Dizer que o show do alemão Udo Dirkschneider e sua banda em Fortaleza foi um dos mais aguardados da história do metal cearense jamais pode ser considerado uma mera falácia ou manobra publicitária. Foi mesmo. Literalmente. O show da U.D.O. foi anunciado no início de 2020 e, por causa da pandemia e problemas de saúde, passou por sucessivos adiamentos. Então, não foi como o show do IRON MAIDEN (que aguardamos ansiosamente, mas as suspeitas só se confirmaram alguns meses antes do show), nem como o primeiro da CANNIBAL CORPSE (que acreditávamos jamais poder ver na capital cearense, também foi confirmado meses antes) ou do METALLICA (que é um sonho ainda não realizado, nem há quaisquer indícios de que possa acontecer num futuro breve). A espera foi real. Ingressos comprados ainda no mundo antigo, pré-pandemia, quase perderam a cor. Pouco antes da chegada do baixinho alemão e sua trupe, mais um obstáculo teve de ser transposto. O Armazém, casa de show que tem abrigado a grande maioria dos shows de metal internacionais no Ceará, tinha sido alugado para outro evento. A casa pulou fora do barco. Embora já tenha sido reservada para o UDO, na ausência de uma confirmação definitiva, aceitou passar a noite para outro show. Daí foi uma correria para a produtora das datas de Fortaleza e Recife encontrar outro local onde o show dos alemães pudesse ser realizado de forma aceitável para fãs, músicos e para os próprios produtores. Daí começa mais uma polémica. O templo mais sagrado da música e arte cearense, o centenário Theatro José de Alencar, ícone supremo da arte cearense, estava, felizmente, disponível para 8 de outubro. Suas restrições, no entanto, foram objeto de muita controvérsia nos dias que antecederam o show. Show de metal em um teatro? Pode isso? Isso dá certo? Vão tirar as cadeiras?
O local, com sua estrutura magnífica, partes em alvenaria, partes em ferro decorado, ladeado por um jardim projetado por Burle Marx, chegou a ser chamado de “inadequado” em redes sociais e grupos de mensagens. Uma pecha que jamais tinha lhe cabido desde que “O Dote” de Arthur de Azevedo fora lá encenado pela primeira vez (em 2010). E não era nem o primeiro show de metal que assistimos naquele ambiente. Shows do festival Rock Cordel haviam acontecido nos jardins. Shows do Forcaos tinham acontecido no anexo. Pouco antes da pandemia, Edu Falaschi já tomara o palco principal (em show acústico, é verdade). Agora, alguns falavam mal deste templo simplesmente pelo fato de que não poderiam tomar cerveja ou fazer moshpit (e nem stage dive – ainda falaremos, e muito, sobre isso). Ora, quem vai de bikini à missa? Ou de paletó dar um mergulho na praia? O ambiente tem suas restrições, mas aqueles que reclamaram esquecem de que o mais importante não sofria restrição alguma. A música. A música era absolutamente livre. E a música viria de uma das grandes bandas cearenses, a STEEL FOX, chamada para representar no José de Alencar o metal alencarino, e de um dos ícones do Heavy Metal mundial. Esqueceram-se disto.
A alternativa, não ter o show, ou seja, não ter a música, restringi-la completamente, era absolutamente inaceitável. Esqueceram-se disto.
Enfim, o show aconteceu. E vamos contar aqui tUDO o que vimos.
Pontualmente às 8 da noite, ouvimos “No Class” tocando no sistema de som do TJA. Aí entram, sob muitos gritos entusiasmados, os cinco componentes da banda U.D.O., entre eles, o dono do acrônimo e Peter Baltes, dois dos fundadores do ACCEPT, acompanhados do guitarrista russo Andrey Smirnov, do baterista Sven Dirkschneider (o filho do homem) e do guitarrista Dee Dammers. E o alemão mais cearense da Vestfália começa o show com “Prophecy”, uma boa mostra do seu mais recente álbum, “Game Over”. Os gritos com seu nome se repetem por todo o teatro, na área central, nas bancadas superiores. E continuam intercalados entre cada uma das próximas músicas, “Holy Invaders” e “Go Back to Hell”, que o público também cantou junto com a banda, a bela “Never Cross My Way”.
A voz de Udo está perfeita. E além dele, ressaltamos que há mais outros quatro microfones. Todos, todos os músicos da banda fazem backing vocais. É um coro que se junta ao do público. Depois de “24/7”, com seu rifão, e de “Independence Day”, uma muito veloz começa. Sven quase toca como se fosse Power metal. É “Breaker”, o primeiro dos muito esperados sucessos do Accept da noite, que emocionou a galera. Eu Acho que vi alguém lá dos seus 50 anos chorando. Ainda sobre o público, havia muita gente de 40, 50, até perto dos 60, além dos jovens que comumente vemos nos shows.
Smirnov fica só no palco despejando alguns riffs que ficam cada vez mais rápidos. O público acompanha os riffs com palmas é heys e recebe a bonita “Rose in the Desert”, que foi seguida de “Kids and Guns”, mais uma do disco novo, lançado em 2001, quase uma premonição sobre o que aconteceria no mundo a partir de 24 de fevereiro deste ano.
Os dois guitarristas têm excelência técnica, apesar da juventude e a pretensa pose de galãs. Não é à toa que estão tocando com uma grande parte do Accept original. O baixo de Baltes é muito, muito alto. E isso é muito, muito bom. E ele está muito feliz, sorridente e brincalhão o tempo inteiro, o show todo.
“Like a Beast” vem em seguida, mudando levemente a ordem dos setlists dos shows mais recentes, mas sem muitas surpresas. A nova ordem também mistura bem músicas mais leves e mais rápidas.
Agora é o outro guitarrista, Dammers, que assume o protagonismo no palco. E só duas notas foram necessárias para que todos começassem o ooooo. Pulamos felizes feito crianças. Ou como pinto no munturo (se você é cearense, sabe o que é). Interessante que Udo só pronuncia o título da música, “Princess of the Dawn”, depois de quase dez minutos, no finalzinho (Quando repete várias vezes substituindo o ooooooo). Não era necessário. Todas as vezes ele apontava pra gente e dizíamos em seu lugar.
“Blind Eyes” baixa um pouco a bola. Mas é compreensível. Esse seria o destino de qualquer música que ele resolvesse tocar após aquela apoteose. E sobre “The Bogeyman”, quem é capaz de dizer que uma canção como essa não é a essência do Heavy Metal? É a partezinha amarela da nata do Heavy Metal.
“Vocês estão prontos para cantar comigo?”, pergunta o velhinho. “A próxima começa assim”. E a cançoneta haidi, haído, haida bota “Fast as a Shark” no ar, incendiando novamente o José de Alencar. E que o Iphan entenda muito bem o que estou dizendo. Aqui também acontece um momento polêmico no show, que também incendiaria as redes sociais nos dias seguintes. Traremos mais detalhes e nossa opinião ao final deste texto.
“Vocês ainda querem cantar?”, pergunta UDO. E O karaokê continua com “Metal Never Dies” (principalmente no refrão), mas é ela que aparentemente mata o show.
Só que todo mundo sabe que tem o bis…
Ninguém sai do lugar. E os gritos de Udo se transformam em, bem, como fiz em minha resenha do Rock in Rio (link no final do parágrafo), vou poupá-los da parte mais explícita. “Ei, B…, vai tomar no cu”. E o público, boa parte dele, pelo menos, repete o coro várias vezes até voltar ao “olê, olê, olá, Udo, Udo, Udo”.
O retorno é a confissão de um senhor de 70 anos, “I Give as Good as I Get”, seguida de “Man and Machine” cheia de efeitos de som e luz, flertando com metal industrial, mas sem perder o foco no metal tradicional. Sven continua como gosta, atacando com força os bumbos e brincando com as baquetas, às vezes as girando no ar entre uma baquetada e outra em “Animal House”, como em outras canções anteriormente.
A gente sabe que o show está acabando. Udo faz um duelo voz/guitarra com Dammers. Se havia alguma dúvida que a voz rouca e esganiçada do baixinho ainda está perfeita, não há mais dúvida nenhuma. E ele até parece perder o duelo, deixando Dammers dar início à introdução que, mais uma vez, põe fogo no Theatro José de Alencar. É nada mesmo que “Balls to the Wall”, o maior clássico, o clássico absoluto do Accept. E aqui não haverá tentativa de transformar em palavras a alegria de presenciar aquele momento.
O “Chute” de Peter Baltes
Durante “Fast as a Shark”, um fã conseguiu subir no palco e ficou agitando lá de cima por alguns segundos. Ele não foi o primeiro a fazer isto. Mais cedo, um roadie tinha rapidamente impedido que outro fã abraçasse os músicos. O bote do roadie “Juma Marruá” foi tão rápido que realmente cheguei a temer que algum dos dois tivesse se machucado feio. Foi um verdadeiro ataque de uma onça contra um gato. Sim. As palavras não foram usadas por acaso.
Nesta segunda ocasião, por brincadeira, estrelismo, ou maldade mesmo, Peter Baltes foi mais rápido que o Juma e empurrou o fã com o pé. Este, imediatamente se desequilibrou e caiu junto aos outros fãs que se aglomeravam em frente ao palco. O movimento dividiu opiniões. Em minha opinião pessoal, foi apenas uma brincadeira de Baltes. Sorrindo ele estava antes do episódio, sorrindo ele continuou depois. Não quero dizer que estou certo, até porque não tive a oportunidade de conversar com o baixista depois do show, mas, analisando o que está em minha memória e, auxiliado pelos vídeos que pipocaram em redes sociais, mas não me baseando completamente neles, só posso acreditar que foi uma brincadeira. E talvez essa brincadeira tenha evitado algo pior (eu disse isso hoje ao fã) se fosse o “Juma” a tirar o fã do palco. “Never Cross My Way”.
Pra quem acha que foi um desrespeito de um gringo a um brasileiro, convenhamos, de quem era o espaço naquele momento? Dos gringos ou dos brasileiros? Ora, nós fomos ao Theatro José de Alencar para ver os brasileiros da Steel Fox, os quatro alemães e o russo da U.D.O. Não mais. Ninguém mais. Nem mesmo o “Juma”, que tem que ficar na surdina, que só tem que aparecer pra abotoar uma correia, reconectar um cabo ou, infelizmente, tirar algum intruso do palco. Há shows em que é aceitável subir ao palco, fazer stage dive, até mesmo pegar o microfone e tocar com os músicos, mas, naquele momento, naquele ambiente, naquele show, ISSO NÃO ERA PERMITIDO. Sim, a caixa alta também não foi usada por acaso. Então, se Baltes fez uma brincadeira infantil, uma brincadeira pesada ou uma agressão, isso foi iniciado pela atitude do fã. Não quer ser expulso de um lugar onde você não deve estar? Não vá. Simples assim. Qualquer consequência só tem uma causa: a invasão do palco. Ou vocês esperam que a banda peça por favor para o fã descer, interrompa a música, interrompa o show, deixe algumas outras centenas de fãs (que conhecem o seu lugar) frustradas? Peter Baltes usou os pés pra empurrar (ou chutar, ou dar um bicUDO, como saiu em uma reportagem) porque, empunhando o seu baixo, era o que lhe restava fazer. Invadir o palco sem que isso seja permitido pode ser comparado a beber e dirigir. Qualquer consequência pode ser assumida por aquele que errou. Palco é pra ser respeitado. Depois, não adianta espernear. Nem chutar.
Considerações Finais
Para quem torceu contra o show, reclamou de ser num teatro, apenas perdeu um excelente show, com qualidade técnica ímpar, bem-produzido em termos de som e luz em um local que serviu muito bem ao propósito. É claro, uma cerveja (ou até mesmo uma água) faz muita falta. A produção facilitou ao permitir que as pessoas saíssem para “reabastecer” fora do teatro, mas, nada como tomar uma cervejinha ali mesmo, diante da banda. Mas, repetimos, diante da alternativa do show ser cancelado, isso é café pequeno. O ambiente, esplendoroso, também poderia ter uma climatização melhor. Havia condicionamento de ar, mas, eu estava suando em bicas, mas, isso nunca impediu um show de acontecer. E, ao invés de ficar reclamando do sofá, devemos procurar os canais oficiais da SECULT e criticar formalmente.
E sobre as cadeiras? Todo mundo acabou assistindo o show em pé. As cadeiras não atrapalharam nada.
O que se mostrou no show do UDO foi que, sim, nós em Fortaleza temos uma nova alternativa viável para nossos shows de metal. Não resolve o problema de falta de casas, mas os alencarinos podem contar também com o José de Alencar.
Agradecimentos:
Sonoro Assessoria e Comunicação, Blackout e Alcides Burn, pela atenção e credenciamento. Chris Machado, pelas lindas imagens que ilustram esta matéria. Confira mais ao final deste texto (clique para ampliar).
Setlist
1. Prophecy 2. Holy Invaders 3. Go Back to Hell 4. Never Cross My Way 5. 24/7 6. Independence Day 7. Breaker 8. Rose in the Desert 9. Kids and Guns 10. Like a Beast 11. Princess of the Dawn 12. Blind Eyes 13. The Bogeyman 14. Fast as a Shark 15. Metal Never Dies
16. I Give as Good as I Get 17. Man and Machine 18. Animal House 19. Balls to the Wall
Estamos terminando o mês de setembro. Mas, além da Campanha Setembro Amarelo (que é muito importante para ampliação do conhecimento sobre suicídio e formas de preveni-lo – procure saber mais), nós, que somos Headbangers, não podemos esquecer do magnífico Festival Setembro Negro, uma produção da Tumba (capitaneada por Edu Lane, do NERVOCHAOS, a banda mais ativa do nosso underground). Depois de dois adiamentos por causa da pandemia de Covid 19, o festival finalmente aconteceu nos dias 2, 3 e 4 de setembro, reunindo nada menos que trinta atrações do mundo inteiro (10 por dia) de forma extremamente organizada, pontual, festiva e acessível. Passeando pelos diversos subestilos do Metal, desde o mais tradicional até o mais extremo, o festival trouxe ao Carioca Club e entregou nas mãos dos bangers (e em suas cabeças balançantes) as bandas Harakiri For The Sky, Brujeria, Conan, Masacre, Headhunter DC, Facada, Introtyl, Malefactor, The Black Spade, Heathen, Suicidal Angels, Weedeater, Helheim, Psycroptic, Gatecreeper, Knife, Neuroticos, Havok 666, Tribulation, Raven, Mork, Skeletal Remains, Soulburn, Inter Arma, Rot, Exterminate e Sodoma, com Ross The Boss, Vio-lence e Diamond Head como headliners.
