O universo rock n’ roll é dividido em diversos subgêneros, desde os mais extremos e agressivos aos mais polidos e melodiosos. Costumo dizer que há sempre um rock pra cada tipo de pessoa existente. Um dos subgêneros mais aclamados pela galera antiga e ao mesmo tempo enxovalhado pela galera mais nova ou até mesmo pelo pessoal que curte um som extremo é o Soft Rock.
Comumente associado á bandas que figuram nas rádios Fm, o gênero é, segundo a já citada turma do metal extremo, tido como “rock pra quem não gosta de rock”. Mas será mesmo que o estilo merece tanta crítica ou aversão somente por não possuir guitarras pesadas? Pra compreendermos o tema da coluna dessa semana devemos buscar entender primeiro daonde veio o termo Yacht Rock, por isso comecei falando de Soft Rock. O termo Yacht Rock (ou rock de iate) surgiu por meio da série de mesmo nome, no ano de 2005, e é o mesmo que AOR Westcoast ou rock orientado para adultos da costa oeste. Assim como Seattle é referência no Grunge, a Bay Area para o Thrash Metal e a Sunset Strip em Los Angeles para o Hard Rock, a costa oeste (sul) da Califòrnia também possui seu som característico, inspirado no estilo de vida luxuoso de seus moradores. O Yacht Rock seria então uma subdivisão dentro do AOR, que por sua vez é uma mistura do Hard Rock e do Progressivo com o Soft Rock e o Jazz. Confuso? Calma que você já vai entender melhor essa deliciosa confusão.
Esse termo surgiu de maneira pejorativa, mas posteriormente obteve reconhecimento e respeito devido ao seu instrumental sofisticado e alto nível técnico de seus músicos. A qualidade de gravação em estúdio também chama atenção: técnicas rebuscadas, arranjos que mesclam a complexidade harmônica do Jazz e do Rock Progressivo, muitas vezes temperado com uma dose de Country e R&B, além de uma veia romântica e melancólica absurdamente atraente aos ouvidos.
A essa altura boa parte dos leitores deve estar se perguntando quais artistas se enquadram no estilo. Antes de passarmos a falar das bandas, vamos esclarecer uma coisa: os artistas que tem trabalhos notáveis nessa praia Yacht Rock não levantam tal bandeira como artistas de outros gêneros como o Metal, o Jazz, entre outros. Normalmente as bandas desse estilo são compostas por músicos de estúdio, que já trabalharam com bandas e artistas tão diversos que é impossível confiná-los a um estilo apenas. A seguir indicarei 10 discos de artistas do gênero e suas faixas de destaque. Alguns artistas já gravaram álbuns que transitaram por outros gêneros, mas lançaram alguns que são verdadeiras obras-primas do Yacht Rock.
1 – Christopher Cross – O primeiro artista, o mais “true” do estilo e talvez o maior expoente, atende pelo nome de Christopher Cross. Com seu primeiro disco, autointitulado e lançado em 1979, o gordinho simpático com cara de vovô gente boa nos presenteou com 2 clássicos absolutos: a belíssima balada Sailing (com certeza uma das responsáveis pela “confecção” e nascimento de 90% dos leitores do site na casa dos 40 anos, pode perguntar aos seus pais) e a “metálica” Ride Like The Wind. A essa altura todos sabem que essa música foi regravada pelo Saxon, e se você torcia o nariz pras rádios mais lights sinto lhe informar que essa música não era um clássico do metal antes.
Outros discos de Christopher Cross merecem a audição se você deseja conhecer o estilo melhor, porém o debut do cara é indispensável a qualquer amante de boa música.
2 – Steely Dan – Capitaneado pelo saudoso Walter Becker e por Donald Fagen, a banda teve vários músicos notáveis em sua
formação, tais como o lendário baterista Jeff Porcaro, o guitarrista Larry Carlton e o estupendo tecladista Michael Mcdonald, que também figuraria em outra banda importantíssima para o estilo, os Doobie Brothers.
Unindo a sofisticação do jazz com harmonias e linhas vocais pop, a banda possui um estilo único que foi classificado como Yacht Rock (de 2005 pra cá) ou Soft Rock, mesmo contendo muito mais de Jazz e Pop do que de Rock n’ Roll propriamente dito. Ainda assim, músicas como Kid Charlemagne e Don’t Take Me Alive deixavam claro que a fundação dos caras era o rock n’ roll. A latinidade de Do It Again, com seus órgãos que remetem ao Deep Purple ou até mesmo ao The Doors, confundia os ouvintes (até hoje me perguntam sobre essa canção como se tivesse sido lançada pelo Santana), enquanto Deacon Blues surpreende nossos ouvidos com seus acordes diminutos usados como nota de repouso, num claro exemplo de bom gosto por parte dos músicos.
Todos os discos do Steely Dan são maravilhosos sem exceção, mas vou deixar como sugestão o premiado Aja, lançado em 1977.
3 – Michael Mcdonald – Com voz marcante, de alcance inacreditável (até hoje), o renomado tecladista lançou em 1982 o disco If That’s What It Takes, que contém os hits I Keep Forgettin’ (Every Time You Near) e I Gotta Try, além das excelentes e agradáveis No Such Luck e Believe In It.
