Se você pensou que Axl Rose e companhia, “apenas”, desfilaram seus clássicos para a alegria de todo o tipo de fã, se enganou. A banda, que está habituada a trocar o set durante a mesma turnê, decidiu não seguir a máxima dos festivais de tocar somente as mais conhecidas, mas incluir algumas músicas para agradar aquele “gunner” adormecido lá nos anos ‘90. E assim, além de trabalhos mais recentes, como Nothin’ e Atlas, do single lançado em 2025 e Perhaps, 2023, o público pôde se deleitar com Dead Horse, Bad Obsession e Bad Apples (que não aparecia nos palcos desde 1991).
O público vinha de uma maratona de quase 10 horas de música ininterrupta, encarando um sol de bronzear qualquer um e uma chuva de lavar a alma (e trazer algum resfriado, por que não?), sem perder o pique; se respeitando, num ambiente bem familiar, com uma faixa etária impossível de classificar: tivemos crianças e adolescentes em seu primeiro show (que não tinha uma galinha pintada ou um casal que faz músicas com violão e sucatas), adultos “ratos de festivais” e pais e avós que saíram para curtir uma tarde musical, afinal, o lineup, como vimos até aquí, permitiu isso.
Por volta das 20:30, alguns vídeos começam a passar no telão; o (ainda) Allianz Parque começa a gritar como se não houvesse amanhã. Na verdade foram gritos, choro, uma felicidade desesperada por saber o que estava por vir. “You know where a fuckin’ you are?[…]” os primeiros acordes emendando o grito que já não era tão alto, tão forte, mas carregava toda a fúria do legado de uma banda que nunca desaprendeu o que dizer. “[…] You’re in the jungle, baby […]” e Welcome to the Jungle dá seus primeiros passos no palco com toda a audiência pulando. Pessoas da arquibancada diziam senti-la balançar. Essa é a força e o peso da história. Axl Rose não precisou se dar ao trabalho de cantar, os súditos saudaram seus reis de onde estavam.
E com Slash presente na formação, era possível tocar músicas de sua carreira fora do Guns, então, por que não Slither, hit aclamado do explosivo Velvet Revolver. Agora tudo era possível, tanto que ela estava lá no começo do set, segunda a ser tocada. Para aqueles que falam “ah, mas a voz do Axl está péssima, parece o Mickey…” é sério que você vai pagar uma média de 800 reais para reclamar disso? Não faz sentido! Ele faz valer cada centavo que o fã investe para vê-lo: um show de mais de duas horas, para um senhor na casa dos 60 que já abusou do próprio corpo de todas as formas possíveis; músicas diferentes no set, para todo mundo ser agradado; tour gigantesca em cada país… e a contagem segue. Óbvio que a voz dele não é como 40 anos atrás, mas você é? Depois dessa defesa, vamos com o restante do show!
Duff ao centro do palco, com aquele riff que todos nós conhecemos desde ‘87, It’s So Easy começa e claro que todos cantariam juntos – público, Axl e Duff. Era como um sonho. Axl é consciente de que sua voz mudou consideravelmente, e seu drive que rasgava a carne mais resistente também se foi, mas ele tem novos subterfúgios que não prejudicam o show, muito menos sua performance: a banda fica um pouco mais evidente, enquanto o seu agudo mais frágil parece sumir na multidão. Mas, incrivelmente ele continua correndo o palco, interagindo com todos os integrantes, não apenas os originais, o que é muito bom, mostrando que ele não esquece de quem esteve ao seu lado sempre, caso do guitarrista Richard Fortus, membro da banda desde 2002. Uma pausa para a banda, finalmente, conversar com a plateia, que gritava a plenos pulmões a cada palavra. E então, o primeiro cover que já é considerado autoral surge: Live and Let Die. Famoso clássico de Sir Paul McCartney, na era Wings, Guns N’ Roses popularizou essa pedrada em 1991, com o lançamento do megalomaníaco Use Your Illusions.