Outro ponto extremamente positivo foi a manutenção do cast anunciado em 2020 quase completo. As ausências, devidamente informadas pela assessoria de imprensa do festival durante os dois anos de espera, foram todas justificadas. Algumas bandas infelizmente se desfizeram durante a pandemia, para duas outras não foi realmente possível conciliar a agenda com as novas datas e uma delas teve complicações relacionadas à saúde. Outras bandas de igual expressão, como, por exemplo, Soulburn e Inter Arma, foram encaixadas nos espaços deixados.
A Tumba nasceu em 1996 e o festival deste ano continua a história que começou lá em 2002 com a HATE ETERNAL e mais um cast brasileiro de peso, seguindo quase continuamente a cada setembro trazendo bandas gringas queridas pelo underground, mas sempre dando espaço para as nacionais. Com muita injustiça (de nossa parte), citamos alguns nomes que já passaram pelo festival: RAGNAROCK, DARK FUNERAL, ENTHRONED, INCANTATION, BELPHEGOR, GORGOROTH, MORBID ANGEL, AUTOPSY, KEEP OF KALESSIN, COVEN, VULCANO, AT THE GATES, AMEN CORNER, CIRITH UNGOL, AT WAR, LEGION OF THE DAMNED, EXPOSE YOUR HATE e EXODUS. Então, com absoluta ansiedade pela edição de 2023 (agora num mundo praticamente sem Covid), vamos aos shows de 2022.
Infelizmente, não pudemos comparecer aos primeiros dias de festival, quando se apresentaram as bandas THE BLACK SPADE, MALEFACTOR, las hermanas de INTROTYL, a figura monstruosa do grind-core nacional FACADA, os profanos baianos do HEADHUNTER DC, los hermanos de MASACRE (com um só S, como se escreve em espanhol), a lenda CONAN, aqueles que jamais serão tapa-buraco BRUJERIA, a HARAKIRI FOR THE SKY e ROSS THE BOSS na sexta-feira, a HAVOK 666, os distantes NEUROTICOS, a KNIFE, a GATECREEPER, a PSYCROPTIC (confira nossa entrevista com eles aqui: https://headbangersbr.com/exclusiva-com-o-psycroptic ) , a HELHEIM, a SUICIDAL ANGELS, a WEEDEATER, a HEATHEN e a estreia mais esperada no Brasil pelos thrash-maníacos VIO-LENCE.
No domingo, quem abriu o festival, ainda para um público muito pequeno (alguns ainda se recuperando de dois dias intensos de metal), foi a imunda obscura flamejante carnal (como eles próprios se denominam) matilha SODOMA, de João Pessoa, com um som calcado no Black e no Death Metal, mas cantado em português, o que é um atrativo adicional. Os paraibanos celebraram a participação no festival para lançar o álbum “Animaligna“, com destaque para o single “Furiosa“.
De um lado a outro do Brasil, sobe ao palco a EXTERMINATE, representando o metal do Rio Grande do Sul. A exemplo da banda irmã REBAELLIUN, com quem divide o baterista Sandro Moreira, o som da banda é um Death Metal bruto, pesado, mas com bons solos de guitarra de ambos os guitarristas. “Pray For a Lie“, que também dá nome ao full-lenght mais recente, foi um dos destaques, mas também temos que mencionar “The Days of Armageddon“, single lançado esse ano, além de “Blind Faith” e “The Bells of Damnation”. A última do curto set, “Doom“, foi a melhor deles e também aquela em que o baixo mais ganhou destaque.
Setlist
Observe the Martyr
Blind Faith
Pray for a Lie
The Days of Armageddon
The Bells of Damnation
Doom
Uma preocupação de quem nunca foi a um Setembro Negro é o cansaço que pode bater forte por ter que esperar pelo menos nove trocas de palco num dia como aqueles, até porque o Carioca não tem dois palcos (nem espaço suficiente para dividir o existente em dois). Mas, logo a preocupação se mostrou supérflua. Com a pulseirinha do festival os bangers podiam entrar e sair da casa para ver a luz do dia na frente da casa, conversar com os amigos (embora o frio atrapalhasse um pouco nessa parte), comer um sanduíche e, claro, “abastecer”, apesar de que a cerveja da Ashby Cervejaria estivesse bem em conta. Passear pelas banquinhas de merchandising, no entanto, acabava sendo um grande desafio. Era preciso ter muito autocontrole para não levar uma boa bagagem para casa (e entrar no cheque especial em pleno dia 2 do mês).
E a pontualidade do festival era certeza de que nem uma música seria perdida, nem mesmo quando se trata de um grind core rápido e nervoso, como o do ROT. Aqui o som é direto e reto, parando apenas para homenagear Alexandre Strambio, o Bucho, que a Covid19 levou no ano passado. “Salve, Buxo Eterno” disseram. A homenagem a ele, mais silenciosa, também estava estampada nas caixas de som e num cartaz que ficou no fundo da plateia até o final do festival. Além de um passeio pela carreira de inúmeros splits e full-lenghts, a banda também apresentou a cover do CRUEL FACE (banda da qual Bucho também fez parte), “Raiva e Rancor”, do single “Espólios da Revolução”, lançada este ano e ainda inédita até a data. Quem vê o setlist da Rot (confira abaixo) pensa que tocaram por umas três horas, mas só precisaram de 35 minutos para quebrar tudo e tocar umas três dezenas de músicas.
Setlist.
Fanatical Monstrosity
Religion Is Mass Dementia
Like a Promise
Indiferente
Another Kind of Prison
This Silent World
Until It’s Worthless
The State of the Denial of Humanity
The Nausea
Torpor
Beyond the Evidence
Hawkish
Selfish
Sadistic Creature
A Part of Me
Dethroned Certainty
Decreased Possibilities
My Enemy
Russian Roulette
Destroy Everything
Cooperation Not Competition
Subversive Not Alternative
Technologic Error
Your Scene Last Up… You Conceit Goes
Neutrality
Social Gear
Raiva e Rancor (Cruel Face)
Superfluous Feeling of Happiness
Downtrodden
Quiseram os deuses do metal que a INTER ARMA entrasse no cast de 2022 do festival. E eles chegaram trazendo uma mistura sensacional e indescritível de doom, sludge e black metal, um dos shows mais bonitos de ver. O batera T.J. Childers foi ovacionado ao fim de “Howling Lands“, enquanto Mike Paparo, ao cantar, arregala os olhos, amaldiçoando todos. É banda para fazermos fila nas banquinhas de merchan caçando material logo que o show chegar ao fim. E, claro, depois desse aperitivo desejar que um show solo (do tamanho de um show de um DREAM THEATER) seja agendado para que eles possam desfilar seu repertório de canções longas e complexas, além de suas reinterpretações pesadas e malignas para astros como Neil Young e Crosby, Still & Nash.
Hora de dar um passeio com a perversidade com a SOULBURN (ou seria ASPHYX). Explico a confusão. A SOULBURN foi originada de membros do ASPHYX e até chegou a dar nome, por um tempo, à banda que lhe deu origem. Deste complicado Asphyxverse, hoje, apenas o guitarrista Eric Daniels permanece. Com personalidade própria, entretanto, a banda apresentou seu Death Metal com canções como “Tempter ov the White Light“, “Withering Nights” e “I Do Not Bleed from Your Crown of Thorns“. O vocalista/baixista Twan van Geel (guitarrista na LEGION OF THE DAMNED) não deixou de tomar sua cerveja durante o show e pedir para o público apontar os “chifres” para o céu.
Continuando o mini festival dentro do festival (uma vez que a SOULBURN seguiu em turnê com as duas próximas bandas do cast), vem a SKELETAL REMAINS, uma das mais esperadas do domingo. E fez a alegria da galera com seu Death Metal dos bons, misturando canções mais lentas e arrastadas a outras mais rápidas, favorecendo o mosh, mas sempre com metranca insana. Da nova safra do Death Metal dos Estados Unidos, a banda apresentou canções como “Tombs of Chaos“, do magnífico “The Entombment of Chaos” ou “Devouring Mortality“, do álbum de mesmo nome. Sim, podemos dizer que o som deles é até um tanto genérico, mas, quer saber? Quem se importa.
Thomas Eriksen e seus demônios trazem ao Carioca o MORK, pela primeira vez no Brasil, para dar fim ao mini festival dentro do festival. A banda norueguesa transformou o Carioca em um fiorde na fronteira de seu país com a Suécia. E dizer que a Escandinávia é frutífera em black metal é chover no molhado. Então foi uma sequência de lindas melodias negras, uma após a outra, como “Født til å Herske“, e “Arv“, ambas do álbum mais recente, “Katedralen“. “Está é sobre o legado e herança de nossos pais para os que vem depois”, disse Eriksen sobre esta última. “I Hornenes Bilde” também fez os fãs chegarem ao delírio e, claro, mandar chifres para o ar. A banda fechou o set de músicas cheias de melodia com “Dype Røtter”, raízes profundas, do primeiro álbum, e prometeu voltar (tinha dito estar muito contente pela recepção nessa primeira vez no Brasil).
Os Gallagher que não brigam tomam controle do palco logo a seguir. John Gallagher (vocal e baixo), Mark Gallagher (guitarra) e Mike Heller (bateria), sabendo do entusiasmo dos fãs, principalmente o pessoal mais da velha guarda, fazem até paradinha em “Hell Patrol” só para o público continuar. Com imensa alegria no palco, um curioso contraste com os corpse paints ou iluminação completamente rubra de algumas bandas anteriores, os dois irmãos, a despeito da idade, parecem duas crianças encantadas com um brinquedo novo, brincam, esfregam os instrumentos um no outro… o encanto é o mesmo entre os expectadores, que gritam “Raven”, “Raven”, “Raven”. John arrasa nos agudos em “The Power“, do “Metal City“, o álbum mais recente. Ele também não perde a oportunidade de zoar o baterista, bem mais novo que os dois irmãos. A propósito, Mike Heller também é baterista da FEAR FACTORY e, só para vocês terem uma ideia, nasceu no ano seguinte ao primeiro álbum “Rock Until You Drop“. E por falar nisso, claro que a canção de mesmo nome não poderia faltar. E digo de novo, John não economiza nos agudos. Aqui não tem playback não, rapaz. “Depois dessa bosta de pandemia é bom fazer um pouco de rock and roll”, diz ele. E “On and On” é rock and roll, é Heavy Metal por quem gosta de Heavy Metal para quem gosta de Heavy Metal. Mas o que é bom dura pouco. E nesse caso foi pouco demais. Depois de “Break the Chain“, com um pouco de “Iron Man” do BLACK SABBATH e “Long Way to the Top“, do AC/DC, vem “Wiped Out” com “a versão mais rápida que vocês já ouviram”, como disse John.
Setlist
Take Control
Hell Patrol
The Power
Top of the Mountain
Rock Until You Drop
Faster Than the Speed of Light
On and On
Break the Chain
Wiped Out
O panorama muda. De alegria e energia dos tiozões, para o ambiente soturno dos jovens suecos da TRIBULATION, que teve um pouco de, digamos, turbulência (só para fugir de um trocadilho e cair em outro) para chegar em São Paulo. “A companhia aérea perdeu nossas bagagens, mas, mesmo assim estamos felizes por finalmente estar em São Paulo”, confessou o baixista e vocalista “Johannes Andersson”. O show dos suecos começa com “In Remembrance“, do belo “Where the Gloom Becomes Sound” e continua exortando a morte em canções como “Leviathans” e “Nightbound” e a linda “The Lament“. O show dos góticos (que pecado chamá-los assim) ainda contou com “Funeral Pyre“, “Hour of the Wolf” e “Lacrimosa” para fechar. Com belas canções e boa performance ao vivo, a TRIBULATION demonstrou que nada é obstáculo para tocar boa música.
Setlist
In Remembrance
Leviathans
Nightbound
The Lament
Funeral Pyre
Hour of the Wolf
Lacrimosa
Diamond head
Tanto faz se você ouviu “Am I Evil” primeiro com o METALLICA, no encerramento do magistral DVD do Big Four ou com a banda que gravou originalmente a canção. O que importa é que o momento mais aguardado do último dia/noite de Setembro Negro também seria o último de todo o festival, a headliner da headliner, crème de la crème. A banda mais admirada pelo dinamarquês Lars Ulrich seria a última a se apresentar no palco do Carioca naquele domingo. E, arrisco dizer, era também a mais admirada não só pelo danês que citei, mas pela grande maioria do público presente, que tinha lotado o Carioca mais ou menos quando caiu a noite. Olha só como o rock e o metal se alimentam e retroalimentam. A banda, que tirou seu nome de um álbum de Phil Manzanera (ROXY MUSIC), chegou a ser dispensada da gravadora RCA por não conseguir vender um número interessante de álbuns, mas, antes disso, fizeram a cabeça do jovem Lars, que, mais tarde, seria o baterista da maior banda de Thrash Metal do planeta. O METALLICA (e não só ele, mas também o MEGADETH), por sua vez, ao afirmar seu amor pela música do DIAMOND HEAD, trouxe os caras de volta novamente ao sucesso. E, hoje, a banda da Califórnia é influência certa de um número que não se pode contar de outras bandas de Thrash Metal. Somamos a isso o fato de que só as covers que o METALLICA fez (“Am I Evil?“, “Sucking My Love“, “Helpless“, “The Prince“, “It’s Electric“) como parte de álbuns ou singles já rendem a Brian Tatler, guitarrista, o único membro original ainda na Cabeça de Diamante, dinheiro suficiente para viver muito bem. Felizmente, Tatler não se aposentou antes de vir tocar sua Flying V pela primeira vez no Brasil, acompanhado de outros veteranos e de um conterrâneo de Lars (seria coincidência), Rasmus Bom Andersen, nos vocais. Completam a banda o também “moleque” Dean Ashton (baixo) e os veteranos Andy Abbz Abberley (guitarra) e Karl Wilcox (bateria).
E é com a já citada “The Prince” que o show começa. E Tatler não se faz de rogado, já aqui ele arrasa na guitarra. O público canta junto e faz ôôôô em coro (como nos shows daquela outra banda de NWOBHM). Adiante, à altura de “Sucking My Love“, Rasmus, oferecendo cerveja ao público, disse que não sabia falar português, mas sabia dizer obrigado e pedir cerveja e isso era o suficiente.
Rasmus é eficiente e carismático. Claro que não é o Sean Harris (e, mesmo 18 anos atrasado, o desejo de ver a voz original dos primeiros discos do DH, inclusive o agora regravado “Lightning to the Nations“, é justificada), mas Rasmus sabe levantar o pessoal. Além disso, só ver Tatler solando já é de encher o olho d’água. “Vou ser uma estrela do rock and roll / vou apanhar as estrelas da minha rota / farei isso em um show em *São Paulo* “, canta ele, modificando levemente a letra de “It’s Electric” para homenagear a cidade que ora os recebia.
