De 1988 até meados dos anos 2000, o cenário White Metal experimentou um boom semelhante (guardadas as devidas proporções) ao que o hair metal fez com Los Angeles nos anos 80: bandas de garagem em cada esquina, eventos de rock pesado dentro dos templos, shows faraônicos que em estrutura nada ficavam devendo aos lendários festivais como Monsters of Rock ou Rock In Rio e muitas bandas internacionais aportando por aqui.
Foi em meio a esse cenário, na cidade de Niterói em 1988 que surgiu uma banda que se tornaria uma das mais aclamadas do público gospel brasileiro, o Fruto Sagrado. Formado por amigos que congregavam na mesma igreja (a Presbiteriana Betânia de Niterói), o baixista e vocalista Marcão, o guitarrista e tecladista Bênlio Bussinguer, o baterista Flávio Amorim e o tecladista Marcos Valério uniram forças para propagar o cristianismo por meio da linguagem do rock n’ roll.

Pouco antes de entrar em estúdio pela primeira vez, em 1991, a banda dispensou Marcos Valério e chamou o guitarrista Wagner Junior (Juninho) para ingressar no projeto como músico convidado, o que fez com que Bênlio ficasse a cargo dos teclados e da guitarra base. O primeiro disco, autointitulado, trazia a canção Pra Acordar, cujo clipe foi produzido por Rogério “Papinha”, conhecido por produzir clipes de diversos artistas tais como Titãs, Edson Cordeiro e Guilherme Arantes, além de produzir diversas novelas. Com músicas compostas em sua maioria por Bênlio e Marcão, o álbum teve uma recepção favorável, a ponto de a banda ser chamada a participar do Programa Legal, sendo entrevistada por Regina Casé.

Após romper com a gravadora Bom Pastor, a banda assinou com a Gospel Records, responsável direta pelo sucesso do estilo na época, já que possuía bandas como Oficina G3, Resgate, Katsbarnéa e Rebanhão em seu cast. Foi em meio a essa efervescência gospel que em 1993 o Fruto Sagrado lançou um trabalho (o primeiro entre tantos deles) que revolucionaria a música gospel: o disco intitulado Na Contramão Do Sistema. Com sonoridade crua e agressiva e letras na mesma vibe, o disco caiu como uma bomba no cenário tanto por sua sonoridade (um misto de hard rock, punk e heavy metal), quanto por suas letras polêmicas versando sobre política, corrupção, hipocrisia, pecados, tudo de uma maneira tão incisiva que causou estranheza aos ouvidos mais sensíveis. Na Contramão, faixa que retrata um testemunho de vida de um ex drogado fez bastante sucesso, sendo tocada até hoje em shows. Além dela, faixas como Exceção à Regra, Brasil e Jimmy também obtiveram boa repercussão.

A banda ficaria ainda mais polêmica com o lançamento de O Que A Gente Faz Fala Muito Mais Do Que Só Falar em 1995. A produção fraca (os agudos dos instrumentos praticamente não existem nesse disco) resultou numa sonoridade dark e lamacenta (chegando a lembrar Born Again, do Black Sabbath), o que contribuiu para que o disco se tornasse ainda mais pesado.

Se o som que chegava aos ouvidos era denso e cru, as letras eram igualmente cortantes. Pra se ter uma idéia, a música A Missão falava sobre um membro da JOCUM (Jovens Com Uma Missão), uma organização interdenominacional que realizava missões evangelísticas em comunidades dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro. Podridown, com seu riff impiedoso e beirando o Thrash Metal, inicia com o discurso de renúncia do ex presidente Fernando Collor de Mello. Frases como “a grande maioria, quase todos eles são marionetes do diabo” ou “amorais inescrupulosos, viciados pelo poder…”, eram cuspidas com tanta revolta pelos alto falantes que dificilmente alguém diria se tratar de uma banda gospel.
Havia espaço para baladas como a tocante Amor De Deus (um momento singelo em meio a fúria presente em todo o álbum) e as românticas Nosso Erro e Presente, mas no geral, o disco focava em pedradas como as citadas anteriormente. Vale a menção da música Bomba Relógio, que aborda por meio de um instrumental pesadíssimo, a angústia de alguém que está prestes a receber o resultado de um exame de HIV. Na letra Marcão canta “… será que é preciso um milagre, pra não deixar morrer a esperança de tantos e tantos e tantos, basta o amor de Deus pra tornar possível o impossível…”.
Apesar de tantos predicados, o disco foi de difícil audição para o público em geral, por conta de sua sonoridade Thrash/Heavy/Prog. Mesmo assim, em 2018, o álbum foi considerado o 49ª melhor disco da década de 1990.
Quando bandas que fizeram parte do movimento White metal no Brasil na década anterior buscavam suavizar/modernizar seu som (o Resgate e o Oficina G3 também haviam lançado seus álbuns acústicos, por exemplo), o Fruto lançou mais uma pedrada.
Flertando com o Nu Metal, mas sem abrir mão de boas melodias, solos, riffs viscerais e letras incisivas, O Segredo, lançado em 2001,contou com uma produção mais cristalina, o que colaborou para que os arranjos ficassem ainda mais atrativos.Em 2001, após a virada do milênio e um acústico gravado em comemoração aos 10 anos de existência em 1999, a banda ressurgiu com o disco O Segredo. As críticas aos mercenários da fé ganharam mais um capítulo com The Time Is Over, que apesar do título traz Marcão em inglês vociferando “… seu tempo acabou, pediram a sua alma e essa noite eu tô aqui só pra te levar…”. Pra quem não sabe a letra é um relato de um anjo da morte que veio buscar um pastor ladrão, basicamente. Músicas como No Porão Da Alma mostram a batalha interior para se levar uma vida correta com Deus, citando o exemplo bíblico do apóstolo Paulo lutando pra dominar seus desejos e por vezes fracassando. Críticas políticas como em Forrock, e participações especiais como dos vocalistas PG (Oficina G3, na música O Novo Mandamento) e Marcus Salles (Quatro Por Um em A Resposta) são outros pontos positivos no disco.