Depois de toda a correria de senhor William, luzes que piscaram e dançaram tão intensamente, que seriam capazes de te hipnotizar, Slash sobe numa pequena elevação, ao centro do palco e começa um pequeno improviso, que emenda com os primeiros riffs displicentes de Mr Brownstone. E mesmo com todo o trava línguas presente na letra, todos cantaram! O público parecia não acreditar, mesmo àquele que acompanha a banda em todas as suas passagens pelo país, mesmo àquele que não estava presenciando aquele cataclisma pela primeira vez. Era o vhs do show de Tokyo 92 acontecendo na sua frente; foi como ver Slash com sua camiseta do Pepe Le Pew com sua guitarra mockingbird vermelha. Era a mágica da lembrança ganhando forma. Minha primeira falta de ar aconteceu neste momento: Bad Obsession! Eu olhei para os lados e vi menos pessoas felizes com essa escolha, mas quem sabia de fato, o que estava acontecendo, estava pulando no colo do amiguinho.
Rocket Queen chega depois de uma pequena apresentação do baterista Isaac Carpenter, tornando todo o Allianz Parque feliz de novo, com esse clássico indiscutível. E depois de tanta alegria, um fôlego: Perhaps acontece. A plateia não trata esse futuro clássico com o mesmo entusiasmo, mas é normal, comparando com que estava acontecendo até então. Ela ainda não faz parte da memória afetiva, dos fãs, mas futuramente…
Axl Rose vem ao centro e começa a falar com a plateia, de como estava satisfeito em estar de volta e como era bom ver que todos estavam cantando e se divertindo, então, ele daria mais um motivo para isso e, num andamento um pouco mais rápido que o normal, Slash começa Dead Horse, mais uma responsável pela minha asma dar as caras, e mais uma responsável por, novamente, dividir o público. Então, ao final desta, Rose brinca, dizendo estar afim de dançar Macarena, e entra em cena Double Talkin’ Jive. Para quem não entendeu a piada, ambas possuem um apelo latino. E trocadilhos infames à parte, Nothin’ chega sem causar nada, nenhuma emoção aparente, acredito que também seja o caso dela não remeter a nenhuma lembrança nostálgica. Porque, no final das contas, é isso: Guns N’ Roses nos transporta para lugares muito especiais em nossas vidas; uma banda que tem um trabalho atual competente, mas que vive, majoritariamente, de seu legado. Meio do show e não percebemos o tempo passar. E olha que estou falando de mais de uma hora de duração, aqui! O Exterminador do Futuro aparece no telão e Carpenter destrói sua bateria com a introdução de You Could Be Mine, e a plateia volta para a mão de Axl Rose.
Cenas de Rebeldia Indomável, clássico filme de 1967, aparecem no telão e sabemos que aquele assobio triste e sombrio começaria. Civil War, melancólica, triste e explosiva passa o recado para todos aqueles que seguem matando a sua população a troco de um poder efêmero e quase imaginário.
Já para manter a homenagem a Ozzy Osbourne, como Axl Rose prometeu na despedida Back to the Beginning, embora todos esperassem Sabbath Bloody Sabbath, como vinha acontecendo, Junior’s Eye, presente em Never Say Die!, de ‘78.
Para os fãs, ou gunners, como eu citei no começo, essa intro já valeria a música toda, Only Women Bleed, hit de Alice Cooper, de ‘75, surge com uma luz fantástica, destacando Slash ao centro do palco, com sua lendária Gibson SG Double Neck. Senhoras e senhores, Knockin’ On Heaven’s Door (mais uma música de Bob Dylan que fez sucesso com outra voz). Mais uma vez, uma mescla do vhs do show do Tokyo Dome de ‘92, com cenas do Rock in Rio ‘91. Foi como me enxergar pequena, sentada no sofá, chorando com essas fitas no vídeo cassete, e minha mãe dizendo que não aguentava mais o escândalo todo.