Depois de “Helpless“, Rasmus pergunta: “estão prontos para fazer história?”. A gente sabe que hora é essa. “Am I Evil?“. “Vocês são evil”, exclama ele enquanto dá uma de fã em show e filma o público. A plateia do Carioca virou palco. E numa música rápida e enérgica que se parece muito com um thrash metal (por que será, né?), o público faz roda. Roda que só cessa para o pessoal fazer air guitar durante o solo, enquanto Wilcox ataca a bateria com uma baqueta só. A outra aponta para o público. Pronto. Está feito. Nasceu o Thrash Metal.
Setlist
The Prince
Bones
The Messenger
In the Heat of the Night
Lightning to the Nations
Sucking My Love
Sweet and Innocent
It’s Electric
Helpless
Am I Evil?
Streets of Gold
O aftermath do festival não teve apenas comentários do público elogiando o festival, o cast, a produção, a pontualidade, mas também músicos de diversas bandas. ROSS THE BOSS disse “todas as pessoas que trabalharam no festival foram totalmente profissionais e acolhedores! Para nós foi uma honra tocar no Setembro Negro e pretendemos voltar em breve”. E completou em português: “OBRIGADO salve e MATE !!!!”. A KNIFE agradeceu por tudo: “Festival incrível, organização incrível, público incrível! Nós erguemos a KNIFE (faca) para ti!”. A MALEFACTOR declarou “Muito obrigado a Edu e todos da equipe que nos receberam sempre da melhor forma. Todas as bandas tendo o mesmo tratamento, independente de nacionalidade ou ser nova ou antiga. Mais uma vez muito obrigado e esperamos retornar para tocar novamente, bem como comparecer também como público sempre que possível, porque é um Festival sensacional. Longa Vida Setembro Negro Festival”. Fechamos com o que disse a HAVOK 666: “Setembro Negro Festival é realmente um modelo de Fest para todos! Parabéns
pelo profissionalismo e dedicação! Uma honra para nós em fazer parte dessa história! Saúde e Sucesso a todos! 🤘🏾🔥”
Nós também agradecemos e elogiamos o profissionalismo do festival, a estrutura, a pontualidade (mesmo diante do desafio hercúleo de organizar trinta bandas de quase todos os continentes). Agradecemos também à LP Metal Press pelo credenciamento e acolhida.
Extendemos a homenagem a Bucho a todas as vítimas da Covid 19, especialmente Sílvio César, do BEOWULF e Carlinhos Perdigão.
O Rock in Rio é o maior festival de música do Brasil, e um dos maiores do planeta. E, principalmente para quem mora longe do Sudeste, como este que aqui escreve (moro em Fortaleza, no belo Ceará), ir a uma edição é praticamente um sonho. Ter a possibilidade de fazer a cobertura jornalística do festival é, então, bem mais que isso. Eu já cobri diversos festivais grandes e tradicionais como ForCaos e Ponto.CE aqui mesmo no Ceará, algumas edições do Abril Pro Rock, na capital pernambucana, os gigantes Monsters of Rock e SP Trip em São Paulo, escrevi sobre o malfadado MOA (vamos ver como será a nova edição) e até fui jurado dos Festivais de Rock, Reggae e Blues da Ibiapaba, mas o festival que Roberto Medina, mesmo contra a vontade do pai, insistiu em realizar em 1985 e se tornou um dos pilares do show business ainda era o desejo irrealizado na carreira. Era.
Este ano, eu e o parceiraço, meu irmão de vida, Augusto Hunter, fomos credenciados para cobrir a edição 2022. Foi com muita ansiedade, pernas tremendo e festa que recebemos a resposta ao nosso pedido. Embora o festival aconteça em vários dias e com um número enorme de atrações de vários estilos, escolhemos cobrir os dias que mais poderiam despertar o interesse de vocês, nossos muito estimados leitores, os dias em que balançaríamos, nós e vocês, as nossas cabeças. Afinal, somos o Headbangers Brasil.
No entanto, chega daquela falácia de que “o Rock in Rio não é mais rock” – nunca foi só rock e nem é mais só no Rio – a patrícia Lisboa compete com a cidade maravilhosa no número de edições, além de já termos tido Rock in Rio nos Estados Unidos e na Espanha, além disso, é possível traduzir a palavra rock simplesmente como “balanço”, “suingue”, “agitação”, desprendendo-se do nome do estilo Rock and Roll. Hoje e sempre, o acrônimo, RIR, cabe bem mais à proposta do festival do que seu próprio nome, porque remete mais à alegria de poder entrar, estar na Cidade do Rock. Claro, se fosse SORRIR caberia bem mais, mas aí já fomos longe demais.
E falando em sorrir, esta matéria resume um pouco do que vi (e vivi) no festival. Algumas vezes, o texto soará bastante pessoal, mesmo sem largar o profissionalismo, porque o que mais vale no festival é a experiência, tudo o que ele traz junto com a música. A música é o catalizador, o aglutinador de todas as emoções, mas o conjunto de experiências, ao fim, transcende a própria música. Não deixe de conferir também o festival pela ótica do Hunter, que você encontra no link abaixo.
Quis Deus, Oxalá, Alá, Bhrama, Buda ou simplesmente o acaso, que o primeiro festival depois dos eventos de 2020, do “Black Lives Matter”, fosse aberto por duas “bandas pretas”, como eles próprios se denominam, a BLACK PANTERA e os DEVOTOS. E como não lembrar já de outra banda preta, o LIVING COLOUR, que tocaria mais tarde no mesmo palco (bem que poderia também ser ao mesmo tempo, mas aí Deus, Oxalá etc. já não foram tão caprichosos). O nome da banda de Uberaba, além de homenagear o quase homônimo partido dos EUA, também me remete ao que me falou Will Calhoun, baterista do LIVING COLOUR, em entrevista ainda inédita (e eu aqui soltando spoilers) sobre o filme “Pantera Negra”. “Melhor filme de Hollywood. Agora, crianças podem ter e se imaginar como um super-herói de cor semelhante a eles, algo que jamais havia existido”, ele me dissera.
E o Rock in Rio 2022 começa dizendo que “a coisa tá linda, a coisa tá preta”, na voz e instrumentos de Charles e Chaene da Gama e Rodrigo Augusto, falando de autoaceitação. “Padrão é o Caralho” é o primeiro som do Rock in Rio 2022. E, com o baixo no talo, logo também temos o primeiro mosh do festival. Charles falou que estar ali era a realização de um sonho, mas tenho que lembrar que não era só lá em cima. Cá embaixo o Hunter estava chorando. Os olhos do gigante estavam tomados pelas lágrimas.
Foto: Daniel Tavares
E, logo cedo, Charles já pulou no meio do público com sua guitarra, causando grande alvoroço. Depois, ao dizer que finalmente uma banda preta estava no RiR e pedir “fogo nos racistas” o público espontaneamente começou o lema que ouviríamos durante todo o dia no festival. “Ei, B… vai tomar no cu”. [Nota: optamos por abreviar o nome dito na frase por respeito aos nossos leitores. Podemos até usar uma expressão chula para falar de uma parte do corpo humano, mas escrever aquele outro nome dito aqui já seria uma afronta. Não faremos isso, não se preocupem.]
E ao som de “Fogo nos Racistas” temos também fogo também saindo dos lança-chamas”. Ao passo que Charles menciona ” intolerância contra intolerantes”, o público responde novamente com “ei B… vai tomar no cu”. Temos que lembrar que a banda, assim como nenhuma outra que vimos, entrou no coro, por motivos contratuais dado que o festival ocorre em período eleitoral.
Foto: Wesley Allen
E se tivemos aqui o primeiro som, o primeiro mosh e o primeiro protesto do Rock in Rio 2022, é justo que também tenhamos a primeira “hora da massagem”. Explico. Charles pediu para o público se dividir ao meio. Era hora do Wall of Death, um movimento comum em festivais de metal em que uma parte do público e a outra se enfrentam como dois grandes exércitos em uma violenta batalha campal, mas, claro, tudo na camaradagem (inclusive, se alguém cai, logo se junta um montinho de pessoas para proteger e ajudar a levantar). É o ápice de um show de thrash-metal (ou crossover, como melhor podemos classificar o som da BLACK PANTERA). Já vivemos isso com bandas como KORZUS, TESTAMENT, e, claro, tivemos isso novamente. Só entreguei os óculos e o caderninho ao Hunter e fui lá, para o meio da guerra, ter minha “massagem”. É uma experiência que é necessária a todo banger pelo menos uma vez na vida e era impossível não me jogar ali no Rock in Rio.
Eis que chega o Canibal. “Tem gente que anda com bíblia, que anda com arma, que anda fardado / gente do bem que vende a arma ao diabo”, declamou o vocalista da DEVOTOS, trio pernambucano convidado a fazer daquele show um momento ainda mais único, enquanto sua banda se junta à BLACK PANTERA no Palco Sunset. Mencionando como gravaram o primeiro álbum, Canibal menciona a urgência e condições em que gravaram o primeiro álbum. “Quem mora na periferia, na favela tem pressa. Nós temos pressa de vencer”. Depois os dois vocais pediram roda só de meninas, enquanto no palco tínhamos também duas guitarras e dois bateristas metendo a pancada. “Eles deveriam sair em turnê com esse show”, pensei, sem saber ainda que no final de semana seguinte as bandas se apresentariam em duas unidades do SESC em São Paulo (e esperamos que cheguem logo a Fortaleza e outras grandes cidades do Brasil).
Para encerrar essa introdução do dia mais pesado do Rock in Rio 2022, chamaram, Elza (madrinha e dona da porra toda, como a chamaram), que participou do show ao menos em forma de sua imagem no telão (e em alma também, quem sabe?). “A maior forma de resistência é o sorriso de uma mulher negra”, arrematou Charles, também lembrando da mãe, que estava ali, do pai do baterista Rodrigo, cujo nome estava no bumbo e que falecera ano passado. A canção, ainda não a última, foi, obviamente, o protesto antirracista “A Carne”, do FAROFA CARIOCA, imortalizado na voz de Elza, renascido na voz da potiguar KHRYSTAL. A carne mais cara do Rock in Rio estava ali, naquela hora, naquele show, que ainda teve menção ao “Punk Rock Hardcore Black Pantera, Punk Rock Hardcore Oto, Punk Rock Hardcore Nação Zumbi, Punk Rock Hardcore Chico Science, Punk Rock Hardcore Ratos de Porão, Punk Rock Hardcore Sepultura e Punk Rock Hardcore Alto Zé do Pinho” e até os bateristas trocando de lugar, com um baterista tocando na bateria do outro. Com três bandas pretas no dia do metal, o Rock in Rio começa muito bem. Se faltou alguma coisa? Só mesmo um dos reggaes do novo disco da DEVOTOS.
Setlist
Padrão é o Caralho
Mosha
Godzila
Taca o Foda-se
Fogo nos Racistas
Execução na Av. 38
De Andada (com Devotos)
Eu Tenho Pressa (com Devotos)
Abre a Roda e Senta o Pé (com Devotos)
Fé Demais (com Devotos)
A Carne (com Devotos)
Punk Rock Hardcore (com Devotos)
Boto pra Fuder (com Devotos)
Foto: Wesley Allen
Escolher ver o show da DEVOTOS com BLACK PANTERA foi até uma escolha óbvia, porque abriram o festival (na verdade, seriam escolhidos mesmo que em outra situação), mas, a partir daí começa a dificuldade de saber para onde ir. Eu e Hunter chegamos a dividir alguns shows para trazer-lhes o máximo de informação possível (com uma única exceção, do LIVING COLOUR + STEVE VAI ninguém abre mão). Tentei ainda ver o restinho do show da SIOUX 66, que tinha começado pouco depois no palco Rock District. Com tanto o que andar e tanto para ver naquele primeiro momento, sequer conseguimos chegar ao palco. Ficamos devendo essa (e não será a única – falaremos mais sobre isso mais tarde). Pelo menos vimos um pouco do show da TERRA CELTA, que faz um som bacana, tocando não apenas música tradicional irlandesa, mas outros ritmos tradicionais europeus, como tarantelas (bem apropriado para o palco onde estavam, o Rock District Mediterrâneo, uma recriação de uma vila qualquer europeia). Também vimos a Betta, homenageando clássicos do rock (Zepão na veia) no Highway Stage. E ficamos impressionados com algumas maquetes no grande domo que se intitulava “The Town”. Se o palco da nova empreitada de Medina, agora na capital paulista, for mesmo o que eu vi, eu até fico sem saber o que dizer. Aguardemos.
METAL ALLEGIANCE, Palco Sunset
Foto: Wesley Allen
O horário das 16:30 foi o mais complicado do ponto de vista de quem faz a cobertura do festival. Simplesmente quatro shows imperdíveis começando (quase) exatamente na mesma hora. No Palco Sunset, a reunião de amigos (praticamente uma banda cover), membros de várias bandas renomadas, fazendo, como chamou o amigo Marcos Bragatto, o baile do metal. Perto dali a CRYPTA, explosão death metal de Fernanda Lira no palco SUPERNOVA (o palco das “novidades” do Rock in Rio – RDP no Supernova, como artistas novos? Só pode ser piada). Mais adiante, a RAVENGIN, trazendo seu metal sinfônico para o Espaço Favela, e o metal moderno da EMINENCE no Rock District. Como estávamos em dois poderíamos cobrir no máximo dois shows completos. Impossível nos dividirmos em quatro. Aproveito o parágrafo para criticar a escalação das bandas. Para que tanto palco em um único dia. Agradeceríamos se tivéssemos mais um dia “dos camisas pretas” (o sábado seria a melhor opção) com mais alguns headliners, mais algumas underground e todas essas bandas tocando no Palco Sunset (e, sim, se misturando, se combinando como as já tão faladas BLACK PANTERA e DEVOTOS). À noite também não conseguiríamos ver o RATOS DE PORÃO, nem a OITÃO, banda do chef Henrique Fogaça com o guitarrista e produtor Ciero (da Tribo). Imaginem o absurdo que seria ver as duas bandas tocando juntas no mesmo palco. CRYPTA, atração de Wacken, merecia um Sunset, palco que a vocalista já ocupou quando tocava no Nervosa. CRYPTA com ESKRÖTA (banda emergente e quase totalmente feminina) talvez também desse uma mistura interessante. E a CORJA! com MANGER CADAVRE? seria, como os sinais em seus nomes, algo para surpreender e deixar com interrogações. Divago? Talvez. Mas que headbanger que foi ao Rock in Rio na sexta-feira não gostaria de ter motivos para ir no sábado também? E que motivos melhores do que poder ver as bandas que não conseguimos ver, acrescidas de mais algumas outras matadoras?