O time que tocou com Michael nesse disco é um show a parte: Steve Lukather, Robben Ford e Dean Parks nas guitarras, Louis Johnson ( a lenda do funk) e Mike Porcaro no baixo, Jeff Porcaro e Steve Gadd na bateria, Greg Phillinganes e Michael Omartian nos pianos, entre outros. Colocando uma tímida pegada R&B, misturada ao Rock e ao funk, Michael lançou um dos melhores discos do gênero, consolidando-se como um dos maiores tecladistas do estilo, senão o maior.
4 – The Doobie Brothers – Formado na Califórnia em 1970, o grupo tornou-se um ícone do Yacht Rock/Soft Rock devido a
mescla de complexidade e sutileza de seus arranjos.
O disco Minute By Minute, puxado pelo hit What A Fool Believes, composta por Michael Mcdonald e ninguém menos do que Kenny Loggins, foi o maior sucesso comercial do grupo, que está na ativa até hoje. O álbum inteiro é um primor de excelência técnica, com músicas com refrões agradáveis, exalando beleza sonora, como Open Your Eyes e Sweet Feelin’.
5 – Toto – Apesar de não ser uma banda puramente Soft Rock, o grupo de Steve Lukather é figurinha fácil em qualquer lista de AOR, Hard Rock e até mesmo Pop.
Justamente por causa de Lukather, é o grupo mais “guitarreiro” do estilo e para exemplificar isso trago o disco IV, lançado em 1982. Além dos mega hits Rosanna e Africa, o disco traz como destaque ainda a poppy funky Waiting For Your Love e a linda balada I Won’t Hold You Back, com seu refrão emotivo e cheio de sentimento.
6 – Boz Scaggs – O cantor e guitarrista da Steve Miller Band contou com os músicos do Toto para gravar seu disco mais
aclamado, intitulado Silk Degrees e lançado em 1976 (quando ainda nem havia Toto, diga-se de passagem), consolidando-o como um dos maiores expoentes do gênero.
Sua mescla de Rockabilly, Jazz e Rock deu tão certo que o disco é quase uma unanimidade entre fãs do estilo. O destaque fica por conta dos hits Lido Shuffle e a suingada Lowdown, além de What Can I Say.

7 – The Eagles – Quem conhece o Eagles apenas pelo disco/álbum Hotel California não sabe o que está perdendo. O disco seguinte, chamado The Long Run é daqueles álbuns que acabam ficando esquecidos por causa do mega sucesso alcançado anteriormente, o que é uma pena, pois a produção mais polida e a pegada mais Country/Jazz tornam esse disco um verdadeiro deleite para os ouvidos.
Os destaques ficam para a belíssima I Can Tell You Why, a blueseira Heartache Tonight e a maravilhosa The Sad Cafe.
8 – David Pack – David Pack é um produtor, guitarrista e vocalista renomado, famoso por ser membro do Ambrosia (um ícone do Soft Rock setentista) e por ter composto os maiores hits da banda.
Trago como sugestão seu primeiro disco solo, lançado em 1985 e intitulado Anywhere You Go. Além da faixa título, o destaque fica para a balada I Just Can’t Let Go, que conta com os arranjos de David Pack e a excelente participação de James Ingram nos vocais, além dos arranjos de teclado magistrais do “arroz-de-festa” Michael Mcdonald. Outro destaque fica por conta da doloridamente bela That Girl Is Gone, uma balada daquelas de fazer inveja ao Todd Rundgreen.
9 – Rupert Holmes – O cantor e escritor britânico lançou em 1979 o disco Partners In Crime, que contém os hits Escape (The
Pina Colada Song) e a poderosa Him, tocada à exaustão nas rádios de todo o mundo.
O disco inteiro passeia pelo som típico do Soft Rock, e além dos singles possui como destaque a faixa In You I Trust, com uma levada quase disco. A voz de Rupert é outro ponto alto, num grave melancólico e agradável de se ouvir.

10 – Gerry Rafferty – Lançado em 1978, o disco City To City traz a música Baker Street, que com certeza possui a segunda intro de saxofone mais famosa do mundo, obviamente perdendo pra Careless Whisper de George Michael.
O disco do escocês traz ainda a “pesada” e quase progressiva Home And Dry e Right Down The Line, que também tocaram nas rádios. Gerry, alcóolatra inveterado, viria a falecer em 2011, de insuficiência hepática, deixando esse maravilhoso disco como uma verdadeira referência no que se convencionou chamar de Yacht Rock.
Obviamente há músicas que ganham notoriedade ainda que seus discos não sejam exatamente clássicos. Artistas como America, Seals & Crofts, Little River Band, Fleetwood Mac, Beckett, entre outros, jamais poderiam ficar de fora de qualquer lista séria de Soft Rock.
A lista a seguir mostra canções que se tornaram ícones do Yacht Rock. Delicie-se e aproveite bastante caso conheça. Caso ainda não conheça, essa lista é uma boa oportunidade.
