Mais que palavras, a banda capitaneada pelo virtuoso guitarrista Nuno Bittencourt, Extreme, trouxe ao palco do Monsters of Rock, no último dia 4 de abril, energia, peso e muitos clássicos, muito além das famosas baladas de voz e violão.
No meio tarde, exatamente às 16:45, junto com uma rápida chuva torrencial, que serviu para refrescar e resfriar muita gente, Gary Cherone subiu ao palco para cantar It (‘s a Monster), faixa clássica do renomado Pornograffitti, segundo álbum da banda, de 1990, enquanto Nuno Bettencourt, Pat Badger e Kevin Figueiredo faziam uma introdução vigorosa, o que foi bem interessante, já que o público vinha da energia do show do Halestorm.
A expressão de surpresa no rosto das pessoas era impagável, ao perceberem que Extreme era muito mais que More Than Words e Hole Hearted, embora fossem, visivelmente, as mais aguardadas.
A chuva forte foi até o final do hit Decadence Dance, que fez a plateia pular e aproveitar o show como antigamente, sem gravações, pelo menos na pista. Cherone, no alto de seus 64 anos, tem uma performance invejável, com joelhos melhores que os meus, beirando os 40 ou os seus, provavelmente. Quantos agachamentos e pulos “sussurros” no ouvido do público… Gary é um frontman para não se pôr defeito; e é mágico como tudo te remete a uma lembrança, pois toda aquela forma de ocupar o palco, dançando e pulando, me lembrou sua fase (odiada) no Van Halen (que a mim, agrada), ou sua homenagem ao Queen.
#REBEL entra no palco já com uma fina garoa, tornando possível para o público registrar algum trecho do show. A cada música, Gary se mostrava satisfeito, mas pouco falante. Era como se estivesse se poupando. Mas Nuno assumia a função de “conversador”, talvez o fato dele ser português ajudasse, pois não existia a barreira da língua. E Nuno conversou muito, principalmente a cada interlúdio, onde ele colocava um metrônomo e mostrava seu virtuosismo, muitas vezes num violão, mas sem ser maçante. E, embora a internet compartilhe à exaustão trechos de More Than Words, onde o guitarrista se cala, deixando o público cantar, em diversos momentos, percebemos inserções de genialidade nas músicas; pequenos improvisos clássicos (inclusive nesta “simples” voz e violão), onde tudo ganha um toque a mais de beleza, sem exageros.
Em pequenas demonstrações, Nuno Bittencourt mostrou o quanto é subestimado pela mídia especializada, o quanto ele não é lembrado em listas de melhores do mundo que, frequentemente, aparecem por aí. Este show, este pequeno fragmento da carreira desse artista, mostra o quanto todos foram injustos com ele. Voltando ao show, entre conversas e solos de violão, Play With Me ganhou luz com Kevin Figueiredo fazendo um pequeno solo e, depois, fazendo todo o Allianz Parque colaborar em We Will Rock You!
Am I Ever Gonna Change surge com Cherone contando o quanto estava feliz por estar ali, naquela grande festa. O público se animou bastante, e se viu contagiado pela energia do show. Neste momento, o sol já brilhava novamente, e quase não havia provas de que em algum minuto tivemos um temporal. Thicker Than Blood passa tão rápido, que quase não foi percebida, aliás, o show pareceu ser bastante rápido!
O palco apaga as poucas luzes que o decoram, um violão folk todo decorado é entregue ao Nuno (ou Cleo, como muita gente insistiu em gritar). Antes de qualquer som, o virtuose brinca com o público, falando que a primeira vez em que estiveram no Brasil, em 1992… de repente, ele mesmo interrompe o pensamento e pergunta: “quem esteve no nosso show em ‘92?”, muita gente se manifesta positivamente. O guitarrista sorri e fala em tom de piada “pois estamos velhos, então vamos tocar uma música velha, que tocamos naquele show!” A intro de Hole Hearted é testada, como num jogo despretensioso… será que era agora? O show parecia estar no início ainda… mas era ela, sim. Os primeiros acordes da introdução novamente e dignamente tocados, e aqui aconteceu a primeira canção 100% cantada pelo público, durante o show do Extreme. Realmente Gary Cherone não teve trabalho, pois enquanto a plateia cantava integralmente a letra, Pat fazia as partes mais altas e Nuno fez o que ele sempre faz. Foi ali a primeira vez que muitos tiveram a oportunidade de ver Kevin Figueiredo com mais detalhes, pois ele veio para a frente do palco com bumbo e meia-lua, para fazer sua percussão, novamente como o Queen em 39.
Midnight Express aparece para nos informar que o show caminha para a sua parte final, e é quase impossível entender como passou tão rápido! Havia uma certa preocupação do público, que não tinha visto “Rest in Peace” ainda, um clássico absoluto da banda, presente no terceiro disco de ‘92, Three Sides to Every Story. Confesso que eu também esperei por essa…
Flight of the Wounded Bumblebee, fez barulho com a plateia, que respondeu a altura. Mas depois dessa música, Bittencourt senta, conversa um pouquinho, recebe um novo violão e mostra mais um pouquinho de todo o seu talento. E no meio desse interlúdio, o português chama Gary Cherone ao palco e diz “agora eu preciso da ajuda do meu amigo, e de vocês também!”. A plateia sabia o que estava para acontecer, e muitos começaram a se emocionar ali (eu, por exemplo). Então Gary, toma o microfone e sussurra: “More Than Words!”. Sim, o momento que todos estavam esperando, aconteceu, aquelas simples notas, que nas mãos de Nuno Bittencourt se transformam, magicamente, em história, aconteceu. Cherone não precisava cantar, mas cantou. Cantou como quem canta com amigos, abraçados, marcando o momento para sempre. E eu, que sempre fui uma das pessoas que compartilhou o vídeo dessa música, repetindo, exaustivamente, a mesma legenda “é brega, mas eu amo”, realizei o sonho de ter o meu próprio registro desse tema para compartilhar. Todo o estádio filmou, todo o estádio abraçou até quem não conhecia, todo o estádio acendeu suas luzes e, mesmo de dia, a mágica surgiu. Que momento! Ao final da música, o vocalista agradece, visivelmente emocionado, afinal, quem diz mais do que palavras querem dizer, sempre se emociona com o que elas oferecem para sentir.
Get the Funk Out e Rise finalizam com o astral lá em cima, o que não foi um show, mas uma catarse, com direito a lágrimas, chuva e muito amor.
Setlist
It (‘s a Monster)
Decadence Dance
#REBEL
Play With Me (with Queen’s “We Will Rock You” intro)
Am I Ever Gonna Change
THICKER THAN BLOOD
Hole Hearted
Midnight Express
Flight of the Wounded Bumblebee
More Than Words
Get the Funk Out
RISE
Texto por: Amanda Basso
Fotos por: Ricardo Matsukawa