Ok, vamos então de Metal Allegiance. O Hunter acompanhou o show da CRYPTA e a resenha, você sabe, confere no link abaixo.
O supergrupo de Thrash Metal formado pelo baterista que está (ou esteve) em 11 de cada dez bandas de metal, Mike Portnoy, com Alex Skolnick (TESTAMENT) e Phil Demmel (VIO-LENCE), além do baixista Mark Menghi, neste show substituído por Jack Gibson (EXODUS), não tem um vocalista fixo, gravou e costuma se apresentar com canções de seus dois álbuns e sucessos de outros mestres do Thrash Metal e até mesmo versões cheias de peso para canções do UFO e LED ZEPPELIN. Neste show as vozes foram compartilhadas pelo simpático ao extremo John Bush (ARMORED SAINT, ex-ANTHRAX) e pelo poderoso Chuck Billy (TESTAMENT). E a primeira canção, “The Accuser”, é uma homenagem ao recentemente falecido Trevor Strnad, do BLACK DAHLIA MURDER, que cantou a canção originalmente. Em seguida, Bush, o vocalista que dá início ao show, canta “Bound By Silence”, que ele próprio cantou no álbum “Power Drunk Magesty, vol II”, da Metal Allegiance. Ele também recorda o primeiro show que fez no Brasil, em São Paulo, com a ANTHRAX, em 1993.
Foto: Wesley Allen
O gente boa sai do palco e é hora do Monstro Chtulu do Thrash Metal, o índio pomo mais famoso do mundo, Charles Billy, ou Chuck Billy, cantar “Can’t Kill the Devil”, que ele também cantara no “Power Drunk Magesty, vol II”, e seguir para “Gift of Pain”, originalmente cantada por Randhy Blythe, do LAMB OF GOD. Então, com Chuck e Bush juntos no palco temos “Dying Song”, originalmente cantada pelo polêmico vocalista do PANTERA, Phil Anselmo. Mais uma revezada com cada um dos vocais para uma canção de cada um dos grupos que lhes deram fama (duas do ANTHRAX e duas do TESTAMENT – uma lindeza ver “Only” na voz de Bush, uma loucura presenciar Chuck cantando “Into the Pit”) e a grande festa do Thrash Metal é concluída com “Pledge of Allegiance” (a saber, cantada originalmente por Mark Osegueda, do DEATH ANGEL).
Em suma, o show foi enérgico, curto, mas voraz, cheio de mosh e cheio de técnica – desnecessário dizer que Skolnick é um dos melhores guitarristas de seu estilo. E Portnoy não tem seu espaço na galeria de melhores bateristas do mundo à toa. Poderia ter mais sucessos (o repertório da Metal Allegiance é uma verdadeira jukebox do Thrash Metal), mas as canções “próprias” também funcionam muito bem ao vivo. E poderia ter uma do ARMORED SAINT também, já que a voz já estava ali.
Na hora das apresentações, todos os músicos são ovacionados, principalmente Chuck e Bush, mas Portnoy é o mais aplaudido. O baterista retornou ao Brasil menos de um mês após fazer uma pequena turnê com o SONS OF APOLLO e, tocando um prog mais calmo como o de Neil Morse ou um thrashão como vimos ali, ver sua barba azul no palco é sempre motivo de alegria. Restava ainda uma vontade, uma esperança dos bangers, embora muito improvável, de vê-lo subir ao palco com o DREAM THEATER. Uma jamzinha com eles não faria mal a ninguém. Quem sabe um dia? Quem sabe hoje?
Setlist
The Accuser
Bound By Silence
Can’t Kill the Devil
Gift of Pain
Dying Song
Room for One More (ANTHRAX)
Only (ANTHRAX)
Into the Pit (TESTAMENT)
Alone in the Dark (TESTAMENT)
Pledge of Allegiance
Foto: Wesley Allen
Sepultura, Palco Mundo
Foto: Renan Ollivetti
O som do SEPULTURA fica bom com a orquestra. Os violinos, violoncelos, contrabaixos não dão apenas suavidade ao som pesado da mais famosa banda brasileira. Longe disso. Eles dão uma gravidade, um senso de emergência ou apuro ainda maior ao som. Perigo!
Embora o show tenha começado realmente com a leveza e plenitude que se espera de um show com uma orquestra sinfônica, logo ele se tornou aquilo que estamos começando, um thrash mais perigoso que o habitual, com “Roots Bloody Roots” e “Kairos” tendo aquele acompanhamento dramático. A temperatura desce um pouco com “Machine Messiah”, mas a banda acerta ao evitar repetir “Phantom Self”, que, embora ótima, já tinha sido apresentada no mesmo Rock in Rio anteriormente (e com a Família Lima representando os violinos tunisianos). Outras experimentações orquestrais anteriores, mais raras, foram incluídas no repertório. “Ludvig Van” (A-Lex), fortemente baseada na Nona de Beethoven, e “Valtio” (Nation), são trazidas à tona. Ao passo que cada uma destas terminava, o público gritava em coro, “OSB, OSB, OSB”, algo que nunca lhes aconteceu. Não porque não merecessem, mas pelo rigor dos outros palcos em que se apresentam. Mas o ponto alto realmente de todo o show, que fez valer o Rock in Rio como um todo, eu disse como um todo, foi a versão estendida de “Kaiowas”. Heavy Metal vira clássico vira Forró, Heavy Metal vira música indígena, Heavy Metal vira música sertaneja de raiz. E temos solos até de marimba e triângulo. E um de Igor para conduzir para o final. Esses demônios têm que lançar isso em disco para a gente ouvir 45x seguidas.
O show continua. Os sons da orquestra tornam “Refuse, Resist” ainda mais urgente. Incrível como o som do Sepa fica bom com Tambours du Bronx, Zé Ramalho, Carlinhos Brown e, agora, com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Kisser falou da OSB elogiando o “trabalho sensacional de ensaios, respeito mútuo e admiração mútua”. Na camisa do maestro, ao invés de um paletó, como de costume, lia-se “Sepulcrew, in honor of Patricia Kisser”.
Foto: Renan Olivetti
Setlist
Sagração da Primavera (Igor Stravinsky)
Roots Bloody Roots
Kairos
Machine Messiah
Ludwig Van
Kaiowas
Valtio
Agony of Defeat
Refuse/Resist
As Quatro Estações – Inverno (Antonio Vivaldi)
Guardians of Earth
LIVING COLOUR com STEVE VAI, Palco Sunset
Foto: Take a View (EMÍLIO CÉSAR)
O quarteto nova-iorquino LIVING COLOUR pisou no Palco Sunset sem querer ser os bambambans, nem os últimos da fila. Queriam ser os “middle man”, como na canção que usaram para abrir seu set. E estavam realmente bem no meio do festival, pouco após o pôr do sol, no Palco Sunset. Mas falharam miseravelmente.
Falharam porque eram uma das atrações mais esperadas daquele primeiro dia de Rock in Rio 2022. Como disse, nada de acordo entre mim e o Hunter. Esse show é um pecado perder. Continuemos no show. Corey Glover, de dreadlocks verdes em cor vívida (maldita hora para fazer um trocadilho, eu sei) dedicou “Desperate People” à memória da vereadora assassinada Marielle Franco.
No entanto, a excelência no palco não se refletia em excelência no som. Estava muito baixo e o público pedia para aumentar, o que eventualmente aconteceu. Continuamos com “Ignorance is Bliss”, “Wall” (com direito a um snippet de “Iron Man” por Doug Wimbish) e “This Little Pig”, as três do álbum “Stain”.
O celebrado duelo de Vernon Raid STEVE VAI só acontece perto do final do show. “Quero chamar meu amigo, um dos maiores guitarristas do mundo”. O público grita. E grita mais ainda quando percebe que a canção será o clássico zeppiano “Rock and Roll”, com ainda mais solos do que Page pensou em fazer. Os dois mestres da guitarra continuam “brigando” ao som de “This is The Life”, da própria LIVING COLOUR, e “Crosstown Traffic”, da JIMI HENDRIX EXPERIENCE. Vernon chega a comparar VAI ao incendiário Jimi. É fato que falta um pouco mais de interação com o público por parte de Glover, mas a beleza do funk-and-roll do quarteto, abrilhantada ainda mais pela presença de VAI, compensa e faz valer aquele “culto à música”.
Foto: Take a View (EMÍLIO CÉSAR)
Setlist
Middle Man
Desperate People
Ignorance Is Bliss
Wall
This Little Pig
Time’s Up
Rock and Roll (Led Zeppelin) – com Steve Vai
This is the Life – com Steve Vai
Crosstown Traffic (The Jimi Hendrix Experience) – com Steve Vai
Cult of Personality – com Steve Vai
GOJIRA, Palco Mundo
O Gojira já esteve no Brasil antes (e não só para shows – em agosto de 2021, Joe Duplantier esteve no Brasil participando de protesto indígena contra a aprovação do chamado “marco temporal”). Agora, no Palco Mundo, Joe aparece com a cara pintada, como um índio, e desfila seu metal pesado ambientalista junto com o irmão Mario (bateria), Christian Andreu (guitarra) e Jean-Michel Labadie (baixo). A banda francesa abre o show da mesma forma que abre seu álbum mais recente, “Fortitude”, com o grito desesperado “Born for One Thing”. Apresentando o álbum, é dele quase metade do show (5 das 11 canções), mas o anterior, “Magma” também foi bem representado. O peso das canções do quarteto francês é descomunal. E aqui o som está suficientemente alto. Até um tanto mais que o esperado, praticamente um MANOWAR.
No miolo do show, Mario ensaia um solo, mas levanta um cartaz pedindo, em português, que o público responda “Mais Alto”. Pedido atendido, ele mostra o verso do cartaz. “Vocês são foda”.
Joe explica: “A gente bem que queria pular para a frente, para um tempo de mais consciência. Mas não dá. Então, há dois anos pensamos em fugir num foguete”. Era a deixa para “Another World”. No clipe, uma versão afrancesada do filme “Planeta dos Macacos”, o original. Assista para entender. Seguindo o sucesso “L’enfant Sauvage”, não só a única de título francófono, mas também a única deste álbum, Joe envolve o público em um cântico oriental. “A aa aaaa aaaaa aa”. E o público continuou cantando a vocalização de “The Chant” mesmo depois que a música acabou.
“A próxima é muito emocionante pra gente e envolve vocês no Brasil”, explica. “Essa é sobre a destruição da floresta, não só no Brasil como em outros países que a tem”. O público não deixou barato e voltou com os protestos. “Ei, B… vai tomar no cu”. Quando a plateia se acalmou, Joe terminou: “Vocês devem defender seu povo, seu país, os povos indígenas”. “Amazonia” encerra o show da banda francesa mais brasileira de todas, com duas índias (de verdade) no palco.
Foto: screen shot durante transmissão do Multishow
Setlist
Born for One Thing
Backbone
Stranded
Flying Whales
The Cell
Grind
Silvera
Another World
L’Enfant Sauvage
The Chant
Amazonia
GANGRENA GASOSA, ESPAÇO FAVELA
Foto: Lucas Santos Sá – @louquera
Não concordamos com o GANGRENA GASOSA quando eles dizem que “quem gosta de Iron Maiden também gosta de KLB”. Não dá para generalizar, mas é melhor dizer que “quem gosta de Iron Maidem também gosta de Gangrena Gasosa”. Não conseguimos assistir ao show inteiro da banda de “Saravá Metal”, mas conseguimos ver uma parte de seu show no Espaço Favela. O palco mais legal do Rock in Rio (Mundo e Sunset são enormes, mas, tão chapados, impressionavam pelo tamanho, mas não pelo formato) estava completamente lotado.
À frente dos casebres que emulam uma favela real, Zé Pilintra, Omulú, Exu Caveira, Tranca Rua, Pomba Gira e Exu Tiriri tocaram uma grande lista de canções passeando por toda a carreira de irreverência, mas também de rebeldia e conscientização. – Não seja “Fiscal de Cu”. Se o vizinho gosta, o que você tem a ver?
Foto: Lucas Santos Sá – @louquera
E, mais adiante, – Satanás é invenção da igreja. Para te fazer sentir culpado. Para te controlar.
Davi, o Omulu, ainda desceu do palco para cantar no fosso, mas sem a roupa de Omulu (porque nem um orixá, nenhum deus aguenta esse calor do Rio de Janeiro).
Foto: Lucas Santos Sá – @louquera
Setlist
Kizila
Encosto
Surf Iemanjá
Black Velho
Rei do Cemitério
Gente Ruim
Coió
Quem Gosta de Iron Maiden Também Gosta de KLB
Boteco Teco
Terreiro do Desmanche
Cambonos From Hell
Matou a Galinha e Foi ao Cinema
Afirma seu Ponto
Headbanger Voice
Folha da Bananeira (Ê Caveira)
Darkside
Headboomer
Eu Não Entendi Matrix
Fiscal de Cu
A Supervia Deseja a Todos Uma Boa Viagem
Centro do Picapau Amarelo
O Saci
Se Deus É 10, Satanás É 666
Oitão (ou os shows impossíveis de ver)
Ao lado da GANGRENA, mas a uma distância segura para impedir que um show interferisse no outro, se apresentou o OITÃO, banda cujo som, um crossover bastante pesado, faz com que o fato de ter no microfone uma celebridade da TV passe a ser apenas um detalhe. Logo ao fim do show no Palco Favela corremos para o outro palco, mas, infelizmente demos com a cara na porta. Só recuperamos o setlist. E vamos colocar aqui a resenha de um show que não assistimos? Não. Mas marcamos o espaço para, novamente, protestar pela escalação de tantas bandas interessantes para os headbangers na sexta-feira e quase nenhuma no sábado. É fato que o “Dia do Metal” foi o único que não esgotou os ingressos, mas isso não quer dizer que tenha dado prejuízo. Em alguns shows mal dava para se mexer. Metal é uma coisa de alma, sabe? A alma do festival merece ser mais bem tratada com agendamentos mais amigáveis, com mais dias. Segue abaixo o setlist da OITÃO. Quem sabe em 2022 os caras não estão onde merecem? No Sunset, dividindo o show com os padrinhos “roedores”, quem sabe. E na TV (não necessariamente em um reality de culinária).