Emoção à parte, New Rose traz Duff aos vocais principais, nesse cover do The Damned, presente no álbum “The Spaghetti Incident?”. E quem achou que “Axl envelheceu, está mais maduro, não vai trocar de roupa durante o show, quebrou a cara!” Teve troca de roupa o tempo todo. Pois depois de um figurino mais sequinho, mais cheiroso, William apresenta a banda e Atlas sobe ao palco, mantendo a empolgação que o baixista deixou. Mas agora era a vez dele, que segundo Axl, é seu parceiro desde 1986, Slash começa seu solo. Não foi longo, foi melodioso e sem muitos improvisos com escalas mirabolantes e velocidade da luz, como havíamos presenciado na mesma tarde com Yngwe Malmsteen e Nuno Bittencourt. Mas algo acessível, ainda mais sabendo o que caminhava para acontecer: a introdução das introduções. Sweet Child O’ Mine, a responsável por fazer você, o seu amigo, a mãe e a avó deles conhecerem Guns N’ Roses. Público uníssono! Um avião supersônico não causaria o barulho que esse estádio fez. Luzes dos celulares acesas, uma massa sonora que você era capaz de sentir bater no peito. Lágrimas e mais lágrimas nos olhos felizes daquele público satisfeito (e nos meus também).
E eu juro que pensei que a emoção daria uma normalizada, até o momento em que Rose apresenta Dizzy Reed, que eu, até então, não havia notado a presença. Estranged aparece como uma punhalada no peito. Aquele pedido de socorro que tocou toda uma geração, que foi a resposta à insatisfação com a própria existência, estava ali. E como fã é maluco, balões de golfinhos apareceram perto da grade, em referência a um trecho do clipe. Axl sorri para essa interação da plateia. Confesso que, neste exato momento, durante a execução dessa música, meu chão não existiu, aliás, nada existiu: apenas a banda e eu! Mais uma vez eu acreditei na quebra de emoção, quando, ainda durante a fala de Axl, Isaac Carpenter começa a bater no seu cow bell, me fazendo ficar totalmente descrente. Não, eles não fariam isso, mas fizeram. Bad Apples, que não aparecia num set desde a turnê de divulgação do Use Your Illusions, surgiu! E é interessante perceber como esse tipo de música faz bem para o Axl. Ela estava mais cadenciada, e, por ter um tom médio, deixa o vocalista mais confortável com o próprio desempenho.
Mais uma troca de roupa e, sem perceber, o piano entra em cena. Bom, já sabemos o que esperar, né? November Rain. A chuva já tinha refrescado e resfriado parte do público, mas, além das luzes dos celulares, o céu pintava estrelas brilhantes e uma lua gigantesca para dar ares de obra de arte a essa carta romântica de despedida. O final do show se aproximava e, ao mesmo tempo que estávamos em êxtase pela experiência, o desespero de saber que o tempo estava acabando e 4 músicas, tradicionais em shows, faltavam, num lugar que só caberiam duas. E uma delas apareceu aqui, o apito do trem soou, e Nightrain começou. Pista e arquibancada unidas num só pulo, nem parecia que já havia passado mais de duas horas de show. E antes de começar aquela que encerra todo set, Axl brinca “where is Izzy?” e faz com que todos repitam que ninguém se importa. Paradise City trouxe o fim da festa e o apagar das luzes, junto com a catarse de um show incrível e a decepção de alguns por não poder abraçar seu par ao som de Patience e Don’t Cry.
Como eu disse lá no comecinho, esse show foi para agradar aos fãs, principalmente os seus filhotes criados em 1987, seus gunners, que gastaram mesadas e dinheiro de lanches de escola em revistas Bizz e Som Três, e passaram anos admirando pôsteres e sonhando com seu ídolo. Eu me incluí nesse meio. E, embora hoje a minha praia seja um pouquinho diferente, a Amanda de 9 anos realizou seu sonho de encontrar o amor de sua vida, e acabou emprestando sua emoção para a Amanda de 39 contar a todos como essa história aconteceu.
Setlist
Welcome to the Jungle
Slither
It’s So Easy
Live and Let Die
Mr. Brownstone
Bad Obsession
Rocket Queen
Perhaps
Dead Horse
Double Talkin’ Jive
Nothin’
You Could Be Mine
Civil War
Junior’s Eyes
Knockin’ on Heaven’s Door
New Rose
Atlas
Slash Guitar Solo
Sweet Child o’ Mine
Estranged
Bad Apples
November Rain
Nightrain
Paradise City
Texto por: Amanda Basso
Fotos por: Guns N’ Roses














