óbvias de thrash tradicional. O baixo de Ron Broder guia a narrativa, enquanto a bateria trabalha variações sutis de tempo que mantêm a tensão constante. Liricamente, a faixa aborda a inevitabilidade das ações humanas e seus desdobramentos, refletindo maturidade e tom reflexivo.
Sacrificial Lamb
Uma das faixas mais densas e atmosféricas do álbum. A estrutura é construída lentamente, quase como um ritual, com riffs repetitivos e sensação de opressão crescente. A música fala sobre culpa, submissão e sacrifício imposto, tanto em níveis pessoais quanto sociais. O peso aqui não vem da velocidade, mas da insistência e da repetição hipnótica.
Crisium Bound
Tecnicamente uma das músicas mais ricas do disco. Alterna grooves pesados com seções mais intrincadas, onde guitarra e bateria dialogam de forma quase matemática. Apesar da complexidade, tudo soa orgânico. A letra evoca imagens de aprisionamento emocional e psicológico, reforçando a sensação de tensão contínua. É Coroner em estado puro: técnico, pesado e cerebral.
Symmetry
Uma das faixas mais acessíveis do álbum, mas sem perder profundidade. A ideia de simetria se reflete diretamente na música, que equilibra partes agressivas com momentos mais contidos. Os riffs são mais memoráveis e diretos, enquanto a letra discute ego, vaidade e o desejo humano por equilíbrio e controle, sempre de forma crítica.
The Law
Pesada, arrastada e opressiva, essa música se destaca pelo clima quase sufocante. Os riffs graves criam uma muralha sonora, enquanto a bateria mantém um andamento firme e ameaçador. Liricamente, aborda sistemas de poder, autoridade e imposição, soando fria e implacável — não há catarse aqui, apenas peso contínuo.
Transparent Eye
Uma das faixas mais modernas do disco em termos de sonoridade. O Coroner flerta com grooves mais contemporâneos, sem soar genérico. Os riffs são marcantes e o refrão é sutilmente memorável, ainda que distante de qualquer fórmula tradicional. A letra trata de vigilância, exposição e perda de privacidade, dialogando com temas atuais.
Trinity
Aqui a banda aposta em construção emocional. A música cresce aos poucos, alternando momentos introspectivos com explosões de peso controlado. O trabalho de guitarra se destaca não pela velocidade, mas pela escolha de notas e pela sensação narrativa do solo. A letra pode ser interpretada de forma simbólica, abordando dualidade, conflito interno e coexistência de forças opostas.
Renewal
Uma das faixas mais energéticas do álbum e símbolo claro do retorno da banda. “Renewal” tem riffs mais diretos e impacto imediato, mas ainda recheados de detalhes técnicos. A música soa como uma afirmação: o Coroner está de volta, renovado, mas fiel à sua identidade. O refrão, mesmo discreto, é um dos momentos mais marcantes do disco.
Prolonging
O encerramento foge de qualquer final explosivo. Mais curta e experimental, a faixa aposta em atmosfera, texturas e sensação de continuidade. É um final contemplativo, quase meditativo, que deixa o ouvinte em suspensão. Em vez de fechar um ciclo, Prolonging sugere que o discurso do álbum permanece ecoando.
Conclusão
Dissonance Theory é um álbum profundamente coeso, onde cada música cumpre um papel dentro de um conceito maior. Não há fillers nem concessões comerciais. As composições priorizam tensão, dissonância e densidade emocional, refletindo um mundo fragmentado e contraditório.
Musicalmente, o Coroner prova que envelhecer não significa simplificar. O trio entrega um disco tecnicamente sofisticado, pesado e relevante, dialogando com o metal moderno sem abandonar suas raízes intelectuais.
O Coroner não apenas retorna — reafirma sua relevância. É um álbum exigente, feito para audições atentas, que cresce a cada nova escuta. Um trabalho que honra o passado da banda, mas aponta para frente, mantendo vivo o espírito inquieto que sempre definiu o Coroner.