Setlist
Intro
Chacina
4º Mundo
Podridão Engravatada
Doença
Proteste
Trevas
Instinto Sujo
Pobre Povo
Tiro na Rótula
Polícia (Titãs)
Vida Ruim (Ratos de Porão)
Imagem da Besta
Um Grito de Paz
Iron Maiden , Palco Mundo
Resenhar o show do IRON MAIDEN à esta altura nem vale tanto. Você já viu este show na TV. Então, vamos tentar repassar um pouco da emoção de quem está lá dentro. E com aquele mar de gente, para ver o IRON MAIDEN de pertinho era preciso não sair do Palco Mundo após a apresentação do GOJIRA. E ir ganhando espaço enquanto as pessoas se deslocavam para ir aos outros palcos, ao banheiro, circular pela Cidade do Rock. Como, na verdade, fomos uma dessas pessoas que foram se perder por aquele mundaréu de atrações, claro que não conseguimos chegar nem perto do palco ao retornar para lá. Vimos Dave Murray, Adrian Smith, Bruce Dickinson, Janick Gers e o patrão, dono da porra toda, como se fossem formiguinhas. E o Nicko McBrain, escondido atrás do seu enorme kit, nem assim.
Foto: screen shot durante transmissão do Multishow
A banda acerta ao deixar o novo disco, “Senjutsu”, apenas no começo. Assim, atende a quem gostou do álbum duplo e não aborrece quem não curtiu. A propósito, nós gostamos – IRON MAIDEN é IRON MAIDEN, né? – mas entendemos que ele é realmente cansativo e que umas duas canções poderiam ser limadas com tranquilidade.
Bruce faz questão de lembrar que era a primeira noite do Rock in Rio, do primeiro Rock in Rio depois de 3 anos, “mas vocês sabem e nós sabemos que não tem gente só do Brasil, tem gente do mundo todo para fazer parte da família Iron Maiden, porque somos ‘irmãos de sangue’ “. A gente sabe que a frase preparada é uma deixa para “Blood Brothers”, bela canção do álbum que trouxe Bruce de volta ao MAIDEN em 2000. E a seguinte, assim como no Rock in Rio do ano seguinte (que virou CD e DVD), é “Sign of the Cross”, originalmente cantada por Blaze Bailey, seguida da que não é mais surpresa, “Flight of Icarus”.
Foto: Instagram Iron Maiden
Não convém repetir aqui o que já deve ter sido visto na TV, mas captar emoções. E aqui há muitas. Algumas a TV talvez não transmita. Do povo se espremendo para pegar um melhor lugar, para ver cada detalhe, até a cor dos cadarços dos músicos… De como cantam inteira cada canção (inclusive, cada ôôôô) … Da rejeitada “Fear of the Dark”… Sim, muitos dizem querer que ela saia do setlist, mas na hora que ela começa, está todo mundo cantando. Pais estão cantando com seus filhos (tudo que eu queria era estar com o meu aqui agora) … Show é para sentir emoção. Um do MAIDEN, pelo menos, é isso. Mesmo que vejamos apenas formiguinhas. Uma dessas formiguinhas parece mais cansada, pula menos, corre menos, sobe menos estruturas do que o que vimos em outros shows do MAIDEN que fomos. Mas ainda mostra muita potência vocal e muito domínio de palco.
Chega a hora de “The Number of the Beast”. Como vai ser o Eddie? Será que vamos ter um Eddie grandão japonês dessa vez? E a ansiedade. Será que a surpresa é não ter Eddie dessa vez? Ou será só na Iron Maiden?
Os fogos no topo do palco, que ainda não tinham sido usados, dão o ar da graça (Black Pantera e Gojira usaram, mas sempre entre o palco e o fosso). E lá vem o Diabão.
O show está terminando. Que show curto! O jeito é entrar na cantoria (de novo). “olê, olê, olê / Maiden, Maiden”.
Vai ter bis. É “The Trooper”. Abro espaço para falar que devo ser uma das poucas pessoas no mundo que já passaram por uma cirurgia ouvindo “The Trooper”. O médico anestesista era fã e não há acompanhamento melhor para fazer um bom trabalho do que a música que você gosta, mesmo que seu palco seja de seringas e bisturis. Ele me perguntou o que eu gostava de ouvir e respondi o óbvio. Ele aproveitou minha resposta, colocou uma lista de reprodução no celular e ainda ouvi esse clássico, deitado na maca, antes de tudo se apagar.
Recorte de fake news com foto que tem sido espalhada em grupos e redes sociais
De volta ao 2 de setembro de 2022, temos Bruce atirando com a bandeira do Brasil (imagem que se transformará em fake news falando de um suposto apoio a um dos candidatos a presidente). Fake news somente. Publicamos aqui a foto que rolou em alguns grupos e redes sociais, mas só a parte verdadeira.
Outra que apareceu no mundo sob a voz de Bailey é “The Clansman”, agora na voz de Dickinson. Linda.
Outro bis. E tem um avião. É claro que é “Aces High”.
Senhoras, senhores, crianças, a multidão é formada por pessoas de diversas idades. Se o Iron não se renova (ou quando o faz, o pessoal reclama), a sua base de fãs se renova todo ano. E até casais novos se formam. Será que terão um novo fã daqui a uns anos?
Setlist
Senjutsu
Stratego
The Writing on the Wall
Revelations
Blood Brothers
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
Hallowed Be Thy Name
The Number of the Beast
Iron Maiden
The Trooper
The Clansman
Run to the Hills
Aces High
DREAM THEATER, Palco Mundo
Bruce Dickinson, ao terminar o show com o IRON MAIDEN, disse para o pessoal “ir pra casa em segurança”. Esqueceu do DREAM THEATER, que ocuparia o palco dali a pouco, fechando o primeiro dia (ou primeira noite) de Rock in Rio. Parte do público pareceu estar realmente disposto a atender o pedido. O que vamos ressaltar aqui, deixar bastante claro, é que, embora boa parte do público tenha saído da Cidade do Rock a partir dali, ainda ficou muita gente. Não se pode dizer que o DREAM THEATER tocou para uma plateia vazia. Havia menos pessoas que durante o show do IRON MAIDEN, obviamente, e até mesmo menos que durante o show do GOJIRA, mas, ainda assim, um público considerável. E maior que o do show de São Paulo, em casa fechada. Quem ficou para assistir este show garante que apreciou.
Foto: Instagram Dream Theater
Estivemos também no show de São Paulo e, sendo este uma versão menor do show que aconteceu no Tokio Marine Hall, não vamos nos alongar mais. Pelo menos três canções (uma de 20 minutos, que dá nome ao álbum mais recente do quinteto de ex-alunos de Berkeley) foram limadas e deram lugar ao clássico “Pull Me Under”. A voz de LaBrie também pareceu mais cansada (eufemismo para desafinada) aqui no Rio. O resto, sem espaço para improvisações, foi exatamente igual. Logo, logo publicaremos uma versão detalhada do show de quarta-feira na capital paulista. Confira.
Há exatos 43 anos a música perdia uma das suas vozes mais importantes e o mundo do rock o seu REI. Em virtude disso hoje vamos sair um pouco do nosso habitual padrão para homenagear o Rei do Rock, Elvis Presley, com o álbum That’s the Way It Is.
“That’s the Way It Is is” é o décimo segundo álbum de estúdio do cantor e músico americano Elvis Presley, lançado pela gravadora RCA Records em 11 de novembro de 1970 com a responsabilidade da produção a cargo de Felton Jarvis.
O álbum consiste em oito faixas de estúdio gravadas no RCA Studio B em Nashville, entre 4 e 7 de junho, e mais quatro músicas ao vivo gravadas no The International Hotel em Las Vegas, em 11 e 12 de agosto. Seu lançamento acompanhou a estreia da película do documentário com o mesmo título: “Elvis: That’s The Way It Is“, embora não seja considerado um álbum da trilha sonora. Aqui no Brasil o filme ficou conhecido com o título de “Elvis era assim”.
Os títulos, do LP e do documentário, por serem iguais causaram muita confusão, pois muitos fãs adquiriram o LP pensando que nele estivessem somente canções ao vivo que Elvis interpretara no filme, que basicamente é um show ao vivo do cantor com imagens de bastidores. Mas é claro que para os fanáticos seguidores do Rei, o álbum poderia vir sem som que eles comprariam da mesma forma.
Antes do LP original em vinil ser lançado algumas das faixas renderam alguns costumeiros singles, afinal de contas, Elvis construiu sua muito bem sucedida carreira principalmente com compactos, assim como praticamente todos os artistas dos anos 50 e 60 e entrou nos anos 70 mantendo a mesma forma de agir.
A faixa ao vivo “You Don’t Have to Say You Love Me” foi lançada como single em 6 de outubro tendo em seu lado B, “Patch It Up“. Já “I’ve Lost You“, em uma versão de estúdio, estava nas lojas de discos desde 14 de julho de 1970 tendo “The Next Step Is Love” no seu lado B. A versão ao vivo de “I Just Can’t Believin ‘” do álbum seria lançada como um single apenas no Reino Unido, em 21 de novembro de 1971, com o lado B sendo “How the Web Was Woven”. Esse single exclusivo obteve o número seis nas paradas locais.
O LP “That’s the Way It Is is” chegou ao número 21 na Billboard 200 sendo certificado com o Disco de Ouro em 28 de junho de 1971 e depois sendo atualizado para Disco de Platina em 1978, com mais de um milhão de cópias vendidas e um dos motivos é que vários discos de Elvis tiveram um aumento significativo em suas vendas após a sua morte em 16 de agosto de 1977.
No Brasil, Elvis já era extremante famoso, mas após a sua morte a representante nacional da RCA, despejou no mercado diversos títulos do cantor entre LPs oficiais e coletâneas montadas, mantendo as prateleiras abastecidas com os discos do Rei por anos e anos. “That’s the Way It Is is“, estava entre esses lançamentos e chegou as lojas ainda antes do final de 1977, principalmente por causa da canção “Bridge Over Troubled Water“, composição original de Paul Simon, que estava entre as muitas músicas de Elvis que invadiram as rádios, tanto as FM quanto as AM, naqueles dias após a tragédia. O LP que está aqui em casa pertenceu a minha mãe, ela gostava do Elvis, e foi um presente dado por meu irmão e minha irmã. Como tem o selo e a data escrita na capa, ficou fácil descobrir que ele foi comprado no antigo magazine Jumbo Eletro aqui de São Caetano do Sul-SP, por Cr$870,00 (cruzeiros) em 11 de junho de 1981.
“That’s the Way It Is is” pode ser considerado um símbolo entre os trabalhos de Elvis Presley, não por ser o melhor ou o mais importante, mas por que, de uma forma ou outra, agrega tanto o filme como o disco, que foram as duas principais maneiras de expressão do Rei do Rock. Os links estão à disposição, como de costume. Até a próxima.
Dados:
Lançamento: 11 de novembro de 1970.
Selo: RCA Victor (EUA); RCA (Brasil).
Produção: Felton Jarvis.
Singles:
“I’ve Lost You” lançado em 14 de julho de 1970;
“You Don’t Have to Say You Love Me” lançado em 6 de outubro em 1970;
“I Just Can’t Help Believin’” lançado em 6 de novembro em 1971.
Certificações:
EUA: platina (+1.000.000);
Reino Unido: Prata (+60.000).
Studio tracks:
Elvis Presley – vocals, guitar
James Burton – lead guitar
Chip Young – rhythm guitar
David Briggs – piano, organ on “How the Web Was Woven“
Norbert Putnam – bass
Jerry Carrigan – drums
Charlie McCoy – organ, harmonica, marimba on “Just Pretend” and “Twenty Days and Twenty Nights“
Farrell Morris – percussion, vibes
Weldon Myrick – steel guitar on “How the Web Was Woven“
Os dias estão passando tão rápido, pelo menos é a minha impressão, que é hora de postar outro capítulo do nosso especial que conta a saga dos shows internacionais por nossas paradas no fundamental ano de 1989. Então, após o show perfeito do Uriah Heep, e posso afirmar que perfeito em todos os sentidos, a localização, o som, a apresentação, etc; era hora de voltar e encarar uma nova ida até a zona leste e ir curtir o show do Destruction no Projeto Leste I, de triste lembrança, pois foi ali que o show do Kreator não aconteceu, conforme já contamos tudo a respeito na primeira parte do nosso especial “… PRA FICAR!!!”.
Felizmente dessa vez a banda alemã escalada veio e uma boa promoção para o show já estava em andamento desde maio pela Hurricane, a mesma produtora que havia colocado o Nuclear Assault em nossos palcos pela primeira vez, o que dava uma sensação de que ia dar tudo certo. Foram confirmadas para a abertura as bandas Hammerhead e Korzus e a data, 12 de agosto, no já citado Projeto Leste I, no Bairro da Mooca.
As primeiras informações cravavam que seriam duas datas, 11 e 12, mas eu acredito que a experiência dos recentes eventos realizados por aqui, acabou pesando na decisão por uma data única e foi uma escolha acertada como vamos comentar um pouco mais adiante.
Existem muitas estórias sobre as aventuras vividas pelos alemães durante os dias que antecederam o evento. Eles desembarcaram aqui em São Paulo na segunda e não pararam mais visitando tudo que podiam. Foram no Aeroanta, nas lojas da Galeria do Rock e em boa parte do tempo, não sendo muito reconhecidos, para sorte deles, pois o povo já era bem pegajoso, no bom sentido, naqueles tempos com seus ídolos também.
O Destruction ficou hospedado no ABC paulista, no Pampa Hotel e claro, os músicos foram conhecer a cidade. E foi graças a uma dessas saídas da banda que consegui meu ingresso. A produtora do show levou os caras para um buteco (ou barzinho, já que era um ambiente de ‘boy’ e nada roqueiro) lá de Santo André em uma das noites. Eu conhecia uma das garçonetes desse bar, pois eu também trabalhava em Santo André e conversando certo dia ela me contou sobre um grupo de cabeludos gringos que bebiam muito terem ido ao trabalho dela e que tinham lhe dado um convite para um show. Convite esse que ela gentilmente me ofereceu, já que música pesada não era a praia dela, e eu aceitei com as duas mãos.
No dia 12 a minha principal lembrança é que tinha muita gente na porta do local, alguns ônibus de caravanas, carros com som bem alto rolando thrash é claro. Graças aquela cortesia entrei sem dificuldade alguma, bem diferente da maioria que estava encarando uma longa fila. A coisa foi tão enrolada que o Hammerhead subiu ao palco para pouco público. Não tenho lembranças do show deles, na verdade o que eu me lembro sobre o Hammerhead é que o som deles era bem na linha do Anthrax e por isso eu achava bem legal.
