O caos ainda vive: Cronos entrega o melhor Venom em décadas
Após oito anos sem lançar um disco de inéditas, o lendário Venom retorna com Into Oblivion, um álbum que não tenta modernizar o grupo à força, mas sim potencializar aquilo que sempre fez da banda uma instituição do metal extremo: sujeira, peso, agressividade e atitude punk carregada de enxofre.
Lançado pela Noise Records em parceria com a BMG, o disco mostra um Venom extremamente confortável em sua própria identidade. O trio formado por Cronos, Rage e Dante soa mais coeso do que nunca — e isso aparece tanto nas composições quanto na produção.
A gravação passou por inúmeros problemas durante os últimos anos. Em entrevistas promocionais, Cronos comentou que o disco “custou sangue, suor e lágrimas”, enquanto Rage afirmou que queria um álbum onde “nenhuma música soasse igual, mas que todas funcionassem juntas”. As declarações apareceram em veículos como The PRP, Distorted Sound Magazine e Metal Planet Music. Já em entrevista ao RockMusicStar.com, Rage e Dante revelaram que parte das gravações precisou ser refeita praticamente do zero após uma falha técnica comprometer toda a bateria do álbum.
Essa dificuldade acabou beneficiando o resultado final. A produção de Into Oblivion é pesada, orgânica e muito viva. O Venom evita gatilhos exagerados, edições digitais excessivas e compressão moderna. O som parece capturado “na raça”, como se a banda estivesse tocando dentro de uma garagem infernal em Newcastle. O baixo distorcido de Cronos domina a mixagem, Rage despeja riffs absurdamente encorpados e Dante entrega talvez sua melhor performance desde que entrou no grupo.
A capa mantém a tradição clássica da banda: visual satânico, atmosfera apocalíptica e aquela estética exagerada que o Venom ajudou a transformar em referência para o black metal mundial. Não há tentativa de parecer sofisticado ou artístico demais — a intenção é transmitir caos e blasfêmia, exatamente como nos velhos tempos.

Faixa a faixa
1. Into Oblivion
A abertura já mostra que o Venom veio disposto a esmagar. Dante inicia a faixa destruindo a bateria antes de Rage entrar com um riff grotescamente pesado. A música mistura velocidade com groove e traz um dos refrões mais fortes do álbum. Cronos canta de forma agressiva, quase cuspindo as palavras, enquanto a produção entrega um clima cru e ameaçador. É uma abertura que imediatamente lembra por que o Venom influenciou praticamente toda a música extrema.
2. Lay Down Your Soul
Primeiro single do álbum e talvez a faixa mais nostálgica do disco. Existe uma clara ligação espiritual com “Black Metal” e com o Venom do início dos anos 80. O refrão é feito para ser berrado ao vivo, enquanto a pegada punk deixa tudo ainda mais explosivo. A música funciona como uma homenagem à própria história da banda sem soar reciclada.
3. Nevermore
Aqui o grupo mergulha em uma atmosfera mais obscura e teatral. Inspirada claramente pelo universo de Edgar Allan Poe, a faixa alterna riffs rápidos com momentos mais cadenciados. Rage entrega alguns dos melhores riffs do disco, enquanto Cronos assume uma interpretação quase caricatural — mas exatamente do jeito que o Venom sempre funcionou melhor.
4. Man & Beast
Uma das mais pesadas do álbum. O riff principal tem peso quase doom metal em alguns momentos, mas a banda rapidamente acelera tudo com uma energia tipicamente speed metal. O refrão é simples, direto e extremamente eficiente. Existe um clima animalesco na música inteira, reforçando o conceito da letra sobre instinto, violência e brutalidade humana.
5. Death The Leveller
Velocidade, sujeira e agressividade. Essa faixa poderia tranquilamente existir em algum disco clássico do Venom dos anos 80. Dante conduz a música como um tanque de guerra enquanto Cronos alterna gritos rasgados com versos quase falados. O destaque aqui é a sensação de caos constante que a produção consegue manter.
6. As Above So Below
Talvez a música mais obscura do disco. O andamento mais lento cria uma atmosfera quase ritualística, enquanto os riffs arrastados ajudam a construir um clima sufocante. As letras mergulham em ocultismo e satanismo clássico, remetendo diretamente à fase mais sombria da banda. Rage trabalha muito bem as camadas de guitarra aqui.
7. Kicked Outta Hell
Uma pedrada absoluta. Rápida, violenta e extremamente divertida. Cronos brinca com a ideia de ter sido expulso do inferno por ser maligno demais até para Satanás. O humor ácido típico do Venom aparece forte nessa faixa, que mistura thrash metal primitivo com energia punk de boteco. Um dos pontos altos do álbum.
8. Legend
Uma faixa quase autobiográfica. O Venom olha para a própria história e para o legado que construiu dentro do metal extremo. O início tribal da bateria dá personalidade à música, enquanto Rage despeja riffs cheios de harmônicos artificiais. Existe um tom épico aqui que raramente aparece nos discos da banda.
9. Live Loud
O lado rock’n’roll do Venom aparece com força total. É praticamente um hino para tocar no último volume possível. Direta, simples e cheia de energia, lembra bastante a influência eterna do Motörhead sobre a banda. O refrão é absurdamente viciante.
10. Metal Bloody Metal
Autocelebração total. O Venom falando sobre metal, barulho e destruição como se ainda estivesse em 1982 — e isso funciona perfeitamente. O groove dessa faixa é um dos mais fortes do disco, e Cronos parece se divertir absurdamente durante toda a execução.
11. Dogs Of War
Mais agressiva e ríspida, com riffs quase militares e clima de batalha constante. A música traz elementos próximos do black metal mais primitivo, mas sem abandonar o lado rock’n’roll do grupo. Não é a mais memorável do álbum, porém mantém o nível de agressividade lá em cima.
12. Deathwitch
Velocidade insana e riffs serrilhados dominam essa faixa. Dante praticamente atropela tudo atrás da bateria enquanto Rage despeja solos caóticos e cheios de feeling old school. A música parece saída diretamente da era Welcome To Hell.
13. Unholy Mother
O encerramento surpreende ao adicionar elementos mais atmosféricos e até discretas camadas melódicas. Ainda assim, o peso continua absurdo. Existe uma sensação apocalíptica durante toda a faixa, funcionando como um encerramento perfeito para um álbum carregado de caos e destruição.
Veredito
Into Oblivion não reinventa o Venom — e nem precisava. O grande mérito do álbum é mostrar uma banda veterana ainda inspirada, perigosa e relevante dentro do metal extremo. O trio consegue equilibrar nostalgia e peso moderno sem perder a essência suja e infernal que transformou o grupo em lenda.
O disco não alcança o status intocável de clássicos como Black Metal ou Welcome To Hell, mas facilmente entra entre os melhores trabalhos da fase moderna da banda. Cru, agressivo, divertido e carregado de personalidade, Into Oblivion prova que Cronos ainda sabe exatamente como fazer barulho da maneira certa.
Nota final: 4/5