2 anos mais tarde, a banda entrou novamente em estúdio para gravar o disco O Que Na Verdade Somos. Um pouco mais intimista, sem abrir mão do peso, foi o primeiro disco a ser gravado pela famosa gravadora Mk Music. A Sanguessuga, faixa de abertura, fala sobre a sede humana que nunca se sacia, não importa o que se faça. O Sangue De Abel traz a participação do estupendo violonista João Alexandre. Apesar da boa recepção, crises internas já desgastavam a relação entre os integrantes. As tensões aumentaram quando em meio à turnê de divulgação, Bênlio Bussinguer foi colocado de “férias”, o que culminou num processo movido (e perdido) por Marcão depois que Bênlio deixou a banda. Polêmicas a parte, o disco foi considerado o 5º melhor da década de 2000 pela revista SuperGospel. O disco ainda contém uma regravação da música Involução, presente no disco Na Contramão Do Sistema de 1993.

O Fruto Sagrado é de longe a banda mais polêmica do meio gospel, e a prova disso é que todos os discos tiveram uma ou mais faixas que causaram desconforto em alguém. Intitulado Distorção, o disco lançado em 2005 é considerado o mais pesado do grupo e contém letras que funcionam como uma espécie de resposta às polêmicas do disco anterior e problemas com os integrantes.

A música O Preço, por exemplo, é um recado direto a Bênlio Bussinguer. Frases como “… não há ninguém capaz de saber, até que ponto o coração é traidor, mas se rolar arrependimento rola perdão, mas se não rola a forca é o preço da traição…” dita no fim da canção, ou ainda seu início com “… A história não é feita só com sangue de heróis Não é raro encontrar um Judas entre nós Não estou surpreso porque fui traído Ontem o cara era amigo, hoje é algoz…” deixam bem explícito do que se trata.
A abertura com a pesadíssima Quase, cuja letra é uma crítica ácida à mediocridade e a falta de compromisso, a apocalíptica Vai Acabar e a dolorida Superman são alguns dos pontos altos do disco mais bem produzido da banda. Apesar disso, alguns sites disseram que o disco soava um tanto desconexo com as mensagens cristãs esperadas pelos fãs da banda.
Em 2007, o vocalista Marcão deixou a banda para dedicar-se ao ministério pastoral em sua igreja. Por conta disso, em 2009 a banda recrutou o vocalista Vanjor e gravou o disco 20 Anos no ano seguinte, que consistia em 2 canções inéditas e 8 canções da banda regravadas com Vanjor nos vocais. Em 2012 a banda decidiu inovar e fazer um trabalho que aproximasse os fãs e a banda. Sendo assim, o trabalho, intitulado Universo Particular, foi idealizado para ser um álbum apresentado como um episódio e ao longo do ano 6 canções foram lançadas como se fossem a primeira temporada. Cada “episódio” tratava-se de um vídeo com comentário dos integrantes seguido da música que dava nome ao “episódio”, além de disponibilizarem links para o download das canções em mp3 e cifras das mesmas. O último episódio, intitulado Cassino, foi lançado um curta metragem com 3 histórias envolvendo a banda, incluindo o nascimento do filho de um dos integrantes.

A banda hoje conta com o retorno de Marcão aos vocais, Bene Maldonado nas guitarras, Sylas Jr na bateria e o baixista Francisco Falcon atua como músico convidado. Em 2015 a banda ainda lançou o single Fé Canibal e segue na ativa fazendo shows em território nacional.

O Som…
Como dito anteriormente, o Fruto Sagrado não se prende a um estilo específico. A estética visual remete a bandas como Charlie Brown Jr, Tihuana e Tianastácia. Em termos de sonoridade, porém, há canções que são puro metal ( Podridown, Bomba Relógio, Quase), outras flertam com o hard oitentista de bandas como Ratt e Mötley Crüe (Na Contramão, O Segredo, A Sanguessuga) e outras mais modernas pensem para o nu metal (No Porão Da Alma, A Mensagem, entre outras).
O maior destaque está nas letras diretas e sem filtro dos caras, com espantosa sinceridade, ainda mais por se tratar de uma banda gospel. Não fica devendo nada às bandas mais pesadas de heavy metal como Halford, Metallica e afins. Nem mesmo a produção ruim dos primeiros discos compromete a qualidade dessa banda, e ao deixar o preconceito de lado você se verá representado por diversas críticas contidas em suas letras.
Discografia:
- 1991 – Fruto Sagrado
- 1993 – Na Contramão do Sistema
- 1995 – O Que a Gente Faz Fala Muito Mais Do Que Só Falar
- 2001 – O Segredo
- 2003 – O Que Na Verdade Somos
- 2005 – Distorção
- 2010 – 20 Anos
- 2012 – Universo Particular
- 2015 – Fé Canibal (Single)