A casa foi enchendo e quando o Korzus começou seu set tudo começou a complicar. Definitivamente o pessoal aqui no Brasil não sabia brincar no que se referia à cultura do ‘mosh’ em show. Teve uma hora que tinha tanta gente em cima do palco que faltava espaço pros músicos. Ai o relacionamento “bangers x seguranças” que nunca foi muito bom entrava em atritos constantes. O Pompeu, vocalista do Korzus, tentou ponderar algumas vezes, mas o tempo para se apresentar já era pouco, se ficasse falando muito daí é que não tocariam nada.
A expectativa aumentava proporcionalmente ao intervalo entre uma banda e outra, mas finalmente o Destruction, naquela época um quarteto, invadiu o palco com o som oscilando muito e detonando a paulada “Curse the Gods”. Demorou umas três ou quatro músicas para a banda e o pessoal da mesa entrar em um acordo e o som ficar um pouco melhor, mas sinceramente eu não estava nem ligando, tal era a minha felicidade de ter visto de perto eles tocarem a “Thrash Attack”.
Diferente dos caras do Testament que corriam para todo lado durante o show, Schmier e companhia ficavam mais centrados em seus instrumentos, apenas balançando as cabeleiras. Até a metade da apresentação, tava tudo indo muito bem, mas o povo do mosh resolveu atacar em peso num determinado momento que virou bagunça. Uns caras subiram no palco e não desciam mais, gritavam no microfone, atrapalhavam os músicos que levaram na boa até onde deu. Mas na hora da “Mad Butcher” a coisa se tornou tão impraticável que eles pararam de tocar. Daí toda uma ‘limpeza’ foi feita no palco e eles puderam recomeçar a música dessa vez com o pessoal colaborando um pouco mais, mas só um pouco. Encerrando a noite o hino “Bestial Invasion” que transformou o local em um tumulto só, mas foi muito legal.
Como a casa quase lotou – li relatos posteriores em ‘zines’, que estiveram presentes por volta de 3 mil pessoas no evento – mas não faço a menor ideia de qual era a capacidade que o Projeto Leste I possuía, só que tava bem cheio e tinha gente pacas. E ficou provado que uma data foi mais do que suficiente.
Nos dias seguintes entre uma ida na Galeria do Rock e uma passada na Woodstock Discos, os relatos sobre as peripécias do Destruction, se foram verdadeiras ou não, sabe-se lá, pela Grande São Paulo rendiam muitas conversas e muitas risadas. Além da satisfação de sentir que as coisas tinham entrado nos trilhos definitivamente e que as bandas gringas estariam com frequência ao nosso alcance.
A edição número 42 da revista Rock Brigade, publicada em outubro, trouxe um entrevista muito legal com os membros do Destruction realizada antes do dia do show e entre as perguntas uma indagação sobre o furo do Kreator no início do ano, o que era bem pertinente, pois ambas as bandas são do mesmo país e os músicos se conheciam. Em uma resposta bem política a banda se mostrou chateada por causa da situação criada por aqui, mas que tinham conversado com o Kreator recentemente e disseram que a banda estava comprometida a mudar esse panorama o mais rápido possível, e de fato, em 1992 durante sua primeira visita ao Brasil, o mal estar foi definitivamente superado.
Que ano foi esse o de 1989. E sabe o que foi o melhor? O maior nome ainda estava por vir e o sonho de muitos headbangers brazucas estava para se realizar, mas desse assunto vamos tratar detalhadamente na próxima parte do nosso especial. Pois como você já bem sabe, em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!
Destruction Brazilian Tour ’89:
– São Paulo, 12 de agosto.
Setlist :
Curse the Gods
Thrash Attack
Reject Emotions
Dissatisfied Existence
Invincible Force
Release From Agony
Mad Butcher
Eternal Ban
Plead Guilty
Life Without Sense
Death Trap
Bestial Invasion
Nota: Republicamos a matéria do Paulo Márcio porque não é todo dia que um showzaço como esses faz 31 anos.
Os dias estão passando tão rápido, pelo menos é a minha impressão, que é hora de postar outro capítulo do nosso especial que conta a saga dos shows internacionais por nossas paradas no fundamental ano de 1989. Então, após o show perfeito do Uriah Heep, e posso afirmar que perfeito em todos os sentidos, a localização, o som, a apresentação, etc; era hora de voltar e encarar uma nova ida até a zona leste e ir curtir o show do Destruction no Projeto Leste I, de triste lembrança, pois foi ali que o show do Kreator não aconteceu, conforme já contamos tudo a respeito na primeira parte do nosso especial “… PRA FICAR!!!”.
Felizmente dessa vez a banda alemã escalada veio e uma boa promoção para o show já estava em andamento desde maio pela Hurricane, a mesma produtora que havia colocado o Nuclear Assault em nossos palcos pela primeira vez, o que dava uma sensação de que ia dar tudo certo. Foram confirmadas para a abertura as bandas Hammerhead e Korzus e a data, 12 de agosto, no já citado Projeto Leste I, no Bairro da Mooca.
As primeiras informações cravavam que seriam duas datas, 11 e 12, mas eu acredito que a experiência dos recentes eventos realizados por aqui, acabou pesando na decisão por uma data única e foi uma escolha acertada como vamos comentar um pouco mais adiante.
Existem muitas estórias sobre as aventuras vividas pelos alemães durante os dias que antecederam o evento. Eles desembarcaram aqui em São Paulo na segunda e não pararam mais visitando tudo que podiam. Foram no Aeroanta, nas lojas da Galeria do Rock e em boa parte do tempo, não sendo muito reconhecidos, para sorte deles, pois o povo já era bem pegajoso, no bom sentido, naqueles tempos com seus ídolos também.
O Destruction ficou hospedado no ABC paulista, no Pampa Hotel e claro, os músicos foram conhecer a cidade. E foi graças a uma dessas saídas da banda que consegui meu ingresso. A produtora do show levou os caras para um buteco (ou barzinho, já que era um ambiente de ‘boy’ e nada roqueiro) lá de Santo André em uma das noites. Eu conhecia uma das garçonetes desse bar, pois eu também trabalhava em Santo André e conversando certo dia ela me contou sobre um grupo de cabeludos gringos que bebiam muito terem ido ao trabalho dela e que tinham lhe dado um convite para um show. Convite esse que ela gentilmente me ofereceu, já que música pesada não era a praia dela, e eu aceitei com as duas mãos.
No dia 12 a minha principal lembrança é que tinha muita gente na porta do local, alguns ônibus de caravanas, carros com som bem alto rolando thrash é claro. Graças aquela cortesia entrei sem dificuldade alguma, bem diferente da maioria que estava encarando uma longa fila. A coisa foi tão enrolada que o Hammerhead subiu ao palco para pouco público. Não tenho lembranças do show deles, na verdade o que eu me lembro sobre o Hammerhead é que o som deles era bem na linha do Anthrax e por isso eu achava bem legal.
A casa foi enchendo e quando o Korzus começou seu set tudo começou a complicar. Definitivamente o pessoal aqui no Brasil não sabia brincar no que se referia à cultura do ‘mosh’ em show. Teve uma hora que tinha tanta gente em cima do palco que faltava espaço pros músicos. Ai o relacionamento “bangers x seguranças” que nunca foi muito bom entrava em atritos constantes. O Pompeu, vocalista do Korzus, tentou ponderar algumas vezes, mas o tempo para se apresentar já era pouco, se ficasse falando muito daí é que não tocariam nada.
A expectativa aumentava proporcionalmente ao intervalo entre uma banda e outra, mas finalmente o Destruction, naquela época um quarteto, invadiu o palco com o som oscilando muito e detonando a paulada “Curse the Gods”. Demorou umas três ou quatro músicas para a banda e o pessoal da mesa entrar em um acordo e o som ficar um pouco melhor, mas sinceramente eu não estava nem ligando, tal era a minha felicidade de ter visto de perto eles tocarem a “Thrash Attack”.
Diferente dos caras do Testament que corriam para todo lado durante o show, Schmier e companhia ficavam mais centrados em seus instrumentos, apenas balançando as cabeleiras. Até a metade da apresentação, tava tudo indo muito bem, mas o povo do mosh resolveu atacar em peso num determinado momento que virou bagunça. Uns caras subiram no palco e não desciam mais, gritavam no microfone, atrapalhavam os músicos que levaram na boa até onde deu. Mas na hora da “Mad Butcher” a coisa se tornou tão impraticável que eles pararam de tocar. Daí toda uma ‘limpeza’ foi feita no palco e eles puderam recomeçar a música dessa vez com o pessoal colaborando um pouco mais, mas só um pouco. Encerrando a noite o hino “Bestial Invasion” que transformou o local em um tumulto só, mas foi muito legal.
Como a casa quase lotou – li relatos posteriores em ‘zines’, que estiveram presentes por volta de 3 mil pessoas no evento – mas não faço a menor ideia de qual era a capacidade que o Projeto Leste I possuía, só que tava bem cheio e tinha gente pacas. E ficou provado que uma data foi mais do que suficiente.
Nos dias seguintes entre uma ida na Galeria do Rock e uma passada na Woodstock Discos, os relatos sobre as peripécias do Destruction, se foram verdadeiras ou não, sabe-se lá, pela Grande São Paulo rendiam muitas conversas e muitas risadas. Além da satisfação de sentir que as coisas tinham entrado nos trilhos definitivamente e que as bandas gringas estariam com frequência ao nosso alcance.
A edição número 42 da revista Rock Brigade, publicada em outubro, trouxe um entrevista muito legal com os membros do Destruction realizada antes do dia do show e entre as perguntas uma indagação sobre o furo do Kreator no início do ano, o que era bem pertinente, pois ambas as bandas são do mesmo país e os músicos se conheciam. Em uma resposta bem política a banda se mostrou chateada por causa da situação criada por aqui, mas que tinham conversado com o Kreator recentemente e disseram que a banda estava comprometida a mudar esse panorama o mais rápido possível, e de fato, em 1992 durante sua primeira visita ao Brasil, o mal estar foi definitivamente superado.
Que ano foi esse o de 1989. E sabe o que foi o melhor? O maior nome ainda estava por vir e o sonho de muitos headbangers brazucas estava para se realizar, mas desse assunto vamos tratar detalhadamente na próxima parte do nosso especial. Pois como você já bem sabe, em 1989 os shows internacionais chegaram ao Brasil… PRA FICAR!!!
Illumishade, essa palavra curiosa, é o nome da nova banda que conta em sua formação com dois integrantes do Eluveitie: a talentosa cantora Fabienne Erni e o guitarrista Jonas Wolf. Propondo em seu registro de estreia um projeto conceitual, a ideia transcende o álbum nos levando a um mundo fantástico de magia, muita imaginação, onde somos envolvidos por personagens, ambientes cativantes, conflitos e principalmente, músicas inspiradas de extrema qualidade.
O trabalho chamado “Eclyptic: Wake of Shadows” foi lançado ainda no primeiro semestre e vem recebendo merecidamente críticas positivas – como você pôde conferir o review feito por nós – desde então. E o Headbangers Brasil tem a honra de receber Fabienne Erni, umas das mais destacadas vocalistas da música pesada na atualidade, para conhecer um pouco mais a respeito sobre esse universo tão especial que o Illumishade representa e é claro, sobre outros assuntos pertinentes também.
Headbangers Brasil: Antes de tudo, parabéns pelo lançamento deste excelente álbum Fabi e obrigado por compartilhar conosco este mundo tão especial que “Eclyptic: Wake of Shadows” retrata. Mas me diga como foi escolher, ou melhor, convidar os outros membros da banda para construir o mundo de Illumishade ao seu lado?
Fabi: Olá e muito obrigada pelo convite! 🙂 Bem, todo o projeto começou como um projeto escolar! Eu estava terminando meu mestrado na universidade de música em Zurique em setembro passado e minha tarefa era criar um projeto e música! Então foi assim que tudo começou! E escolher os membros foi fácil: com Yannick e Marc, eu estudava com eles há 5 anos e os conheço muito bem. Eu conheci Mirjam também na escola e sabia que ela era a pessoa certa! E, claro, Jonas. Todos nós viemos da mesma cidade e estou super feliz por ter todos eles na banda!
HB: A escolha de um trabalho conceitual é um tremendo desafio, que poucas bandas se atrevem a enfrentar. Falando para as pessoas que ainda não tiveram a chance de ouvir as músicas, como você descreveria o enredo que Illumishade se propôs a contar?
Fabi: Estamos convidando as pessoas para o nosso mundo de ILLUMISHADE! É um lugar onde todos podem se sentir em casa e escapar da realidade por um momento. No nosso mundo de ILLUMISHADE, aqui estão 5 tribos, cada membro da banda pertence a uma tribo. E nós, como a ordem de ILLUMI, protegemos o coração do nosso mundo, o cristal, que mantém o mundo inteiro em equilíbrio.
HB: A impressão que tive ao ouvir o álbum é que vocês fizeram tudo com uma segurança impecável, variando passagens muito pesadas com momentos angelicais, conseguindo transmitir atmosferas únicas. Quanto tempo vocês passaram no estúdio e qual foi a faixa mais desafiadora? A que exigiu mais da banda?
Fabi: Os contrastes desempenham um grande papel em nossa banda. Não apenas no nome da banda (ILLUMI – SHADE), mas também musicalmente. Eu absolutamente amo baladas derretidas, mas também gosto de coisas pesadas. O mesmo para Jonas! Então ficou claro que esse projeto seria um playground para deixar a criatividade fluir. O tempo do estúdio foi um pouco louco, porque também fomos ao estúdio entre as turnês com a Eluveitie, foi muito intenso. Cada faixa tem sua estória, algumas faixas levaram mais tempo até chegarmos ao ponto em que poderíamos dizer: sim, vamos levar essa para o álbum! O mais desafiador foi, eu acho, “Muse of Unknown Forces”! O último refrão é muito alto, além das harmonias! Mas mais alto é mais alto e mais e mais … haha! 😉
HB: É notório que bandas com características voltadas para folk e gótico, têm um capricho peculiar ao propor a gravação de um vídeo. Portanto, era de se esperar do Illumishade essa singularidade, mas vocês foram além, construindo pequenas obras-primas com os vídeos de “World’s End” e “Rise”. Diga-me como surgiram as ideias para essas produções?
Fabi: Oh, muito obrigada pelas suas amáveis palavras! Temos muita sorte de conhecer Jens (produtor), ele é um grande amigo nosso agora! Eu acho que foi o ajuste perfeito para nós – não é apenas produtivo e criativo trabalhar com ele, mas também muito divertido! É claro que fizemos um plano e reunimos ideias, Jens é muito estruturado e sempre bem preparado. Mas algumas coisas foram espontâneas, por exemplo, os shootings no lago em “Rise”! Às vezes o espontâneo é o melhor! 😉
HB: Fabi há algo muito especial em sua interpretação da música “Rise”, que não consigo explicar com palavras, é algo que senti. Se possível, eu gostaria que você comentasse esta música. De onde veio tanta paixão e inspiração?
Fabi: Oh, muito obrigada! Ouvir isso me faz muito feliz! Essa música significa muito para mim e não é apenas uma parte importante do nosso álbum conceitual, mas também como uma música independente. A mensagem é encorajadora e eu gosto de deixar espaço para que todos possam interpretá-la à sua maneira. É encorajador para mim também, pois criar um novo projeto exige muita coragem e você enfrenta muitos momentos e situações novos e difíceis. Mas graças a isso eu também cresci não apenas como músico, mas também como pessoa.
HB: Seu registro vocal é extremamente versátil, às vezes muito poderoso, atingindo notas muito altas, já em outro momento suave e quase sussurrante. Como funciona seu processo de composição e há alguma diferença entre cantar suas próprias letras e aquelas escritas por outra pessoa?
Fabi: Toda música tem seu próprio jeito de crescer. Algumas foram escritas apenas por uma pessoa, outras foram escritas no coletivo. Algumas nasceram quando Jonas e eu estávamos trabalhando juntos em minhas ideias, e ele as organizou e as desenvolveu. Mas em cada música, cada membro pode dar seu próprio estilo a ela. Isso é muito importante para nós. Foi a primeira vez que eu cantei minhas próprias letras e, claro, pareceu muito intenso. Mas não é a coisa mais importante para mim, eu gosto de cantar letras de outras pessoas! Tive muita sorte de trabalhar em conjunto com Callum South, um letrista muito talentoso.
HB: O conceito de Illumishade transcende o álbum, pois o enredo apresentado é muito rico em detalhes, o que oferece perspectivas muito interessantes a serem exploradas. Tenho certeza que vocês já pensaram nisso, certo?
Fabi: Criamos nosso mundo para muita interatividade entre os membros da banda e os ouvintes. Queremos que todos se sintam parte do nosso mundo, que se sintam em casa! Por isso, criamos nosso questionário sobre tribos (você o encontra em nossa página inicial – é possível ver a qual tribo pertence!), Nossa introdução coletiva e muitas outras interações. Aqui também Tamara desempenha um grande papel, nosso sexto membro em segundo plano, não é apenas minha melhor amiga, mas assumiu o papel de gerente da banda, é uma genuína organizadora e, graças a ela, pudemos perceber todas essas ideias. Também trabalhamos com um escritor de conceitos muito talentoso para desenvolver nosso mundo cada vez mais.
HB: Olhando de fora, tudo parece definido, com as orquestrações sob a responsabilidade de Mirjam, o lado pesado por conta de Jonas etc. A gravação funcionou seletivamente em relação a contribuição de cada membro ou foi algo mais como uma equipe?
Fabi: Toda música tem sua própria estória de desenvolvimento. Mas é muito importante para nós que cada membro possa contribuir com as músicas e que cada membro possa se conectar musicalmente. Estou muito feliz por ter um time tão maravilhoso, não apenas os membros da banda, mas Tamara, assim como Jens como nosso ‘videoguy’, nosso escritor de conceitos e Claudio Rodriguez, que gravou grande parte de nossas músicas e fez a mixagem.
HB: Corona vírus mudou a vida de todos nós, e as tours se tornaram bem mais complicadas. Você já foi capaz de avaliar o quanto foram prejudicados? Vocês têm planos para shows – normais ou online – para o restante do segundo semestre?
Fabi: Sim, tempos estranhos. Conseguimos fazer o show de lançamento ao vivo. Seria uma pena não poder tocar nosso álbum ao vivo! Sou muito grata por aquela oportunidade e o ponto positivo disso foi que poderíamos alcançar o mundo inteiro. Foi uma experiência muito intensa! Temos algumas coisas planejadas para os próximos meses, mas não posso revelar muito! Mas fique ligado !! 😉
HB: Ainda sobre o C-19, como estão as coisas na sua cidade atualmente? As pessoas respeitam a distância social?
Fabi: Aqui na Suíça, tudo está bem, obrigada. Temos restrições e temos que usar máscaras e manter distância social, mas podemos nos reunir em grupos maiores novamente. Viajar é mais difícil, é claro, e se você viajar para determinados países, precisará entrar em quarentena. Vamos ver como tudo se desenvolve, permaneço positiva e espero que shows maiores sejam permitidos algum dia novamente.
HB: Em relação ao incrível show de 23 de maio, que foi acompanhado por fãs de todo o mundo. A produção foi ótima. Como você se sentiu, Fabi? Diga-me como foi para você e a banda, qual foi o sentimento? E por que o tema de ‘Fronzen 2’ para o bis? (Particularmente eu gostei da versão, ficou muito legal).
Fabi: Oh, muito obrigada! Eu me diverti muito cantando “Into the Unknown” de Frozen 2! Eu sou uma grande fã da Disney 🙂 ! Foi uma experiência muito única, incrível, mas estranha ao mesmo tempo! Eu estava sentindo falta da reação da multidão. Você faz um show – mas não recebe absolutamente nenhum feedback. Um show ao vivo vive e cresce com a interação entre a multidão e a banda, e esse aspecto muito importante estava faltando! Mas nós fizemos nosso show e nos divertimos! Foi realmente um momento especial e inesquecível tocar nosso primeiro concerto para o mundo em um “concerto fantasma”!
HB: Fabi, quero muito agradecer sua atenção. É nosso desejo que Illumishade tenha o sucesso que merece, com muitos álbuns e turnês pela frente. E, claro, será incrível um dia recebê-los aqui no Brasil. Sinta-se livre para deixar uma mensagem para seus fãs e do Illumishade. Obrigado.
Fabi: Obrigada a todos por lerem esta entrevista! E Paulo, obrigada pelo convite! Foi um prazer! Desejo a todos o melhor, espero que um dia possamos visitar seu país e fazer shows! Obrigada por seu apoio e mantenha-se saudável!
Como fomos honrados com essa magnífica entrevista gentilmente concedida por Fabi ao Headbangers Brasil, resolvemos oferecer também aos fãs da banda uma pequena resenha sobre o show de lançamento de “Eclyptic: Wake of Shadows”. Confira.
Resenha de show: Illumishade, live stream show, 23 de maio de 2020.
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Na impossibilidade de realizar um show tradicional para o lançamento do álbum “Eclyptic: Wake of Shadows”, o Illumishade fez uso de seu ‘plano B’ e no dia 23 de maio passado, realizou o show sem público via seu canal oficial no You Tube.
A produção se esmerou em todos os detalhes, envolvendo cenário, figurino, iluminação, efeitos, em suma, todos os ingredientes de um show ao vivo normal, foram oferecidos aos fãs para que cada um pudesse, mesmo de longe, sentir o complexo mundo mágico que o Illumishade quer transmitir.
Antes da apresentação em si, uma serie de cenas de bastidores fez o papel de abertura. Mantendo a ordem de todas as treze faixas, a banda apresentou as músicas do conceitual álbum concentrada e com muita segurança.
Em meio a uma proposital penumbra propícia para destacar um belo efeito visual com a capa usada por Fabi, durante a intro “Passage Through The Clouds”, o ambiente começou a ser composto. Em seguida emendam direto em “The Calling Winds” em uma performance objetiva, com som e luzes na medida adequada. Só por esse cartão de visitas já se percebe, que apesar da produção complexa do álbum, com vocais e backing vocals em camadas, ao vivo a banda consegue reproduzir, senão em todos os detalhes, os que realmente importam, com o som denso e abrangente, associado á extraordinária interpretação de Fabi.
Entre os principais destaques é impossível deixar de citar as emocionantes “Rise” e “World’s End”, que ficaram incríveis ao vivo, com a banda colocando um sentimento único em cada nota desferida. Uma grande e inesperada surpresa ficou para a hora do bis. A banda apresentou uma versão para a canção tema de uma película que está entre os grandes sucessos dos estúdios Disney, “Frozen 2”, a música “Into the Unkown”, com instrumental do Illumishade colocando seu estilo na melodia. A interpretação de Fabi foi um verdadeiro show a parte com muita versatilidade e uma demonstração de alcance vocal simplesmente fantástica.
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Após a apresentação os membros da banda permaneceram no palco, mantendo o devido distanciamento social, e respondendo por um longo tempo perguntas dos fãs que acompanharam o evento em um clima muito descontraído.
Para ter sido melhor, só em condições normais e com a casa cheia. Mas como sabemos que era impossível, acredito que o Illumishade marcou com sucesso o lançamento do álbum com uma grande apresentação, que esta registrada e disponível no canal oficial da banda no You Tube.
[Fotos: Mídias sociais de Illumishade, Fabienne Erni e Paulo Marcio).
“Diversidade e pluralidade de estilos e de atitudes marca a segunda noite do festival”
Baseado na experiência do Do It Yourself (faça você mesmo), o evento ganhou notoriedade entre os fãs de rock/metal do país por encontrar possibilidades viáveis de realização, criar condições mínimas de auto sustentação e, principalmente, de oferecer estrutura dignas às bandas que anualmente participam do festival. Nesse sentido, já são 21 anos de atividades se reiventando para superar os mais diversos entraves que todos os anos se interpõem à sua realização. O evento, conforme informado pela organização, sempre se diferenciou pela gratuidade, com rara exceção, quando foi cobrado valor simbólico ao público. Mas o que fica é a sensação de que tem algo grande acontecendo e, querendo ou não, o Forcaos é um conjunto de boas práticas que o Ceará compartilha com o resto do país, mostrando que é possível fazer muito com pouco.
IMPRESSÕES SOBRE A SEGUNDA NOITE
Todas as bandas se saíram muito bem dentro de suas propostas e considerando as circunstâncias que cada uma teve pra produzir seus vídeos. Mas claro que houve destaques e eles são lindos:
[CE, 1:53] Hard Rock no melhor estilo Van Halen era Sammy Hagar. Música boa, bem tocada e cheia de energia. Ótima performance pra abrir bem a segunda noite do festival online.
[CE, 13:55]: O Punk Rock clássico é o ponto de partida para a estética do grupo. A banda ofereceu uma mescla de performances realizadas no Rock Cordel CCBNB 2020 e Praça Rogaciano Leite (Passarela do Dragão). Boa apresentação.
[CE, 26:35] Heavy Metal moderno na linha Metal Church. No final de 2019 a banda lançou o excelente The Battle Of The Somme e nos oferece uma boa performance do tipo “cada um no seu quadrado.
[CE, 30:45] Com um full lenght Consumed by Biomechanichs tirado do forno, a banda se mostra pronta para encarar os palcos. Nesta ocasião, direto do estúdio, a banda nos brinda com um Thrash Metal na baseado em Sodom/Exodus.
[CE, 35:56] Com um New Metal autoral a banda nos oferece uma performance realizada para o Canal Show Livre. A música é do grupo é inspirada nos medalhões do estilo como Korn e Deftones. Boa apresentação.
[CE, 46:59] Banda de Hardcore melódico. O grupo está promovendo o single O ÓDIO ELEITO e promete mais até o final do ano. Com um posicionamento político contundente, junta sua música ao coro dos social-conscientes. E sendo coerente com seu discurso a banda faz uma performance “cada um no seu quadrado”. Muito boa, por sinal.
[CE, 1:00:03] Hardcore com um pé fincado no Thrash Metal. A banda demonstra muita força na sua música, além da raiva peculiar ao estilo. Nesta ocasião, apresenta um mescla de um show realizado no Jardim do Teatro José de Alencar e no estúdio com Haru Cage da Corja-CE. Muito convincente!
[CE, 1:05:01] A banda se define como fadados ao fracasso social e propõe uma cuspida quase que literal na sociedade opressora juntamente com seus conflitos ideológicos! A verdade é que o grupo tem a pegada e o ódio necessário a toda e qualquer banda do estilo. Aqui, nos brinda com uma performance cheia de raiva direta do estúdio.
[CE, 1:17:22] Se apresenta como uma revelação do Doom, ou como eles preferem, Slow Metal, do estado para o mundo. A banda teve o disco The Universe The Prision lançado no exterior e nos oferece uma apresentação realizada para o Festival da Juventude, de Fortaleza/CE.
[RJ, 1:31:32] Tendo lançado o álbum Reborn (2019), a banda tem trabalhado para ampliar seu alcance na cena do metal extremo do Brasil. E com a presença carismática e os vocais brutais de Angélica, a banda nos oferece uma performance energética direta do estúdio.
[MG, 1:35:13] A banda destaca sua participação numa edição anterior do ForCaos. Atualmente está trabalhando nos retoques finais do seu terceiro álbum, que está programado para ser lançado no segundo trimestre do ano atual, 2020. Para esta edição online do festival, prepararam uma apresentação especial ao vivo no estúdio.
[PE, 1:38:51] A banda destaca suas influências de Kreator, Sepultura, Carcass e Hypocrisy. Em 2020 o grupo se estabiliza como um quarteto para lançar seu terceiro álbum oficial: Subversive Need. Aqui nos brindam com uma excelente performance intitulada com o singelo nome de Lockdown Sessions.
[SP, 1:47:44] O grupo mistura diversas influências , desde o HCNY do Hatebreed até o Metal extremo do Aborted. Sem massagem, sem tempo pra descansar ou pensar no próximo movimento. A idéia é ser rápido, quebrado e brutal. A banda já se apresentou no ForCaos e nesta ocasião, em respeito a pandemia, se apresenta no modo “cada um no seu quadrado”. Apresentação impecável.
[CE, 1:51:01] A música do Corja! veio para quebrar um marasmo que já foi quebrado outras vezes por bandas como Death, Sepultura e Pantera. Ocorre que esse marasmo precisa ser combatido constantemente sob o risco de que as coisas recaiam numa normalidade que só interessa àqueles que não gostam de mudança e para os quais o “normal” satisfaz. De toda forma, o tempo se encarrega de normalizar essas coisas sem que ninguém perceba, por isso é tão importante que surjam bandas com aptidão para provocar rupturas de modo que novas dinâmicas possam ser trazidas à tona.
[CE, 1:58:31] Em 2018, o Siege of Hate (S.O.H.) lançou EP “Cerco de Ódio”. Primeiro registro da banda com músicas em português e aproveitou para fazer uma homenagem ao Metal Extremo nacional com uma versão para o clássico “Believers of Hell“, do Mutilator. O EP foi produzido por Jean Dolabella (Ego Kill Talent e ex-Sepultura) e Moisés Veloso. Nesta ocasião a banda se apresenta no modo “cada um no seu quadrado” com Gabai fazendo as vezes de baterista, guitarrista e vocalista e George Frizzo sendo o baixo dissonante da discórdia. Boa performance!
[PI, 2:13:54] Banda que mesclar agressividade e a harmonia num death metal extremo e dinâmico. Em suas letras, falam da degradação da humanidade, mas não em uma perspectiva niilista e nem misericordiosa. Busca refletir sobre a natureza das ações humanas e de suas consequências para o mundo. A banda nos oferece uma performance altamente agressiva gravada ao vivo no estúdio.
[RN, 2:26:42] Banda de Heavy Metal que tem como influência nomes como Black Sabbath, Kiss, Hellacopters, Motorhead. Respeitando o confinamento, a banda faz uma apresentação no estilo “cada um no seu quadrado” e oferece uma boa performance.
[CE, 2:40:10] Com mais de 30 anos de história, a banda é motivo de orgulho para os headbangers do Ceará e um dos nomes mais atuantes no Brasil. Mesmo tendo uma discografia pequena para sua grandiosidade, a banda é reverenciada pelos maiores nomes do estilo no país. Tem no currículo, um legado de lutas em contra o autoritarismo e a favor do homem como ser humano e social. Nesta edição do ForCaos a banda mostra os clipes das novas versões de The Signing Of Hungry e de Absence of Knowledge, que integram o relançamento do álbum Overcasting (1998). A mensagem que a banda transmite é contundente, mas é valorosa para quem defende a porção humana do homem. Destaque absoluto desta segunda noite!
[SP, 2:51:24] Desalmado toca Grindcore, mas não gosta de rótulos. É fiel apenas ao seu próprio estilo de música e repudia as tendências. Suas letras se posicionam contra os padrões de comportamento impostos pelos que detêm o poder e ditam as regras da sociedade. Aprendi a gostar dessa banda por afinidade de ideais e pela sua postura humana. Desalmado tem muita alma e nesta performance exclusiva para o ForCaos desce o cacete no Estado Inconsciente daquilo que seja uma nação.
“Mais uma edição com muitas bandas de diversos estados do país e que tem se notabilizado pelo engajamento e mutualidade”
Pensado inicialmente para valorizar a diversidade cultural característica das grandes metrópoles, o festival surgiu com a proposta de mostrar ao público as principais vertentes do rock local e nacional através da troca de experiências e informações. O evento ganhou outras proporções transformando-se em uma referência no circuito de festivais alternativos do país. Objetivando construir um espaço de discussão da juventude enquanto protagonista de ações transformadoras do meio social que se encontra inserida, o festival vem desmistificando a noção tradicional (velha) que se tem do rock enquanto um simples produto musical. Busca disseminar a ideia da Cultura da Paz como forma de construir a cidadania e promover a transformação social através do estímulo aos jovens pela participação nas diversas atividades (seminários, oficinas, passeio ciclístico e apresentações musicais) praticadas.
IMPRESSÕES SOBRE A PRIMEIRA NOITE
Todas as bandas se saíram muito bem dentro de suas propostas e considerando as circunstâncias que cada uma teve pra produzir seus vídeos. Mas claro que houve destaques e eles são lindos:
[CE, 02:15] Mistura muito interessante de elementos regionais com o rock clássico e prog metal. O trio apresenta alto nível técnico e muita inspiração na composição apresentada;
[CE, 30:03] A música é autoral e o artista, carismático. O som é algo na linha indie-rock. A apresentação é intimista e correta, deixando a impressão de que Ítalo pode se dar muito bem tocando e cantando na noite;
[SP, 52:59]Death Metal moderno e competente sob a liderança feminina de Mylena Monaco. A performance é do tipo “cada um no seu quadrado”, mas muito convincente;
[RJ, 57:12]Thrash Metal com influências do som feito na Bay Area de São Francisco (CA-USA), reduto das grandes bandas americanas do estilo. Respeitando o confinamento, a banda realizou uma boa apresentação no estilo “cada um no seu quadrado”;
[MA, 1:02:57]Hardcore / Crossover com influências de bandas como Ratos de Porão, D.F.C, Municipal Waste e D.R.I. O som é realmente nervoso e certamente vai provocaria uma grande roda de pogo se a apresentação fosse numa casa de show;
[CE, 1:07:39] legítimo hardcore nova-iorquino com sotaque cearense. A banda ofereceu uma performance realizada antes da pandemia e conseguiu transmitir bem a fúria de sua música;
[BA, 1:21:10] Quem disse que não se faz mais Punk Rock como antigamente? Aqui, os Veteranos da cena Punk nacional mostram que é possível fazer uma revolução musical mesmo dentro de quatro paredes. Bela apresentação;
[PE, 1:29:33]Thrashcore bruto e cheio de atitude. Nesta ocasião a banda nos ofereceu uma performance realizada antes da pandemia e demonstra estar preparada para o grande público. Ótima execução e produção;
[PI, 1:44:59]Thrashcore influenciado por nomes como Suicidal Tendencies, Municipal Waste, Biohazard, Hatebreed, Ratos de Porão, Surra, Like a Texas Murder e Test. Apesar de a gravação não ser 100% boa, percebe-se que a banda tem um potencial enorme para crescer;
[PE, 1:55:25] Sem palavras para descrever o som e a energia desta performance. Os caras estão prontos pra uma carreira internacional. Com riffs elaborados e uma bateria extremamente técnica, a banda executa um som extremamente agressivo e contundente. Performance de alto nível.
[SP, 2:13:27] Power trio com forte presença feminina. Música carregada de peso e força com influências de Sodom e Sepultura (antigos). A performance aqui oferecida é algo do tipo “simplesmente arrasadora”;
[CE, 2:25:23] A banda ainda está um tanto crua, mas o Heavy / Thrash Metal aqui mostrado é muito empolgante que deve gerar frutos muito em breve. Louvável a iniciativa da banda em produzir algo especial para o festival;
[SP, 2:34:37] Pra quem gosta de brutalidade e de técnica, aqui está um exemplo de profissionalismo. A banda está pronta para a carreira internacional, isso fica claro pela qualidade do material ora apresentado. Excelente performance;
[CE, 2:47:57]Death Metal brutal, técnico e preservo de uma forma que poucas bandas conseguem ser. A maior revelação do estilo no estado e uma grande promessa para o mundo. Performance ímpar e destaque absoluto nesse primeiro dia de festival;
[CE, 2:55:39] Energia e velocidade adicionada de letras de protesto e sobre situações cômicas do dia a dia. Nesta ocasião a banda nos oferece uma performance de antes da pandemia e, com ela, mostram que são uma autêntica banda punk rock!
[CE, 3:03:19]Metalcore com o peso, a agressividade e a técnica característica das grandes bandas. Aqui, a banda executa com maestria e, direto do estúdio, uma de suas peças de mais apelo junto ao público. Excelente performance;
[SP, 3:08:45] Banda me conquistou imediatamente pela consciência social e pela abordagem dos temas trabalhados nos disco AntiAutoAjuda. Depois, arrematou meu coração pelo Crustcore brutal feito com inteligência acima da média e principalmente pela simplicidade dos músicos. Melhor nome pra fechar bem o primeiro dia de Forcaos Online.
Desde que o Loudness surgiu mundialmente na década de 80, os headbangers de todas as partes do mundo sempre ficaram muito atentos ao som pesado proveniente da Terra do Sol Nascente. Inúmeras bandas de qualidade com estilos variados surgiram desde então e entre elas uma que a pouco tempo completou seu décimo ano de carreira, o “Mary’s Blood“.
Em seus cinco álbuns a banda se mostrou talentosa e eclética, mas sem abrir do peso e velocidade característicos do power metal em suas composições e uma de principais razões é por que conta em sua line up com uma guitarrista muito acima da média. Saki possui um arsenal de rifes, muita criatividade, é extremamente veloz e carismática. Além do “Mary’s Blood”, a guitarrista faz parte de outra banda promissora, o “Nemophila” e desenvolve outros projetos solos.
Nessa entrevista, que Saki gentilmente concedeu ao Headbangers Brasil, falamos sobre vários assuntos e principalmente sobre o mais novo trabalho do “Mary’s Blood“, um álbum de covers só com temas de animes famosos chamado de “Re>Animator“, que será lançado dia 26 de agosto próximo, mas que você já teve a oportunidade de conferir o review do CD essa semana em nosso site. Se você era (ou é) fã da saga dos ‘Cavaleiros do Zodíaco’ não pode deixar de ouvir esse álbum de forma alguma.
Antes de tudo, muito obrigado por conversar com a Headbangers Brasil, Saki-san. É uma honra para todos nós.
Headbangers Brasil: Falando sobre o começo, Saki-san, como foi seu primeiro contato com a música e quando você decidiu que queria ser guitarrista em uma banda de heavy metal?
Saki: Meu pai adora música dos anos 80, então, desde criança, ouvia música dos anos 80 e Hard Rock/Heavy Metal tão naturalmente e os amava muito. Quando eu estava no colegial, vi um show de “Black Mass” do SEIKIMA-II (banda japonesa de heavy metal), então decidi tocar guitarra.
HB: O novo álbum do “Mary’s Blood” já tem data marcada para ser lançado (próximo dia 26 de agosto). Como surgiu a ideia de lançar este álbum de covers inspiradas em temas de anime?
Saki: Conversamos sobre essa ideia com a nossa gravadora. Todas nós da banda amamos muito animes, por isso escolhemos nossos favoritos.
HB: Normalmente, um álbum de covers abre portas diferentes, alcançando um novo público. Você acredita que o álbum “Re> Animator” apresentará o “Mary’s Blood” para novos fãs? Como cada membro da banda ganhou um desenhe como personagens de anime, podemos esperar mangás sobre o “Mary’s Blood” a partir de agora?
Saki: Nós esperamos que sim! Nós fizemos esses covers sobre a nova era dos temas de anime, então é claro que esperamos que os fãs de anime se divirtam com este álbum. Mangá? Nunca! (muitos risos).
HB: Desde “Countdown to Evolution” até “Confessions”, vocês lançaram álbuns cada vez mais sólidos e complexos. Como você avalia a evolução musical da banda durante esses anos?
Saki: Trabalhamos com diferentes tipos de produtores em cada álbum, então acreditamos que aprendemos muitos estilos e tentamos diferentes tipos de músicas. Pessoalmente, eu ainda quero fazer o álbum mais pesado possível com a nossa experiência desses anos.
HB: Como funciona o processo de composição no “Mary’s Blood”, Saki-san? Cada membro traz suas ideias individualmente ou é um processo mais coletivo?
Saki: Cada uma de nós traz seus próprios materiais e escolhemos juntas as partes que serão usadas.
HB: Você é uma guitarrista fantástica, muito rápida, extremamente técnica e criativa. De onde vem tanta inspiração? E quais são suas principais influências?
Saki: Muito obrigada. Eu sou um grande fã do SEIKIMA-II e do QUEEN já faz muito tempo. Suas músicas são sempre minha inspiração. E adoro passar um tempo conversando com outros músicos através de algum serviço on-line e compartilhar nossas próprias músicas favoritas. 🙂
HB: Particularmente acho ótimo que você tenha uma guitarrista como a Yashiro nos shows ao vivo como apoio, pois isso lhe dá mais liberdade nos solos – além, claro, de tornar o som mais pesado. Mas, por que ela não é parte integrante do “Mary’s Blood”?
Saki: No Japão, ingressar em uma banda tem um significado muito mais importante do que em outros países. Ela tem diversos trabalhos diferentes além do “Mary’s Blood”. Para ela se juntar a uma banda em particular, teria que interromper outros trabalhos por isso. Portanto, por essa razão, não pedimos que ela se junte a nós em definitivo.
HB: Vocês estiveram recentemente se apresentando no Reino Unido. Como foi a reação do público europeu? Podemos ter o sonho de um dia o “Mary’s Blood” se apresentar aqui no Brasil? Temos uma colônia japonesa expressiva aqui em São Paulo, você sabia?
Saki: Eles foram realmente ótimos! Estamos muito satisfeitas com o nosso primeiro concerto em Londres. Queremos fazer mais shows na Europa e também no Brasil. Mas não sabemos muito sobre promotores do seu país! Por favor, apresente-nos alguém. E claro que sabemos sobre a colônia japonesa em São Paulo. 🙂
HB: Olhando de fora, a impressão que passa é que você, Eye, Rio e Mari estão sempre muito próximas. É essa amizade que torna o “Mary’s Blood” tão especial em meio a tantas bandas?
Saki: Sim. 🙂 Podemos conversar sobre qualquer assunto há tanto tempo. E continuamos juntas como uma banda já faz oito anos, com as mesmas integrantes!
HB: Não apenas o mundo da música, mas praticamente tudo parou em 2020, por causa dos problemas que o ‘corona virus’ nos trouxe. Saki-san, como você reagiu a esse problema de pandemia? Conte-nos como foram as coisas durante o período mais crítico e como estão as coisas hoje na cidade onde você mora.
Saki: Tantas coisas mudaram e muito! Parei com os shows ao vivo, mas, ao mesmo tempo, comecei a usar o serviço de streaming. Eu queria saber como me adaptar para me conectar e tocar música em um ‘lock down’ (o Japão não teve uma lei para fazer o mesmo tipo de bloqueio que fez a Europa, então fizemos um “autocontrole”, ficando em casa). Como você sabe, o Japão é muito rigoroso no que se refere à limpeza, então há garrafas de álcool gel por toda parte.
HB: E o futuro da Saki-san? Você acha que demorará muito tempo para os shows voltarem a ser como estávamos acostumados? Quais são os planos do “Mary’s Blood” para os próximos meses?
Saki: Eu acho que vai levar muito tempo para tudo voltar ao estilo de shows de antes dessa pandemia. E sim, nós temos planos de fazer uma série do tipo ‘streaming lives’ por algumas vezes neste ainda nesse ano.
BH: Queremos agradecer pela sua atenção Saki-san, muito obrigado. Tenho certeza que seus fãs aqui no Brasil estão ansiosos por notícias suas assim como do “Mary’s Blood”. Sinta-se livre para deixar suas mensagens para os fãs e divulgar os endereços para que eles possam ficar conectados em todas as notícias sobre você e “Mary’s Blood”.
Saki: De modo nenhum! Obrigada pela entrevista. Esperamos visitar o Brasil e nos apresentar um dia! Por favor, confira nosso novo álbum “Re>Animator” e nossos trabalhos solo também. Minha outra banda, o NEMOPHILA, em breve lançará um novo single e o meu projeto com Frederic Leclercq (Kreator) lançará o álbum ainda este ano. Por favor, não hesitem em entrar em contato conosco pelo nosso Twitter ou no Instagram!
[Fotos: Mídias sociais de Saki e Mary’s Blood. and Paul Pablo Anderson
(@sawasawasawa68)]